Esta é a semana mais interessante da Copa Davis, que é a competição mais interessante do tênis. Não vou explicar a segunda colocação, porque já a expliquei inúmeras vezes – quem conhece tênis sabe do que falo, quem não conhece não vai entender mesmo.
É a semana mais interessante da competição porque se joga as semifinais e os “play-offs”. Ou seja, por um lado se decide os finalistas, por outro quem fica no filet-mignon da competição e quem vai amargar uma carne de segunda por mais uma temporada.
Para o Brasil foi, por um lado, mais uma data triste. Por outro, nem tanto. Poderiamos ter subido e não conseguimos. Mas dentro da derrota fizemos uma boa figura, o que tem sempre muito valor.
Em Copa Davis o que importa para o tenista que entra em quadra é ganhar. O resto é resto. Para o analista não é tão preto e branco; existem áreas cinzas. O Brasil ficou fora do Grupo Mundial. Mas, olhando de fora ou de dentro há outras miradas.
Nossos fracassos anteriores na hora da onça beber água não foram nada animadores. Dois deles, que me vêem à mente, de doer; Equador em casa e Índia lá fora. Duas babas que não deveriam ter escapado. Caso encerrado.
A derrota para a Rússia foi outra história. Não importa que a Rússia não é mais um poder mundial como era a poucas temporadas atrás. Jogavam em casa, em suas condições, o que é sempre uma vantagem, mesmo sendo naquele “cemitério” em Kazan – o pessoal de lá não parece dar muita bola para tênis. Ganhar nessas condições é sempre uma enorme dificuldade.
O técnico russo flertou com o perigo, seja lá qual era a razão dele. Alias, ficou a um único ponto de amargar uma séria derrota. Bellucci fez o trabalho dele no 1º dia, a dupla fez a dela no 2º dia – que prazer vem uma dupla afiada e bem jogada – e nossos dois singlistas fizeram o que podiam e mais um pouco no terceiro.
Hoje ninguém teve câimbras, passou mal, vacilou ou pensou na morte da bezerra. Todo fizeram seu trabalho como esperamos que façam. Nessas circuntâncias, vencer ou perder são consequência de entrar em quadra.
A partida que vai dar o que falar, por algum tempo, será a dos dois melhores de cada país. Thomaz Bellucci jogou, assim como no 1º dia, como esperamos que jogue nosso melhor tenista. Sem vacilos emocionais. Se existiram vacilos são parte do jogo. Com certeza, Thomas gostaria de jogar melhor inícios de sets; dois dos três sets que perdeu foram com seus serviços sendo quebrados no 1º game do set.
O terceiro set foi épico. Muito do que penso e sinto sobre Copa Davis esteve presente. Na parte emocional e mental Bellucci não nos decepcionou – pelo contrário. Superou nossas expectativas.
Dois comentários. Poderia ter feito o adversário jogar no 1º match-point. Um erro de devolução é tudo que o oponente pede nesse momento. No segundo MP não há criticas a se fazer. Só elogios à audácia do Youzhny que atacou sem perdão com sua direita na diagonal.
O segundo é que se eu fosse o técnico do Belo o faria assistir, algumas dezenas de vezes, até entrar em seu cérebro e subconsciente, o game onde quebrou o saque do russo no quinto set. Por que ele não joga sempre assim, ao invés de ser tão perdulário com os pontos? Se ele jogasse com essa estratégia em mente, o tempo todo, com o saque que tem, seria extremamente perigoso.
O pecado de Ricardo Mello foi começar tão mal a partida. Talvez ele não tenha se recuperado da derrota de Thomaz antes de entrar em quadra– algo que só foi, aparentemente, assimilado com o transcorrer da partida. A partida mostrou-se mais ganhável do que ele deve ter imaginado e do que o primeiro set mostrou. Como das outras vezes, Ricardo mostrou que tem um bom temperamento para a competição e que luta com seus limites.
A melhor notícia que sai dessa derrota é que os fãs de Thomaz Bellucci podem o encarar com outros olhos daqui para frente. Hoje ele foi o tenista que todos esperam. Aliou seu arsenal técnico a uma mentalidade e uma atitude condizente. Nenhuma séria crítica pode vir por aí.
Eu conversava, durante a partida, que a vitória daria uma enorme injeção de adrenalina na carreira de Bellucci. Não só pelas suas duas vitórias como pela conquista do time. Se não aconteceu, paciência. Thomaz ainda pode pegar tudo o que aconteceu e injetar uma tremenda dose de confiança em sua carreira. Hoje ele viu, assim como todos que quiserem ver, que ele pode ser muito mais tenista do que vem sendo e que os fãs têm visto. Após cinco horas de correria, em um cenário de extrema tensão, que não me venham mais falar que o rapaz não tem preparo físico. O que lhe falta, ou faltava, foi algo que hoje ele encontrou dentro de si próprio.
Em Kazan um novo Bellucci.