Acerto de contas
A esta altura todos conhecem a história de Jelena Dokic e seu pai – eu mesmo já escrevi mais de uma vez sobre esse drama. Ambos caracterizaram a reincidente história do muitas vezes doentio relacionamento pai/filha no tênis que tantas vítimas já produziu. E isso porque ficamos sabendo somente dos casos quando a filha conseguiu algum sucesso, apesar do infernal relacionamento; imaginem quantos nunca vingaram tenisticamente e tiveram o lado perverso martirizando a família.
Lembrando – o “daddy from hell”, como os jornais ingleses o chamavam, além de espancar frequentemente a garota, roubou todo o seu dinheiro enquanto esteve por perto. Uma ex-tenista chegou a chamar a segurança do hotel por conta dos gritos da menina apanhando. O maluco teve ataques no US Open, quando atirou comida no chão protestando contra a qualidade e os preços do servido aos atletas – no que tinha certa razão, mas não era para tanto. Atualmente os tenistas recebem um valor para as refeições, que continuam sendo no estilo bandejão americano. Em Wimbledon fez uma cena com uma jornalista exatamente na frente, atirando o celular dela no chão e a ameaçando de pancada. Foi carregado para fora do Clube e proibido de voltar. No Aberto da Austrália acusou os organizadores de manipular o sorteio. E isso é só uma amostra do que o doido aprontou mundo afora, terminando por ser proibido de frequentar os eventos.
Esta semana Jelena divulgou que conversou com o pai pela primeira vez em oito anos – ela tem 28. Ela, residente da Austrália, pegou um avião, foi a Belgrado vê-lo e “colocar um fim ao desentendimento”, conforme suas palavras. Jelena foi acompanhada do namorado Tin Bikic, irmão de seu ex-técnico, que não era até então aceito pelo pai – assim como todos os namorados e técnicos anteriores. Ela assegura que foi bem recebida pelo pai, que tinha passado uma temporada na cadeia após ameaçar colocar uma bomba na embaixada australiana e por ter armas ilegais em casa.
Ela diz estar em uma boa fase da vida e acredita que reatar relações será o melhor para ela e a família. O pai proibia a mãe e o irmão caçula de falar com Jelena. O pai foi receptivo à visita e, diz a moça, mudou sua atitude frente à filha, que hoje é uma mulher de 28 anos. Apesar de garantir que continuará a trabalhar com sua técnica atual, Louise Pleming, bancada pela federação australiana, as fotos que chegam de Belgrado mostra ela em quadra com seu pai.
Os relacionamentos pais/filhos é um mosaico de emoções e podem ser repleto de dramas, assim como catalisador de conquistas e/ou perdas. O ser humano, atletas incluídos, depende de motivações – e existem poucas tão fortes como aquelas exercidas pelos pais, conscientes ou não. Quando as cobranças e exigências produzem um saldo muito maior do que o afeto, só Deus sabe no que pode dar. Na maior parte das vezes boa coisa não é. Mas, em muitas, produzem aberrações que se tornam excelências em seus campos de atividade, até porque a força interior é fortemente alimentada permanentemente por uma demanda e contenda interior não resolvida e mal equacionada com o afeto esperado.
Ao que parece, e assim espero, Jelena foi à Belgrado acertar as contas, tentar reequilibrar aquilo que lhe foi dado com o que lhe foi tirado, aquilo que é seu por direito e lhe tem sido negado. Reencontrar o que nunca foi substituído pela carreira de tenista – o que pode ser confirmado pelo insucesso pós-período de menina-prodígio. Algo que lhe foi usurpado pelo delírio de um fracassado que achou que os talentos e esforços de sua filha poderiam lhe assegurar o gozo e o sucesso financeiro que ele foi incapaz de criar para si. É uma tarefa da qual não se foge, e, quanto mais cedo a enfrentamos, melhor para abrir nossos novos e incontornáveis caminhos. O fato é que às vezes a conta tem bom fim, às vezes não. Nenhuma novidade para uma tenista – ou qualquer outro.
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Autor: paulocleto Tags: jelena dokic, pais e filhos




















