Faz chover
Para os eternos fãs do espanhol Rafael Nadal, assim como para os fãs do tênis em geral, comento abaixo recente entrevista do tio/técnico da fera para o jornal italiano Corrieri della Sera. Algumas curiosidades e fatos que, por virem de quem veio, merecem atenção especial:
O tio começa mostrando quem manda e que respeito é bom e ele gosta.
Qual a primeira regra para ser um tenista? “A educação e o respeito; pelo técnico, adversário e público. Quando você é bem educado, e isso Rafael trouxe de casa, você ouve e compreende melhor quem está ali para ajudá-lo”
A disciplina e obediência devem ser aprendidas bem cedo. “Quem faz coisas erradas, procura desculpas e não é enquadrado, fará disso um hábito. Com isso, o tenista começa a culpar a raquete, as bolas, a quadra, o treinador. É preciso agir de imediato. Quando tinha 10 anos, Rafa passou um verão pescando com amigos e quando voltou aos torneios perdeu logo de cara. Eu disse: você tem que decidir se quer treinar para ser pescador ou tenista”
Mais à frente o garoto ainda dava suas derrapadas e o tio o enquadrava.
“No U.S Open 2005, Rafael (ele não chama o sobrinho de Rafa) não parava de reclamar das bolas usadas no torneio. Eu disse; eles não vão trocá-las só porque você quer. Ou joga com elas ou pega o avião para Mallorca”.
“Em Pequim, nas Olimpíadas, também não parava de reclamar. Eu disse que era possível jogar e ganhar se realmente quisesse. Levou o ouro. Adaptação mental é força” Esse é um dos principais motos por trás do sucesso do espanhol e que o garoto não cansa de repetir nas entrevistas.
O tio aproveita para contar uma história de quando o sobrinho tinha 8 anos e foi colocado para jogar contra os “grandões” de 12 anos. O garoto deu aquela hesitada. O tio, malandro, lhe garantiu que tinha poderes mágicos e se as coisas ficassem ruins no jogo ele faria chover e pararia o jogo. O adversário abriu 3×0 e o tio esperou pelo pior. Rafa reagiu, encostou 2×3 e na virada de lado disse ao tio/técnico – “pode deixar, eu posso ganhar!”. O momento Paulo Coelho quase é desmascarado, mas ali já podia ver o que o sobrinho tinha a mais.
Toni lembra uma das qualidades do sobrinho, da qual sou também um crente, e que muitos tenistas ignoram. “Ele tem a capacidade de colocar a bola em quadra, mas não tem nada de excepcional. Teve sim a inteligência de manter a mesma equipe; o mesmo técnico, fisioterapeuta, agente, até a mesma namorada, que é uma amiga de sua irmã”
Apesar da fama e o sucesso, Rafa é um garotão. “Ele é educado e respeitoso. Como todo jovem é bagunceiro e não tem interesse pelo mundo em geral e pela cultura. Quando tinha 18 anos o pegamos com cinco croissants de chocolate nas mãos, meia hora antes de um jogo. Alguém da nossa equipe disse; vai lá e tira aquilo dele. Eu respondi: deixa, a dor de barriga vai ensinar mais do que as minhas palavras”
Toni sabe exatamente quais são os diferenciais do pupilo e suas inspirações.
“Rafael se parece com Borg no quesito mental e com Connors no quesito intensidade, incluindo a expressão corporal. Gostaria de vê-lo igualando, e melhorando, o recorde de Borg em Roland Garros. São os que quebram recordes e se estabelecem como os melhores que determinam os passos da história.”
O técnico conhece também as deficiências. “O serviço é o seu calcanhar de Aquiles. Um pouco é minha culpa. Rafael é destro em quase tudo, exceto no futebol e tênis. Como criança mostrou mais potencia com a esquerda. Defini dele ser canhoto no tênis pois enxergava vantagens nisso. Mas ele tem dificuldades até mesmo no lançamento da bola.
Finalmente, a pergunta que não quer calar: Nadal é mais forte do que Federer?
