A desavença entre a Federação Francesa, a prefeitura de Paris e os vizinhos do Estádio de Roland Garros é antiga. Nos anos 20 a FFT conseguiu da prefeitura o terreno para construir o Estádio Roland Garros – maiores detalhes vocês encontram no meu livro Gustavo Kuerten e Roland Garros – Uma história de Amor. Alguns anos atrás, após muita discussão, a FFT conseguiu que a prefeitura cedesse mais um terreno para a ampliação, já contra a vontade dos vizinhos, onde foram construídas as Quadra Suzanne Lenglen e todas as atuais quadras de treino.
Agora, a FFT quer mais um terreno, para construir a Quadra Coberta. A prefeitura atual disse que não, após um acerto entre o antigo presidente da FFT e o ex-prefeito.
Há muita gente querendo melar o acordo. A nova quadra seria há 500m da atual Quadra Central, já nas margens do Bois de Boulogne, o maior parque da cidade. O pessoal do meio-ambiente da Assembléia local não quer nem ouvir falar no assunto. Os vizinhos, e são muitos, também não. A vida deles vira um inferno durante o evento.
Uma das coisas que a FFT quer fazer também é acabar com evento em Bercy – jogado a semana que vem no Maracanazinho de Paris – e passá-lo para a futura quadra coberta em RG. Seria ótimo para o evento, que o último dos Masters 1000 da temporada.
A FFT se vê contra a parede, contra o relógio e decidiu agora partir para as ameaças, chantagens e blefe. Diz que se o terreno não for entregue há chances de abandonarem o local por outro, que teria que ser obrigatoriamente fora de Paris, o que eles esperam sensibilize a opinião pública – o evento é adorado em Paris.
Há a última opção, que não é a que eles gostariam, de cobrir a atual Quadra Central. A questão é que eles injetaram milhões há menos de 10 anos, construindo (vejam o livro) novas arquibancadas, vestiários, locais para TV etc e “esqueceram” a cobertura de fora. A novela está longe de terminada.
O projeto de Marc Mimram para a nova quadra coberta de Roland Garros.
Os jornais começam a publicar as reações dos tenistas sobre a declaração de Andre Agassi e suas “bolinhas” da alegria.
Federer diz estar surpreso e decepcionado e que espera que casos como esse não se repitam. Fiquei na dúvida se não quer que neguinho fique doidão ou se neguinho conte a verdade muito tempo depois. Federer prefere dar ênfase em tudo que Agassi fez de positivo para o tênis, o que é um fato incontestável.
Nadal foi mais claro. Que história é essa de cuspir no prato? Não falou então e agora vem falar e danificar o esporte/tênis? E coloca o dedo na ferida ao apontar que a ATP pisou na bola total acobertando para o americano e que isso é um desrespeito com o resto dos esportistas. Aquelas conversas do Agassi ficar cutucando o espanhol teve volta.
Roddick insiste em dizer que Andre é seu maior ídolo e nada muda isso. Ele diz que só o julga por como ele sempre o tratou e como Agassi mudou o mundo para melhor. Gosto da transparência do Andy.
Boris Becker, que está ali com o Caetano, que tem uma opinião sobre tudo, diz que ainda está tentando descobrir qual a razão por detrás das revelações do rival. Atente que a dúvida não é sobre a razão do cara tomar drogas. Ele concorda que ajudará o americano vender livros. Mas pergunta por que, já que Andre é um homem rico.
Serena diz que sequer sabe o que é “crystal meth” e não tem nada a declarar, a não ser que ela também está lançando um livro. Será que ela vai contar sobre o relacionamento familiar, questões com racismo e o que ela disse para juíza de linha, ou vai falar sobre moda?
Martina Navratilova, a rainha do politicamente correto – ela andava pelo circuito e nas entrevistas com um cachorro de três pernas, coitadinho, para deixar isso bem claro – diz que Agassi é um mentiroso que se livrou da punição. Ele bateu alguns tenistas enquanto deveria estar suspenso – como fica isso? Arrancam os títulos dele? A senhora não alisou.
Até agora não há repercussões de Pete Sampras, o seu maior rival e sempre low profile, e de John McEnroe, o homem que tem a boca do tamanho do mundo. Os dois devem estar pensando bem o que falar.
