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08/06/2009 - 21:04

Premonição.


Federer x Sampras, Wimbledon 2001.

Existem momentos mágicos em nossa história que, não raro, só realizamos sua importância e magia mais tarde. Durante onze anos seguidos fui a Wimbledon, escrevendo para o Jornal da Tarde e O Estadão onde contava minhas aventuras e desventuras no torneio e na cidade de Londres.

Com o tempo consegui algo que, infelizmente, com o tempo decidi abrir mão; uma cadeira cativa na Quadra Central, o palco mais restrito e famoso do mundo esportivo. Posso garantir que essa cadeira, que tem um número limitado, é imensamente difícil de merecer e conseguir e que todo mês de Julho tenho saudades dela.

Em 2001, Pete Sampras, então com 30 anos incompletos, defendia seu título do ano anterior, assim como os sete conquistados anteriormente no All England. Nas oitavas de final, quis o destino que ele enfrentasse Roger Federer, 20 anos incompletos, dono de um único título no ATP Tour, em Milão, em Fevereiro daquele ano.

Eu já tivera a oportunidade de ver o suíço jogar, como juvenil e como profissional, em algumas oportunidades anteriores. Conhecia seu talento natural, suas habilidades e tinha curiosidade em ver aonde suas qualidades poderiam levá-lo. Achei que assisti-lo enfrentar o hepta-campeão na Quadra Central seria um bom programa.

Fiz um lanche rápido, escrevi minha coluna do dia e fui ao templo sagrado do tênis completar o programão do dia – acompanhar o jogo que começou no meio da tarde. O que presenciei naquele dia foi História.

A partida, vencida por Federer por 7/6 5/7 6/4 6/7 7/5, foi a única entre esses dois tenistas que marcaram a história do tênis. Até ontem, com a vitória de Federer em Paris, havia a dúvida sobre o “Melhor da História”. Talvez ainda exista. Mas se o leitor quiser um tira-teima, um divisor de águas, um símbolo, esse é o confronto.

De um lado da quadra, onde conquistara o mais reconhecido sucesso de sua magistral carreira, o experiente Sampras começava a contemplar o crepúsculo de sua carreira – só venceria mais um Grand Slam, em Nova York no ano seguinte. Do outro lado da rede, um jovem talentoso, habilidoso e desinibido como poucos em palco tão exigente, no qual pisava pela primeira vez, só conquistaria seu 1º GS naquela mesma quadra dois anos depois.
Sampras era, claramente, o favorito – do jogo e do público. Federer a auspiciosa promessa. O confronto foi inesquecível, pela qualidade, pela surpresa, pela circunstância. Como uma premonição do por vir, Federer saiu vitorioso, na que foi a melhor partida do torneio, derrotando um campeão que estava a 31 partidas consecutivas invicto no torneio. Naquele dia, Roger mostrou todas as qualidades, técnicas, emocionais e mentais, que o levaram a bater o então campeão e o levariam a um dia desbancar o então melhor da história.

O jogo foi um dos últimos e inesquecíveis confrontos do mais purista e clássico saque-voleio do tênis. Uma exibição para fazer sonhar todos aqueles que cresceram admirando o tênis original praticado sobre a grama e que hoje, por N razões, começa a pertencer a um passado tão distante quanto o das cartas de amor e viagens de trem. E, com certeza, são as essas imagens, das quais apresento breve amostra no vídeo abaixo, mais uma das razões pela qual o mundo se curva e cede, com tranqüilo desprendimento, aos encantos do tênis praticado por esse terrivelmente “cool” tenista dos Alpes.

Como curiosidade, coloco abaixo trechos pinçados da minha coluna do Jornal da Tarde da época, onde menciono o garoto Roger Federer. Eles estão exatamente como foram escritos, pouco mais do que oito anos atrás.

“ Na segunda semana de Wimbledon as partidas concentra-se nas quadras principais. As secundárias passam a ser usadas pelos juvenis e os veteranos. O evento juvenil, que é disputado desde 1947, é oficial e tem suas inscrições por mérito. O dos veteranos é um evento por convites. Entre as garotas tivemos uma semi-finalista na figura de Vera Lúcia Cleto em 1968. Entre os garotos já tivemos dois finalistas. O paranaense Ivo Ribeiro em 1957 e o carioca Ronald Barnes – brasileiro com o tênis mais bonito e vistoso que já pegou numa raquete – em 1959. Quem me lembra o seu estilo é o suíço Roger Federer, tenista que é um prazer assistir.”