“Vamos colocar assim: Rafael tem enorme respeito por Roger. Mas se tivesse o talento do suíço não perderia para ninguém. Dois anos atrás, em Monte Carlo, ele começou a choramingar; como vou ganhar dele? Ele tem a melhor direita, o melhor voleio, o melhor físico!” Eu respondi: esqueça o que ele tem e concentre no que você tem”.
Como garoto foca, concentra e vence como ninguém no circuito, vale a dica.
Toni e a fera encardida.
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67 Martin H. 08/04/2009 13:46
Martin A.:
esta foi cômica.
O “Nadal com o talento de Federer” daria um sapeca-ia-iá tão grande no “Del Potro com o talento de Nalbandian” que, posso te assegurar, tu não irias gostar de ver este jogo não.
Ia ser pior que a tua Argentina contra a Bolívia.
Abraço,
Mártin
66 Rafaela 08/04/2009 13:47
João Luís, nesse estou totalmente com vc. Não importa o quanto seja eficiente a equipe de relações públicas do Nadal, não importa o quanto é verdadeira essa humildade. Eu, no momento, prefiro acreditar no que ele fala sério e até me emocionei com a última frase! Então Rafa também acha linda essa rivalidade, não? Ele se sentiu vazio e solitário, como se não tivesse mais meta ou propósito, mas depois se convenceu de que Federer ainda pode vencê-lo. Não senti como “eu quero que ele me vença, ou eu me sinto sem motivação pois não há quem possa me vencer (ele sabe, e nós sabemos, que o Murray pode).” Senti que ele quis dizer que o que ele quer mesmo é a rivalidade com o Federer, um cara que ele admira.
Bem, óbvio que cada um pode interpretar isso do jeito que quer. Mas pra mim foi isso.
Abraços
65 Bruno Bonfim 08/04/2009 13:55
Martin H:
talvez fosse como França e Brasil, em 2006: placar apertado, mas uma superioridade maior que a da bolívia sobre a argentina…
64 Rafaela 08/04/2009 14:05
Martin A., hoje estou no meu dia de concordar, e portanto concordo com o Martin H. Pra desespero da pátria hermana, um triciclo nesse caso seria um resultado totalmente sem surpresas. Complemento: o Federer, o talento do time europeu, sozinho já aplicou uma bike na suposta força mental e solidez física do Delpo. Mas Delpo as tem…. abaixo das de Nadal, mas tem. Então, se o Delpo emprestasse físico+mental ao talento de Nalba, poderíamos dizer que Nalba x Nadal daria um duelo equilibrado, ou talvez até tranquilo (fácil, contra o Nadal, nunca) ao argentino. Afinal foram mental e físico que parecem ter deixado Nalba na mão em IW. Ocorre que o time europeu contaria com o talento do Federer, infinitamente superior ao físico + mental do Delpo. E aí, o que ocorreria? hehehehe.
Para ilustrar, H2H
Nadal x Delpo = 4×1
Nadal x Nalba = 1×2
Federer x Delpo = 4×0
Federer x Nalba = 10×8
Portanto, Europa x Argentina = 19×11
Sem chance! hehehehe.
Abraços
63 Rafaela 08/04/2009 14:21
Complementando o H2H:
- A raça argentina (Delpo) não tem a mínima chance contra o talento europeu (Federer). Nem um mísero set. Com muito esforço, alguns games.
- O talento argentino (Nalba) está muito distante do talento europeu. O 10×8 sugere equilíbrio, mas se considerarmos que 5 desses 8 ocorreram até agosto de 2003 (depois disso o europeu começou a derrotar o argentino e não parou mais), seria mais correto dizer 10×3. Lavada.
- A raça europeia (Nadal) é a raça número 1 disparada do mundo. E, apesar do resultado do último encontro, é infinitamente superior à raça argentina.
- O placar entre talento argentino e raça européia sugere equilíbrio e, de fato, é equilibrado. Mas apenas equilibrado, sem pender para nenhum dos lados. É pouco para o massacre europeu nos duelos anteriores.
62 Marco Ferrao 08/04/2009 17:01
Nem li os comentários.