O comentário mais crú veio de um jornalista; aprecia a honestidade, mesmo que tardia, mas preferia que ela não viesse com a etiqueta de U$29,99, o preço do livro.
Um leitor pergunta qual a melhor esquerda da história do tênis. Outro menciona que comentaristas devem ser capazes de determinar momentos-chaves do esporte, lembrando um comentário televisivo meu, sobre a semifinal de RG 2000 entre Kuerten x Ferrero, um dos melhores combates que já vi, e que anunciou uma nova era no tênis. Às vezes fico surpreso com a lembrança por parte de meus leitores/ouvintes de algo que escrevi/falei.
Mencionam que a esquerda de Ken Rosewall foi eleita a melhor da história em alguma eleição em algum lugar. Cresci sob a impressão geral que o australiano tinha a melhor esquerda do mundo. Era batida com uma única mão, como a maioria então. Eram raríssimas as esquerdas com duas mãos. Nessa época, a mais conhecida, quase única, era a do sul-africano Clif Drysdale, hoje o principal comentarista da ESPN americana. Era boa, mas não tão boa como a maioria das de hoje.
O mesmo pode ser dito sobre a esquerda de Rosewall. Era muito boa, mas não tão boa como várias que estão por aí. Ken batia na bola flat e quando necessário envenenava com um leve slice – mas nunca usava top spin. Tinha absoluto controle do golpe, sua maior qualidade. Trocava a direção da bola como quem troca de canal no controle remoto. Batia de qualquer canto para qualquer canto da quadra. Quando atacado, dava tanto no pé do voleador, a maioria então, como acelerava. Ali, ninguém fazia festa, pelo contrário. Como era baixinho, tinha o centro de gravidade baixo e se movia muito bem. Além disso, era forte para a época, seu apelido no circuito era “Músculos”, e muito ligeiro. Como qualquer tenista, mesmo o de fim de semana, pode atestar, uma coisa é bater na bola quando bem posicionado, outra é estar, mesmo que levemente, atrasado.
Ken teve seus algozes – Gonzalez e Laver entre outros, mas ninguém que fizesse festa para cima dele. Seu pior pesadelo foi enfrentar, aos 40 anos, o jovem Jimmy Connors nas finais do U.S Open e Wimbledon, quando tomou um chocolate que talvez o tenha feito se arrepender, por um segundo, de alongar tanto sua carreira – um feito e tanto, nunca mais imitado por ninguém e, duvido, um dia igualado.
O revés com as duas mãos de Connors, junto com o de sua namoradinha de juventude Chris Evert, veio para mudar o “status quo” do jogo, Os dois colocaram a segunda mão na raquete e o esporte nunca mais foi o mesmo. Dali para frente virou padrão entre as mulheres e, com um pouco mais de tempo, se estabeleceu de tal maneira no tênis masculino, que criou uma dúvida na cabeça de todos os responsáveis pela formação de jovens tenistas. Hoje, dá para se dizer que as melhores esquerdas – numa visão mais ampla – são as batidas com duas maõs.
Isso tudo só foi possível por conta do enorme e estrondoso sucesso que tanto Evert como Connors atingiram em suas respectivas carreiras, graças tanto às suas personalidades e instintos vencedores, como por suas principais armas. Ambos eram excelentes contra-atacadores com seus reveses. Chris era maravilhosamente cirúrgica com seu revés, assim como seu namoradinho.
Porém, ao contrário do que acontece hoje, Connors, que era extremamente agressivo, de temperamento e jogo, usava a esquerda para atacar também. Com qualquer bola mais curta, o americano movia os pés como um caranguejo, pegava a bola na subida, tirava o tempo do adversário e ia para o ataque sem pudores. Depois de Chris e Jimbo, o tênis nunca mais foi o mesmo.
Connors e Evert, duas esquerdas e duas personalidades que marcaram o tênis.
Meu pai se apaixonou pelo tênis pouco antes de completar 30 anos. Aprendeu sozinho e ensinou um grande número de pessoas, inclusive seus cinco filhos, mulher, genros, netos, além de inúmeras outras pessoas, já que passou seus últimos anos se dedicando à sua paixão – jogar e ensinar tênis.
