João Gilberto, Borg e inovações
Sendo assim, após repensar o assunto este fim de semana, decidi fazer uma tentativa temporária para ver como funciona. Em breve devo fazer algumas regras para ficar mais claro.
Este primeiro vai ser de surpresa, inclusive para o Comentarista. A escolha deste ficou por conta de dois quesitos que serão indispensáveis. O assunto deve ser pertinente a um post recente meu e deve também ter um padrão de qualidade. O Comentarista pode, ou não, concordar com minhas colocações, assim como eu não tenho que necessariamente concordar com a dele. Como é o caso em alguns pontos deste abaixo. Me reservo o direito de acrescentar, no final do texto, minhas colocações.
Além disso, e já fica valendo, o Comentarista para se qualificar deverá colocar um email válido e, após a validação, retornar certas informações. Outras regras podem ser divulgadas e adotadas.
Espero que vocês se divirtam, se motivem e acrescentem à idéia. Vamos ver como funciona.
Quem não conhece, sugiro procurar a versão estendida.
Esta fábula permite um sem-número de lições e interpretações. A que mais gosto, e talvez a mais central delas, é aquela que nos ensina a questionar as verdades que os outros nos estabelecem, e que nos permite, com isso, não apenas o desenvolvimento de um olhar crítico sobre as coisas em nossa volta, mas de um olhar pessoal, próprio, autóctone.
De fato, quantas vezes não somos levados a repetir uma verdade com a qual nem sempre estamos de acordo – se resolvêssemos refletir a respeito dela – somente pelo fato de que esta é a verdade estabelecida no tempo e no espaço, verdade esta que comumente nos é trazida pelos “especialistas” na matéria (olha aí aparecendo a tal da “microfísica do poder” a que Foucault nos atentava)?
Usando a bossa nova, citada no texto anterior do Cleto, dou-lhes um exemplo do que quero dizer.
Como já afirmei aqui, sou um apaixonado pela música brasileira, notadamente da música popular, da bossa nova e do samba.
E algo que sempre me intrigou na bossa nova é esta idolatria dos músicos e dos meios de comunicação especializados em torno de João Gilberto. Muitos músicos falaram, e ainda falam, da influência que João Gilberto lhes forneceu. Já a imprensa especializada, ao tratar de João Gilberto, tem sempre os mesmos adjetivos: “as notas são exatas”; “a perfeição levada ao extremo”; “um violão que parece uma orquestra”, etc. Sequer é necessário ler a crítica de um disco novo (se bem que todos os discos novos dele são antigos) de João Gilberto para se saber o que será escrito nos jornais sobre este disco, e que passa por algumas das frases escritas entre aspas acima.
Pois eu nunca consegui enxergar isto tudo. Porém, já que todos os especialistas na matéria confirmavam a genialidade de João Gilberto, parecia certo que o erro estava em mim. E, desditoso em minha própria ignorância, passei a procurar, e ouvir, e ouvir atentamente todas as gravações de João Gilberto, querendo descobrir o que me escapava. Onde estava aquela genialidade que eu não entendia!?
E nunca encontrei ali nada além de acordes complexos tocados demoradamente em um violão bem afinado. Para mim, João Gilberto tinha para a bossa nova a mesma significação que Golçalves de Magalhães teve para o romantismo brasileiro, isto é, ele é importante pelo pioneirismo, mas não pela qualidade de sua obra.
Mas, claro, se me perguntassem, nunca diria isto. Nunca passaria meu atestado de tolice musical aos quatro ventos.
Até que numa noite de boemia, conversando com um amigo exímio violonista (desses que, por algo desconcerto do destino, veio a ser músico de barzinho recebendo couvert de bêbados, quando o seu lugar natural era o palco de um teatro estrangeiro), ele me disse, assim do nada, enquanto um parceiro dele executava uma música consagrada por João Gilberto: “Mártin, esse João Gilberto, nunca engoli o que dizem dele… esse cara é uma mentira. O que ele faz, qualquer um faz. Quero ver é repetir uma execução do Raphael Rabello).
