Eterno Retorno | Paulo Cleto

Publicidade

segunda-feira, 28 de maio de 2012 O leitor escreve, Porque o Tênis. | 22:06

Eterno Retorno

Compartilhe: Twitter

Como vários leitores e amigos tiveram a cortesia de postar e enviar seu suporte sobre o término de minha parceria com a ESPN, tomo a liberdade de postar abaixo, com a devida autorização,  o email enviado pelo leitor Martin H, já conhecido e admirado nestas paragens, sobre o assunto. Achei que com sua sempre afinada escrita traduz bem o que tanto eu como meus leitores vem colocando sobre assunto.

Cleto,

das poucas coisas que ouso dizer, sem ter minha boca azedada em falsa modéstia ou presunção (dois males capiciosos de mesma raiz), é que sou um bom leitor. Já li bem e bastante. Dentre as coisas que li, lembro de ter fulgorado um pouco mais minha puberdade – por definição, já cheia de suas próprias agitações – com o romance “A Insustentável Leveza do Ser”, especialmente nas suas primerias páginas, nas quais Kundera fala do mito do eterno retorno. Já li coisas melhores, inclusive sobre o tal mito. Mas não lembro de nada que tenha lido cujas primeiras páginas tenham prendido tanto minha atenção como aquelas primeiras páginas desse romance, motivo pelo qual as digitei e guardei comigo.

Há tempo não lembrava daquelas palavras. Teu post “Círculos”, que li há pouco, me fez retornar, com velocidade, a elas, o que foi retornar um pouco àquela minha puberdade também.

De fato, há qualquer coisa de incomum nesse mito, que é a encruzilhada a que eles nos leva: tomamos partido do passado e do futuro – pois o círculo, nunca a linha!, do ontem e do amanhã irá sempre nos deter em seu raio –, ou tomarmos partido do agora – o que não deixa de ser um grito clamando por liberdade?

Hoje, nessa tal encruzilhada, fico com o agora. A certa tristeza do agora. A tristeza do agora de um Roland Garros calado da voz com que lhe costumei ouvir. Um Roland Garros triste porque dimensionado em quatro linhas. É que eu, naquela voz de Roland Garros, o ouvia sem dimensões.

E é por isso, na esperança de encontrar a voz que não ouvirei, tal como num protesto gandhiano, farei uma greve. Em satisfação que sequer lhe conviria, Cleto, digo-te que, nesta minha casa, Roland Garros será transmitido, a partir deste triste agora, mudo.

Um grande abraço,

Mártin

P.S.: deixo-te com aquelas primeiras páginas que digitei daquele romance, às quais fui remetido, de imediato, pelo teu post:

Kundera, Milan. A insustentável leveza do ser. Tradução de Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca. 68ª Impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 09-12:

1

O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal com foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?

O mito do eterno retorno nos diz, por negação, que a vida que vai desaparecer, de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem peso, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor, não têm o menor sentido. Essa vida não deve ser considerada mais importante do que uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte através de indescritíveis suplícios.

Será que essa guerra entre dois reinos africanos do século XIV se modifica pelo fato de se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno?

Sim, certamente: ela se tornará um bloco que se forma e perdura, e sua tolice será sem remissão.

Se a Revolução Francesa devesse repetir-se eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas, como ela trata de uma coisa que não mais voltará, os anos sangrentos não são mais que palavras, teorias, discussões – são mais leves que uma pluma, já não provocam medo. Existe uma enorme diferença entre um Robespierre que não aparece senão uma vez na história e um Robespierre que voltasse eternamente cortando a cabeça dos franceses.

Digamos, portanto, que a idéia do eterno retorno designa uma perspectiva na qual as coisas não parecem ser como nós as conhecemos: elas nos aparecem sem a circunstância atenuante de sua fugacidade.

Essa circunstância atenuante nos impede, com efeito, de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia, inclusive a guilhotina.

Não há muito tempo, eu mesmo fui dominado por este fato: parecia-me incrível, mas, folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado diante de algumas de suas fotos; elas me lembravam o tempo de minha infância; eu a vivi durante a guerra; diversos membros de minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a morte deles diante dessa fotografia de Hitler que me lembrava um tempo passado da minha vida, um tempo que não voltaria mais?

Essa reconciliação com Hitler trai a perversão moral inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente perdido.

2

Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que faria com que Nietzsche dissesse que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht).

Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza.

Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?

O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.

Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes.

Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?

Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não razão? Essa é a questão. Uma coisa é certa. A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.

Autor: paulocleto Tags:

31 comentários | Comentar

  1. 31 fred magalhães 29/05/2012 5:35

    Cleto,

    estou em Paris e estive no dia de ontem no torneio de Roland Garros, inclusive assisti ao jogo do djokovic inteiro e o quarto e quinto set do Bellucci (que lástima).

    Como é que eu faço para postar as fotos do torneio, inclusive das chegadas de Nadal e Djokovic no complexo de Roland Garros?

    abços.

