Como tudo, para a primeira vez não existe uma ficha de informações. Assim sendo entrei no Yacht Club Paulista com a alma e a mente aberta e esperando pelo melhor. Escrever um blog é uma experiência relativamente nova e a improvisação tem sido uma constante na busca do acerto. Como o pessoal do IG me assegura que o blog é um “case” de sucesso, por razões que um dia discutirei por aqui, levo o assunto adiante na base da intuição.
O que estava claro na minha cabeça era o que havia motivado o pessoal da base organizar o encontro: a paixão pelo tênis, pela escrita e pela leitura. Como o blog não é literário, apesar da capacidade de um e outro leitor, a mim não assaltava a dúvida do que seria o amálgama do nosso encontro.
Já fui uniformizado. A raquete na sacola, assim como boné, munhequeira, toalha etc. Alguns deles já estavam em quadra, deixando claro que pensavam como eu. Chegando fui logo perguntando quem havia marcado jogo para as 9hs de sábado, horário proibitivo para um notívago e para qualquer tenista sério sobre seu jogo – a não ser os tarados.
Mal cumprimentei as pessoas e o Flávio B. colocou um livro de crônicas de sua autoria em minhas mãos. Cinco minutos depois Maysa nos levou para conhecer as simpáticas e surpreendentes instalações do clube. Em seguida fui para a quadra, onde fiquei até às 14:30h, quando Maysa nos convocou para a chuveirada que, por conta do calor, foi um nirvana molhado, seguido do almoço, simplesmente divino.
Sentados à beira da janela, com a represa ao fundo e a brisa amenizando o calor, a feijoada era o prato do dia da casa. O filho do Giuliano preferiu um filet e teve que defender com unhas e dentes suas fritas que, juro, me chamavam. Eu fui de peixe e salada – divinos. Após horas debaixo do sol se comesse carne só levantaria no dia seguinte. A cozinheira está no clube há 32 anos e agora sabe-se bem porque a senhora mantêm seu emprego. O cremoso bolo de chocolate estava dos deuses.
Flávio B como tenista é um ótimo escritor e talvez o mais desinibido do grupo. Tem opinião sobre tudo, estórias mil, não deixa a peteca cair e não tremeu na hora de ganhar o jogo. Seu livro já está na minha cabeceira.
Adriana surpreendeu pela qualidade de seu jogo, considerando o pouco tempo que joga. Como se trata de uma corredora de fundo, usa bem as pernas para chegar nas bolas, é competitiva e entende, intuitivamente, o tênis porcentagem. Seu maridão leva o jogo na maciota e sem erros. Ela confessou que foi parar no blog para descobrir quem era aquele chato que comentava os jogos na ESPN. Jura que mudou de opinião.
Marcos é um canhoto que sabe aproveitar a velocidade e a facilidade para golpear as bolas. Seu drive é excelente, tanto o cruzado como o paralelo, no entanto seu saque está abaixo do resto de seu padrão. É competitivo, adora conversar, é contador de estórias e me presenteou com um vinho que trouxe de sua recente viagem pelas vinhas gaúchas. Teve que ir embora na hora do almoço pois era aniversário da mulher.
Giuliano é um bom 2ª classe e, de longe, o melhor tenista do grupo. Seu irmão também joga direitinho e uma partida sua com Marcos seria equilibrada, assim como foi nossa dupla. Giuliano chegou armado da cabeça aos pés e pronto para a luta. Como saiu do Rio às 4h da manhã, e ainda foi pegar o irmão em Itapecerica da Serra, chegou depois do meio dia. Infelizmente não deu para jogar mais do que dois sets de duplas. Muito afável, como o resto da família, será desafiado em minha próxima passagem pela cidade maravilhosa. Estava acompanhado da esposa, de quem minha mulher falou muito bem, de um casal de filhos e do irmão, simpaticíssimo, e família.
Martin A. veio de Campinas, não se uniformizou e, consequentemente, não entrou em quadra. Como eu passei a maior parte do tempo em quadra só tive chance de conversar, brevemente, com ele no almoço. É uma figura sossegada, educada, claramente bem informado, com agudo sotaque hermano e sapatos Guido nos pés.