Talvez essa paixão explique o seu gosto por jogos longos. Provavelmente não. Adorava deixar seus adversários abrir 4×1, 5×2 e aí avisava, com um sorriso, que iria buscar. Até hoje, a última vez foi neste fim de semana, ouço amigos e desconhecidos lembrarem suas peripécias. A esmagadora maioria adorou fazer parte dessa história, mesmo quando estiveram no lado errado da rede.
Ele adorava jogar torneios e chegou à 1ª classe, dos razoáveis. Mais do que tudo, adorava se divertir em quadra – tênis foi sua terapia, mesmo que nem sempre quem estivesse do outro lado da quadra conseguisse permanecer são.
Outro dia, li no New York Times uma história que me lembrou de uma sua. Não me exijam detalhes desta, porque eu era muito jovem e muito daquela época só revive graças a uma memória afetiva, não tão exata e confiável.
O que lembro foi que aconteceu ali na antiga Quadra 8 do Clube Pinheiros, hoje Quadra 10, não sei por que tinham que mudar o número! Era uma noite, isso eu me lembro claramente. O jogo foi um daqueles encardidos, algo que ele adorava mais do que assistir faroeste na TV comendo mexericas ou caminhar de alpargatas.
O adversário eu não me lembro, mas recordo que havia algumas pessoas acompanhando, até porque os jogos dele atraiam um certo público. Curiosos e masoquistas, eu diria.
O fato é que, já próximos do fim do segundo set, eles entraram em uma longa troca de bola. Como sei que muitos aqui jogam pouco – ou estou errado? - e os que jogam devem estar mais acostumados com a força dos golpes atuais e a decisão dos pontos pela via rápida, tenho receio que vão pensar que sou um mentiroso ou, na melhor das hipóteses, um delirante.
O fato é que o Sr. Edson e seu adversário disputaram um ponto por 43 minutos! Quarenta e três minutos! Só me arrisco a contar essa história por ter lido a outra.
Esta, documentada, aconteceu em 23 de Setembro de 1984, em torneio profissional feminino em Richmond, Virgínia, entre Jean Hapner e Vicky Nelson-Dunbar. As tenistas disputaram um ponto durante 29 minutos, o recorde em torneios profissionais. O jogo estava 11×10 no tie-break para Hapner, que perdeu o ponto, o set e o jogo (6/4 7/6 (11)) em 6.31 h minutos. Se alguém tem a curiosidade, as duas trocaram 643 bolas, já que um jornalista, com um bom faro para histórias, fez a contagem à beira da quadra.
Após o ponto, Vicky caiu na quadra, teve câimbras, levou uma penalidade e assim mesmo venceu os dois pontos seguintes para vencer o tie-braek, que só ele levou 1.47h. A partida entre as duas manteve o recorde da mais longa do tênis profissional por quase 20 anos, até que Santoro e Clement, em RG 2004, quebraram o recorde por 2 minutos, só que em partida jogada em cinco sets.
Duvido que alguém tenha batido o recorde do Sr. Cleto, que foi devidamente cronometrado pelo Sr. Zé Leiteiro, gerente das quadras do Pinheiros, que, como aquele jornalista de Richmond, viu que a o momento levava àquilo.
A grande questão aqui não é o tempo. É a batalha mental envolvida, a força emocional necessária para ficar ali, no mano a mano, com seu adversário, decidindo quem quer mais, quem pode mais. É um teste de vontade único. Tenho a certeza que era isso que cativava o Sr. Edson. Não lembro com certeza quem ganhou o ponto – suspeito que o Sr. Cleto, e tenho a quase absoluta certeza que meu pai venceu a partida. Não importa. Como eu disse, a memória que vale, a afetiva, me diz que ele venceu ambos. Mas sua conquista, a de fazer com um sem número de pessoas se apaixonassem pelo tênis sobreviveu e fala bem alto até hoje. A história acima oferece um razão do por que.
Edson Cleto, (primeiro à dir.) pronto para se divertir.
De repente as Olimpíadas vêem para o Rio de Janeiro. Agora começam todos os tipos de especulações e colocações sobre o assunto. Nos próximos sete anos o Brasil viverá uma febre esportiva como nunca na sua história.
