Atitude | Paulo Cleto

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segunda-feira, 6 de junho de 2011 Tênis Masculino | 01:52

Atitude

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Devo ter me excedido nos comentários durante a transmissão da vitória de Rafael Nadal sobre Roger Federer. Às vezes jogo a caução pela janela e me deixo levar pela emoção do que testemunho. Não importa se é o esperado ou não, é o que acontece. É raro, mas acontece.

A teimosia de Roger Federer me tirou do sério. Nem a incapacidade de parte dos fãs em entender a língua falada e/ou escrita tem o mesmo impacto em mim. Sou acusado de ser parcial ao Federer na mesma proporção de o ser a favor do Nadal. No fundo, para minha frustração, mas não mais decepção, as pessoas não ouvem, ou lêem, e assimilam. Sei lá qual é essa incapacidade de ler e ouvir sem manchar ambos com as próprias emoções e preconceitos. Mas, como escrevi acima, o que me tirou do sério mesmo hoje foi o Federer.

Fico imaginando se a mudança das bolinhas foi uma conspiração da FFT para acabar com a hegemonia de Nadal em Paris ou só um esforço para acabar com a chatice que estava se tornando o jogo sobre o saibro. Se houve a primeira intenção, naufragou. Quanto à segunda, um sucesso muito bem vindo. Afinal, a mesma chatice que causou a troca anterior – a hegemonia dos sacadores – imperava no saibro atual. Mas nem assim Federer conseguiu mudar o riscado.

No entanto, me arrisco a dizer que, mais do que em qualquer outra oportunidade, ele teve o cenário e as chances para tal. Voltara a jogar bem e confiante. Contratara um técnico e não mais dependia das estratégias de um valet, que é o verdadeiro cargo do Severin Luthi. E não que o Anaconne tenha lhe dado alguma estratégia inovadora e brilhante. Era só o caso de fazer o óbvio, considerando o tênis de ambos.

Ver um talento desse calibre ser limitado por uma atitude que beira a soberba é sempre frustrante. Aquilo não pode ser só uma miopia tática. Federer parece ter algum pacto com os deuses que deixou o Nadal de fora. Tem alguma coisa que lhe entra na cabeça que o impede de praticar um tênis, do começo ao fim, e lhe possibilite bater tal valoroso adversário. Quem assistiu a partida pela ESPN sabe aos detalhes que me refiro. A sua falta de disciplina tática está quase à altura de sua facilidade para bater nas bolinhas. Como Nadal ensina, todos os dias, o casamento de ambas qualidades faz o maior campeão.

Nas entrevistas disponíveis no site de Roland Garros – que aliás é a partir deste ano censurado por exigência de jornalistas, algo bizarro – essas posturas ficam evidentes para quem procurar nas entrelinhas.

Federer fala, fala e não diz nada. Repete a mesma ladainha de sempre, como se a vitória ou a derrota fosse por algum capricho do destino em uma ou outra bola e um ou outro game.

Nadal é mais sal da terra. “Eu tento o meu melhor a todo momento e com a atitude correta. E assim eu consegui jogar o meu melhor quando eu precisei do meu melhor. E por isso eu estou aqui com o troféu de campeão”. Pode parecer simples ou mesmo simplório para explicar suas constantes vitórias e sua dominância sobre os outros tenistas, incluindo o por muitos considerado o melhor da história. Para mim diz tudo sobre a sua dominância sobre Federer.

Federer se acostumou, mal, em vencer sem precisar de uma mais rígida disciplina tática. É um tenista intuitivo na mais alta percepção desse valor e alcançou seu enorme sucesso nas quadras por conta de suas habilidades que são enormes e sem par. Às vezes, dentro de uma partida, apresenta um tênis indescritível, soberbo e vencedor. Porem, se permite, por vezes, a apresentar um tênis bonito e não vencedor. Para se bater um grande adversário há que se utilizar das táticas corretas também. E nisso o suíço peca. Contra muitas ele impera só com seu estilo, técnica e intuição. Contra Nadal, não.

Ao enfrentar um adversário do valor de um Rafael Nadal que, não se enganem, traz também às quadras um arsenal considerável, ajudado por uma aliança de dote físico e poderio mental nunca dantes visto em quadras de tênis e, tenho cá minhas certezas, em qualquer outro esporte, algo que seu amigo, e por vezes rival, Carlos Moya, cobriu muito bem, no Bola da Vez desta semana na ESPN-BRASIL.

Fico a imaginar, só me resta imaginar, se Federer tivesse uma rigidez mental desse porte e, consequentemente, uma capacidade para a disciplina tática no mesmo padrão de Nadal. O quanto majestoso seria. Ou, se preferem, o inverso, se o espanhol tivesse as habilidades do suíço. De qualquer maneira, são só conjeturas.