Alexandre veio de Niterói e aparentou ser o mais inibido, apesar do sorriso largo e gostoso. É polido, de uma educação ímpar e adquiriu seu mestrado, em exatas, em Coimbra, de onde recém voltou. Ele que foi à Wimbledon este ano. No entanto, talvez por ser retraído, acabou não entrando em quadra comigo, algo que me fez sentir deveras mal quando me dei conta.
O almoço correu na maior alegria e descontração, com as pessoas mudando de lugar para conversar com as outras. Terminou logo após a magra vitória do Brasil sobre a Inglaterra, só acompanhada pelos berros na sala ao lado. Marisa me garantiu que durante as finais de GS o pessoal acompanha as transmissões pela ESPN naquela sala que me lembrou um castelo germânico.
O café foi tomado no salão, já na companhia do Comodoro Bruno, maridão da Maysa e nosso co-anfitrião. Os homens ficaram conversando sobre esportes em geral. As mulheres, acompanhadas do Flávio, sentaram outdoors, que estava mais convidativo. O ambiente foi descontraído, amigável e confessadamente gostoso. Não posso imaginar um sabadão mais atraente.
Se os comentaristas – incluindo familiares, fato que acrescentou na nota – foram os protagonistas desse sucesso, a estrela foi a nossa anfitriã.
Além de apaixonada pelo tênis, Maysa passa a inquestionável impressão de ser apaixonada pelas pessoas e pela vida. Recebeu a todos como se fossemos família e nos fez sentir totalmente à vontade. Fomos tratados a pão de ló. Adoramos.
Um leitor pergunta qual a melhor esquerda da história do tênis. Outro menciona que comentaristas devem ser capazes de determinar momentos-chaves do esporte, lembrando um comentário televisivo meu, sobre a semifinal de RG 2000 entre Kuerten x Ferrero, um dos melhores combates que já vi, e que anunciou uma nova era no tênis. Às vezes fico surpreso com a lembrança por parte de meus leitores/ouvintes de algo que escrevi/falei.
Mencionam que a esquerda de Ken Rosewall foi eleita a melhor da história em alguma eleição em algum lugar. Cresci sob a impressão geral que o australiano tinha a melhor esquerda do mundo. Era batida com uma única mão, como a maioria então. Eram raríssimas as esquerdas com duas mãos. Nessa época, a mais conhecida, quase única, era a do sul-africano Clif Drysdale, hoje o principal comentarista da ESPN americana. Era boa, mas não tão boa como a maioria das de hoje.
O mesmo pode ser dito sobre a esquerda de Rosewall. Era muito boa, mas não tão boa como várias que estão por aí. Ken batia na bola flat e quando necessário envenenava com um leve slice – mas nunca usava top spin. Tinha absoluto controle do golpe, sua maior qualidade. Trocava a direção da bola como quem troca de canal no controle remoto. Batia de qualquer canto para qualquer canto da quadra. Quando atacado, dava tanto no pé do voleador, a maioria então, como acelerava. Ali, ninguém fazia festa, pelo contrário. Como era baixinho, tinha o centro de gravidade baixo e se movia muito bem. Além disso, era forte para a época, seu apelido no circuito era “Músculos”, e muito ligeiro. Como qualquer tenista, mesmo o de fim de semana, pode atestar, uma coisa é bater na bola quando bem posicionado, outra é estar, mesmo que levemente, atrasado.
Ken teve seus algozes – Gonzalez e Laver entre outros, mas ninguém que fizesse festa para cima dele. Seu pior pesadelo foi enfrentar, aos 40 anos, o jovem Jimmy Connors nas finais do U.S Open e Wimbledon, quando tomou um chocolate que talvez o tenha feito se arrepender, por um segundo, de alongar tanto sua carreira – um feito e tanto, nunca mais imitado por ninguém e, duvido, um dia igualado.
O revés com as duas mãos de Connors, junto com o de sua namoradinha de juventude Chris Evert, veio para mudar o “status quo” do jogo, Os dois colocaram a segunda mão na raquete e o esporte nunca mais foi o mesmo. Dali para frente virou padrão entre as mulheres e, com um pouco mais de tempo, se estabeleceu de tal maneira no tênis masculino, que criou uma dúvida na cabeça de todos os responsáveis pela formação de jovens tenistas. Hoje, dá para se dizer que as melhores esquerdas – numa visão mais ampla – são as batidas com duas maõs.
