O assunto é polêmico e delicado, por isso vou passar por ele pisando em ovos e guardando minhas opiniões pessoais. É um novo ano e uma das minhas metas prioritárias é ficar cada dia mais zen, o que venho conseguindo com razoável e surpreendente sucesso, para minha extrema alegria.
O assunto em questão é mais velho do que andar para frente, tanto na humanidade como nos esportes, inclusive no tênis. Não vou fazer um histórico porque não tenho paciência e nem acho necessário.
Bastam duas ou três colocações.
Sempre existiram homossexuais no tênis feminino. Pelo menos desde os anos cinquenta, já que antes eu não estava aí para ver e nunca me interessei em fazer um levantamento, além de não ser um assunto que se comente com muita naturalidade.
É um fato que sempre existiram, fortemente, duas tendências nos vestiários. As heteros e as homossexuais. As sainhas e os calções. E não vamos misturar, como já berrava o Tim Maia. As duas conviviam, mas não tão bem como todos queria levar a crer.
Como acontecia até os anos noventa – ou seria mais tarde, ou mais cedo?? – o assunto era mantido no armário. Além disso, o homossexualismo, feminino e masculino, eram mais visíveis em nichos da sociedade, o que sempre foi curioso. Era só andar de avião para entender o que digo. Pois o tênis feminino, assim como muitos esportes, era um dos mais férteis desses nichos. O que sempre me deixou curioso quanto aquele raciocínio; a natureza as fazia homossexuais e coincidentemente tenistas? Ou seria o inverso, o que quebraria o raciocínio? Sei lá, e esse não é o tema.
O fato é que até pouco tempo o tênis tinha quase que tantas homossexuais quanto heteros no circuito feminino. Pelo menos dentro das quadras, porque nos bastidores e organização o numero era ainda maior.
Algumas admitiam outras não. Outras, talvez porque não tinham a mesma expressão e nem tanto a perder, faziam questão de escancarar. Uma das primeiras a admitir e escancarar foi Martina Navratilova, o que fez dela um ícone homossexual, dentro e fora das quadras. Antes dela Billie Jean King veio para o circuito ainda no armário, chegou a casar, mas logo derrubou a fachada e admitiu o homossexualismo. As duas se tornaram ícones e expressivos porta vozes, dos direitos femininos e dos direitos gays.
Interessante que as duas tiveram durante suas carreiras grandes rivais e contrapontos em quadra. Martina com Chris Evert, que era extremamente feminina, e Billie Jean com Margareth Court, que era hetero e abominava “essas coisas”. A diferença é que Evert sempre lidou bem com a escolha da amiga/adversária, ou assim parecia (quem viu o documentário sobre as duas na ESPN – muuuito bom!) e Court e King nunca se entenderam. E aí o assunto – continuam não se bicando, inclusive pela imprensa.
Billie Jean se tornou uma das maiores ativistas feministas dos EUA e do mundo. O complexo do US Open leva seu nome. Margaret se tornou uma pastora no interior da Austrália e o segundo estádio do Aberto da Austrália tem o seu nome.
Billie Jean foi um tremendo nome no tênis – tremam sofasistas que não conhecem sua história! Tem 129 títulos de simples (tremam Federer e Nadal e mais ainda as meninas que andam por aí) 12 de GS em simples e 27 em duplas!!
Margaret não ficou atrás, muito pelo contrário. Tem 192 títulos, mais do que Federer, Nadal, Djoko juntos, e podem colocar muitos outros na conta também. Desses, são 24 de simples em GS! Contando os de duplas em GS ela faturou um total de 62!!! Ou seja, a moça falava alto e, ao contrário do que muitos dizem, antes mesmo de Navratilova, ela foi uma tenista que investiu no físico, o que lhe deu um diferencial.
Em quadra, as duas rivais se enfrentaram sete vezes, com cinco vitórias da australiana – sendo cinco dos confrontos foram em finais de GS, com quatro vitórias de Court.
A encrenca entre elas começou em 1990 quando Court disse publicamente que tenistas gays e bissexuais como King e Navratilova estavam “arruinando o tênis”. Agora em Dezembro, Court se manifestou contra o casamento gay, que é um assunto atual, aqui e lá, mas não em todo o lugar. Disse algo na linha; “mudar a definição de casamento e tentar legitimar o que Deus chama de práticas sexuais abomináveis, revela a nossa ignorância para com os malefícios que veem quando a sociedade é forçada aceitar leis que violem a nossa natureza humana criada por Deus dentro do que é certo e errado.”
Navratilova a contestou em uma entrevista no Tennis Channel, nos EUA. “Me parece que as pessoas se desenvolveram, assim como a Bíblia. A miopia de Margaret é alarmante, assim como danosa para milhares de crianças vivendo em família de pais gays”. ( Não entendi bem a parte de que a Bíblia se desenvolveu – sempre achei que era um livro fechado). E esse negócio de levar a discussão para o campo pessoal é coisa de quem não tem argumentos para argumentar.
Billie Jean também se manifestou. “Já tentei falar com Margaret a respeito, mas dizer que ela é totalmente impermeável é dizer pouco.” Com categoria, tino político e ficando na veia da questão ela completou; “Temos que seguir comprometidos com a eliminação da homofobia porque todos devem ter os mesmos direitos, oportunidades e proteção”.
Diante dos rumores que haverá protestos na Quadra Margaret Court durante o Aberto da Austrália, por gays e simpatizantes locais, Court se manifestou mais uma vez esta semana, ao ser entrevistada sobre o assunto no New York Times. “Acho que é triste que as pessoas tenham entendido errado o que eu disse. Eu faço o meu posicionamento, bíblico e pessoal. É uma escolha. Eu não tenho nada contra as pessoas envolvidas, só contra suas escolhas, e sempre disse isso”. Talvez um tanto em cima do muro.
Para quem não viveu a época áurea das homossexuais, das quais o ultimo grande nome foi a elegante tenista francesa Amelie Mauresmo, a mudança veio, radicalmente, com o surgimento de Anna Kournikova, que mostrou e evidenciou que o tênis feminino tinha muito mais a ganhar com a imagem “feminina”, que é a que impera totalmente atualmente. Sem nenhuma vergonha as moças decidiram usar e abusar de suas sainhas. . Como cantava o poeta – “times, they are a changing”. Pelo menos ficou muito mais agradável de ver.



Saiotes, calções e uma feliz combinação de ambos…