Assim que acabou a final ontem fui ao computador para colocar a foto de uma Romi Isetta no ar. Frustração. A internet da NET não funcionava – e quantas vezes não têm funcionado recentemente.
Esse negócio de torcer realmente não é para mim. Todos sabem o quanto venho esperando pelo primeiro título de GS do MalaMurray. Cansei de ler por aqui os sofasistas descendo a lenha nele, afirmando que era um tenista menor, com um jogo sonolento. Sei. Mesmo assim, ontem houve alguns momentos que me peguei torcendo pelo Djoko. Poucos.
Desde que Roger Federer ganhou seu 2º Wimbledon em 2004, os títulos de GS, e foram 33 deles, ficaram nas mãos de somente três tenistas – Fed, Rafa e Djoko – com a honrosa exceção de Delpo em NY 2009 e Safin no AO 05. E, não tão coincidentemente, este ano foi o primeiro, desde 2003, que tivemos quatro diferentes tenistas vencendo os quatro GS. Aleluia!
Uma única semana separa o nascimento de Murray e Djokovic e vejam a diferença do que um conquistou e o outro. É uma questão de experiência, ou experiências, boas e ruins. O Murray teve experiências piores, imagino. Afinal, se Djoko conseguiu sair da Sérvia antes que as balas começassem a passar por perto de sua cabeça, Murray viu algumas estourando as cabeças de seus colegas de classe.
E a velha história do ovo e da galinha, o que vem antes? Murray não vencia um GS porque não estava preparado, mental e tecnicamente, ou porque não vencia não ficava pronto?
Esse hímen mental um dia tem que ser rompido para se atingir o clímax tenistico. Como cada um rompe essa barreira é uma história aparte. Murray, dava para ver pela sua criticada postura, não tinha lá muita confiança e autoestima. Isso ele deixou claro, mais de uma vez, na sua entrevista pós-título. Ele sempre duvidava ser capaz de vencer um GS. Até mesmo ontem duvidou.
Quando acabou o quarto set, as piores sombras devem ter invadido seu coração. Achou que era uma boa hora para ir fazer um pipi ou algo mais, nos vestiários. Diz que aproveitou para pensar no que havia mudado nos dois últimos sets para mudar novamente.
Dois momentos foram determinantes na partida. O tie-break do primeiro set, que Murray levou após deixar escapar umas seis oportunidades, momento que deve ter sido o mais angustiante da partida para ele. Ao vencer o TB, sentiu-se o rei da cocada preta e jogou o seu melhor tênis no 2º set. Mas, ainda era MalaMurray – deixou o outro igualar.
Não sei, porque ele não dividiu conosco, o que pensou enquanto olhava o fundo do urinol. Mas o segundo momento determinante aconteceu logo em seguida. Se no primeiro, foi por sua obra e graça que se deu bem, no segundo, foi pela bobeada do adversário, e uma mãozinha da sorte, que lhe concedeu um “net” em momento crítico no 1º game. Novak perder o serviço de cara, sabendo que o outro rastejava pelos últimos anéis do inferno após perder uma vantagem que o narrador da ESPN jurava ser irreversível, foi uma bobeira digna para se perder uma final. Perder dois saque seguidos então foi coisa para se auto flagelar com a convicção de um Opus Dei.
Novak ainda tentou reverter sua sorte dignamente no 2×3, quanto teve bola para quebrar de volta, o que teria mudado o jogo novamente, e não conseguiu, para em seguida perder seu saque. Não tão dignamente no 2×5, quando foi acometido por uma contusão não esclarecida, e por conta disso pediu um time out na hora do oponente sacar pelo título, algo que não caiu tão bem com o público que o vaiou sem piedade.
Enquanto isso Murray ficou dando voltinhas no fundo da quadra rezando ave marias e padre nossos para afugentar os fantasmas. Ele confessa que só pensava onde iria sacar o 1º saque. Escolheu um saque seguro e aberto, sem nenhuma mostarda ou imaginação, jogaram um ponto sem riscos, até Djoko ter a brilhante ideia de o atrair à rede com uma curta e tentar um lob contra o vento que Murray matou de voleio de revés alto. A partir daí, alea jacta est.
Foi um jogasso, digno de uma final, pelos quesitos emoção, entrega, variações táticas, luta, pujança física. Ficou devendo na parte técnica, unicamente pelas condições adversas de vento incessante – que martírio é jogar naquele cenário; é tudo contra a ideia original do tênis de ser um esporte de acuidade. Um lado da quadra se jogava a favor do vento, enquanto que o outro contra – fora as mudanças caóticas para as laterais. Aquele estádio é um túnel de vento, um dos piores, se não o pior deles todos, em vários quesitos. Os tenistas ainda conseguiram fazer dessa situação babélica algo inesquecível. A diferença foi que Murray tem mais arsenal para as circunstâncias. Novak era uma negação quando tinha o vento nas suas costas e seu slice de esquerda era de uma feiura impar. Lembrando, Novak jogou muito tênis até a final e, até então, se mostrara mais afiado do que Murray.
E assim MalaMurray tirou o cruzcredo das costas, o que, imagino, o deixará em condições de igualdade quando enfrentar seus grandes adversários nos grandes momentos daqui para frente. Tênis faz tempo que ele tem para tal. Não tinha o emocional afinado, que era o diferencial dos outros três, sobre ele e sobre os outros. Agora sim, infelizmente, imagino, por um curto espaço de tempo, teremos quatro tenistas de primeiríssima linha lutando por títulos ao mesmo tempo. Há que se agradecer aos céus.
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Foi-se o tempo da Romi. Agora vai precisar de um trem para os fãs do escocês.