Mais do que carisma.
Bill Tilden tinha, Don Budge não. Andre Agassi tinha, Pete Sampras não. Gustavo Kuerten tinha, Juan C. Ferrero não. Marat Safin tem, Davidenko não. Federer e Nadal têm.
Carisma – um dom divino com que alguns são agraciados, oferecendo o poder de seduzir e encantar as pessoas. Não deixa de ser subjetivo, mas é difícil um erro ao se avaliar quem tem e quem não tem. Quando o atleta tem, e o associa com resultados e uma personalidade vencedora, o resultado é ainda mais interessante e enriquecedor para o esporte.
Este post, obedecendo a alguns pedidos, é sobre um dos tenistas que mais agregou essa qualidade à de ser um campeão – o alemão Boris Becker.
Seus inúmeros feitos, dentro e fora das quadras, e resultados estão na internet e de fácil acesso. Como este blog não é de reprodução de notícias e sim de colocar uma cor, um sabor, nas histórias do tênis, desta vez não será diferente.
Para ninguém interromper a leitura, ofereço neste parágrafo o abc da carreira do alemão. Foi número 1 do mundo, venceu Wimbledon (3), a primeira aos 17 anos, o U.S Open, o Australian (2), o Masters (3) e a Copa Davis(2). Ganhou 49 títulos de simples e 15 de duplas. Faturou U$25 milhões só em prêmios e muito, muito mais, em contratos e patrocínios. Mudou a história do esporte na Alemanha e soube aproveitar, sob a supervisão de Ion Tiriac, o dono do Torneio de Madrid, a ânsia dos alemães por um herói.
São tantas as histórias de Becker que um livro seria mais apropriado do que um post. Focarei onde o Brasil também foi personagem.
Nos anos oitenta os organizadores do Torneio de Itaparica ofereceram U$200 mil para ele jogar, mas não aceitou dizendo que era muito longe. Foi obrigado a vir em 1992 para jogar a primeira rodada do Grupo Mundial – bons tempos! – no Rio de Janeiro.
Fez uma partidaça, uma das mais eletrizantes que assisti, contra Luiz Mattar no primeiro dia. Esteve com 1×2 em sets abaixo, 2×5 no quarto e cinco matche-points contra. Em todos eles mostrou coragem e a personalidade indo para a bola ganhadora – em três deles acertou a linha, o que diz maravilhas sobre seu espírito vencedor e sobre nossos juízes de linha que sequer pestanejaram. Venceu o 4º set no tie-break e ganhou o quinto set, na que tenho certeza foi a mais dura derrota da carreira de Mattar.
No dia seguinte jogou as duplas, com Eric Jelen, enfrentando Fernando Roese e Cassio Motta, que no ano anterior tinha sido seu parceiro na final do Aberto de Miami. Os brasileiros, uma de nossas melhores parcerias na Davis, venceram em três sets. No último dia Becker não jogou – a extenuante partida com Mattar, o calor e a derrota nas duplas acabaram com o alemão que deixou a batata quente na mão do gigante Zoecke, a quem Jaime Oncis bateu em 7/5 no quinto set. Falando de emoção!
Com nossa vitória, sobre um time que recém havia sido bi-campeão da Copa Davis e contra um dos mais carismáticos tenistas da história, o estádio de 8mil pessoas quase veio abaixo. Houve invasão da quadra e os tenistas foram carregados pelo público. Depois de conseguirmos escapar da massa fomos para nossos vestiários onde a euforia era grande mais contida.
Enquanto arrumávamos nossas coisas para voltar ao hotel os seguranças bateram na porta, àquela altura fechada para todos, insisto, todos. Na soleira, atrás do “armário” estava Boris Becker, que, apesar de estar no mesmo hotel que nós, fez questão de vir cumprimentar cada membro da equipe, dos tenistas ao massagista, pela vitória.
Às vezes, não contentes com o talento e o carisma, os deuses, em um ímpeto de generosidade, colocam também o caráter, que é, infelizmente, a mais velada das qualidades de um campeão.