    Responder
  2. 30 belarmino 29/05/2012 5:37

    Assim eh a vida…saem os tenistas, saem os comentaristas… e ficamos com saudade de ambos.

    Responder
  3. 29 Lais 29/05/2012 6:54

    Que carta bem escrita. Que texto bem escrito. Bons tempos em que se sabia transmitir emoções em uma escrita impecável. Sua presença, mesmo na ausência, será sentida por muitos. Tuas palavras, escritas, ficam pra sempre. Comentários, podem ser distorcidos e mal interpretados. Quero crer que saímos ganhando em toda essa história! Teremos seus comentários eternizados em seus textos. Um grande abraço.

    Responder
  4. 28 Mr Marco 29/05/2012 8:50

    um jogo que deve estar maneiro e’ do Dimitra x young…
    valia a pena ver

    Responder
    • césar cambuí 29/05/2012 9:49

      Concordo Paulo Campo,
      É como dizia Sotero Monteiro, “pelo arriar das malas se conhece o jogador”
      Falta bagagem ao Dimitrov.

    • Paulo Campos 29/05/2012 9:31

      esse moleque não guenta essa mulher não rapaz… rsrs

    • Mr Marco 29/05/2012 9:25

      legal, nao sabia
      .
      Tem outra pressao em cima dele e e’ pesada:
      http://tenisbrasil.uol.com.br/noticias/12840/Dimitrov-despista-boatos-de-affair-com-Serena/
      .

    • Paulo Campos 29/05/2012 9:22

      em 2008 ele ganhou Wimbledon e US Open juvenil…
      .
      O gordinho ex-técnico do Federer (esqueci o nome) fala que ele joga mais fácil que o mestre.
      .
      Ele sofre essa pressão de ser o novo Federer e ainda não conseguiu assimilar também. Já tá com seus 21 anos e ainda não conseguiu nada demais, mas quem sabe ele deslanche…

    • Mr Marco 29/05/2012 8:58

      acompanho esse Dimitrov ha’ um tempo e torco para que ele se firme no circuito.
      Ele tem um jogo versatil que se encaixa com qq superficie…
      O cara agora fechou o 1o set com 7 aces. Para quem e’ mais um jogador de fundo de quadra e na terra nao e’ nada mal.

    • Mr Marco 29/05/2012 8:54

      Dimitra venceu o 1o set.
      O cara tem toda a pinta do master

  5. 27 Vanderson 29/05/2012 9:49

    Poxa… tô chateado! Acordei cedo no domingo esperando ouvir a transmissão do Cleto pela ESPN, mudei várias vezes da HD, para a Brasil, para a ESPN… e nada… confesso que até hoje (terça) esperava que o Cleto aparecesse… em vão.

    A transmissão perdeu o tempero… tá sem vida!

    Responder
  6. 26 Paulo Campos 29/05/2012 10:09

    E o jogo do Nadal não irá durar mais de 1h30…

    Responder
  7. 25 césar cambuí 29/05/2012 10:31

    Alguém pode me citar um tenista acima da 30ª posição no ranking que não tenha os nervos à flor da pele e que não chore com qualquer beijo de novela?
    Exagero na metáfora para dizer que acho Bellucci um 30 para cima e que não conheço nenhum tenista nesta posição que tenha o equilíbrio emocional que a imensa maioria das pessoas deste Blog espera do Bellucci.

    Responder
    • Otávio Romeo 29/05/2012 11:34

      Perfeito César!

    • Mr Marco 29/05/2012 10:37

      concordo. Alias sobre esse assunto nem falo mais nada

    • césar cambuí 29/05/2012 10:34

      Na verdade, ABAIXO.

  8. 24 Mr Marco 29/05/2012 10:35

    BOLLELLI joga uma bola naquelas garrafas do Nadal, rapa!!!
    Faz um strike hehehehehe.
    .
    Ai o tourinho ia virar pro juiz e falar:
    - Io no me voy jugar mas!! Que falta de respeito!!

    Responder
  9. 23 ANDRE 29/05/2012 10:38

    Eterno Retorno

    Só agora que fui entender este título. O retorno de Belo aos ATP250, não tem mais ranking para MAster, será um ótimo retorno.

    Responder
  10. 22 Olavo 29/05/2012 10:38

    Com a perda do Cleto é como ter andado de Ferrari e agora termos que cavalgar de jegue.
    Quanta pobreza.

    Responder
    • Luinha Feia 29/05/2012 17:02

      Menos, bem menos Sr Olavo.

  11. 21 Paulo 29/05/2012 10:42

    Texto sensacional.

    Responder
    • Paulo 29/05/2012 10:47

      By the way, maybe this is nice opportunity to practice our English by listening to the foreign commentators. Although I will still miss those funny quotes by Cleto.