Isso tudo só foi possível por conta do enorme e estrondoso sucesso que tanto Evert como Connors atingiram em suas respectivas carreiras, graças tanto às suas personalidades e instintos vencedores, como por suas principais armas. Ambos eram excelentes contra-atacadores com seus reveses. Chris era maravilhosamente cirúrgica com seu revés, assim como seu namoradinho.
Porém, ao contrário do que acontece hoje, Connors, que era extremamente agressivo, de temperamento e jogo, usava a esquerda para atacar também. Com qualquer bola mais curta, o americano movia os pés como um caranguejo, pegava a bola na subida, tirava o tempo do adversário e ia para o ataque sem pudores. Depois de Chris e Jimbo, o tênis nunca mais foi o mesmo.
Connors e Evert, duas esquerdas e duas personalidades que marcaram o tênis.
Quando eu tinha dez anos descobri que jogando incessantemente bolas altas eu poderia vencer tenistas melhores do que eu. Isso funciona até uma certa idade, quando o estilo deixa de ser eficiente e passa a ser só uma maneira de protelar o próprio crescimento tenístico.
Os balões passam a ser novamente uma opção entre tenistas mais velhos, que não tem mais a mesma força física e a paciência para ficar devolvendo bolas horas a fio, e nunca deixa de ser uma tática nas classes menos privilegiadas em qualidade técnica.
O tirar o peso da bola, que é um pouco diferente de dar balões, mas obedece aos mesmos princípios, é uma tática usada até hoje, ainda que cada dia menos. Está aí o Andy Murray que não me deixa mentir – especialmente por conta de suas alternâncias de ritmo e grande preparo físico para agüentar tal tática. E segue sendo eficiente, e ambos os níveis.
Ruim mesmo, pelo menos de assistir, eram os jogos femininos até poucos anos atrás. Um festival de balões e bolas moles que levavam os amantes do tênis à loucura. O tal estilo que meu colega na ESPN, Marco A. Rodriges, tanto odeia, sempre lembrando dos castigos que era transmitir os jogos da Arantxa Sanchez. Felizmente as meninas atuais enterraram o estilo – espero.
Eu não sou muito fã de jogar com tenistas “varejeiros”, já que é um estilo totalmente atrofiante. Alias, esse é o objetivo do tenista que dá balões ou tira o peso da bola – atrofiar o adversário e minar sua confiança. Prefiro jogar com tenistas que tem um jogo mais franco, mesmo que mais poderosos que o meu, inclusive pelo fator físico, que conta muito com a idade.
Eu até poderia “engrossar” com alguns desses adversários, jogando bolinhas moles e balões, mas seria totalmente conflitante com aquilo que busco no tênis atualmente. Me divertir, fazer um bom exercício, melhorar o jogo e manter o espírito competitivo aceso – acho que até nessa ordem.
No entanto, sei e tenho que admitir que ao me inscrever em torneios terei que aceitar tais confrontos; o que for dentro das regras escritas e da ética é válido. Aí inclusos os balões e as bolas moles e sem peso.
No dia a dia, tenho a opção de escolher os parceiros. Se um deles resolver aplicar uma tática que não seja a minha favorita, tenho total responsabilidade e obrigação de enfrentá-lo e tentar vencê-lo com toda a entrega. Sem frescura, intimidações, acusações, desistências e choradeiras. Tenho também a opção de convidá-lo ou não para uma próxima partida.
Meu pai se apaixonou pelo tênis pouco antes de completar 30 anos. Aprendeu sozinho e ensinou um grande número de pessoas, inclusive seus cinco filhos, mulher, genros, netos, além de inúmeras outras pessoas, já que passou seus últimos anos se dedicando à sua paixão – jogar e ensinar tênis.
Talvez essa paixão explique o seu gosto por jogos longos. Provavelmente não. Adorava deixar seus adversários abrir 4×1, 5×2 e aí avisava, com um sorriso, que iria buscar. Até hoje, a última vez foi neste fim de semana, ouço amigos e desconhecidos lembrarem suas peripécias. A esmagadora maioria adorou fazer parte dessa história, mesmo quando estiveram no lado errado da rede.