“O suiço Roger Federer, de 19 anos, é, junto com o russo Marat Safin, o maior talento da nova geração. O seu, além de ser um tênis de resultados, é também o mais vistoso das quadras. Elegante, do instante em que entra na quadra, ao momento que cumprimenta o adversário, é um “gentleman” também fora delas. Durante as partidas mantém uma postura raramente vista em tenistas da sua idade. Às vezes parece carecer uma pitada de garra. Talvez o tênis lhe seja tão fácil que nos parece sem esforço. Sua vitória sobre Pete Sampras veio como uma surpresa somente para aqueles que não tem tido a oportunidade de acompanhar a sua breve carreira.”

“ Somente as agruras de Sampras não seriam o suficiente para causar sua derrota em Wimbledon. Ele precisaria encontrar um adversário a altura. E foi isso que aconteceu ao enfrentar o maravilhoso tenista Roger Federer. O amigo leitor pode ficar sossegado. Ainda vai ver muito esse “young gentleman” suíço. Isso porque, insisto, o rapaz tem o tênis mais bonito que freqüenta as quadras do tênis profissional.”

Confesso, sem maiores inibições, uma pitada de orgulho em ter escrito essas linhas, assim como uma alegria interior em ter presenciado essa premonição da história oito anos atrás.

Autor: paulocleto - Categoria(s): Copa Davis, Juvenis, Masters, O Leitor no Torneio, Tênis Feminino, Tênis Masculino Tags: ,

203 comentários para “Premonição.”

  1. Marcelo disse:

    Imaginar mais jogos desse tipo é incrível. Imagina os dois se enfrentando no auge… Qual dos dois ganharia mais jogos, Cleto?

  2. Fernando B. disse:

    Como não comentar um post desses?

    Muito criativo de sua parte, e parabéns pela premonição.

    Com certeza um momento histórico e causa uma inveja danada daqueles q estiveram presenciando esse momento.

    Com relação ao vídeo chama atenção a postura do Federer de encarar o Sampras usando a mesma tática, saque e voleio, diferente inclusive de como ele joga hj em Wimbledon. Demonstra a versatilidade do Federer e ao mesmo tempo sempre vem a tona a questão: Jogar assim não da mais resultados?

  3. André Tschumi disse:

    Cleto: parabéns! Mais um post maravilhoso, digno desse jogaço e desse excelente video. Ah…. Deu até uma nostalgia daquele fabuloso Wimbledon, nao soh por causa desse jogo, mas também pela fantastica final entre o maluco-beleza Goran Ivanisevic contra o eficiente Pat Rafter, uma das melhores finais da historia de Wimbledon. Good old times… !

    Marcelo: respondendo a sua pergunta, certamente o Federer ganharia mais do Sampras do que o inverso. Se com 19 anos o entao garoto Federer, com apenas 1 ATP Tour na carreira, conseguiu quebrar a invencibilidade de 31 jogos do entao SUPER Sampras, sem duvida o SUPER Federer de 2004-2008 bateria o norte-americano mais do que perderia.

    Marcos Krabbe: Me explica como é que voce sendo fã desse tenis magnifico do Sampras, se identifica tanto assim com o Rafael Nadal, que representa exatamente o oposto em termos de tenis? Se voce fosse fã do Borg, que ficava passando a bolinha pro outro lado até que o adversario errasse, eu entenderia sua admiraçao pelo espanhol, que é uma espécie de Borg evoluido. Mas trocar o Sampras pelo Nadal é como trocar o futebol vistoso do Brasil da Copa de 1970 pelo futebol de resultados da Argentina de 1978, em vez de torcer pelo jogo magico da Holanda de Cruijff. Voce tinha é que torcer pelo Federer, que é de certa forma a evoluçao do Sampras.

    Fernando B: O Federer hoje joga diferente em Wimbledon porque infelizmente nao da mais para ganhar Winbledon praticando saque-e-voleio puro. Hoje em dia o jogo tornou-se mais lento. Basta ver como a bolinha quica mais alto hoje em dia nas quadras do All England Club. Boa parte das vezes nao é mais necessario flexionar os joelhos para executar os golpes de fundo de quadra. A nao ser que o adversario de um slice bem “venenoso”, a bolinha chega na linha da cintura ou até mais alta. Enfim, a grama se tornou um piso bem menos diferenciado do que o era no passado, o que faz com que o jogo por la se torne também mais parecido com aquele praticado nos demais tipos de quadra.

