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terça-feira, 6 de julho de 2010 História, Porque o Tênis., Tênis Masculino | 00:39

João Gilberto, Borg e inovações

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Venho a algum tempo pensando em oferecer um destaque a alguns comentários que meus leitores publicam no Blog. Não tinha certeza do formato, como ainda não tenho, mas penso que possa ser algo que acrescente ao Blog e, principalmente, motive meus leitores. 

Sendo assim, após repensar o assunto este fim de semana, decidi fazer uma tentativa temporária para ver como funciona. Em breve devo fazer algumas regras para ficar mais claro.

Este primeiro vai ser de surpresa, inclusive para o Comentarista. A escolha deste ficou por conta de dois quesitos que serão indispensáveis. O assunto deve ser pertinente a um post recente meu e deve também ter um padrão de qualidade. O Comentarista pode, ou não, concordar com minhas colocações, assim como eu não tenho que necessariamente concordar com a dele. Como é o caso em alguns pontos deste abaixo. Me reservo o direito de acrescentar, no final do texto, minhas colocações.

Além disso, e já fica valendo, o Comentarista para se qualificar deverá colocar um email válido e, após a validação, retornar certas informações. Outras regras podem ser divulgadas e adotadas.

Espero que vocês se divirtam, se motivem e acrescentem à idéia. Vamos ver como funciona.

Enviado por Mártin Haeberlin em 05/07/2010 às 11:24h:
 
Não raras vezes, em ocasiões as mais distintas, lembro-me daquela conhecida fábula intitulada “A Roupa Nova do Rei”, escrita pelo dinamarquês Hans Christian Andersen (o mesmo do “Patinho Feio”).
Quem não conhece, sugiro procurar a versão estendida.
 
Só para chegar ao ponto em que quero chegar, aí vai uma síntese: a fábula (ou conto infantil, se preferirem) conta a história de um rei que, cioso de sua (inexistente) inteligência, é enganado por dois mercenários, os quais são abastecidos de riquezas reais para lhe confeccionar uma roupa feita com um tecido invisível aos tolos e que somente os inteligentes podiam enxergar. Enquanto os falsos tecelões fingiam tecer as vestes, o rei e seus ministros acompanhavam o processo, elogiando o lindo tecido, ainda que não o vissem, mentindo para não passar por tolos. Até que a roupa é entregue, o rei diz que achou a roupa magnífica e é feita uma procissão, onde o rei desfilaria com a sua nova e já famosa roupa entre os súditos. Eis que, em meio à procissão, uma criança grita: “O rei está nu!”. O rei, embora desconfie da veracidade da afirmação, segue em sua procissão, com medo de ver sua tolice desmascarada.

Esta fábula permite um sem-número de lições e interpretações. A que mais gosto, e talvez a mais central delas, é aquela que nos ensina a questionar as verdades que os outros nos estabelecem, e que nos permite, com isso, não apenas o desenvolvimento de um olhar crítico sobre as coisas em nossa volta, mas de um olhar pessoal, próprio, autóctone.

De fato, quantas vezes não somos levados a repetir uma verdade com a qual nem sempre estamos de acordo – se resolvêssemos refletir a respeito dela – somente pelo fato de que esta é a verdade estabelecida no tempo e no espaço, verdade esta que comumente nos é trazida pelos “especialistas” na matéria (olha aí aparecendo a tal da “microfísica do poder” a que Foucault nos atentava)?
Usando a bossa nova, citada no texto anterior do Cleto, dou-lhes um exemplo do que quero dizer.

Como já afirmei aqui, sou um apaixonado pela música brasileira, notadamente da música popular, da bossa nova e do samba.
E algo que sempre me intrigou na bossa nova é esta idolatria dos músicos e dos meios de comunicação especializados em torno de João Gilberto. Muitos músicos falaram, e ainda falam, da influência que João Gilberto lhes forneceu. Já a imprensa especializada, ao tratar de João Gilberto, tem sempre os mesmos adjetivos: “as notas são exatas”; “a perfeição levada ao extremo”; “um violão que parece uma orquestra”, etc. Sequer é necessário ler a crítica de um disco novo (se bem que todos os discos novos dele são antigos) de João Gilberto para se saber o que será escrito nos jornais sobre este disco, e que passa por algumas das frases escritas entre aspas acima.

Pois eu nunca consegui enxergar isto tudo. Porém, já que todos os especialistas na matéria confirmavam a genialidade de João Gilberto, parecia certo que o erro estava em mim. E, desditoso em minha própria ignorância, passei a procurar, e ouvir, e ouvir atentamente todas as gravações de João Gilberto, querendo descobrir o que me escapava. Onde estava aquela genialidade que eu não entendia!?
E nunca encontrei ali nada além de acordes complexos tocados demoradamente em um violão bem afinado. Para mim, João Gilberto tinha para a bossa nova a mesma significação que Golçalves de Magalhães teve para o romantismo brasileiro, isto é, ele é importante pelo pioneirismo, mas não pela qualidade de sua obra.
Mas, claro, se me perguntassem, nunca diria isto. Nunca passaria meu atestado de tolice musical aos quatro ventos.

Até que numa noite de boemia, conversando com um amigo exímio violonista (desses que, por algo desconcerto do destino, veio a ser músico de barzinho recebendo couvert de bêbados, quando o seu lugar natural era o palco de um teatro estrangeiro), ele me disse, assim do nada, enquanto um parceiro dele executava uma música consagrada por João Gilberto: “Mártin, esse João Gilberto, nunca engoli o que dizem dele… esse cara é uma mentira. O que ele faz, qualquer um faz. Quero ver é repetir uma execução do Raphael Rabello).

Naquele dia, era como se este meu amigo violonista fosse aquela criança do conto, gritando para mim a verdade sobre a “roupa” de João Giberto: “O rei está nu!”.
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Aí hão de me perguntar: mas qual é a relação disso com o tênis, já que estamos em um blog do tênis? No que eu respondo: Bjorn Borg, exatamente este sueco sobre o qual o Cleto está falando no post.

