É duro acordar 6h da manhã. Na época que fazia os comentários na TV acordava antes das 5h. No caminho, via aquelas pessoas no ponto do ônibus ou acelerando os passos para o trabalho e me invadia um sentimento estranho na alma assistir aquelas pessoas cumprindo suas tarefas cotidianas. Sabia que eu tinha que durar duas semanas, e ainda estava de carro, enquanto elas o fazem há anos e anos por vir, para chegar ao fim do mês e a coisa toda mal dar para pagar as contas.
Agora eu não tenho que acordar o que é diferente de acordar por opção. Ontem à noite cheguei de viagem, ficamos conversando em família até tarde, sempre um bom programa, mesmo sabendo do horário do jogo. Federer x Murray em GS é jogo imperdível e, como já escrevi antes, aproveitem porque durará pouco. Quando minha mulher começou a se mexer de manhã eu estava no meio de um sonho estranhíssimo, uma redundância, porém algo extremamente tranquilo e prazeroso, o que sempre me faz relutar em voltar a este mundo.
Os primeiros sets foram “assistidos” com um olho na TV e outro no mundo paralelo. Mais neste do que naquele. Os comentários da Patricia me traziam de volta quando necessário e um sexto sentido desenvolvido me acordava para os pontos importantes. Assisti todo o TB do 2º set, crucial, e no 3º já estava alegrinho. No quarto estava comentando mais do que o Meligeni, para alegria da Patricia.
O quarto foi o set. De tudo um pouco. Muito de bom e pouco de ruim. É uma beleza assistir tênis nessa qualidade, com intensidade de drama e comprometimento. Especialmente drama.
É raro ver os cachorões se estranhando em quadra como aconteceu hoje. Geralmente o respeito fala mais alto ou alguém acaba engolindo em seco e pronto. Hoje na hora do showdown alguém piscou e esse alguém, surpreendentemente, foi o Federer.
Como já disse eu pisquei várias vezes, mas duvido que a coisa começou antes do finzinho do 4º set, ápice do drama da partida de hoje. Começou com a juíza de linha de fundo engolindo sua própria chamada. Chamou pela metade, mas chamou. Aliás, pensando bem começou antes. Começou no Murray sacando 5×4 no 4º set, primeiro ponto. O escocês joga a bola para sacar e Federer pede para parar. Argentinada? Sei lá, podia ter algum gaiato lá atrás. Mas começou.
Voltando à juíza que cantou pela metade. O Murray reclama, o juiz de cadeira deve ter dado overuled, não sei porque os narradores continuaram falando, o Murray reclama mais e o Federer se aproxima para acompanhar. O juizão fala para o Murray que se quiser desafie, o que não faz sentido, porque se a juíza de linha cantou quem teria que desafiar era o Federer, a não ser houve mesmo o overule. O escocês desafia e descobre que pegou linha. Pouco antes, enquanto Murray estava ruminando o Federer retruca para o juiz – e se foi boa, vai repetir? Pressão. O juizão diz que foi um late call e não repetirá o ponto. Federer se afasta, sabe que a bomba vai estourar no colo do outro, como de fato estoura. Murray fica bravo, reclama, perde o game e segue reclamando no intervalo, mas não entendemos nada do que diz, pois os narradores continuam falando em cima. No final do intervalo, Federer, surpreendentemente ( e atenção) decide que também tem algo a dizer (provavelmente reclamando do Murray reclamando). Mais uma vez não ouvimos.
Game seguinte, Murray sacando em 5×6. Federer ataca vai à rede e o escocês lhe mete uma passada maravilhosa – a câmera nele. Claramente ele reage, incrédulo e irado, a algo que o suíço lhe grita. A adrenalina está no auge, o drama intenso e os fuck you voam pela Rod Laver Arena.
Federer vence o TB e jogo vai para o quinto. E aí veio o mais estranho que, suspeito, tenha algo a ver com o antes narrado. No intervalo Federer escolheu sair da quadra, o que, ajudou Murray a se recompor – será que o suíço penso nisso? No 1º game, Andy no saque, e ainda viajando, literalmente escapa de ser quebrado e ver o jogo ir para a cal, sabendo que no fundo continua sendo Andy Murray. E aí então a grande surpresa.
Federer vai para o saque e joga um game horrível, após tanta luta no quaro, sendo quebrado e dando a confiança para o outro sacar como um leão e abrir um 3×0 que provou ser irrecuperável. Antes, um detalhe. No 2º game, quando o suíço foi quebrado, um ponto marcante. Federer na rede e dá uma bolinha curta e convidativa. Murray vem na corrida e a bate de cima da linha de saque. Não escolhe ir na paralela ou na cruzada; vai mesmo no corpo no adversário – se pega nocauteia. O assunto ficara feio e pessoal. A partir desse momento Roger Federer murcha não jogou mais nada.
Nas entrevistas, quando perguntados, os dois desconversaram, dizendo que essas coisas acontecem, que o momento era tenso, coisas foram ditas e esquecidas após o jogo. Tenho sérias duvidas se Murray ficaria calado se tivesse perdido. Se por alguns momentos os rapazes perderam a elegância em quadra, fora dela souberam esgrimar os jornalistas e deixar a ênfase na excelência do tênis apresentado. Isso, é óbvio, vai sem dizer, mas, como em uma partida dessas é um ou dois detalhes que fazem a balança pender para um lado, aqui foi a versão oculta do drama hoje.