O fato é que Rafa Nadal se impôs, mais uma vez, porque suas qualidades falaram mais alto do que as de Federer, mesmo com a sutil ajuda dos organizadores franceses. Nadal recém completou 25 anos e igualou o recorde de Borg de seis títulos em Paris – algo inimaginável, perguntem ao Kuerten. Quantos outros recordes esse fabuloso atleta irá igualar e destruir em sua carreira? A sua frase acima nos diz que, por enquanto, não há limites. Enquanto que para Federer seus limites são, cada vez mais, encurtados pelos de Nadal, e agora Djokovic, e, mais do que nada, pela sua insistência em não adotar uma postura que faria dele um dos maiores atletas da história.

Nadal – e este é seu ponto frágil…

Notas relacionadas:

  1. Recordes e estratégias
  2. A raposa
  3. Presente.
Autor: paulocleto Tags: ,

124 comentários | Comentar

  1. 4 Gabriel Dias 06/06/2011 2:29

    Aplausos, Aplausos!

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  2. 3 LauroCezar 06/06/2011 3:02

    Belo texto como sempre, Cleto! Bom, felizmente não me incluo entre os que não querem entender o que fala e escreve. Ao contrário, tento sempre aprender. Gostei muito da transmissão e acho ótimo que haja essa interatividade entre você, o Maraucci e o Marco Antonio ou como na sexta, o João! Excelente!!! Lembro-me de ter lido aqui que era uma ideia de vocês a de colocar 2 comentaristas juntos na narração e acho que ficou aprovado mesmo!

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  3. 2 Moacyr 06/06/2011 3:05

    Acompanhar Nadal x Federer deveria ser daqueles momentos eletrizantes e sublimes do esporte, especialmente por se enfrentarem quase sempre em finais dos principais acontecimentos tenísticos ao redor do mundo. Porém, lamentavelmente, há muito que esses encontros já se transformaram num evento monocórdico, numa praga continuada, num rame-rame tediosamente previsível, às vezes penoso. Como você disse durante a transmissão de ontem, aqueles que torcem pelo Federer, ao vê-lo fazer obsessivamente o contrário do que deveria, ficam é com raiva… muita raiva! Parece que ele tem vergonha, sei lá, de explorar sistematicamente os “pontos fracos” do Nadal, e prefere perder a ouvir de alguém que ele “apelou”. Vai ver ele padece da mesma síndrome que acomete inúmeros técnicos de futebol, que preferem ouvir o coro de “burro” berrado pela torcida a ceder aos apelos desta, por mais cristalinos, patentes, evidentes, óbvios e lógicos que sejam. Ou quem sabe ele ache o Paul… Anacrônico (essa doeu)
    Essa atitude do Federer diante de Nadal (principalmente no saibro) tem resultado em espetáculos xaropística e aborrecidamente perfeitos, pra dizer o mínimo, exceção feita à final de Roma em 2006, quando ele ainda acreditava. Nem mesmo aquele 2 a 1 com 6-0 no 3o. set em Hamburgo no mesmo ano eu colocaria na conta, pois o Nadal vinha de 80 e tantas partidas invicto no saibro, sei lá quantos torneios seguidos de semana inteira e chegou ali naquela final meio arrebentadão.
    Depois de 25 jogos pra valer e apenas 8 vitórias (fora as tb várias derrotas em partidas “a leite de pato”) fica difícil tomar como verdade que seja mesmo um “grande prazer” e que o Federer “adore” jogar contra o Nadal, conforme ele mesmo já declarou. Ninguém tem “prazer em” nem “adora” alimentar uma freguesia constrangedora que só lhe rende decepções e críticas. Ainda mais no caso dele, que além de continuar “impedido” pelo rival em RG, viu sua hegemonia em Wimbledon ir para o brejo por obra e graça do mesmíssimo algoz. Acho que ele diz isso porque deve ser muito difícil acomodar um fantasma desse tamanho numa cabeça de grande campeão – que indiscutivelmente ele é. A menos, claro, que tudo isso faça mesmo parte de um grande “pacto com o rabudo”, vai saber…
    (e não, não acho que vc tenha se excedido, Cleto: as transmissões da ESPN são mais agradáveis precisamente pelas incorreções políticas e espontaneidade da equipe sem patrulhamento castrador) Abraços.

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    • césar cambuí 06/06/2011 6:08

      Moacyr,
      Obrigado por ter escrito tudo o que gostaria de expressar, inclusive sobre às transmissões.
      Um abraço.

  4. 1 Felipe B 06/06/2011 5:30

    Quando Federer não aproveitou o set point eu senti na hora q o Nadal ia entrar na cabeça dele e aí não ia ter mais volta…
    .
    Mudando de assunto, interessante q os EUA saem da temporada de saibro com 2 top 10! Depois de ficarem pela primeira vez sem um representante no grupo agora eles voltam a ter 2, o q não acontecia a muito tempo. Pelo q eu me lembro desde a queda de Blake.

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