Da mesma forma que me ocorria em relação a João Gilberto, nunca consegui digerir bem esta opinião, presente entre vários – se não todos – os especialistas do tênis, consagrando Borg como um dos maiores tenistas da história, opinião esta que lhe permitiu posar ao lado de Laver, Sampras e Federer no ano passado, na conquista do 15º Grand Slam por este último, em Wimbledon. Essa massiva consagração em torno do nome Bjorn Borg sempre teve grandes ressalvas de minha parte.
Mais uma vez, meu senso crítico me informava que eu é que deveria estar errado, já que ali estava a condecoração feita pelos especialistas.

Lá fui eu a procurar todos os vídeos de Borg na internet, a comprar vídeos de suas partidas, sempre no intento de desvelar minha própria ignorância e, com olhos mais treinados, ver o que eu – no alto da minha tolice – não conseguia ver. Onde estava a roupa do rei?
E, mais uma vez, não consegui enxergar a “roupa” de Borg (por favor, tomem no sentido conotativo, evitando mal-entendidos pelo fato de, atualmente, o sueco ser detentor de uma marca de cuecas).

Sem querer tirar o mérito desta “revolução” citada pelo Cleto (e da capacidade de transformar o jogo de tênis em razão da modificação de empunhadura do continental para o western e da maximização do spin em razão desta mudança), para meus neófitos olhos, Borg era um grande devolvedor de bolas com uma capacidade mental incrível.

Só que, claro, sempre me contive nas palavras e nunca imaginava publicizar essa minha ignorância, que muitos tachariam blasfêmia.
Até que apareceu uma criança para me dizer: “O rei está nu!”.

E esta criança, no caso, foi Thomas Koch, quando vi numa entrevista dele, há alguns anos, ele respondendo algo assim ao ser perguntado sobre Bjorn Borg: “Sinceramente, o tênis de Borg nunca me encheu os olhos, nunca me seduziu. Eu gosto do tênis jogado mais ofensivo, procurando encerrar os pontos, e não continuar eles. Não consigo ver nele o mesmo talento que via em um Laver, em um McEnroe e no próprio Federer atualmente.” A resposta de Thomas Koch foi como que uma libertação para mim e para minha ignorância.

E mais: produzi mentalmente uma teoria, no sentido de que aqueles que viveram a “era Borg” ficaram tão extasiados com o frenesi desta era, com a magnitude daquele sueco que “modificou” o jogo e permitiu que os tenistas virassem pop stars, que passaram a ter alguma dificuldade em julgar o tênis de Borg para além deste mérito existente no pioneirismo em si, e só.
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Do que escrevi acima, transporto uma das possíveis conclusões, que me vem facilitada por esta “desconstrução” do fenômeno Borg, qual seja a de que Rafael Nadal JÁ É (e quando digo “já é” quero dizer que não preciso esperar mais tempo para tomar esta conclusão) um tenista maior do que Bjorn Borg foi.

Por vezes, é preciso colocar de lado os números e pensar a partir de dados subjetivos. Foi fazendo assim que não precisei esperar os títulos de Grand Slam para apontar, já no final de 2006 e início de 2007, Roger Federer como o maior tenista de todos os tempos.
Hoje, me proponho o mesmo exercício, de esquecer o número de títulos, e não vejo temeridade alguma em colocar Rafael Nadal como maior que Bjorn Borg, já que, não obstante a paridade na força mental de ambos, o espanhol, ao contrário do sueco, conseguiu e vem conseguindo expandir todos os seus limites, melhorando cada fundamento de seu jogo até chegar a um tênis que, se não é exuberante, já vê no retrovisor aquele viés unicamente defensivo e contra-atacador (dos idos de 2005 e 2006) e encontrou um equilíbrio interessante entre a sua exímia capacidade defensiva e sua nova aptidão para agredir e matar os pontos com o forehand.

Essa conquista – de ultrapassar Borg – não é pouca coisa, e tem, na minha concepção, um quê emblemático: coloca o nome de Nadal na galeria dos grandes campeões apenas a um degrau abaixo da santíssima trindade do tênis, composta por Federer, Laver e Sampras (nesta ordem, no meu modesto ver).

Sob esse mesmo prisma de reflexão, isto é, colocando os números de lado e pensando a partir de dados subjetivos, não consigo ver, ainda, Rafael Nadal subindo este último degrau com o passar dos anos.
Mas, como o frenesi causado pelo espanhol – positiva e negativamente – é similar ao causado por Borg, talvez isto seja algo que eu deva repensar daqui a uns vinte anos. Uma revolução, afinal, só é revolução depois que saímos dela. E o Tribunal da História, no caso do tênis, fica logo ali.

 

Comentários do “patrão” Paulo Cleto:

Alguns leitores já se adiantaram em algumas boas colocações sobre os temas João Gilberto e Borg. Deixo o João para vocês.

Borg revolucionou o tênis em mais de uma forma, não só mediaticamente como menciona o Comentarista. Os tempos eram propícios, o tênis deslanchava no gosto do público, especialmente nos EUA, e a figura de Borg era extremamente carismática.

Mas o sueco revolucionou bem mais. Não só com sua magnífica esquerda com as duas mãos, que se não era novidade era extremamente rara e não ortodoxa, solidificando-se como um padrão que hoje é massivo.

Além disso, trouxe ao tênis o então chamado tênis-força, especialmente por conta do uso do extremo top-spin – graças a uma pegada radical e também totalmente não ortodoxa – da ancoragem no jogo de fundo de quadra, inclusive sobre a grama, algo inédito que mudou a arquitetura das estratégias do tênis, também inaugurando um padrão. A fugida da esquerda, para o ataque de direita também era algo que fazia.

O tênis de Rafael Nadal é de uma linhagem direta do tênis revolucionado por Borg. Talvez até por isso ele foi um dos primeiros a alertar que Nadal iria vencer também em Wimbledon. Do que se vê atualmente, Nadal nada acrescentou em termos técnicos – quem enxerga essa “novidade” é míope historicamente no tênis.

