Tenho visto por aqui alguns comentários rotulando o Torneio de Wimbledon de “ruim”, imagino que vindo de torcedores e por conta da ausência de Rafael Nadal. A mim parece muito mais dor de cotovelo ou algo pior. Se uma reedição entre Federer e Nadal seria muito bem recebida, o tênis atual é maior do que a rivalidade entre os dois. E o Torneio de Wimbledon, com 132 anos de história, é maior do que qualquer tenista – aí morando seu charme, tradição e riqueza. Ignorar isso é ignorar o tênis.
Se alguns anos atrás, o tênis praticado por alguns tenistas, pela força das circunstâncias de então, foram ruins para o tênis, e até por isso as circunstâncias foram modificadas, os comentários na linha dos citados não agregam em nada a um blog de fãs do tênis.
O torneio é na grama, o que é extremamente peculiar e, muito por isso, difícil, para os envolvidos, no entanto, essa mesma peculiaridade oferece uma série de elementos que diferenciam o evento. Como tudo na vida, é necessário um tanto de conhecimento, que abrange desde o conhecimento da história e o envolvimento com o esporte, até a das circunstâncias que rodeiam o torneio, para se apreciar com o bom gosto inerente dos amantes do tênis. Esperando iluminar um pouco mais o assunto, reproduzo, abaixo, uma parte de uma coluna minha de alguns anos atrás, já que minhas escritas e, com certeza, o Torneio de Wimbledon, não se iniciaram na semana passada. Divirtam-se.

“O dramaturgo irlandês George Bernard Shaw tinha uma visão do mundo, e das pessoas, no mínimo peculiar. O cinismo e a irreverência, aliados a uma mente ágil e uma pena ferina, produziram frases de efeito e, muitas vezes, uma verdade oblíqua. Em “Máximas para Revolucionários” escreveu: “O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, todo progresso depende do homem insensato”.
No final dos anos setenta e começo dos oitenta, quando a maioria – incluindo aí os tenistas – das pessoas do mundo do tênis pressionava as cabeças brancas que mandavam no The All England Lawn Tennis and Croquet Club a trocarem o exótico piso de grama por qualquer outra coisa, foram, todas elas, mandadas catarem coquinhos em outras paragens. Os “gentlemen” ingleses assimilaram o raciocínio do escritor, já que boa parte deles foi contemporânea do Prêmio Nobel irlandês que morreu de velho em 1950. Na época foram malhados por todas as partes e acusados de retrógrados – uma definição que a maioria deles deve abraçar de bom grado. Hoje, eles, o clube dos velhinhos, tem o evento mais famoso e diferenciado do planeta tênis.
Se o tênis jogado na grama é o mais difícil de jogar, com certeza é o que oferece o prazer estético mais recompensador, especialmente para quem acompanha “in loco”. A maravilhosa grama verde é mantida como em um “green” de golfe e com um carinho maior do que boa parte dos seres humanos recebe em toda a sua vida. É nesse tapete natural, escorregadio quando úmido e esburacado quando maltratado pelos inquietos pés dos tenistas, que estes têm que se virar para oferecer um bom espetáculo. O estilo do jogo é para “connaisseurs”.
Desde de que Bjorn Borg entrar pela primeira vez em uma quadra de grama – e com seu pragmatismo sueco aceitar o fato que sacando e voleando ele não ganharia do pegador de bola de sua quadra, e suas eventuais cinco vitórias seguidas em Wimbledon – que o tradicional estilo de saque e rede vem sendo contestado. Depois que Pete Sampras, o maior dos sacadores-voleadores, descobriu que existe mais na vida do que bater em bolinha de tênis, o estilo quase que saiu de moda. A esmagadora maioria segue a cartilha das boas devoluções, velocidade, movimentos compactos, subidas esporádicas à rede com pitadas de voleios razoáveis e muito de fechar os olhos e enfiar a mão na bola como se não houvesse amanhã. Tudo isso com a premissa de que é necessário, senão uma obrigação, sacar forte para complicar a vida adversária. Nem que fosse só por essa razão, a presença de tenistas como Roger Federer segue sendo um colírio para os olhos, assim como a de tenista que insistem , apesar do bom senso afirmar que não, em fazer das idas à rede uma opção.”