Não vou começar com especulações e delírios sobre o assunto. Não vou escrever sobre as inevitáveis palhaçadas e possíveis falcatruas que os Jogos possibilitam. Vou passar os próximos anos escrevendo sobre o quanto essa conquista pode trazer de benefícios para o esporte brasileiro e atento ao que pode prejudicar esse avanço.
O momento é de regozijo pela notícia, muitos outros momentos virão, e os parabéns por aqueles que o tornaram possível. No topo dessas congratulações esse dínamo esportivo, Carlos Nuzman, que, apesar de controverso, galgou cada degrau no esporte brasileiro, acreditou no sonho impossível e o tornou uma realidade. Com certeza, a candidatura terá, agora, uma série de padrinhos, todos querendo aparecer mais do que o outro – mas o maior responsável é o Nuzman.
Para o tênis, um esporte olímpico que já bateu na trave em duas ocasiões para trazer uma medalha para o Brasil – com Oncins e Meligeni – a notícia é tão boa quanto para o resto dos esportes. Nos próximos anos devemos ter, finalmente, um centro, ou mais, de treinamento no país. Fora a motivação de cada um dos jovens que escolher esse esporte daqui para frente.
Porque dos tenistas que estão aí com destaque no profissionalismo, dificilmente alguns deles estarão no Rio de Janeiro. Talvez o Bellucci, que estará bem maduro então. No entanto, um jovem, menino ou menina, de 12/13 anos, idade em que os tenistas começam a pensar em se comprometem com a carreira esportiva, tem boas chances de defender seu país jogando uma Olimpíada em casa. Um sonho que motivará tenistas, dirigentes, imprensa e patrocinadores. Bola pra frente.
Rio de Janeiro – uma chance de melhorar o nosso esporte e de resgatar essa cidade maravilhosa.
Vocês vão me desculpar, mas hoje tive um dia longo e indefinido, cheguei em casa a pouco e não tenho energias para escrever uma estória. Para desencargo de consciência, pela insistência de alguns – vocês não tem o que fazer? – e uns dois textos inspirados nos comentários – que nem mais sei se me inspiraram ou inibiram – que aqui estou. E, para piorar, não consigo pensar em tênis, só nas minhas aflições, que não são nada demais, mas são minhas e me fazem pensar que estou perdendo o calo para tais coisas.
O equatoriano Segura Cano foi o maior tenista de sua época e até hoje é considerado um dos grandes estrategistas do esporte. Ou pelo menos ele tem certeza que o é. Ele formou Jimmy Connors e ajudou outros, como seu conterrâneo Andrés Gómez, e sempre foi uma referencia no mundo do tênis. Tentou beber na água de Gustavo Kuerten, um dia antes da final de RG 97, mas Larry Passos não quis saber de palpites – certo ele.
Pancho dizia, entre milhares de coisas que diz – não sei que fala mais se ele ou Brad Gilbert, mas os dois não devem ter ouvidos, só boca – que:
Só porque tênis é jogado em clubes, as pessoas acham que é esporte de elite. Mas não se precisa mais do que uma raquete e um coração para jogar. O tênis é a democracia em ação. Eu e você em uma arena. Só nós dois. Não interessa quanto dinheiro você tem ou que é seu pai, ou que universidade frequentou. É só você e eu – mano a mano.
Está ai, nessa crua e simplérrima verdade, conhecida por aqueles que jogam, amam e se frustram com esse esporte, a força do tênis. Boa noite.
Uma olhada rápida na chave do qualy de um Grand Slam nos oferece surpresas interessantes. Na chave masculina encontrei o nome do belga Xavier Malisse, que um dia foi um dos melhores juvenis do mundo e rival de tenistas como Federer e Nalbandian.
O rapaz sempre foi um grande talento, joga com a facilidade de quem passeia no parque, teve ótimos resultados, tem 3 títulos no circuito, mas não vingou com a força que poderia. A dificuldade dele sempre teve a ver com o emocional. Tem tenistas que tem problemas sérios com momentos importantes, tanto dentro das partidas como dentro dos torneios.