Naquele dia, era como se este meu amigo violonista fosse aquela criança do conto, gritando para mim a verdade sobre a “roupa” de João Giberto: “O rei está nu!”.
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Aí hão de me perguntar: mas qual é a relação disso com o tênis, já que estamos em um blog do tênis? No que eu respondo: Bjorn Borg, exatamente este sueco sobre o qual o Cleto está falando no post.
Da mesma forma que me ocorria em relação a João Gilberto, nunca consegui digerir bem esta opinião, presente entre vários – se não todos – os especialistas do tênis, consagrando Borg como um dos maiores tenistas da história, opinião esta que lhe permitiu posar ao lado de Laver, Sampras e Federer no ano passado, na conquista do 15º Grand Slam por este último, em Wimbledon. Essa massiva consagração em torno do nome Bjorn Borg sempre teve grandes ressalvas de minha parte.
Mais uma vez, meu senso crítico me informava que eu é que deveria estar errado, já que ali estava a condecoração feita pelos especialistas.
Lá fui eu a procurar todos os vídeos de Borg na internet, a comprar vídeos de suas partidas, sempre no intento de desvelar minha própria ignorância e, com olhos mais treinados, ver o que eu – no alto da minha tolice – não conseguia ver. Onde estava a roupa do rei?
E, mais uma vez, não consegui enxergar a “roupa” de Borg (por favor, tomem no sentido conotativo, evitando mal-entendidos pelo fato de, atualmente, o sueco ser detentor de uma marca de cuecas).
Sem querer tirar o mérito desta “revolução” citada pelo Cleto (e da capacidade de transformar o jogo de tênis em razão da modificação de empunhadura do continental para o western e da maximização do spin em razão desta mudança), para meus neófitos olhos, Borg era um grande devolvedor de bolas com uma capacidade mental incrível.
Só que, claro, sempre me contive nas palavras e nunca imaginava publicizar essa minha ignorância, que muitos tachariam blasfêmia.
Até que apareceu uma criança para me dizer: “O rei está nu!”.
E esta criança, no caso, foi Thomas Koch, quando vi numa entrevista dele, há alguns anos, ele respondendo algo assim ao ser perguntado sobre Bjorn Borg: “Sinceramente, o tênis de Borg nunca me encheu os olhos, nunca me seduziu. Eu gosto do tênis jogado mais ofensivo, procurando encerrar os pontos, e não continuar eles. Não consigo ver nele o mesmo talento que via em um Laver, em um McEnroe e no próprio Federer atualmente.” A resposta de Thomas Koch foi como que uma libertação para mim e para minha ignorância.
E mais: produzi mentalmente uma teoria, no sentido de que aqueles que viveram a “era Borg” ficaram tão extasiados com o frenesi desta era, com a magnitude daquele sueco que “modificou” o jogo e permitiu que os tenistas virassem pop stars, que passaram a ter alguma dificuldade em julgar o tênis de Borg para além deste mérito existente no pioneirismo em si, e só.
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Do que escrevi acima, transporto uma das possíveis conclusões, que me vem facilitada por esta “desconstrução” do fenômeno Borg, qual seja a de que Rafael Nadal JÁ É (e quando digo “já é” quero dizer que não preciso esperar mais tempo para tomar esta conclusão) um tenista maior do que Bjorn Borg foi.
Por vezes, é preciso colocar de lado os números e pensar a partir de dados subjetivos. Foi fazendo assim que não precisei esperar os títulos de Grand Slam para apontar, já no final de 2006 e início de 2007, Roger Federer como o maior tenista de todos os tempos.
