O leitor Edu, ele não oferece mais informação do que isso, me pergunta como um técnico de Copa Davis consegue implementar uma metodologia ou estilo para um jogador que já possui um técnico, onde muitas vezes este possui um estilo distinto do seu? Uma pergunta interessante, cuja resposta daria um livro. Sendo assim, vamos a uma mais breve.
Antes, uma informação. Esta semana os dois capitães dos times finalistas da Davis saíram de seus times. Por razões distintas. Tito Vasquez saiu porque a federação argentina quer um rodízio e, principalmente, porque seu relacionamento com os tenistas não é totalmente harmonioso. Vamos deixar algo claro: dificilmente é totalmente harmonioso esse relacionamento. Ele sobrevive se uma série de variáveis funcionarem.
Se o relacionamento entre as partes for de respeito mutuo e, principalmente, de respeito à hierarquia, se os tenistas forem comprometidos com o evento acima de seus interesses pessoais, as chances são maiores. No caso dos argentinos, eles têm uma situação entre os dois principais tenistas e não é de hoje. Além disso, Nalbandian é um personagem de personalidade muito forte e não necessariamente um agregador. Tito Vasquez declarou que ele é um líder negativo, o que é um problemaço.
No entanto, Nalbandian tem o espírito da competição, enquanto que Del Potro ainda está devendo mostrá-lo, para o time e para ele mesmo. Alguém aqui no Blog disse que Delpo foi o protagonista do confronto. Acho que foi mais no de coadjuvante de luxo. Na Davis, ou no tênis, a diferença está em vencer e não em jogar bem. Uma coisa é lutar, jogar bem, fazer um bom papel, perder no quarto ou quinto set e voltar para o vestiário, que fica pior do que velório nessa hora, com cara de bunda. O pessoal pensa – “é fo.., a coisa vai mal e vai ficar pior porque sobrou pra mim”.
Outra coisa é o cara que encontra um jeito de vencer em quadra, contra adversários melhores ou piores, o que nunca é fácil, volta para o vestiário, olha todo mundo na cara e diz – “pessoal, eu fiz o meu ponto, bola pra frente!” Os carinhas olham pra ele e pensam – “ele é o cara, a nossa inspiração, vamos atrás!” O Delpo já é um jogadorzasso e ainda vai aprender a lidar com a pressão sobre o cachorrão, que é diferente da sobre o tenista mediano que não tem a responsa de decidir. O duro mesmo é o cara que não ganha um jogo que faça a diferença, só dá menos desculpas do que entrevistas se auto-elogiando, quando não está jogando a culpa de seus fracassos em outros.
A saída de Carlos Costa tem outro perfil. Uma dica foi a imediata recusa de Carlos Moya sobre a possibilidade de aceitar um convite. A razão fica escancarada com a notícia de que Nadal, Ferrer, Verdasco e Feliciano não jogarão a Davis em 2012 – a razão alegada é o desgaste e por ser um ano de Olimpíadas. Esse time é um dos mais fortes da história porque tem liderança. E essa liderança chama-se Rafael Nadal, esteja em quadra ou não. O cara é uma inspiração e não tem o menor receio de abraçar a responsabilidade de ser o líder. Ele foi o primeiro a avisar que estaria fora. Os outros seguiram.
O que me lembra uma história pessoal na Davis. Em um momento pontual de transição o time estava sem um #1 contundente e, consequentemente, sem um líder. Como o próximo confronto seria em casa contra um grande time e estávamos a uma década sem perder em casa, tive uma conversa com o então #1 brasileiro no ranking sobre a necessidade de termos um líder que pudesse inspirar. O cara quase morreu. Pirou! Começou a falar pelos cotovelos, balançando os braços e arrumando os cabelos e a dar todo tipo de desculpa, culminando com a que estava ali para ser mais um e não para ser responsável por nada. Foi a primeira e única vez que vi um tenista agindo daquela maneira, até porque das outras vezes não tive a urgência de fazer uma escolha vergonhosa como aquela. Foi um dos maiores banhos de água fria que tomei na carreira. O tenista, óbvio, fixou-se no papel de coadjuvante, mas sempre tentando se vender como protagonista.
Quanto aos espanhóis, o cargo de capitão/técnico torna-se agora a maior batata quente do país. Quem vai querer herdar um cargo que do time campeão ninguém vai aparecer para jogar? Costa pediu para sair; óbvio que não oferecendo estas razões.
Um técnico de Copa Davis não traz, ou não deveria trazer, uma metodologia de estilo para cada tenista para a Davis. Não há tempo para isso e nem é a exigência. O que é necessário é o técnico trazer uma filosofia de trabalho, responsabilidades e comprometimentos com o esforço coletivo que deve ser abraçada por todos. Vale lembrar que tenista é um ser extremamente individualista e, às vezes, com certa dificuldade para se adaptar ao coletivismo.
Talvez uma das melhores coisas que deixei no time brasileiro foi a cultura do time acima do individuo, algo que sempre foi regra enquanto estive lá e que, mesmo depois de minha saída, continuaram mantendo a tradição, segundo tenistas que permaneceram no time se apressaram em me dizer. A coisa foi sendo passada de geração para geração e, pelo menos até onde sei, segue sendo uma verdade, talvez diluída pelo tempo.
No entanto, o cargo exige uma personalidade que lidere os tenistas fora das quadras – que é bem distinta da liderança dentro da quadra, que é sempre exercida por um ou mais dos atletas – e que, por vezes, demanda também bater de frente com atletas que atentam mais para seus interesses pessoais do que para os do time.
O trabalho final do técnico é saber, e conseguir, inspirar os atletas a apresentarem um desempenho acima de seu padrão, por conta de tudo que está envolvido – a oportunidade, única no tênis, de competir por um grupo e o país. Essa responsabilidade é a verdadeira diferença entre a Copa Davis e as outras competições do tênis, a razão da emoção e da pressão que toca os atletas. Sob essa luz, uns crescem, outros encolhem. C’est la vie.


O ESPÍRITO DA COPA DAVIS