Borg também revolucionou em termos físicos, estando em um nível bem acima de todos seus adversários e predecessores – quem não se lembra do Nuno Cobra medindo seu batimento cardíaco e percentagem de gordura, caindo de costas com o resultado, antes de treinar Airton Senna? Seu preparo e sua velocidade – nas intermináveis trocas de bola seus adversários sempre se atrasavam antes dele – tornaram possíveis seus títulos tanto em Roland Garros como na grama de Londres. E foi exatamente nesse quesito que Nadal faria sua maior contribuíção à atual Revolução.

Além disso, Borg trouxe um clima e uma postura em quadra que estava longe dos padrões de então e cuja postura dos dois melhores tenistas da atualidade lembram bastante. Era extremamente contido e educado, não abrindo a boca em quadra para nada. Quando reclamou de juízes foi com os olhos e não com a boca. Seu apelido de Ice-Borg espelhava essa postura, que era um dos seus maiores charmes.

Lembrando o filosofo francês Giles Deleuze, existem dois tipos de campeões: os criadores e os não criadores. Deleuze, um fã do tênis, colocava Borg entre os primeiros, óbvio.

Borg e sua revolucionária esquerda em “open stance”.
 
Borg – até de joelhos ele jogou.
  

Notas relacionadas:

  1. Sócio benemérito.
  2. A gafe
  3. Revolução.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010 Grand Slam, Porque o Tênis., Tênis Masculino | 16:32

O pangaré e o fascínio

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Hoje pela manhã, enquanto acompanhava os portugueses fazerem a festa para cima dos coreanos e me preparava para acompanhar a estréia de Roger Federer em Wimbledon, recebi um telefonema de minha mulher. Ofegante, informava estar do lado de fora da quadra, exultante por ter, finalmente, batido uma adversária, melhor do que ela, que vinha sistematicamente engordando a caderneta das duas. A bichinha estava em uma alegria impar e às 8:30 da manhã já tinha ganho o dia por conta de seu feito fervorosamente almejado, longamente planejado e finalmente conquistado.

O tênis é um esporte fenomenal, como já escrevi inúmeras vezes, e os que aqui continuarem a vir com certeza lerão outras tantas, tanto por conta da gama emocional oferecida como pelas dificuldades técnicas envolvidas.

A vitória do Roger Federer sobre o Alejandro Falla, depois de estar perdendo por 2×0, foi uma daqueles mimos que os frequentadores e espectadores das primeiras rodadas dos grandes torneios são, bem de vez em quando, agraciados.

Não é nenhum segredo a dificuldade que os favoritos enfrentam na primeira rodada de um evento, em especial um GS. Surpresa é o adversário estar preparado para tirar proveito dessa momentânea fragilidade. Mais surpresa ainda é, além da preparação, conseguirem executar algo que exige uma perfeição de suas habilidades. Mais surpresa ainda só quando consegue ir até o fim com a façanha, o que não foi o caso hoje. Mas passou perto.

Federer se viu no apuro de hoje não só por conta de suas dificuldades como, especialmente, pelo fato que Falla jogou muito tênis. Muito. Foi bonito de ver – um jogo bem jogado, muito mais com pontos ganhos do que pontos errados. Se o colombiano tivesse conseguido jogar no mesmo padrão em que jogou por mais de duas horas, nos cinco minutos cruciais da partida, teria causado a provável maior zebra do Championship. Por isso que existe a hora da onça beber água.

Falla teve 0×40 quebrar Federer, sacar em 5×3 no terceiro e acabar com o jogo. Não conseguiu encontrar uma maneira de ganhar o ponto que faltava. Ou foi Federer que conseguiu encontrar uma de escapar? E se consegue, pelo andar da carruagem então, não teria perdido a oportunidade, algo que Federer admitiu como praticamente certo.

Teve ainda outra chance, ao sacar para fechar em 5×4 no quarto set. Ali, como se poderia esperar, travou. Logo na primeira bola deu para ver que não tinha convencido seu emocional a jogar com a mesma desenvoltura que havia jogado até então e que a situação exigia. Jogou para não errar; errou.

O que mais me incomoda, porque não me estranha nem um pouco, são os comentários. Tanto os que leio aqui como os que sei que serão feitos por aí. Do Federer viajando ao Falla se borrando. Nessa hora me recolho e penso nas horas que tive que enfrentar essa dificuldade que é ganhar um jogo de tênis. E, como digo o meu colega e amigo Osvaldo Maraucci na ESPN, quando o vejo criticando em demasia os tenistas: “pega a raquete, entra na quadra e vai ganhar de alguém”. E, quanto ao que insinua um dos leitores, ao dizer que essa não é a profissão dele, e sim a do tenista, eu digo: não precisa bater o Federer, na Quadra Central de Wimbledon, onde o cara tem seis títulos e se sente como se tivesse em casa.Vai ganhar de um pangaré qualquer, do mesmo nível, para conhecer e entender o fascínio desse esporte.

Federer – quase fora na 1a rodada.

Notas relacionadas:

  1. PEGADINHA?
  2. A raposa
  3. A chave de Wimbledon
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quarta-feira, 16 de junho de 2010 Porque o Tênis., Tênis Masculino | 16:01

Animal frustrado

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Li a notícia de que o Thomaz “O Animal” Muster volta, aos 42 anos, a competir no circuito profissional. Aceitou o convite de um Challenger na Alemanha e afirma que jogará outros. Como não podia deixar de ser, diz não ter maiores pretensões, a a mantra de sempre de quem volta às quadras.

Muster venceu o Aberto da França em 1995 e abandonou o circuito após perder na 1ª rodada em Paris em 1999. Antes disso havia vencido 44 títulos como profissional, um número para ninguém colocar defeito.

