Titãs
Já percebi que nas grandes finais, quando estou trabalhando como comentarista na TV, tenho minhas dificuldades em colocar minhas emoções no papel – no caso o monitor. Quando não estou na TV parece mais fácil, as emoções parecem clamar por sair. Quando passou 6 hs comentando um jogo parece que o que eu tinha para dizer/escrever já foi feito.
Confesso que fiquei surpreso com os comentários dos leitores. Bastante da “ignorância” de torcedor foi deixado de lado, dando espaço a uma apreciação do tênis como esporte, o que me deixe muito feliz, além de uma justa reverencia pelos tenistas e o por eles apresentado. Confesso que fiquei orgulhoso.
O que vier abaixo dificilmente se afastará do lugar comum – todos foram emocionados pela final, e pelas semis, e em dias de internet parece que todos tem sua oportunidade de apresentar as suas emoções e ideias.
Assim sendo, ao invés de fazer um Post linear, hoje será mais um jorro de ideias e emoções.
Djokovic e Nadal mostraram ao mundo o que o esporte pode ser. Uma aventura de entrega, doação, força de vontade, garra, emoção, dramaticidade, coragem, onde não há espaço para omissão, desculpas, fraquezas, covardias. Esses dois homens fizeram com que o tênis, e com ele todos os tenistas, fosse visto de uma maneira distinta e com um respeito ímpar. Eles colocaram a integridade do esporte em outro patamar. Poucas vezes na história dois esportistas mostraram o valor do esporte com tanta dignidade, em um palco de tal distinção e, muito importante, para uma plateia tão ampla. Importante – não foi nem a primeira nem a centésima vez que testemunhei tal entrega, mas respaldada por tal exuberância física deu outra dimensão à luta.
A partida confirmou algo que já vem provando ser um padrão; a importância do físico e do mental no tênis competitivo. Um dia acreditaram, e eu nunca fui um deles, que a técnica era o mais importante no arsenal de um tenista. A parte emocional e mental era considerada algo que o tenista tinha ou não. E o físico algo que o tenista podia, ou não, adquirir. Não mais. Um tenista com um físico ou mental fraco não é um grande tenista. Isso ficará cada vez mais consolidado daqui para frente.
Já escrevi, mais de uma vez, como uma bola pode mudar o rumo da partida. Seria imprudente jogar toda essa responsabilidade em uma única bola em uma partida de quase 6hs. Mas me pergunto por quanto tempo Rafael será assombrado por aquela passada de revés na paralela, no 30×15, 4×2, 5º set. Eu, que não tenho nada com isso, me sinto incomodado até agora – até porque tenho certeza do resultado se aquela bola tivesse entrado.
No entanto, nada mais sem sentido do que dissecar esta partida atrás de uma falha. Esta é uma partida histórica que será lembrada pelo prisma de todas as qualidades que foram apresentadas, por dois atletas em busca de uma perfeição que faria com que os deuses, acostumados às nossas por vezes ridículas tentativas, tremessem com o que os dois ousaram.
O mesmo raciocínio vale em tentar mostrar o porque da vitória. O título ficou com Novak Djokovic, mas a vitória foi de ambos, o sucesso foi do tênis e o triunfo foi do esporte.
Djokovic não é mais o mesmo jogador da temporada passada quando ganhou tudo. É melhor. Sua habilidade de manter a calma através de todas as tormentas é algo impressionante. Ontem, com a cobra fumando para tudo quanto era lado, eu olhava seu semblante e o cara estava lúcido, mais tranquilo do que seu oponente, um rapaz que transparece a intensidade que o direciona em quadra. Djoko também é super-intenso, mas aprendeu a relaxar. Fora que vem diminuindo as caras e caretas e milongas mil. Seu foco é o tênis e ganhar jogo e não em tentar ganhar mentes e corações como se fosse o Joker e não o Djoko. Aquele serviu para ele ganhar a fama de gozado na internet, este é grande o bastante para que ele fique com o título de campeão, o que fala por si.
Ficou claro que apesar da incrível temporada passada, os inúmeros títulos e o seu esforço em agradar Novak ainda não tem o amor das arquibancadas como seus maiores rivais. Mas, suspeito, após ontem isso começará mudar. Existe agora um respeito impar por ele e sua nova postura em quadra, que ainda não é a melhor, mas é bem melhor. Além disso, estou aprendendo que deve existir muito pouco que Novak queira que ele não conquiste.
Rafael Nadal mostrou que uma das maiores qualidades que um esportista pode ter é a vergonha na cara. Indignado com as seis derrotas seguidas para o adversário, mostrou que não está nem um pouco encolhido, resignado e pronto para abandonar a luta. Ser campeão é um estado de espírito e não só o fato de se levantar o troféu. E nesse quesito esse garoto é um homem como poucos foram na história.
Alguma coisa, ou mais de uma, este Aberto da Austrália mostrou que estão mudando no tênis. Talvez seja cedo para escrever com clareza e isenção, mas, com certeza, elas ficarão mais claras nos meses adiante.
Notas relacionadas:
Autor: paulocleto Tags: novak djokovic, Rafael Nadal







