Só mesmo quem joga tênis ou viveu próximo de profissionais para entender os detalhes que constroem, ou destroem uma carreira. Em 1997, um dia antes de sua partida inaugural em Roland Garros, Gustavo Kuerten me explicava sua ansiedade em enfrentar na primeira rodada Salava Dosedel, um tenista que o havia batido nas duas ocasiões anteriores e de quem era, segundo suas palavras, um “filho”, outra palavra para “freguês”. Mas o adversário estava contundido e mal podia sacar. Por conta disso, Gustavo passou a primeira rodada, adquiriu confiança e seguiu seu caminho para escrever história.
Thomas Bellucci fez uma aposta esta temporada – escrevi sobre ela logo no fim da temporada passada – em jogar torneios grandes e não mais se esconder nos menores. Na ocasião lhe perguntei se não iria misturar ATP Tour com Challengers, ele disse que iria insistir com os ATP.
A temporada do saibro, seu piso favorito, começou com sua ida à final na Bahia. De lá até Julho foram só derrotas e frustrações. Quando voltou aos Challengers, não foi por vontade, mas porque seu ranking despencara. O cenário mudou um pouco para melhor com a vitória no Challenger de Rimini, terra de Fellini, há duas semanas. Era bom, mas, de certa maneira, um retrocesso. Será que ele continuaria só se dando bem em torneios menores?
O Torneio de Gstaad é o último da temporada de saibro. E lá foi o brasileiro tentar sua sorte no qualifying, seguindo sua estratégia e vontade de crescer. Passou o qualy e pegou um tenista menor da casa. Teve dois match-points contra, quase foi embora cedo, mas virou o jogo.
A partida seguinte deverá ser lembrada, pelo resto de sua carreira, como “a partida”. Bateu o cabeça de chave 1 e dono da casa, Stanislas Wawrinka. Na rodada seguinte encarou o experiente alemão Kiefer. Pelo andar da carruagem, chegava ao fim de sua participação em Gstaad.
Mas o destino ainda não tinha dado todas as cartas. Kiefer se contundiu logo no início do segundo set, abandonou e Bellucci chegou à semifinal confiante e no lucro contra o russo Andreev, de quem não tomou conhecimento, para chegar à final ainda mais confiante no seu jogo e no seu destino. A decisão foi um passeio porque jogou melhor. Não vou entrar nos detalhes técnicos, porque esses eu cobri bem durante a transmissão da final na ESPN-BRASIL.
O interessante é mencionar que Bellucci brilhou nos dois momentos mais distantes da temporada de saibro. No apagar e no apagar das luzes. Se não vencesse em Gstaad seguiria jogando misturando torneios menores (e aposto que seu sucesso em Rimini tem muito a ver com seu sucesso em Gstaad, o que mostrou que sua estratégia era audaz mas não totalmente pé no chão) e pior, agora jogando em quadras duras, onde eu acredito possa ter sucesso, mas ele ainda não possui a mesma fé.
Mas o destino, amparado pelo trabalho, a opção de persistir em ser um jogador grande e não um pequeno, e seu talento o levaram a esta conquista. Um pequeno desvio, como o montinho de terra que travou o pé de Kiefer, a bola arriscada pelo seu adversário na match-point na primeira rodada, a dor que não teve, uma palavra de seu técnico, o bom dia contra Wawrinka, a hesitação de Beck no primeiro e decisivo game, suas duas decisivas esquerdas na paralela e por aí afora construíram essa conquista. Da mesma forma que a dor no braço do Dosedel, e uma série de outras felizes circunstâncias abriram as portas para Kuerten construir sua primeira grande conquista. Quanto ao resto da história de Bellucci, se tivermos bom senso, seguiremos, como é nosso papel, sendo fãs e apreciadores do que puder nos ofertar o brasileiro, ou então, outros, continuarão cobrando, exigindo e criticando os que não se encaixarem no mesmo perfil.