Sei lá porque o Animal volta a competir, especialmente com mais de um circuito Masters a disposição de quem não conseguiu fazer algo de novo na vida, e onde ele vem participando desde 2003, sem grandes resultados. Com 42 anos, eu duvido que vá passar muitas rodadas – será interessante ver quem perderá de um veterano de 42 anos – mesmo entre o pessoal dos Challengers. O mundo do tênis atual está repleto de tenistas bem mais fortes fisicamente do que o austríaco, apesar de que poucos devem ter a sua força mental. Mas também tenho minhas duvidas a quanto anda a vontade de alguém que não está nas quadras no dia a dia e tem, espero, alguns milhões no banco.

Lembro que certa vez, em Itaparica – quando Muster voltava de sua contusão na perna, após ser atropelado no estacionamento de um supermercado, um dia antes de jogar a final do Aberto de Miami de 1989 – seu técnico me disse, por meio de um código semântico, após ver seu pupilo derrotado por Cássio Motta, que seu nível de disposição ao sofrimento e disposição para a luta ainda não estavam no ponto de quem quer realmente vencer.

Achei um pouco de conversa mole, porque seu pupilo tinha lutado como um cão danado, mas ainda não tinha o mesmo ritmo de antes. Mas serviu de parâmetro para se ter uma idéia de quanto a vontade de vencer, a luta incessante por cada ponto, a recusa em ser derrotado é importante e vital para aqueles que se tornam campeões. Especialmente tenistas sem grandes horizontes técnicos, mas sem limites mentais.

Agora, entender porque um tenista quer se expor a tudo isso, aos 42 anos, após uma carreira vitoriosa e comer o pão que o diabo amassou por anos é um pouco difícil de compreender. Acho que os resultados em quadras serão mais frustrantes do que as razões que o levaram a tomar essa decisão.

Muster, o animal volta a encarar a bolinha.

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domingo, 28 de março de 2010 Porque o Tênis., Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 21:16

Curling?!

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Cada vez mais Thomaz Bellucci está na Home Page do IG, como é o caso neste momento, o que é um bom sinal para o tênis nacional, os fãs e o jogador. Infelizmente o mesmo não é verdade na TV.

Como pode ser frustrante acompanhar o tênis, mesmo nas TV fechadas. O pessoal gosta mesmo é de futebol e qualquer joguinho, por mais chinfrim que seja, vai para o ar antes do tênis. O pior mesmo é que, na onda das Olimpíadas, até o “curling” passa por cima do Bellucci.

Não quero fazer o papel de advogado do diabo, algo que minha mulher diz que faço mais do que ela gostaria, mas dá para entender o pessoal da TV – pelo menos em alguns casos.

Os jogos de um grande torneio podem tomar toda a grade diária de uma TV, além de um jogo não ter horário para terminar. O que é excelente para nós, fanáticos pelo tênis, mas não necessariamente para os fãs de outros esportes.

Vocês devem estar perguntando; e quem são os fãs do “curling”, já que ninguém atira essa pedra neste lado do equador? Não sei, mas muita gente se encantou com o negócio depois de Vancouver e a SporTV deve ter se encantado com isso. Se vão conseguir a mesma audiência das Olimpíadas eu não sei, tenho cá minhas duvidas.

Quanto ao Torneio de Miami, acredito, e espero, que a SporTV seja mais generosa na segunda semana do evento, o que evidencia um dos problemas desses torneios de 10 dias. O pessoal da TV, por enquanto, só quer encaixar uma semana e olhem lá.

Do meu lado, confesso, continuo jogando as mãos aos céus e agradecendo. Poder acompanhar esses torneios, e mesmo outros menores, da maneira que for, pela TV é um privilégio inexistente até poucos anos atrás. Mas eu espero mesmo é a maior idade da internet que deverá trazer a democratização total do acompanhamento do esporte. Aí os fãs, do tênis ao curling, poderão ter o melhor dos mundos sem o detrimentos do mundo dos outros.

O que esse pessoal está fazendo neste Blog??

Notas relacionadas:

  1. Definindo
  2. Miami
  3. Nanico Voador
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sexta-feira, 26 de março de 2010 Light, Porque o Tênis. | 17:10

Tenista é aquele que…

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Giuliano, o homem da direita sinistra, o que por sí é um paradoxo, pelo menos para quem entende italiano, deixou o comentário abaixo, como sendo de um email que recebeu, do qual ele não indica o autor. (29/03 – O Giulianno me confirma que a autoria do texto é do colunista Fernando Fontoura, como abaixo escrevi, um tenista.)

Publico como o vi e adorei. Deixo aberto para o autor se identificar, assim como para os meus leitores acrescentarem, o que será interessante, à lista desse autor desconhecido, um óbvio apaixonado por nosso esporte e, ainda mais óbvio, praticante desse esporte único, cativante e maravilhoso.

SER TENISTA…

•Tenista é aquele que acorda de manhã e olha pra o céu para ver se vai dar jogo;

•Tenista é aquele que cuida de seu material como se fosse sua jóia;

•Tenista é aquele que diz sorry para tudo;

•Tenista é aquele que bate cinco minutos de bola e já quer começar o jogo;

•Tenista é aquele que olha para o lado depois de dar um winner para ver quantos estão apreciando tão bela jogada;

•Tenista é aquele que joga de cabeça erguida e costas retas;

•Tenista é aquele que sabe que um bom material e um bom fardamento fazem parte do jogo psicológico antes de entrar na quadra;

•Tenista é aquele que bate com as cordas da raquete no calcanhar para tirar o excesso de saibro do tênis;

•Tenista é aquele que junta bolinha do chão com duas batidinhas com a raquete;

•Tenista é aquele que tem o primeiro saque muito mais forte do que o segundo;

•Tenista é aquele que traduz out por ‘alta’ e, quando a bola vai boa, espalma a mão virada para baixo como que dizendo ‘baixa’ para completar a tradução coerentemente;

•Tenista é aquele que bate forte na bola e odeia o antijogo de bolas altas;

