Denso
Os que acompanham meu blog e meus comentários na ESPN já me ouviram ou leram sobre Andy Murray. O bagaceiro escocês carrega, há tempos, uma expectativa de resultados tanto da minha modesta parte, como de toda a torcida da Grã Bretanha. No entanto, ele confessa que foi exatamente a sua pouca expectativa de um bom resultado em Miami que possibilitou a conquista do título.
Sou fã do tênis do rapaz porque, à parte de sua habilidade impar, ele traz à quadra uma qualidade não tão abundante no circuito. O raciocínio. Murray é um dos poucos que, se observamos atentamente, joga pensando. Sei que isso parece um pouco absurdo de escrever, já que “burro” não ganha jogo.
De fato, burro não ganha jogo, mas o cara que pensa muito também não coloca uma bola na quadra. O jogador/pensante deve encontrar uma faixa estreita entre a burrice impar, que assola boa parte do planeta, e consequentemente a população que carrega uma raquete nas mãos, e o raciocínio direcionado para alavancar uma vantagem em quadra. No entanto, não chega a ser uma surpresa que a maioria que se deu bem, erre para menos antes de errar para mais.
Além da habilidade natural – ele bate fácil todos os golpes – Murray deixa evidente que gosta de pensar em como incomodar o adversário. Boa parte dos tenistas segue seus instintos, por isso treinam tanto, e procuram não pensar muito para não pirar. Vamos comparar, neste país do futebol, com o Garrincha, que, quando orientado para uma tática de jogo da seleção, perguntou ao técnico se ele havia combinado também com os adversários. E, convenhamos, o Mané das pernas tortas foi um dos melhores do mundo, o que torna a defesa do raciocínio no esporte mais difícil, em especial para quem só usa a cabeça para coçar ou pentear.
Murray, em um momento está três passos atrás da linha do fundo jogando bolas longas ou altas, tirando o peso da bola e o ritmo adversário e, de repente, quando o oponente acredita que encontrou a distância, vem jogar em cima da linha, onde apura, acua, irrita. É a tática do “jab” em quadra. Como tem muita “mão”, se contra atacado, sabe ajustar os golpes como poucos ou passar a correr para se defender, algo que acho que ainda faz mais do que precisa.
Se bobearem, entra na quadra, passa ao ataque, especialmente com aquela esquerda venenosa, onde, se assim quiser, encurta a abertura e passa aos ângulos agudos. Além disso, slices, de ambos os lados, não são segredos que desconheça, assim como o quase caduco inside/out. Quando quer vai à rede; passa o sentimento que só vai se o jogo enrolar, mas sabe muito bem o que fazer por lá. Muito poucos fazem essa transição completa em quadra com o conforto de Murray.
E é exatamente essa gama de jogo, essas mudanças de ritmo e táticas, esses ajustes de golpes, sustentadas por uma habilidade rara e, atualmente, por um preparo físico excelente, que foi convencido a realizar por aqueles que estão na sua equipe, que vem pavimentando sua ascensão no ranking.
Enquanto meus queridos leitores se digladiam por suas paixões suíças e espanholas, deixam de apreciar um malte único importado lá das Highlands, provando que o tênis está, graças a deus, obedecendo a perene evolução e manutenção da espécie. Abram os olhos e prestem atenção ao Bagaceiro, que traz ao circuito uma riqueza rara, aliada a uma personalidade longínqua da postura politicamente correta de Federer, ou do bom mocismo de Nadal. Hoje escrevi sobre suas qualidades técnicas e não entrei nos detalhes de sua história e personalidade. Mas o que irá causar muito agito no circuito é o fato de Andy Murray ser denso emocionalmente e não há jeito de se saber o que ainda irá aprontar em quadra. De um jeito e de outro.
Murray – seu diálogo com a bolinha será sempre denso e tenso.
43 comentários | Comentar
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3 Fernando 06/04/2009 18:09
Tb gosto do Murray acho ele um dos mais humanos do circuito como vc bem disse “sem a postura politicamente correta……e sem o bom mocismo”
será q ele pode ser comparado ao BIG MAC…..na parte emocional
Ps: Devia ter colocado ele barbudo….
A comparação não é distante, só espero que o caráter seja diferente. Pensei mesmo em colocá-lo com a barba, mas o olhar insano, à Hamlet e seu cranio, à bolinha me convenceu. Gostei do nome de seu blog.
2 Matteoni 06/04/2009 18:31
A temporada inicial de quadras rápidas acabou exatamente ontem com o título do Murray no M1000 de Miami.
Surpreendentemente para alguns cavaleiros do apocalipse, mas não para mim e talvez também não para os mais atentos, Rafael Nadal, o antes Rei do Saibro, dominou amplamente estes torneios, seguido de longe por Murray e Federer. Como só tivemos torneios neste piso até agora (exceção da gira sul-americana que não é jogada pelos TOPs), a Corrida dos Campeões é o espelho fiel dos pontos que ganharam até agora no circuito.
1- Rafa Nadal papou AO, IW, vice em Roterdã fazendo 3.605 pontos
2- Murray papou Doha, Roterdã e Miami fazendo 2.620 pontos
3- Federer não papou nada mas fez 2.010 pontos
4- Roddick papou uns menores e fez 2.000 pontos, colado no Federer, apesar de continuar perdendo pro suiço
5- Djokovic papou Dubai e fez 1.820, quase só a metade de Nadal.
Iniciaremos agora a temporada de saibro, com 3 MS, alguns ATPs e RG. Nadal, como já acontece há 4 anos, é o que defende mais pontos, mas também irá jogar em seu piso favorito, onde só acumula 2 derrotas em 3 ou 4 anos. Tem tudo para encher o bolso de euros e de taças, a não ser que um terremoto aconteça.
Penso que se houver alternância no ranking será do #4 ao #2.
Murray é tudo isso aí que o Cleto acabou de falar, porém nunca jogou nada no saibro. Conseguirá manter o nível neste piso?
Federer é o segundo melhor jogador do mundo no saibro, só perdendo pro Nadal, mas não jogará tudo, e perderá pontos, começando por Monte Carlo onde foi vice em 2008. Acho que seu sonho dourado é RG. É aí que Nadal tem que ter cabeça para não jogar tudo e chegar lá cansado.
Djokovic, que ano passado ganhou Roma, este ano está devendo, e se bobear perde o #3 pro Murray.
Roddick no saibro não boto fé.
Resta ainda Del Potro, Verdasco, Monfins, Almagro, mais alguem?
Enfim, em minha humilde opinião, está e continuará tudo d’antes no quartel de Abrantes.
P.S. só para não passar em branco esta final não me deu o mínimo tesão.
Abçs.
Passemos entao à Europa e suas quadras vermelhas. E que as surpresas nos peguem pelo cangote.
1 andre becker 06/04/2009 18:39
Algo que eu vinha reparando, pensando nos meu joguinhos ao ver o Murray jogar, é exatamente a variação e a eventual “falta de peso” da bola dele: infelizmente, eu sofro contra jogadores medianos que não sabem por peso na bola (ganho bastante, mas é um jogo “sofrido”, quase chato) e muitas vezes apanho de bons jogadores que não põem peso na bola por opção.
Eu ficava meio pistola, achava que era anti-jogo, que era jogo só pra ganhar mas não pra se divertir… (aliás, quem joga nesse estilo se diverte tanto quanto os fazedores de winners?) - com certeza, talvez até mais, se vc lhes der razões – ... coisas da imaturidade. Faz algum tempo respeito mais esse estilo de jogo e penso em como ganhar desses caras, quem sabe ganhando fica um pouco mais divertido encarar esses malas?