Tomei um bela tapa na cara, e na hora certa.
Grandes lições.
Será que o Federer não tem um tio não?
Começo, finalmente, a admirar o Nadal por suas verdadeiras qualidades.
61 Henrique Marcelo 08/04/2009 18:33
Coisas surpreendentes acontecem, João. O Gil jogou três sets por quase 5h (será que não está errado o site da ATP? Meu deus!). E o Isner chegou às quartas-de-final de um evento 250 no saibro. Ah, em Casablanca foi bom ver as duas vitórias de Ferrero. Tomara que ele siga firme e ganhe o torneio.
60 João Luís T. Prada e Silva 08/04/2009 19:34
Henrique,
Vi parte do jogo (início e final) pela Internet e não durou tudo isso não… Deve ter durado tipo duas horas e pouco, talvez duas e meia.
59 Caio 08/04/2009 20:53
Excelente post.
Duas perguntas Cleto:
1) Existe alguma característica no jogo no Nadal que evidencie o fato dele ser ambidestro? O backhand dele não poderia ser ainda melhor por conta disso, já que é de duas mãos?
2) Qual o passado do Toni no tênis? Confesso não ter detalhe nenhum a respeito. Ele não pode ter criado um monstro assim sem um passado forte. Ou é possível ser um grande técnico somente tendo estudado a “teoria”? No futebol temos o caso do Parreira que nunca jogou futebol, mas parece ser excessão. A mesma coisa no tênis?
Abraço,
Caio
Toni, acredito, jogou nivel Futures e dava aulas. O Monstro não foi criado e sim educado. Um campeão como Nadal já vem ao mundo com o conteúdo, só precisa de polimento.
58 Caio 08/04/2009 20:58
Achei uma terceira pergunta, mais psicológica:
3) Você sentiu alguma pressão demasiada por parte da família no sucesso dele? Queria encontrar uma relação disso em todos os TOCs que ele apresnta pra nós: cueca, garrafa d’agua, não pisar na linha da quadra e alguns outros menores. Acho isso muito complicado.
57 Zacarias Novais 08/04/2009 21:20
Caro André Becker,
Não se trata disso, ter facilidade com a lado ruim é uma coisa, ser destro é outra, bem diferente.
Eu por exemplo, sou destro, mas jogo futebol, tanto com a esquerda, como com a direita, mas isso não quer dizer que sou ambidestro.
Outra coisa, quando você faz um movimento forte, vigoroso com a mão ruim, a possibilidade de errar é menos, já que esse movimento mais brusco exige menos sintonia fina, é mais fácil de executar, mas quanto mais se exige coordenação motora, mais equilíbrio, mais dificuldades se exige e reside aí a dificuldade no lançamento do toss, já que todo o equilíbrio do corpo estar projetado para o lado bom, o qual se vai bater na bola, o que vai executar o movimento mais complexo. O problema no toss do Nadal não reside em falta de técnica, é um absurdo afirmar isso!
O que o ta claro nas declarações do Tio, é que ele é destro e a opção de jogar com o braço esquerdo, foram por pura opção tática
56 Martin A 08/04/2009 22:11
Rafaela e Martin H(elvetico):
Vendo os dados apresentados pela Rafaela não da para falar em “sem chance” ou em “sapeca-ia-iá” em nosso hipotetico jogo.
Levando em conta a inconsistencia na carreira de Nalbandian um 8-10 contra Roger fala, pelo menos, de uma igualdade tecnica (ambos tenistas tem a mesma idade), já com Nadal o saldo é positivo.
Martin H, não começe a quebrar raquetes, eu apenas deixaba voar minha imaginação pensando que gostaria assistir um jogo imposivel de realizar se.
55 RenatoZ 08/04/2009 22:44
A entrevista foi na Gazzeta dello sport. Muito legal!
54 Cida Gonçalves_Olinda*PE 08/04/2009 22:49
Adoro as entrevistas de tio Toni e tenho imensa admiração por ele, grande mentor de Rafael Nadal. Esse é sim o cara.