•Tenista é aquele que levanta tudo quando o jogo aperta;

•Tenista é aquele que encerra a reunião porque tem quadra marcada para jogar com os amigos;

•Tenista é aquele que fica cinco horas com a TV ligada acompanhando os torneios do ano;

•Tenista é aquele que diz ‘bem jogada’ com os dentes cerrados e o semblante fechado;

•Tenista é aquele que, apesar de qualquer coisa, aperta a mão do adversário no final;

•Tenista é aquele que na dúvida repete o ponto;

•Tenista é aquele que sempre quer aprimorar sua esquerda;

•Tenista é aquele que quer ensinar seu companheiro de dupla no meio do jogo;

•Tenista é aquele que esquece da técnica quando o jogo aperta;

•Tenista é aquele que geme na hora de sacar;

•Tenista é aquele que compra um tênis branquinho para sujar na quadra;

•Tenista é aquele que seu horário de treino é sagrado;

•Tenista é aquele que está atento às novas tecnologias de raquetes como se isso fizesse parte de seu negócio;

•Tenista é aquele que sabe todos os detalhes de novas tecnologias;

•Tenista é aquele que é extremamente persistente e automotivador;

•Tenista é aquele que é incoerente em seus golpes: tem a direita do Fernando Gonzalez, a esquerda de segunda classe, o primeiro saque do Rodick e o segundo dele mesmo;

•Tenista é aquele que jamais desiste, nem quando quebra uma raquete no chão de raiva;

•Tenista é aquele que ouve da mulher: “Não sei porque joga tênis se chega em casa furioso e todo doído” ou “vai jogar de novo?!”;

•Tenista é aquele que sabe o valor de uma quadra de saibro arrumadinha e com as linhas limpas;

•Tenista é aquele que joga com vento, com chuva e trovoada e fica de cara amarrada quando tem que sair da quadra antes de acabar o jogo;

•Tenista é aquele que gostaria de ter as quadras do clube só para ele durante o final de semana;

•Tenista é aquele que odeia esperar para jogar;

•Tenista é aquele que quando vê mais tenistas chegarem ao lado da quadra tem vontade de dizer em voz alta: “Um a um, né parceiro?!”;

•Tenista é aquele que nunca entende porque perdeu ainda mais para um jogador que só põe a bola para o outro lado;

•Tenista é aquele que come muita massa antes de jogar e leva a banana de sobremesa para dentro da quadra;

•Tenista é aquele que joga até os noventa anos e acha que ainda pode melhorar seus golpes;

•Tenista é aquele que é louco por um troféu;

•Tenista é aquele que acha que joga mais do que joga, mas isso é alimentado por uma atitude de quem dá o melhor de si toda vez que treina ou entra na quadra para jogar com os amigos;

•Tenista é aquele que sabe o valor de um exercício para seu corpo e para sua mente;

•Tenista é aquele que incentiva seus filhos como se fosse ele mesmo;

•Tenista é aquele que reúne a família para praticar um esporte;

•Tenista é aquele que anda de abrigo com o calção por baixo;

•Tenista é aquele que anda sempre com seu material no porta malas do carro;

•Tenista é aquele que dá valor à qualidade de vida;

•Tenista é aquele que sabe o valor de uma vida regrada e disciplinada;

•Tenista é aquele que valoriza o melhor em tudo o que faz;

•Tenista é aquele que reconhece a palavra amor-próprio toda vez que entra na quadra.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 Porque o Tênis., Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 12:19

O Aberto do Brasil

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Antes que esfrie, assumo uma das pautas prometidas. De vez em quando leio algumas críticas ao Aberto do Brasil, a maior parte sobre o local, distante das capitais tradicionais para esse tipo de evento.

Se vale a crítica acima, vale também a crítica de que a visita de um fã do tênis ao complexo da Costa do Sauípe também seria um programão que a muitos prefere ignorar.

Afinal, e isso é um fato, é um belo programa passar uns dias na Bahia, misturando tênis – jogando e assistindo partidas que por aqui só mesmo na TV – praia e mar, ótimo clima, bons passeios, golfe, pessoas com interesses comuns etc. Se o pessoal prefere ignorar o evento, fica um pouco mais difícil de entender a crítica, afinal essa é a realidade de boa parte dos eventos mundo afora.

Tenho certeza que os organizadores, no caso a Koch Tavares Promoções, realizariam o evento em São Paulo, ou mesmo no Rio, se houvesse condições necessárias. São precárias e, quando existentes, não cobrem todos os requisitos.

Como acontece na maior parte dos casos, o público só conhece uma ínfima parte do necessário para se realizar um projeto desses, e não tem lá muita curiosidade em saber os detalhes. Quer a comodidade e quem não oferece da maneira esperada é criticado. Bem, não dá para dizer que não tenham razão, já que o conforto, o atendimento e a qualidade do espetáculo oferecido devem ser a prioridade de qualquer evento. Mas, tirando a distância das capitais do sudeste, não dá para dizer que as outras prioridades não estejam presentes. Se existe o custo da viagem/estadia, atualmente não dá para dizer que a Costa do Sauípe seja uma viagem cara, considerando os benefícios.

Só que alguém tem que pagar a conta, que não é pequena. Quem a pagava antes era o Banco do Brasil, que foi parceiro do tênis por alguns anos – no auge da era Kuerten. Este ano o BB decidiu ficar fora do evento e isso de última hora.

O resultado é que os organizadores ficaram com uma conta de cerca de 3 a 4 milhões de reais na mão. Após algum estresse e muita correria – e assumindo a realização do torneio, mesmo não sabendo de onde viria o dinheiro – encontraram na Gillete um parceiro. E um dos fatores decisivos para a empresa entrar como patrocinador principal foi a possibilidade de realizar o seu congresso anual no hotel durante a semana do torneio.

