Lendas urbanas
Não é a primeira vez que leitores do blog mencionam acontecimentos nos confrontos de Copa Davis contra a Alemanha no Rio de Janeiro e Itália em Maceió, pedindo detalhes sobre certos fatos. Os confrontos aconteceram em 1992, quando o Brasil conquistou a mais longa série de vitória da sua história na competição com seis vitórias consecutivas. Um dia darei mais detalhes dessa campanha, hoje escrevo sobre o incidente que o leitor Walt menciona no post “Mundo da Lua” (à direita, imagem da quadra central em Maceió).
A escolha de Maceió foi controvertida, como são muitas as decisões das confederações na Copa Davis. A diferença é que na minha época eles tinham a ultima palavra comercialmente, que não podiam, nunca, contrariar os critérios técnicos ditados pela equipe. Bem diferente do que acontece hoje, quando o capitão é pau mandado e bate continência com falso orgulho e ardor, porque tem medo de cara feia e de perder o cargo.
Tínhamos batido a Alemanha no Rio de Janeiro e agora enfrentaríamos a Itália, que tinha três bons singlistas; Camporese, Cane e Pescosolido, e um especialista em duplas, Nargiso. Nossos singlistas eram Oncins e Mattar e a dupla Motta e Roese. Tínhamos confiança que se jogássemos no saibro, também especialidade dos italianos, a altura do mar e o calor seriam o diferencial.
A CBT foi atrás de suas opções e voltou com Maceió, já que quem estava por detrás da proposta era Pedro Collor, irmão do então Presidente da República e dono de jornais e TV na cidade e a oferta foi, no todo, a melhor. Para encurtar uma história longa, eles nos receberam bem, com muita boa vontade e a mesma medida de falta de estrutura.
As quadras foram construídas na praia, inclusive uma enorme Quadra Central. Só que, para variar em nosso país, tudo feito em cima da hora. O piso foi feito pela atual presidente da FPT, Paulo Campos, por minha exigência, já que pelo menos ele devia saber o que estava fazendo.
Vale dizer que os hotéis da cidade estavam lotados, já que as expectativas com o confronto eram enormes no país, após batermos a Alemanha de Becker e Cia, e cinco vitórias consecutivas. Todas as TVs e jornais do país estavam presentes, assim como fãs de todo o Brasil e autoridades do tênis internacional.
No entanto, na terça-feira da semana do confronto, segundo dia de treino na Quadra Central, o árbitro, o americano Ken Farrah, me chama de lado e pediu para acompanhá-lo. Dirigiu-se ao centro da quadra, parou ao lado de um dos ferros de sustentação da rede e acenou com a cabeça. Eu olhei na direção da rede e percebi que a linha formada pela rede até o outro ferro estava torta. Ligeiramente, mas com certeza torta.
Para quem não sabe, o ferro da rede é chumbado no chão. Geralmente a sapata de concreto tem um metro de profundidade em uns 40×40 cm de largura. Lá eles são meio exagerados e a sapata era maior. Para quebrar aquilo, e fazer de novo, os treinos teriam que ser interrompidos sabe-se lá por quanto tempo. Chamamos o Paulo, que chamou sei lá quem, que deveriam ser os responsáveis pela aquela obra de engenharia, para avaliarmos o fato.
Só que logo depois caiu uma chuva que inundou a cidade. Um verdadeiro temporal. No dia seguinte, logo cedo, após a chuva, fui até o local e a Quadra Central estava mais de um metro abaixo d’água. O pânico era geral. Com o passar das horas a água abaixou e o piso feito pelo Paulo Campos provou que estava pronto para esse teste climático.
Após avaliarmos os prós e contras da situação o supervisor virou para mim e disse: você vive com isso? Eu vivo, respondi. Eu também, disse ele. Virei as costas e fui.
Chamei meus tenistas, fiz um desenho da quadra com os ferros da rede desalinhados e mesmo aqueles que não estudaram engenharia, como o Luiz Mattar, entenderam a nova geometria da quadra. E assim foi. Naquele confronto da Davis o meu time teve a orientação de sacar, com mais freqüência do que o normal, fechado no lado da vantagem e aberto no lado do iguais. Só que na hora H, os rapazes sacavam mesmo onde tinham confiança e o instinto e as táticas de seus estilos de jogo mandavam. O resto são lendas urbanas. Pelo menos boa parte.
A pedidos, o desenho, feito à mão, da quadra central. Acho que não me expressei bem ao escrever que os postes estavam desalinhados. Lá estão, no lado do iguais o maior espaço para o saque aberto, e no lado da vantagem, o espaço maior no saque fechado.
Notas relacionadas:
Autor: paulocleto Tags: Alemanha, Brasil na Davis, Camporese, Cane, Itália, Maceió, Mattar, Motta, Nargiso, Oncins, Pescosolido, Rio de Janeiro, roese










