Todo tenista deve ter partidas inesquecíveis, para sua alegria e tristeza. Nunca perguntei, mas imagino que uma das que mais deve ter incomodado Thomas Koch foi sua inesquecível derrota em Calcutá.
O Brasil chegara à semifinal da Copa Davis em 1966 após surpreender e bater em Porto Alegre os EUA de Ralston, Richey – que recém lançou um livro sobre sua luta com a depressão – e Arthur Ashe. O time liderado por Koch e Mandarino foi então à Índia para decidir quem enfrentaria a Austrália na final.
O evento foi jogado na grama, piso tradicional no país que herdou o tênis dos ingleses. Na partida decisiva, com a série empatada em 2/2, contra o magnífico e habilidoso Ramanathan Krishnan – que chegou a ser o 4º no extra-oficial ranking de então sobre a grama – Koch abriu 2 x 1 em sets e 5 x 2 no quarto set.
Sacou no 5/3 para vencer, teve seu serviço quebrado, deixando escapar a oportunidade, no que creio deve ser o foco de seus pesadelos, e acabou derrotado por 7/5 e finalmente 6/2 no quinto set para a alegria dos locais. Koch era exímio sacador/voleador e deixar escapar uma vitória desse calibre e dessa magnanimidade em seu próprio serviço não deve ter sido de fácil digestão.
O Brasil só chegaria à semifinal da Copa Davis novamente em 1992, ao vencer sete confrontos consecutivos, incluindo a Alemanha de Becker no Rio de Janeiro e a Itália em Maceió, perdendo para a Suíça em Genebra, em uma de minhas melhores lembranças como técnico da Copa Davis.
O Brasil voltaria a enfrentar a Índia somente 25 anos depois, em 1991, nas quadras de saibro do Clube Pinheiros, contra um time indiano liderado exatamente pelo filho de Ramanathan, Ramesh, que, em uma daqueles mistérios genéticos, tinha exatamente o estilo e golpes do pai – um tenista de toques, suavidade de bater na bolas e antecipação única, que tornava o tênis de ambos atraente inclusive para seus adversários (o avô tambem foi um grande tenista). Seu companheiro de equipe era Leander Paes, que ainda está por aí vencendo títulos de Grand Slams nas duplas. O Brasil de Mattar e Oncins venceu por 4/1.
Desta vez, obedecendo a alternância de local, o Brasil vai a Chennai, no mesmo estádio onde se joga o torneio da ATP. Abriram mão da grama a pedidos de seu principal singlista, Somdev Devvarman, que preferiu as quadras duras, onde joga melhor. Assim, o rapaz carrega a responsabilidade de vencer suas partidas.
Nas contas dos capitães, como sempre, há uma discrepância de planos. Os hindus esperam que Somdev vença suas duas simples e que a dupla Paes e Buphati vença as duplas. Na pior das hipóteses que Somdev perca para Bellucci e seu 2º singlista, Rahan Buphana, um duplista transvertido em singlista (recém esteve na final do US Open) consiga bater Ricardo Mello. O capitão brasileiro conta com a vitória de Bellucci nas duas simples e Mello contra Buphana. Fora isso são surpresas muito bem vindas, ou não, pelos dois times.
Só espero que as impensadas – até porque o rapaz é totalmente avesso a controvérsias – declarações de Mello (“a Índia é um país sujo e miserável”), não incendeiem as arquibancadas – o que eu duvido, por não ser o perfil do povo – especialmente na partida contra Buphana, que aconteceria em uma possível quinta e decisiva partida.
Escrevi o post acima antes do susto da partida entre Bellucci e Buphana que abriu o confronto. Por uma ironia do destino, o hindú teve o mesmo placar de seu conterrâneo Krishnan 44 anos atrás e permitiu que o brasileiro virasse o placar.
Buphana abriu 5/2 no quinto set, teve três match-points, no saque do brasileiro, que os jogou como se não houvesse amanhã. Acabou confirmando o serviço e foi para o ataque total para surpreender e quebrar o adversário no 3/5, assim como Ramanathan fez com Kock quase meia década atrás.
Thomas manteve seu serviço no 4/5, pouco depois de ser atendido por fadiga muscular e quatro horas de jogo. Os oponentes mantiveram seu serviço até o 8/8 quando Bellucci quebrou Buphana e confirmou seu serviço, as expectativas do capitão brasileiro e o primeiro ponto do confronto.

Ramanathan Krishnan – estiloso e perigoso.