Para ilustrar, só um pouco, as necessidades de um torneio destes, mostro alguns números abaixo:

442.500,00 de dólares americanos foi a premiação -
71 jogadores (quali, simples e dupla) participaram
3.500 pessoas era a capacidade da arena
6.300 bolas foram usadas para treinos e jogos
900 toalhas brancas foram usadas pelos tenistas
14.220 litros de água em 57,6 mil copinhos (200ml) e 5,4 mil garrafas (500ml)
2.100 garrafas de 500ml de isotônicos bebidos pelos jogadores
55h de transmissão de TV para o Brasil – 30h para o exterior
46 pessoas para a equipe de arbitragem
12 pessoas para a equipe de quadra
25 pessoas para a equipe de manutenção de quadra
15,2 toneladas de pó de telha jogadas sobre a quadra durante a semana.
Fora um sem número de pessoas e de outras necessidades de infra estrutura, obrigatórias e necessárias, para receber tenistas, público, imprensa e patrocinadores.

costa


Praia na Costa do Sauípe – alternativas.

Notas relacionadas:

  1. Holanda, Califórnia ou Bahia
  2. Durante a chuva
  3. O sono dos justos
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009 Light, Minhas aventuras, Porque o Tênis. | 17:56

Adoramos

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Como tudo, para a primeira vez não existe uma ficha de informações. Assim sendo entrei no Yacht Club Paulista com a alma e a mente aberta e esperando pelo melhor. Escrever um blog é uma experiência relativamente nova e a improvisação tem sido uma constante na busca do acerto. Como o pessoal do IG me assegura que o blog é um “case” de sucesso, por razões que um dia discutirei por aqui, levo o assunto adiante na base da intuição.

O que estava claro na minha cabeça era o que havia motivado o pessoal da base organizar o encontro: a paixão pelo tênis, pela escrita e pela leitura. Como o blog não é literário, apesar da capacidade de um e outro leitor, a mim não assaltava a dúvida do que seria o amálgama do nosso encontro.
Já fui uniformizado. A raquete na sacola, assim como boné, munhequeira, toalha etc. Alguns deles já estavam em quadra, deixando claro que pensavam como eu. Chegando fui logo perguntando quem havia marcado jogo para as 9hs de sábado, horário proibitivo para um notívago e para qualquer tenista sério sobre seu jogo – a não ser os tarados.

Mal cumprimentei as pessoas e o Flávio B. colocou um livro de crônicas de sua autoria em minhas mãos. Cinco minutos depois Maysa nos levou para conhecer as simpáticas e surpreendentes instalações do clube. Em seguida fui para a quadra, onde fiquei até às 14:30h, quando Maysa nos convocou para a chuveirada que, por conta do calor, foi um nirvana molhado, seguido do almoço, simplesmente divino.

Sentados à beira da janela, com a represa ao fundo e a brisa amenizando o calor, a feijoada era o prato do dia da casa. O filho do Giuliano preferiu um filet e teve que defender com unhas e dentes suas fritas que, juro, me chamavam. Eu fui de peixe e salada – divinos. Após horas debaixo do sol se comesse carne só levantaria no dia seguinte. A cozinheira está no clube há 32 anos e agora sabe-se bem porque a senhora mantêm seu emprego. O cremoso bolo de chocolate estava dos deuses.

Flávio B como tenista é um ótimo escritor e talvez o mais desinibido do grupo. Tem opinião sobre tudo, estórias mil, não deixa a peteca cair e não tremeu na hora de ganhar o jogo. Seu livro já está na minha cabeceira.

Adriana surpreendeu pela qualidade de seu jogo, considerando o pouco tempo que joga. Como se trata de uma corredora de fundo, usa bem as pernas para chegar nas bolas, é competitiva e entende, intuitivamente, o tênis porcentagem. Seu maridão leva o jogo na maciota e sem erros. Ela confessou que foi parar no blog para descobrir quem era aquele chato que comentava os jogos na ESPN. Jura que mudou de opinião.

Marcos é um canhoto que sabe aproveitar a velocidade e a facilidade para golpear as bolas. Seu drive é excelente, tanto o cruzado como o paralelo, no entanto seu saque está abaixo do resto de seu padrão. É competitivo, adora conversar, é contador de estórias e me presenteou com um vinho que trouxe de sua recente viagem pelas vinhas gaúchas. Teve que ir embora na hora do almoço pois era aniversário da mulher.

Giuliano é um bom 2ª classe e, de longe, o melhor tenista do grupo. Seu irmão também joga direitinho e uma partida sua com Marcos seria equilibrada, assim como foi nossa dupla. Giuliano chegou armado da cabeça aos pés e pronto para a luta. Como saiu do Rio às 4h da manhã, e ainda foi pegar o irmão em Itapecerica da Serra, chegou depois do meio dia. Infelizmente não deu para jogar mais do que dois sets de duplas. Muito afável, como o resto da família, será desafiado em minha próxima passagem pela cidade maravilhosa. Estava acompanhado da esposa, de quem minha mulher falou muito bem, de um casal de filhos e do irmão, simpaticíssimo, e família.

Martin A. veio de Campinas, não se uniformizou e, consequentemente, não entrou em quadra. Como eu passei a maior parte do tempo em quadra só tive chance de conversar, brevemente, com ele no almoço. É uma figura sossegada, educada, claramente bem informado, com agudo sotaque hermano e sapatos Guido nos pés.

Alexandre veio de Niterói e aparentou ser o mais inibido, apesar do sorriso largo e gostoso. É polido, de uma educação ímpar e adquiriu seu mestrado, em exatas, em Coimbra, de onde recém voltou. Ele que foi à Wimbledon este ano. No entanto, talvez por ser retraído, acabou não entrando em quadra comigo, algo que me fez sentir deveras mal quando me dei conta.

O almoço correu na maior alegria e descontração, com as pessoas mudando de lugar para conversar com as outras. Terminou logo após a magra vitória do Brasil sobre a Inglaterra, só acompanhada pelos berros na sala ao lado. Marisa me garantiu que durante as finais de GS o pessoal acompanha as transmissões pela ESPN naquela sala que me lembrou um castelo germânico.