Uma partida símbolo para Malisse foi a semifinal de Wimbledon 2002, quando Malisse enfrentou Nalbandian após derrotar Kafelnikov, Rusedski e o então campeão Richard Krajicek. Indo à final talvez tivesse lhe dado mais confiança na então jovem carreira, como aconteceu com Nalbandian, que veio do nada para a final de Wimbledon. Aliás, recentemente o argentino declarou que se pudesse mudar um resultado na sua carreira seria aquela final, em que perdeu para Hewitt.
A partida entre Malisse e Nalbandian ficou famosa pelas emoções, por reunir dois jovens talentos virgens em títulos no GS e o incidente com o belga. O rapaz , logo no início, a ter palpitações por conta de um ataque de ansiedade. O pessoal pensou que ele iria ter um ataque do coração e o jogo foi suspenso por 10 minutos, após perder o primeiro set no TB. Ele só retornou à quadra após falar pelo telefone com seu médico na Bélgica.
Perdia o segundo set por 2×4 quando a chuva caiu. Com o intervalo ele se acalmou e, após perder o segundo, ganhou o terceiro e o quarto. O jogo foi interrompido mais uma vez ao final do quarto set por falta de luz natural. No dia seguinte, Malisse conseguiu um break logo no início, abrindo 2×1. Aí os nervos tomaram conta novamente e o belga perdeu cinco games seguidos. Outro dia um leitor perguntou se uma partida pode determinar uma carreira. Olhei a derrota do Malisse na 1ª rodada do qualy e lembrei-me do leitor.
Esta foi contada pelo próprio tenista Ken Rosewall. Para quem não o conhece, lhe resta o Google ou acompanhar mais o meu blog. O segundo personagem, Pancho Gonzalez, foi personagem no blog não faz tanto tempo.
Ambos também são considerados como “grandes tenistas” em qualquer lista ou livro. Ambos abandonaram o circuito amador – que na época incluía os GS – para jogar o restrito circuito profissional, que reunia os “cachorros grandes” do tênis. Ambos seguiam ativos quando veio a Era Aberta.
Só que Gonzalez já tinha 40 anos e assim mesmo, aos 41, venceu aquela que é considerada a “mais longa partida” ao bater Charlie Passarell em Wimbledon por 22/24, 1/6, 16/14, 6/3 e 11/9. Até hoje é considerado o maior sacador da história.
Rosewall chegou à Era Aberta aos 34 anos. Ainda ganhou Roland Garros, Australian Open e U.S Open, entre muitos outros torneios, e foi vice no U.S Open e em Wimbledon, perdendo para Connors, aos 40 anos.
A história quem conta é Rosewall. Quando ele chegou ao circuito profissional – aos 23 anos e após vencer RG e AO aos 18 anos e o U.S Open aos 22 anos – Gonzalez já era macaca velha. O americano/mexicano tinha fama de ser um tremendo casca de ferida, para dizer pouco, e ganhava jogo só na encarada.
O australiano conta que todas as vezes que perdia para Gonzalez – na época os “torneios profissionais” eram quase exibições, os tenistas faziam muitas partidas entre si, já que eram poucos, e pouco mais do que a “honra” estava em jogo; só que se tinham pouco dinheiro, os jogadores tinham muita vergonha na cara – Pancho sequer lhe olhava na cara nas próximas vezes em que se encontravam. Para humilhar mesmo.
Bastava Rosewall vencer para o gringo vir com sorrisos, tapinhas nas costas e fazer questão de sentar à sua mesa para as refeições. Para amolecer mesmo.
Bastava Gonzalez voltar a ganhar, para voltar a ignorá-lo, passar reto na mesa e sequer lhe lançar um olhar ou um “bom dia”. E assim foi para sempre. Com Gonzalez, o “jogo” começava e seguia fora da quadra.
No post de ontem contei um pouco da história de Jimmy Connors. Fechando o assunto, hoje conto sobre uma das mais importantes partidas da história do tênis por todas as circunstâncias que cercavam o confronto.
Como esclareci no post anterior, Connors era um tenista extremamente controvertido, encrenqueiro e egoísta. Não que fosse o único. No entanto, na final de Wimbledon de 1975 ele defendia seu título contra Arthur Ashe, um tenista que era o contraponto de Connors. Um achava que o outro era a encarnação de tudo que odiava. Os dois tiveram questões seriíssimas, desde Copa Davis até em um confronto na final na África do Sul, onde Ashe jogara desafiando o apartheid, em uma das maiores ações políticas/esportivas da história – mas isso é outra estória.