Hoje, me proponho o mesmo exercício, de esquecer o número de títulos, e não vejo temeridade alguma em colocar Rafael Nadal como maior que Bjorn Borg, já que, não obstante a paridade na força mental de ambos, o espanhol, ao contrário do sueco, conseguiu e vem conseguindo expandir todos os seus limites, melhorando cada fundamento de seu jogo até chegar a um tênis que, se não é exuberante, já vê no retrovisor aquele viés unicamente defensivo e contra-atacador (dos idos de 2005 e 2006) e encontrou um equilíbrio interessante entre a sua exímia capacidade defensiva e sua nova aptidão para agredir e matar os pontos com o forehand.
Essa conquista – de ultrapassar Borg – não é pouca coisa, e tem, na minha concepção, um quê emblemático: coloca o nome de Nadal na galeria dos grandes campeões apenas a um degrau abaixo da santíssima trindade do tênis, composta por Federer, Laver e Sampras (nesta ordem, no meu modesto ver).
Sob esse mesmo prisma de reflexão, isto é, colocando os números de lado e pensando a partir de dados subjetivos, não consigo ver, ainda, Rafael Nadal subindo este último degrau com o passar dos anos.
Mas, como o frenesi causado pelo espanhol – positiva e negativamente – é similar ao causado por Borg, talvez isto seja algo que eu deva repensar daqui a uns vinte anos. Uma revolução, afinal, só é revolução depois que saímos dela. E o Tribunal da História, no caso do tênis, fica logo ali.
Comentários do “patrão” Paulo Cleto:
Alguns leitores já se adiantaram em algumas boas colocações sobre os temas João Gilberto e Borg. Deixo o João para vocês.
Borg revolucionou o tênis em mais de uma forma, não só mediaticamente como menciona o Comentarista. Os tempos eram propícios, o tênis deslanchava no gosto do público, especialmente nos EUA, e a figura de Borg era extremamente carismática.
Mas o sueco revolucionou bem mais. Não só com sua magnífica esquerda com as duas mãos, que se não era novidade era extremamente rara e não ortodoxa, solidificando-se como um padrão que hoje é massivo.
Além disso, trouxe ao tênis o então chamado tênis-força, especialmente por conta do uso do extremo top-spin – graças a uma pegada radical e também totalmente não ortodoxa – da ancoragem no jogo de fundo de quadra, inclusive sobre a grama, algo inédito que mudou a arquitetura das estratégias do tênis, também inaugurando um padrão. A fugida da esquerda, para o ataque de direita também era algo que fazia.
O tênis de Rafael Nadal é de uma linhagem direta do tênis revolucionado por Borg. Talvez até por isso ele foi um dos primeiros a alertar que Nadal iria vencer também em Wimbledon. Do que se vê atualmente, Nadal nada acrescentou em termos técnicos – quem enxerga essa “novidade” é míope historicamente no tênis.
Borg também revolucionou em termos físicos, estando em um nível bem acima de todos seus adversários e predecessores – quem não se lembra do Nuno Cobra medindo seu batimento cardíaco e percentagem de gordura, caindo de costas com o resultado, antes de treinar Airton Senna? Seu preparo e sua velocidade – nas intermináveis trocas de bola seus adversários sempre se atrasavam antes dele – tornaram possíveis seus títulos tanto em Roland Garros como na grama de Londres. E foi exatamente nesse quesito que Nadal faria sua maior contribuíção à atual Revolução.
Além disso, Borg trouxe um clima e uma postura em quadra que estava longe dos padrões de então e cuja postura dos dois melhores tenistas da atualidade lembram bastante. Era extremamente contido e educado, não abrindo a boca em quadra para nada. Quando reclamou de juízes foi com os olhos e não com a boca. Seu apelido de Ice-Borg espelhava essa postura, que era um dos seus maiores charmes.
Lembrando o filosofo francês Giles Deleuze, existem dois tipos de campeões: os criadores e os não criadores. Deleuze, um fã do tênis, colocava Borg entre os primeiros, óbvio.
Notas relacionadas:
Autor: paulocleto Tags: bjorn borg, Rafael Nadal, Roger Federer



















Vicky Dunbar – uma mulher paciente.