  4. Junior disse:

    Parabéns, e pode mesmo sentir várias pitadas de orgulho pelas linhas que escreveste naquele momento… realmente foste muito feliz e competente em suas observações. Show de bola… ou show de bolinha..de tênis.

  5. Matteoni disse:

    É Cleto,

    O homem já era predestinado. E vc também.

    Vejo que após 4 títulos seguidos e 31 partidas invictas do Sampras, um então pouco conhecido Roger Federer acabou com seu sonho do penta.

    Ué, mas não foi ipsi literi o que Robin Soderling fez com Rafa Nadal em RG este ano?

    Então fiquei com duas dúvidas:

    1- Neste caso vc teve alguma premonição em relação ao Robin? – Exatamente-

    2- O que vc fez com sua cadeira cativa na quadra central de Wimbledon? Alguma chance de me emprestar este ano!? -Eu abri mão e eles repassaram a outro jornalista-

    Abçs

  6. AM Barbosa disse:

    Cleto, mais uma vez você deu um show, entrei no blog sem esperanças de ver algo novo e deparei com mais um lindo post, acho fantastico ler estas historias, saber destes feitos, e também saber que o Federer é admirado pelo tenis jogado desde quando começou, esse talento não apareceu de uma hora para outra.
    Será que você, mesmo já o admirando, imaginava que ele chegaria onde chegou?

    Um bom dia a todos.

  7. Anderson disse:

    O jogo foi totalmente incrível pela velocidade dos golpes! Inacreditável!!!!!!! Os pontos não duravam 5 segundos!

  8. Não sei se voces lembram, mas nessa época o Federer era uma espécie de reencarnação do Sampras, se vestia igual com roupas clássicas, a raquete e cordas eram a mesma e jogava saque e voleio…

  9. Ivan Raphael Colla disse:

    Moonsstrosss!!!!

  10. Jefferson Guimarães disse:

    Parabéns pela grande visão de futuro, em relação ao Federer!
    Que jogo!!!

    Paulo Cleto, aproveitando o momento, com toda essa bagagem dentro da quadra e experiencia jornalística ligado ao esporte,…. não estaria na hora de nos brindar com um programa semanal de tênis??? Trazendo curiosidades, histórias, imagens, os centros de treinamento que você comenta de vez em quando, entrevistas, enquetes e tudo o que tem direito?? Algo me diz que expectadores não vão faltar. Tá faltando patrocínio? Você já tem algum projeto para isso? Afinal se o “The Book Is On The Table” – que assisto sempre que posso – , tem feito sucesso e fala sobre esportes mais americanos, por que não um programa de tênis? Hã Hã Hã??
    O que tem a dizer sobre isso??

    Fala aí Cleto. :-) )

    Abraços

    Acho q falta vontade da TV em fazê-lo.

  11. Wagner Amaro disse:

    Bom dia Cleto e amigos,

    Sem comentários …. eh simplesmente EMOCIONANTE.

    Abraços

    Wagner

  12. Marcelo Maia disse:

    Parabéns Cleto… realmente um post sensacional… tanto pelo estilo como pelo resultado em si que foi esta premonição… Interessante vc ter citado o Safin… Impressionante o papel da cabeça do tenista… Federer com estilo, elegância, técnica apuradíssima sem uma cabeça a altura não permitiria que sua premonição se realizasse.

    Sei que o “se” é uma droga, mas se o Marat tivesse tido um melhor acompanhamento psicológico há 10 anos atrás, se é que não teve, será que sua história teria sido diferente? Na verdade isto não tem resposta, mas é só para pensar a respeito da quantidade de variáveis em jogo.

    Eu já vi muita gente da pá virada consertar só porque deixou de ser carente!

  13. gustavo kloh disse:

    Cleto,

    alguma chance do voleio voltar (o saque continua por aí….)?

    Acho que só se os tenistas mudarem o biotipo. Alguma idéia sua? Wimbledon vem aí, e o campeão atual não é muito chegado numa rede.