O café foi tomado no salão, já na companhia do Comodoro Bruno, maridão da Maysa e nosso co-anfitrião. Os homens ficaram conversando sobre esportes em geral. As mulheres, acompanhadas do Flávio, sentaram outdoors, que estava mais convidativo. O ambiente foi descontraído, amigável e confessadamente gostoso. Não posso imaginar um sabadão mais atraente.

Se os comentaristas – incluindo familiares, fato que acrescentou na nota – foram os protagonistas desse sucesso, a estrela foi a nossa anfitriã.
Além de apaixonada pelo tênis, Maysa passa a inquestionável impressão de ser apaixonada pelas pessoas e pela vida. Recebeu a todos como se fossemos família e nos fez sentir totalmente à vontade. Fomos tratados a pão de ló. Adoramos.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009 História, Porque o Tênis., Tênis Feminino, Tênis Masculino | 16:52

O casal 20.

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Um leitor pergunta qual a melhor esquerda da história do tênis. Outro menciona que comentaristas devem ser capazes de determinar momentos-chaves do esporte, lembrando um comentário televisivo meu, sobre a semifinal de RG 2000 entre Kuerten x Ferrero, um dos melhores combates que já vi, e que anunciou uma nova era no tênis. Às vezes fico surpreso com a lembrança por parte de meus leitores/ouvintes de algo que escrevi/falei.

Mencionam que a esquerda de Ken Rosewall foi eleita a melhor da história em alguma eleição em algum lugar. Cresci sob a impressão geral que o australiano tinha a melhor esquerda do mundo. Era batida com uma única mão, como a maioria então. Eram raríssimas as esquerdas com duas mãos. Nessa época, a mais conhecida, quase única, era a do sul-africano Clif Drysdale, hoje o principal comentarista da ESPN americana. Era boa, mas não tão boa como a maioria das de hoje.

O mesmo pode ser dito sobre a esquerda de Rosewall. Era muito boa, mas não tão boa como várias que estão por aí. Ken batia na bola flat e quando necessário envenenava com um leve slice – mas nunca usava top spin. Tinha absoluto controle do golpe, sua maior qualidade. Trocava a direção da bola como quem troca de canal no controle remoto. Batia de qualquer canto para qualquer canto da quadra. Quando atacado, dava tanto no pé do voleador, a maioria então, como acelerava. Ali, ninguém fazia festa, pelo contrário. Como era baixinho, tinha o centro de gravidade baixo e se movia muito bem. Além disso, era forte para a época, seu apelido no circuito era “Músculos”, e muito ligeiro. Como qualquer tenista, mesmo o de fim de semana, pode atestar, uma coisa é bater na bola quando bem posicionado, outra é estar, mesmo que levemente, atrasado.

Ken teve seus algozes – Gonzalez e Laver entre outros, mas ninguém que fizesse festa para cima dele. Seu pior pesadelo foi enfrentar, aos 40 anos, o jovem Jimmy Connors nas finais do U.S Open e Wimbledon, quando tomou um chocolate que talvez o tenha feito se arrepender, por um segundo, de alongar tanto sua carreira – um feito e tanto, nunca mais imitado por ninguém e, duvido, um dia igualado.

O revés com as duas mãos de Connors, junto com o de sua namoradinha de juventude Chris Evert, veio para mudar o “status quo” do jogo, Os dois colocaram a segunda mão na raquete e o esporte nunca mais foi o mesmo. Dali para frente virou padrão entre as mulheres e, com um pouco mais de tempo, se estabeleceu de tal maneira no tênis masculino, que criou uma dúvida na cabeça de todos os responsáveis pela formação de jovens tenistas. Hoje, dá para se dizer que as melhores esquerdas – numa visão mais ampla – são as batidas com duas maõs.

Isso tudo só foi possível por conta do enorme e estrondoso sucesso que tanto Evert como Connors atingiram em suas respectivas carreiras, graças tanto às suas personalidades e instintos vencedores, como por suas principais armas. Ambos eram excelentes contra-atacadores com seus reveses. Chris era maravilhosamente cirúrgica com seu revés, assim como seu namoradinho.

Porém, ao contrário do que acontece hoje, Connors, que era extremamente agressivo, de temperamento e jogo, usava a esquerda para atacar também. Com qualquer bola mais curta, o americano movia os pés como um caranguejo, pegava a bola na subida, tirava o tempo do adversário e ia para o ataque sem pudores. Depois de Chris e Jimbo, o tênis nunca mais foi o mesmo. 

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Connors e Evert, duas esquerdas e duas personalidades que marcaram o tênis.

Notas relacionadas:

  1. O mano.
  2. Brainstorm
  3. Bom dia
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domingo, 11 de outubro de 2009 Light, Porque o Tênis. | 17:21

Balões

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Quando eu tinha dez anos descobri que jogando incessantemente bolas altas eu poderia vencer tenistas melhores do que eu. Isso funciona até uma certa idade, quando o estilo deixa de ser eficiente e passa a ser só uma maneira de protelar o próprio crescimento tenístico.

Os balões passam a ser novamente uma opção entre tenistas mais velhos, que não tem mais a mesma força física e a paciência para ficar devolvendo bolas horas a fio, e nunca deixa de ser uma tática nas classes menos privilegiadas em qualidade técnica.

O tirar o peso da bola, que é um pouco diferente de dar balões, mas obedece aos mesmos princípios, é uma tática usada até hoje, ainda que cada dia menos. Está aí o Andy Murray que não me deixa mentir – especialmente por conta de suas alternâncias de ritmo e grande preparo físico para agüentar tal tática. E segue sendo eficiente, e ambos os níveis.

Ruim mesmo, pelo menos de assistir, eram os jogos femininos até poucos anos atrás. Um festival de balões e bolas moles que levavam os amantes do tênis à loucura. O tal estilo que meu colega na ESPN, Marco A. Rodriges, tanto odeia, sempre lembrando dos castigos que era transmitir os jogos da Arantxa Sanchez. Felizmente as meninas atuais enterraram o estilo – espero.

