No relacionamento técnico-jogador nem sempre o técnico ganha as discussões. Infelizmente, ou felizmente? Tenista é um bicho cabeça-dura e alguns só são piores do que outros. Vocês acham que o Federer não quer um técnico por que? Primeiro porque não quer dividir as glórias, mas principalmente porque não quer ouvir o que não quer. Por isso sua ultima tentativa foi Tony Roche, um técnico que não vai forçar nada, nem discutir coisa alguma. Com o barco vazando água talvez aceite um Cahill na sua vida, que é um longo caminho de um técnico mais assertivo.
Digamos, ao contrário de um Brad Gilbert ou mesmo um Jimmy Connors, que trabalharam com Andy Roddick e que o americano mandou embora por conta das divergências até suaves. Sabem por que o Connors foi despedido? Na volta de uma das viagens ao Oriente, Andy queria parar e treinar em Nova York, onde, por acaso, estava sua nova namorada e hoje noiva, a modelo Brooklyn Decker, uma figura de parar o trânsito ou, na pior das hipóteses, fazer um homem perder o caminho de casa.
Connors, o técnico que casou com uma coelhinho da Playboy e devia conhecer melhor o poder das entranhas, bateu o pé e disse para o pupilo vir para a Califórnia, onde ele mora. Os dois colocaram seus pontos de vista, nenhum quis ceder e a discussão ficou pessoal, o pior cenário para uma desavença profissional. Roddick deve ter feito as contas de quanto era o salário semanal, quem estava no lado pagador e quem estava no lado recebedor, e acabou despedindo o técnico que nunca foi homem de abaixar a cabeça para ninguém nem precisa de dinheiro para viver muito bem. Esse negócio de democracia em um relacionamento técnico/jogador é um tanto difícil de acontecer como de administrar. Um sempre acaba cedendo mais do que o outro ou há uma alternância ou a vara quebra.
Com certeza o tenista mais inflexível dos que treinei, ou pelo menos o que não fazia muita cerimônia em ser inflexível, foi Luiz Mattar. Nosso relacionamento nas quadras durou 10 anos, praticamente toda sua carreira. Uma de suas principais qualidades, e uma das razões para ter se dado bem em um circuito tão competitivo, foi essa sua característica, que pode ser também uma razão para dificultar o crescimento e ampliar os horizontes. Algumas de nossas divergências foram marcantes, umas divertidas outras nem tanto, não raras curiosas e muitas incontáveis.
Em 1987 Mattar venceu a semifinal do Torneio de Itaparica, batendo Sergio Casals, atual sócio de Emilio Sanchez em suas academias, nas semifinais. A partida foi uma batalha, com Nico se impondo no terceiro set, debaixo daquele sol baiano que tantas vezes mandou tenistas “animais” de físico, como Muster e Courier, precocemente para casa.
Após horas de uma luta excruciante, debaixo de sol escaldante ,Mattar queria dormir no ar condicionado ligado no máximo, algo que eu não aprovava nem gosto. Uma coisa é o ar condicionado para refrescar, outra é deixá-lo no máximo como se fosse o Alasca, para contrastar com o calor dos infernos dentro de uma quadra. Lembro que naquela noite discutimos por conta disso. Como o cara havia vencido a semifinal e no dia seguinte teria que voltar à quadra para jogar a final, foi de sua maneira.
A final era contra Andre Agassi, então com 18 anos e sem nenhuma responsabilidade de vencer. Mattar deve ter dormido como um anjo no seu adorado friozinho. Eu, da minha parte, tinha que me enrolar em cobertores nessas horas e, convenhamos, é um paradoxo passar a noite debaixo de um cobertor na Bahia.
Na manhã seguinte Nico acordou totalmente entupido e febril, tanto pelas horas debaixo do sol como pelo contraste da noite dormida no ambiente polar. Não que ele admita isso até os dias de hoje, mas Deus os fez teimosos e então tenistas.
O primeiro set, novamente debaixo de um calor dos infernos – vale lembrar que Agassi cresceu no deserto do Nevada e treinava na Florida – ainda foi equilibrado, sendo decidido no 7×5. No segundo set, a saúde do brasileiro, que também era um “animal”, arriou de vez e o americano partiu para o primeiro título de sua ilustre carreira; os dois ainda jogariam uma outra final, desta vez em Scottsdale, no deserto do Novo México, com outra vitória de Agassi.
Se desta vez a teimosia do tenista pode ter lhe custado um título, que eu totalmente acreditava ser possível nas circunstâncias de então, a mesma teimosia lhe abriu a porta de outro título, assim como me abriu uma porta para qual lhe serei grato até o fim dos meus dias. Mas isso é para outro dia, outro post. Um dia é da caça e outro do caçador. Hoje é da caça.
Mattar, bravo dentro das quadras.
Inaugurando mais um call center.