Para fazer a rivalidade mais gritante, Connors entrara com uma ação altíssima na justiça – a americana, onde as coisas andam e acontecem – contra Ashe pessoalmente e a ATP. Connors estava sendo proibido de jogar alguns torneios da ATP porque jogava um circuito alternativo organizado por seu manager, com ele por detrás. A proibição de ele jogar Roland Garros era uma conseqüência disso, até porque que o presidente da FFT, Philippe Chatrier, era muito amigo de Ashe.
Nos três confrontos anteriores, todos em finais, Connors, 23 anos, batera Ashe, nove anos mais velho. Arthur era um sacador/voleador, sempre atacando, com um grande saque reto, linda é ótima esquerda flat e bons voleios. Connors era o protótipo do contra-atacador. Gigantesca esquerda com as duas mãos, talvez a melhor devolução da história, excelente movimentação e sempre agredindo a bola na subida. Nesse confronto de estilo Connors prevalecia.
Mas o grupo de Ashe, a patota americana por detrás da ATP e com serissimas intenções de mandar e desmandar no tênis mundial, como de fato acabou acontecendo, sabia que existia muita coisa em jogo naquela final.
Por conta disso, no dia anterior, Ashe e os tenistas Charly Passarell (atual dono de Indian Wells), Eric Van Dillen (bom duplista), Dennis Ralston (conhecido tenista encrenqueiro) se reuniram no quarto de Donald Dell, tenista que foi capitão da Davis na época e depois dono da Pro Serve, uma das três maiores agencias de gerencia de carreira e dona de inúmeros torneios mundo afora. A agenda: derrotar Connors.
O grupo organizou um brainstorm e bolou uma tática que – exigindo uma mudança radical no estilo de Ashe e uma tremenda disciplina tática e mental deste – surpreendeu o furacão Connors.
Ashe, ao invés de sacar reto no lado do iguais, sacou aberto, com slice, sem peso, e foi à rede. No lado da vantagem variava, tanto o lado como a velocidade. No saque de Connors, que mais sacava e ficava do que vinha, Ashe abandonou sua famosa esquerda flat e jogou slices sem peso e baixos no forehand do adversário. Quando este subia, Ashe usou toquinhos e lobs.
O estilo surpreendeu o então imbatível Connors, que perdeu os dois primeiros sets 6/1 6/1, venceu o terceiro após estar perdendo por 1/3 e perdeu o quarto por 6/4. A vitória de Ashe teve profundas repercussões.
Coincidência ou não, logo após essa final, Connors retirou a ação da justiça e, mesmo sem entrar como sócio na ATP, deixou seu circuito de lado e passou a se concentrar no circuito de seus “amigos”.
Além disso, a derrota mexeu com a então intocável confiança de Connors – que no ano anterior vencera três Grand Slams seguidos, em pisos distintos – o bastante para abrir a porta para a vitória de Manolo Orantes, dois meses depois no U.S Open, usando a mesma tática e, como escreveu Ashe em sua biografia, alterar a confiança e o ritmo de vitórias de Connors em GS, o bastante para permitir as cinco vitórias consecutivas de Borg em Wimbledon, além das seis em Paris.
A Final – no match-point Ashe saca aberto e, já na rede, vira para seus amigos antes de cumprimentar Connors.
Quem deixaram fora dessa conversa sobre o melhor da história é o mano Jimmy Connors, um tenista com o perfil guerreiro beirando o malandro de morro. Foi um lutador inigualável, encarava o tênis como briga de rua, devolvia saque como ninguem, mexia os pés como poucos e atacava a bola como se estivesse morrendo de fome. Quando comecei a ouvir sobre Connors eu ainda estudava nos EUA.
Aos 17 anos sua mãe, a maior influencia em sua carreira e sua primeira técnica, o havia tirado de East St. Louis e o levado para Los Angeles para treinar com Pancho Segura Cano para começar a enfrentar os cachorros grandes que viviam na cidade, então o maior pólo tenistico do mundo. A escolha de Pancho Segura se deveu ao fato do equatoriano ter sido o melhor do mundo em sua época e um dos raros tenistas então a usar as duas mãos – no caso de Pancho, nos dois lados.