Eu não sou muito fã de jogar com tenistas “varejeiros”, já que é um estilo totalmente atrofiante. Alias, esse é o objetivo do tenista que dá balões ou tira o peso da bola – atrofiar o adversário e minar sua confiança. Prefiro jogar com tenistas que tem um jogo mais franco, mesmo que mais poderosos que o meu, inclusive pelo fator físico, que conta muito com a idade.

Eu até poderia “engrossar” com alguns desses adversários, jogando bolinhas moles e balões, mas seria totalmente conflitante com aquilo que busco no tênis atualmente. Me divertir, fazer um bom exercício, melhorar o jogo e manter o espírito competitivo aceso – acho que até nessa ordem.

No entanto, sei e tenho que admitir que ao me inscrever em torneios terei que aceitar tais confrontos; o que for dentro das regras escritas e da ética é válido. Aí inclusos os balões e as bolas moles e sem peso.

No dia a dia, tenho a opção de escolher os parceiros. Se um deles resolver aplicar uma tática que não seja a minha favorita, tenho total responsabilidade e obrigação de enfrentá-lo e tentar vencê-lo com toda a entrega. Sem frescura, intimidações, acusações, desistências e choradeiras. Tenho também a opção de convidá-lo ou não para uma próxima partida.

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Chris Evert x Monica Seles 20 anos atrás

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009 História, Minhas aventuras, Porque o Tênis. | 20:42

43 minutos.

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Meu pai se apaixonou pelo tênis pouco antes de completar 30 anos. Aprendeu sozinho e ensinou um grande número de pessoas, inclusive seus cinco filhos, mulher, genros, netos, além de inúmeras outras pessoas, já que passou seus últimos anos se dedicando à sua paixão – jogar e ensinar tênis.

Talvez essa paixão explique o seu gosto por jogos longos. Provavelmente não. Adorava deixar seus adversários abrir 4×1, 5×2 e aí avisava, com um sorriso, que iria buscar. Até hoje, a última vez foi neste fim de semana, ouço amigos e desconhecidos lembrarem suas peripécias. A esmagadora maioria adorou fazer parte dessa história, mesmo quando estiveram no lado errado da rede.

Ele adorava jogar torneios e chegou à 1ª classe, dos razoáveis. Mais do que tudo, adorava se divertir em quadra – tênis foi sua terapia, mesmo que nem sempre quem estivesse do outro lado da quadra conseguisse permanecer são.

Outro dia, li no New York Times uma história que me lembrou de uma sua. Não me exijam detalhes desta, porque eu era muito jovem e muito daquela época só revive graças a uma memória afetiva, não tão exata e confiável.

O que lembro foi que aconteceu ali na antiga Quadra 8 do Clube Pinheiros, hoje Quadra 10, não sei por que tinham que mudar o número! Era uma noite, isso eu me lembro claramente. O jogo foi um daqueles encardidos, algo que ele adorava mais do que assistir faroeste na TV comendo mexericas ou caminhar de alpargatas.

O adversário eu não me lembro, mas recordo que havia algumas pessoas acompanhando, até porque os jogos dele atraiam um certo público. Curiosos e masoquistas, eu diria.

O fato é que, já próximos do fim do segundo set, eles entraram em uma longa troca de bola. Como sei que muitos aqui jogam pouco – ou estou errado? -  e os que jogam devem estar mais acostumados com a força dos golpes atuais e a decisão dos pontos pela via rápida, tenho receio que vão pensar que sou um mentiroso ou, na melhor das hipóteses, um delirante.

O fato é que o Sr. Edson e seu adversário disputaram um ponto por 43 minutos! Quarenta e três minutos! Só me arrisco a contar essa história por ter lido a outra.

Esta, documentada, aconteceu em 23 de Setembro de 1984, em torneio profissional feminino em Richmond, Virgínia, entre Jean Hapner e Vicky Nelson-Dunbar. As tenistas disputaram um ponto durante 29 minutos, o recorde em torneios profissionais. O jogo estava 11×10 no tie-break para Hapner, que perdeu o ponto, o set e o jogo (6/4 7/6 (11)) em 6.31 h minutos. Se alguém tem a curiosidade, as duas trocaram 643 bolas, já que um jornalista, com um bom faro para histórias, fez a contagem à beira da quadra.

Após o ponto, Vicky caiu na quadra, teve câimbras, levou uma penalidade e assim mesmo venceu os dois pontos seguintes para vencer o tie-braek, que só ele levou 1.47h.  A partida entre as duas manteve o recorde da mais longa do tênis profissional por quase 20 anos, até que Santoro e Clement, em RG 2004, quebraram o recorde por 2 minutos, só que em partida jogada em cinco sets.

Duvido que alguém tenha batido o recorde do Sr. Cleto, que foi devidamente cronometrado pelo Sr. Zé Leiteiro, gerente das quadras do Pinheiros, que, como aquele jornalista de Richmond, viu que a o momento levava àquilo.

A grande questão aqui não é o tempo. É a batalha mental envolvida, a força emocional necessária para ficar ali, no mano a mano, com seu adversário, decidindo quem quer mais, quem pode mais. É um teste de vontade único. Tenho a certeza que era isso que cativava o Sr. Edson. Não lembro com certeza quem ganhou o ponto – suspeito que o Sr. Cleto, e tenho a quase absoluta certeza que meu pai venceu a partida. Não importa. Como eu disse, a memória que vale, a afetiva, me diz que ele venceu ambos. Mas sua conquista, a de fazer com um sem número de pessoas se apaixonassem pelo tênis sobreviveu e fala bem alto até hoje. A história acima oferece um razão do por que.

edson cleto

Edson Cleto, (primeiro à dir.) pronto para se divertir.

dunbar.190Vicky Dunbar – uma mulher paciente.

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