Ele adorava jogar torneios e chegou à 1ª classe, dos razoáveis. Mais do que tudo, adorava se divertir em quadra – tênis foi sua terapia, mesmo que nem sempre quem estivesse do outro lado da quadra conseguisse permanecer são.
Outro dia, li no New York Times uma história que me lembrou de uma sua. Não me exijam detalhes desta, porque eu era muito jovem e muito daquela época só revive graças a uma memória afetiva, não tão exata e confiável.
O que lembro foi que aconteceu ali na antiga Quadra 8 do Clube Pinheiros, hoje Quadra 10, não sei por que tinham que mudar o número! Era uma noite, isso eu me lembro claramente. O jogo foi um daqueles encardidos, algo que ele adorava mais do que assistir faroeste na TV comendo mexericas ou caminhar de alpargatas.
O adversário eu não me lembro, mas recordo que havia algumas pessoas acompanhando, até porque os jogos dele atraiam um certo público. Curiosos e masoquistas, eu diria.
O fato é que, já próximos do fim do segundo set, eles entraram em uma longa troca de bola. Como sei que muitos aqui jogam pouco – ou estou errado? - e os que jogam devem estar mais acostumados com a força dos golpes atuais e a decisão dos pontos pela via rápida, tenho receio que vão pensar que sou um mentiroso ou, na melhor das hipóteses, um delirante.
O fato é que o Sr. Edson e seu adversário disputaram um ponto por 43 minutos! Quarenta e três minutos! Só me arrisco a contar essa história por ter lido a outra.
Esta, documentada, aconteceu em 23 de Setembro de 1984, em torneio profissional feminino em Richmond, Virgínia, entre Jean Hapner e Vicky Nelson-Dunbar. As tenistas disputaram um ponto durante 29 minutos, o recorde em torneios profissionais. O jogo estava 11×10 no tie-break para Hapner, que perdeu o ponto, o set e o jogo (6/4 7/6 (11)) em 6.31 h minutos. Se alguém tem a curiosidade, as duas trocaram 643 bolas, já que um jornalista, com um bom faro para histórias, fez a contagem à beira da quadra.
Após o ponto, Vicky caiu na quadra, teve câimbras, levou uma penalidade e assim mesmo venceu os dois pontos seguintes para vencer o tie-braek, que só ele levou 1.47h. A partida entre as duas manteve o recorde da mais longa do tênis profissional por quase 20 anos, até que Santoro e Clement, em RG 2004, quebraram o recorde por 2 minutos, só que em partida jogada em cinco sets.
Duvido que alguém tenha batido o recorde do Sr. Cleto, que foi devidamente cronometrado pelo Sr. Zé Leiteiro, gerente das quadras do Pinheiros, que, como aquele jornalista de Richmond, viu que a o momento levava àquilo.
A grande questão aqui não é o tempo. É a batalha mental envolvida, a força emocional necessária para ficar ali, no mano a mano, com seu adversário, decidindo quem quer mais, quem pode mais. É um teste de vontade único. Tenho a certeza que era isso que cativava o Sr. Edson. Não lembro com certeza quem ganhou o ponto – suspeito que o Sr. Cleto, e tenho a quase absoluta certeza que meu pai venceu a partida. Não importa. Como eu disse, a memória que vale, a afetiva, me diz que ele venceu ambos. Mas sua conquista, a de fazer com um sem número de pessoas se apaixonassem pelo tênis sobreviveu e fala bem alto até hoje. A história acima oferece um razão do por que.
Edson Cleto, (primeiro à dir.) pronto para se divertir.
Às vezes fico um pouco irritado com a posição de alguns leitores, e outros torcedores que encontro por aí afora, e o desdém que encaram a imensa maioria dos tenistas, com a exceção daqueles que elegeram como ídolos. O que mais me irrita é a maneira como chegam a desprezar qualquer um que não esteja ganhando Grand Slams ou brigando diretamente para tal. O negócio chega a ser tão ridículo que tentam menosprezar jogadores de enorme qualidade como se fossem pouco mais do que meros carregadores de malas em aeroporto, sem desmerecer a classe.