53 Marcos Henrique 08/04/2009 23:27
Belo post Cleto. Muito legal.
Mas nesse aspecto particular o Nadal realmente é fascinante: a “dominância cruzada” das mãos usadas para as tarefas.
Esse vídeo super legal e interessante do Nadal onde o Toni explica o grau de proeficiência em ambas as mãos do Nadal ilustra perfeitamente essa questão:
http://www.youtube.com/watch?v=nge5tuWnMk4
O Nadal por definição é destro (simplesmente porque ele escreve com a direita), mas para a tarefa específica “jogar tênis” ele possui mais proeficiência com a esquerda, e o motivo é porque desde pequeno ele foi acustumado a jogar com a esquerda, apesar de não ser bem o seu braço dominante.
Como o próprio Toni já comentou em entrevistas e mostra no vídeo, isso causou um certo efeito colateral na coordenação motora do Nadal. Isso aparece tanto no seu saque, como na simples tarefa de lançar a bola para alguém com a mão direita, a qual o Nadal executa como uma criança de 8 anos em sua primeira aula de educação física.
No fundo, uma adaptação como essa do Nadal desde pequeno é uma relação de ganhos e custos. É um ganho porque existe todo um lado estratégico que beneficia muito mais praticantes canhotos do esporte tenis, mas também possui custos como o certo dano causado a coordenação motora do Nadal além de outros efeitos colaterais causados por dominância cruzada.
Vou aproveitar essa carona, já que o assunto agora é o Nadal, e perguntar para os frequentantes do blog se alguém se lembra de como o Nadal jogava em 2004-2005 (se alguém já era fã de tenis nessa época).
Alguém se lembra? Será que mudou muita coisa (naquilo que se refere a estilo e técnica, ignorando um pouco o lado de resultados, que apesar da época, ainda eram ótimos), ou será que não mudou muita coisa e no fundo ele está jogando da mesma maneira?
Acho que vocês vão ficar um pouco surpresos com quem ele lembrava nessa época.
Nem eu me lembrava bem disso, apesar de acompanhar o Nadal desde quando ele era um garoto nem top 50 ou 100, apenas um tenista aspirante que possuia como ídolo o Carlos Moyá.
Ou pelo menos nunca parei para pensar na diferença do estilo do Nadal hoje e do Nadal de 5 anos atrás.
http://www.youtube.com/watch?v=iPzzYD1mdEQ
O forehand que não existe mais
http://www.youtube.com/watch?v=Zqw-eg-uhFk&NR=1
Interessante o movimento do serviço sendo abreviado (bem parecido com o do Roddick) e a direita com um swing bem diferente do habitual hoje, e sendo batida mais ofensivamente e com menos spin, mais flat, como a maioria do circuito bate.
A direita também lembra a do Roddick na época.
Ótimo o video gravado em Wimbledon – esclarece de vez o assunto canhoto/destro.
52 Silvio Peters 09/04/2009 2:19
Delícia de post!!!
51 Henrique Marcelo 09/04/2009 11:44
Fim da polêmica. Pronto, Federer aceitou convite para Monte Carlo. Vamos ver se ele vai querer trocar bolas no saibro ou continuará com erros não-forçados.
50 Márcio 10/04/2009 20:52
É o que eu sempre defendi. Rafael Nadal, HOJE, é o tenista mais completo, e número um com toda justiça. Mas Federer, aquele Federer de 2004 a 2007, é o melhor de todos os tempos.
Pena que hoje o suíço seja só uma sombra do que já foi, e nemo chega a ser mais páreo para o Nadal. Mas poderia voltar a vencê-lo, se tivesse um técnico como Toni Nadal, ou se tivesse metade da determinação do grande Rafa.
49 Anderson 11/04/2009 22:33
Post maravilhoso! Se Nadal não se machucar, com o tio que tem, passa o Sampras e o Federer em títulos e premiação. Com certeza!
48 Fátima Rosa 13/04/2009 10:51
Fantástica entrevista, uma lição de vida, a cada dia aprendo mais com eles…Felicidades…