    Abs,

    Gustavo Kloh.

    ps. a propósito, lindo o saque e voleio, mas essas bolas, para o padrão atual (inclusive do Federer) são quase todas “alcançáveis”. O Federer atual ganhava de 3 x 0.

  14. Diego disse:

    Obrigado, Cleto. Belíssimo texto. No seu livro sobre Guga e Roland Garros, tem uma foto de Federer com um comentário seu elogiando seu estilo. Mas este texto do post foi ainda mais antigo.

    Os admiradores do mestre suíço, dentre os quais me incluo totalmente, ficam contentes com essas palavras sobre o exuberante jogo e também a respeito personalidade do suíço, tão injustamente contestada pelos seus opositores mais exaltados.

    Abraço a todos

  15. Marcelo Dias disse:

    Grande Paulo Cleto, Bom Dia!

    Vou confessar que a cada dia que passa eu o admiro mais… não só pelos seus comentários durante transmissões de jogos pela TV, mas também pelo respeito que você tem pelo seu blog e por consequência pelos seus leitores e colegas que postam aqui suas opiniões. Já percebi que você, de fato, lê cada um dos comentários aqui postados, e mais, sempre há algo totalmente novo que você pode compartilhar conosco, como este post que estou comentando agora.

    Sobre o post em si, posso imaginar o tamanho do orgulho que você deve sentir por ter acompanhado, ali ao lado da quadra, um momento tão glorioso da história deste esporte que nos fascina. Espero realizar o sonho de acompanhar um jogo do Federer ali do lado da quadra, como você pôde fazer, para poder ter a exata noção de como a bola dele anda, de como ele é rápido, enfim, presenciar um jogo do melhor tênis do mundo pessoalmente, para que possa fundamentar ainda mais minhas opiniões e meu conhecimento sobre o tênis de maneira geral.

    Vi aqui acima um post do colega Jefferson Guimarães, onde ele sugere um programa sobre o tênis na TV. A poucos dias, vi na ESPN, por sorte em um daqueles momentos de correria com os botões do controle remoto, um programa chamado Quadra Central. Mas na verdade, não entendi ao certo se realmente se tratava de um programa, pois no outro dia fui procurá-lo no site da ESPN e não achei nada.

    A sugestão do Jefferson é excelente e creio que você tem o perfil, a credencial e o conhecimento necessário para conduzir um programa assim. Dentre os canais de TV esportivos que assistimos mais regularmente (ESPN e SPORTV), não conheço nenhum programa relacionado a este tema. Por que não??? A TV tá cheia de programas de pesca, futebol americano, golfe… o Tênis já está merecendo o seu hein!

    Aproveito para lhe reforçar o pedido para que comente a história do gavião que cuida das quadras de Wimbledon. Estou aguardando.

    Grande abraço e parabéns!

    Marcelo Dias
    Maringá – PR

  16. Nildo Lima disse:

    Matteoni,

    Desculpe a ignorância, más o que é ipsi literi?

    abçs

  17. Sergio Gonçalves disse:

    Parabéns pelo texto. Com todo o respeito, mas esse post redimiu você pelo exercício de “se” , “talvez” ou “quem sabe” do post anterior. Abraço.

  18. Mauro Márcio disse:

    Cleto, vou ser bastante redundante. Mas, Parabéns!
    Acho tão natural e estou tão acostumado às viagens que seus posts nos proporciona que parece que já está em nossas veias, tornou-se relativamente comum. Especialmente, porque deixer de ler outros blogs de tênis.
    Porém, alguns, especiais, como aquele que você criou quando a mãe do Roger esteve no Brasil, eu guardo num arquivo especial que criei em meu Computador.
    A alegria e alívio que sinto com o RG de Federer foi imensamente completados com o Post, como uma alegoria que nada subtrai, só acrescenta.

    Obrigado

  19. João Vitor Perilo Bahia disse:

    Cleto parabens pelo post.

    Gostaria de saber sua opinião sobre estas fatos relacionados a presença de nadal em Wimbledon, estranho falarem do joelho agora, e se ele continuasse em Roland Garros, o joelho estaria melhor? Ou ja estava bichado. Estranho isso. O que você acha.

  20. Carlos Miranda disse:

    Paulo,

    Parabéns pelo excelente texto. Tenho a premonição de que o Federer agora mais “leve” depois de ganhar RG jogará sem nenhuma pressão e voltará a ser o número 1 muito em breve.

    Grande abraço,

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