A maioria dessas pessoas não tem muita, ou nenhuma, ligação com o esporte. Se tem a escondem muito bem ou, pior, não tem nenhuma estima pelo que fazem. Não descarto também a possibilidade de simplesmente desmerecerem outros por conta da frustração interior de não conseguirem se sobressair em algo. Sei lá o que é, mas é irritante.
Desconhecem as dificuldades enfrentadas para se tornar excelente em uma atividade qualquer, em especial a esportiva, e, mais em especial, a tenistica. Isso porque o tenista, para se sobressair, tem que comer a pão que o diabo amassou por toda sua adolescência e mais um tanto, além de possuir, e construir, uma série de qualidades. E essas qualidades têm que, lógico, ser em maior número e mais fortes do que as deficiências que todo ser humano carrega. Ao contrário de um atleta de salta com vara, por exemplo, tem que ser execente técnica, fisica e emocionalmente, além de lidar com um adversário tentando destruí-lo. Quando escrevo sobressair, lembro os milhares que naufragam antes de se posicionar entre os profissionais que tem uma carreira dentro do tênis – algo ali em torno dos 150 do ranking mundial.
Tenho certeza que a maioria dos meus leitores ficaria contente se, entre os 20 e 30 anos de idade, pudesse gerar uma renda semelhante a esses indivíduos ou, mais realistamente, se pudesse gabar de estar entre os, digamos, 100 melhores do mundo em suas respectivas atividades. No meu ponto de vista, qualquer pessoa dentro dessa categoria é uma pessoa que demanda respeito.
Para não me alongar no assunto – já que o tempo médio do leitor no site é de 02:18 minutos por visita – lembro que o tênis é um esporte para se curtir como certas outras atividades na vida. Existem coisas intrinsecamente intuitivas e universais para se apreciar – uma bela paisagem, uma bela forma, uma mulher boa, ou qualquer coisa de gosto pessoal.
Outras exigem que se aprofunde para serem apreciadas de fato. Um bom quadro, uma boa música, um bom vinho, muitas outros gostos adquiridos e, atento, uma boa mulher. Porque senão se corre o risco de tomar sangue-de-boi como se fosse um vinho de qualidade – um dos 100 melhores do mundo, por exemplo – pendurar o quadro de um contemporâneo enganador como se fosse um artista telentoso, e se babar por uma bunduda qualquer como se fosse uma boa mulher. Aliás, mais uma razão porque admiro tanto Federer como Nadal. Eles sabem o que um bom homem precisa. E não é de uma mulher boa.
Confesso que o interesse dos leitores pelo emocional do jogo de tênis, demonstrado nos comentários recentes, me motiva, já que essa é a faceta mais interessante do jogo para mim. São infindáveis as histórias e exemplos que conheço e vivi – jogando, assistindo, envolvido ou não.
Acho que poderia ficar dias discutindo e comentando o assunto. Penso que tenho me omitido porque, no meu entender, é um assunto que só interessa realmente àqueles que jogam e, de alguma maneira, vivenciaram o drama, a importância e o diferencial do emocional no tênis.
Como percebo que uma boa parte dos leitores é de fãs, que não necessariamente conhecem, e se interessam, o assunto, escrevi pouco. Nos comentário na TV menciono mais o assunto, até pelo o que acontece perante os nossos olhos – daí a expressão da “onça beber água”, um dos momentos cruciais do set e, consequentemente, das partidas.
Essa omissão por aqui é algo que, pela primeira vez, suspeito ser um erro, ou, no mínimo uma omissão, que pretendo corrigir – só espero não estar errado com a nova intuição.
Estou adorando o nível dos comentários dos leitores sobre o post “Porque o Tênis”. Algumas ótimas colocações. Fica claro, como um deles menciona, o fato de alguns leitores serem tenistas e outros meros apaixonados do tênis. De qualquer, mesmo nem todos dividindo a mesma visão, valem todas as opiniões. E como disse, em alto estilo.