  12. 20 Mr Marco 29/05/2012 10:44

    fora d topico:
    O patrao reclamou que eu depreciei os titulos do connors frente ao Federer e Nadal.
    Mas e’ que o q esses dois ganharam e’ impressionante em qualidade.
    O Fedex 16 GS nos 4 pisos, 6 Masters cup e 20 M1000.
    O Nadal apenas com 25 anos: 10 GS nos 4 pisos e 21M1000 – AOS 25 anos.
    .
    E o Connors apesar de muito mais titulos , ganhou 8 GS mas sem fechar o slam…
    Por isso que realmente esses 2 atuais e mais o que prenuncia ser a carreira do Djoko sao algo digno de superioridade, sem desmerecer a carreira do connors.

    Responder
    • Gavio 29/05/2012 19:38

      Marco, eu concordo com você, em parte. Os tenistas americanos usufruem e usufruíam muito mais do circuito americano, e por isso essa avalanche de titulos, inclusive boa parte dos GS foram em casa,

      Obviamente os organizadores dos torneios preparam a superficie para ficar ao gosto dos tenistas locais.

      Para mim, os americanos teriam bem menos titulos se o circuito não fosse tão americanizado.

      A torcida faz diferença, jogar em casa faz diferença para o empenho dos tenistas, veja o que o Seppi fez contra o Wawrinka em Roma, é outra historia.

    • paulocleto 29/05/2012 13:43

      Marco – vcs tem que perder essa mania de depreciar tudo e todos que não conhecem. Mais respeito é bom e mostra um pouco de cultura. Nem que for só tenistica.

    • Sawyer 29/05/2012 11:21

      Mas ele, se não me engano ganhou em todas as superfícies…teve algumas edições do US Open disputado no Saibro, e ele venceu uma delas…..

      Se for considerado pela longevidade, o número de títulos é sim um feito…pode ter vencido muitos torneios ao equivalente ATP 250 ou ATP 500…mas tem gente no Top 10 hoje sem ter ganho um” mísero” ATP 500 (Tipsarevic)..poxa , um cara de 39 anos chegar a uma Semi-Final de Grand Slam….

      Connors, sem dúvida alguma está entre os Maiores…Não é lá muito o exemplo de caráter não…mas tenisticamente, há de se respeitar a história dele

    • Paulo 29/05/2012 10:52

      Camarada o tênis era diferente naquela época, incluindo pisos e equipamentos. Jogar na grama naquela época era muito mais difícil para um jogador de fundo de quadra do que hoje, não é a toa que temos uma extinção de sacadores e voleadores. Haviam também os caras que praticamente só jogavam saibro. Ou seja ser um jogador de 4 pisos hoje é muito mais simples do que em tempos passados. Assim como o destaque que se dá a M1000 hoje é diferente do que já foi.
      Em linhas gerais, comparar melhor de todos os tempos é pura demagogia.

  13. 19 gustavo dos anjos 29/05/2012 10:47

    Não existe jogo rápido para o Nadal, independentemente do nível do adversário.

    Responder
    • Luinha Feia 29/05/2012 17:04

      É vero, u omi gosta de enrolar….

  14. 18 Otávio Romeo 29/05/2012 11:35

    Cleto,
    Alguma chance de ouvirmos seus comentários nas finais em salas de cinema 3D?

    Responder
  15. 17 Piki 29/05/2012 12:13

    Ouvir no mute?????
    Então tá então…

    Responder
  16. 16 J. Andrade 29/05/2012 12:33

    Nunca enviei um comentário sobre tênis, pois sou dos ditos do “sofá” e por problemas físicos abreviei minha iniciação ao tênis. Mas aprendi a assistir e gostar e com Paulo Cleto, com seus comentários técnicos e irônicos(ria muito), mais ainda. Fico triste, pois nos identificamos com o comentarista, no caso, acima da narração e confesso que sinto essa falta. Não vou deixar de assistir Roland Garros, mas Paulo Cleto, se não é insubstituível(ninguém é,óbvio)mas sua presença é indispensável. Volte por outra emissora que transmita. Os fãs do tênis agradecem.

    Responder
  17. 15 Ferracini 29/05/2012 16:10

    Grande Martin!!!!Sensacional!!!!

    Responder
  18. 14 Berenice Gazoni 29/05/2012 18:50

    Concordo plenamente, ver e ouvir os jogos de RG perderam totalmente a graça! Faz muita falta os seus comentários . Além de assistir grandes jogos , tinhamos o prazer de ouvir os seus comentários inteligentes, divertidos, comentários de quem sabe realmente do que está falando. Volta Paulo!

    Responder
  19. 13 Vinicius 29/05/2012 23:09

    Paulo Cleto,
    vou sentir muitas saudades dos seus comentários. O tênis perdeu metade da graça, a outra metade vai acabar quando o Federer se aposentar.

    Responder
  20. 12 Guilherme Vecchi 03/06/2012 14:35

    Sentiremos MUITO sua falta , Paulo Cleto ! Aprendi muito com seus comentários.
    Espero que um dia retorne aos canais ESPN.
    Abraço !

    Responder
  21. paulocleto 29/05/2012 13:46

    Paulo – ensina um pouco esse pessoal aí….

    Responder
  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. Última
  5. ver todos os comentários
 

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

* Campos obrigatórios


 

Responder comentário


* Campos obrigatórios