Pancho tinha o mesmo perfil bagaceiro. Fora pegador de bola e criado em Guayaquil, não era exatamente um filhinho de mamãe, e tornara-se profissional prematuramente, o que foi o bastante para colocar alguns calos emocionais em qualquer tenista admitido naquele clube super restrito da época – anos 50.
A mãe de Jimmy também não era nenhuma flor que se cheire e, dizem, lhe acertava boladas quando garoto para ele ficar esperto e não confiasse em ninguém. O garoto aprendeu. Tudo isso com o consentimento da avó, que era quem mandava de fato no pedaço. Não me perguntem sobre o pai, pois nunca ouvi uma palavra sobre ele.
Assim como toda a elite do tênis de então, Connors entrou na universidade, no seu caso a UCLA. Não durou muito. Venceu o campeonato universitário em 71 e quis ir para o circuito profissional.
Desde o início entrou em conflito com o status quo, não quis fazer parte da ATP, jogou um circuito paralelo por um tempo, foi proibido de jogar Roland Garros, brigou com a FIT, a federação americana, xingava juízes, afrontava o publico e arrumou inimigos por todas as partes. As histórias são inúmeras, mas não vai ser hoje que vou contá-las.
Venceu o AA, Wimbledon e US Open em 74, um ano em que venceu 14 outros torneios, e aposto que teria vencido RG também, fechando o “Grand Slam”, se não fosse proibido de jogar por conta de estar jogando torneios de um circuito paralelo. Ficou com ódio dos franceses para sempre, ficando ausente de Paris 10 anos de sua carreira, incluindo nos seus melhores anos.
Venceu Wimbledon também em 82 e o U.S. Open em 76, 78, 82 e 83, para o martírio de Borg. Também foi campeão de duplas, com Nastase, em Wimbledon e US Open. Vale lembra que em 76 o US Open era jogado na terra, o que faz de Connors um dos pouco a ter vencido os GS em todos os pisos. No U.S. Open ganhou na grama, na terra e na dura. Se construíssem no gelo ganhava também.
Foi outro que desprezava o AA, onde só voltou uma vez, em 75, quando foi vice, perdendo para Newcombe. Por conta de disso e da briga com os franceses teve seu número de conquistas em GS (8) reduzido. Dá para imaginar se tivesse jogado esses.
É o maior vencedor de torneios da ATP de todos os tempos. Venceu 109 torneios da ATP, fora os que boicotou no início da carreira, e foi vice em outros 51. Apostos todos meus peixinhos-voadores que nunca, ninguém igualará tal marca. No total, contando torneios em formatos inexistentes nos dias de hoje, venceu 148, só ficando atrás de Laver, com 199.
Foi numero 1 do mundo 5 anos consecutivos, tendo como oponentes Borg, Vilas, Nastase, Ashe, Laver, Newcombe, Rosewall, Tanner, Stan Smith, Gerulatis, Orantes Panatta etc. Venceu também 15 títulos em duplas.
Teve uma das carreiras mais longas da história, jogando até os 40 anos, em cujo aniversário bateu Jaime Oncins na Quadra Central do U.S. Open. No ano anterior, aos 39 anos, chegara à semifinal, batendo Courier nas quartas. Foi “top ten” durante 16 anos, outro recorde inatingível. Apesar disso, Connors teve um recorde negativo com alguns de seus grandes rivais como Mc Enroe, Lendl e Borg.
Talvez por conta de sua personalidade e inimizades Connors sequer é lembrado como um dos grandes. Se os números acima não o colocam no topo dessa discussão, servem para nos lembrar, se analisados em seus detalhes e circunstâncias, o quanto é imprecisa e inatingível a afirmação.
Connors – pegava a bola na subida e vontade inigualável.
Foi técnico de jogadores como Luiz Mattar, Jaime Oncins, Carlos Kirmayr e Cássio Motta. Dirigiu a equipe brasileira na Taça Davis durante 17 anos e a equipe olímpica em Seul, Barcelona e Atlanta. Foi chefe da equipe no Panamericano de Winnipeg e técnico de equipes juvenis brasileiras campeãs Sul-Americanos e Mundiais.