Mesmo nos desmembramentos da conversa, como faz o leitor João, que discorda, severamente, sobre minha posição sobre o empate. Talvez o João não seja tenista. Talvez ele, como eu, fique até um pouco triste quando um dos tenistas sai de quadra derrotado. Ou alguem, que não seja um fanático, não ficou triste com a “derrota” de Federer em Wimbledon. Se ele chorou em Melbourne, eu derramei uma lágrima ao assistir a final de Londres. Sim, muitas vezes o empate seria mais justo. Mas quem veio a este mundo esperando justiça em todas as áreas está se expondo a grandes decepções. O tênis é, e não tão somente, um ótimo aprendizado para lidar com situações reais de vida. Sobre as várias outras coisas deste esporte eu tento, tambem, escrever aqui.
E para o leitor Alex; juro que não era para doer em ninguem. O post é só mesmo uma declaração de amor. E se vcs pensam que é algo com o Dácio, por ele comentar em outro canal de TV, asseguro que não, até porque eu sei que ele tambem é um apaixonado pelo tênis, além de ser um bom comentarista. Se em momentos temos pontos de vistas distintos, o que é normal, o foco principal é o mesmo. “That’s life, that’s tennis”.
Acho que vou criar uma seção no blog chamada “Porque o Tênis”. Porque volta e meia surge algo para me relembrar do porque sou apaixonado por esse esporte. Desconfio, no meu intimo, que não são exatamente as mesmas razões de todos os meus leitores, o que não me impedirá de dividir as minhas razões e conhecer a de vocês. Por isso, daqui para frente, quando surgir um fato relevante, pelo menos na minha visão, e eu conseguir escrever a respeito, farei um post. Sejam meus convidados para fazer o mesmo.
O que me pegou hoje foi o jogo entre o gentleman Nicolas Lapentti e o maluco-beleza Marat Safin. Confesso que quando liguei a TV não sabia por quem torcer, ou melhor, por quem sofrer. Porque o jogo oferecia ambas as oportunidades.
Só assisti o terceiro set, a partir do 2×0 Safin. O que aconteceu daí para frente foi uma montanha russa de emoções, bem ao gosto de quem vibra com as alternâncias e possibilidades que o jogo oferece.
Ao contrário do que o comentarista da TVcomentou, e mesmo o que alguns leitores escreveram, não vejo a coisa pelo prisma sugerido. Como fã não acompanho a partida julgando e condenando os jogadores por suas falhas e deslizes. Especialmente em um jogo equilibrado como esse.
Só para lhes fazer salivar, se não acompanharam esse terceiro set, Safin abriu 4×0, perdeu os dois brakes, quebrou novamente no 4×4, sacou para jogo no 5×4 e não conseguiu fechar, estraçalhou sua raquete, pirou e perdeu o primeiro ponto do game seguinte por conta de uma punição. Lapentti sacou no 6×5, teve dois match-points, não conseguiu fechar, perdeu seu saque, abriu, se não me engano, 4×1 no tie-break, perdeu a vantagem e ainda encontrou uma maneira de ganhar o jogo. Tudo isso recheado de alternâncias emocionais e pontos maravilhosos.
Na minha visão, são dois tenistas experientes, talentosos lotados de possibilidades tenisticas, atualmente considerando a aposentadoria e lutando, dentro de seus limites, para acompanharem as dificuldades do circuito. O jogo que apresentaram foi lindíssimo e de alto padrão. Se os erros aconteceram, eu lembro que o jogo de tênis exige, o tempo todo, que cada um dos oponentes tente sempre desequilibrar e destruir o adversário, uma exigência mental desconhecida e incompreensível por quem nunca viveu situação semelhante.
Se os dois em quadra não são um Nadal da vida, ótimo, até porque o meu saco tem limite para Nadal, Federer e perfeições. Adoro ver dois atletas lidando com suas próprias limitações e apresentando suas soluções. Adoro ver um jogo jogado, disputado, sofrido e resolvido. Sim, porque a grande tragédia do tênis é que não existe empate, a coisa mais mariquinha que alguém já inventou para o esporte.
Neste jogo alguém ganha e alguem perde. Empate é para bambis.
Foi técnico de jogadores como Luiz Mattar, Jaime Oncins, Carlos Kirmayr e Cássio Motta. Dirigiu a equipe brasileira na Taça Davis durante 17 anos e a equipe olímpica em Seul, Barcelona e Atlanta. Foi chefe da equipe no Panamericano de Winnipeg e técnico de equipes juvenis brasileiras campeãs Sul-Americanos e Mundiais.