Em um dia da semana tranquilo, pelo menos dentro do oásis do Club Pinheiros, me encontro com Thomaz Bellucci, o brasileiro melhor rankeado na ATP. O rapaz chegou guiando um carro nacional, sem nenhum requinte, não me perguntem a marca, e foi pontual.
Não apresentava as afetações nem os maneirismos dos esportistas que começam a se destacar. Não veio fazendo imposições, demonstrando impaciência e apelando para frescuras marqueteiras. Suas roupas são normais a ponto de passarem despercebidas e tampouco utiliza aquele linguajar “mano” que alguns idiotas insistem em usar quando querem transparecer intimidade e simpatia publicamente.
Conversamos por duas horas. Olhou para o relógio uma única vez – eu também – e em momento algum me fez sentir inconfortável. Foi tão aberto quanto se possa esperar de alguém com sua idade – ele completa 21 anos no ultimo dia de Dezembro – especialmente com alguém que poderia reproduzir a conversa na imprensa. Foi uma surpresa e, considerando o momento do tênis nacional, um alento para quem sempre tem expectativas altas e positivas como eu.
Como espero estar falando, cada vez com mais freqüência, desse tenista, tanto no blog como na ESPN, a conversa não tinha agenda especifica a não ser conhecer melhor o homem por detrás da raquete. Não pretendo reproduzir a conversa neste post, mas utilizar o que aprendi para melhor analisar o personagem no futuro.
A surpresa maior veio em descobrir não só suas ambições, sobre as quais é reservado, mas como pretende realizá-las. Thomaz diz que quer melhorar e se meter entre os 40 do mundo. Mas é claro que sua ambição é maior do que essa. Eu, particularmente, vejo ali material para top20 e aí aguardar onde mais seu emocional e vontade podem levar. Mas, esse tipo de coisa você fala com seu técnico e alguém da família que seja discreto. O momento da carreira é delicado e a hora é de manter as cartas perto do peito.
Porém, o tenista não tem receios em abrir o jogo sobre a formação de seu staff. Thomaz recém despediu seu técnico e contratou um novo. Ficou claro que houve desavenças, não só de metas, mas como conquistá-las. Thomaz não elaborou sobre o passado, mas foi aberto sobre o presente, que é o que conta.
Cansei de ver tenista perdendo o caminho assim que consegue algum sucesso. Assim que entra alguma grana é um tal de comprar carro novo, apartamento e, na hora de investir na própria carreira o bolso fica cheio de caranguejos. Em uma realidade onde os adversários têm de bom para ótimo suporte técnico, financeiro e logístico de suas federações, os tenistas que querem se dar bem, e não contam com essas facilidades, tem que se conscientizar, buscar e criar as suas.
Em 2009, Thomas contará com um staff que inclui técnico, preparador físico, fisioterapeuta e nutricionista. Sempre que possível viajará com os dois primeiros. Além disso, tem uma assessora de imprensa, das profissionais e não das amadoras metidas a besta, um acerto com a Koch Tavares de buscar seus contratos de publicidade. Começa também a trabalhar com uma psicóloga para incrementar o mental. Todas essas áreas são cruciais para o tenista atual. Tudo isso custa e Thomas é o primeiro a reconhecer a necessidade deles. Como sempre é o caso, ninguém se dá bem por acaso.
Bellucci ainda tem várias coisas a trabalhar e melhorar para atingir seus objetivos. Felizmente, para ele, está ciente de boa parte delas.
Alguns detalhes me chamam a atenção. Thomas é dono de poderoso saque, que ainda tem espaço para progredir e se tornar um dos melhores. Tem também um drive potente, capaz de incomodar e machucar os adversários. Tem certas características mentais positivas que, se acrescidas de outras que ainda não estão lá, podem construir um bom arsenal emocional.
Tem também ótima envergadura e excelente tamanho (1,87m) para o tênis. Já o ajuda no serviço e poderia ajudar nos voleios – um fundamento que ainda carece e usa pouco, especialmente para alguém de seu tamanho.
O brasileiro tem alguns desafios imediatos pela frente. Até hoje o seu sucesso foi construído em cima de resultados em Challengers. Suas participações em Torneios ATP deixam a desejar. E ele é o primeiro a saber disso. Bellucci ainda se sente confortável quando enfrenta adversários mais fracos e nem tanto quando encara os mais fortes. Óbvio que uma partida contra Nadal não conta, pois ali não existia nenhuma expectativa, e consequente pressão, para vitória – aí é mais fácil jogar solto.
Em seis ocasiões venceu o primeiro set e perdeu o jogo. Somente em duas perdeu o primeiro e virou – as duas contra brasileiros piores rankeados que ele. Estatistica que precisa, urgentemente, reverter. Pela conversa, a derrota mais difícil da temporada foi contra Jarko Niemenem, em Outubro na Suécia. Jarko é um tenista sem grandes golpes, mas muito sólido e perigoso. Não perde jogos que não deveria perder e para ganhar dele é preciso batê-lo. Nessa partida Thomas sentiu que poderia vencer, mas deixou escapar. A derrota foi um marco, de mais de uma maneira. Deixou claro, em sua mente, que ele tem jogo, está perto, mas ainda não está lá. E o pulo do gato está em começar a ganhar não só esses jogos, como não perder ganháveis e, finalmente, vencer, com regularidade, os adversários melhores rankeados.
Considerando tudo que aprendeu, Bellucci decidiu que 2009 é o ano do pulo do gato. Não quer mais jogar, e se proteger, nos Challengers e pretende fazer bom uso de seu ranking – 85 – para jogar os torneios maiores, como o Aberto da Austrália – e mesmo se arriscando nos qualys, como nos anteriores. Uma decisão tanto arriscada como corajosa. Essa faixa do ranking é escorregadia e perigosa, já que não o coloca em todos os torneios e é fácil cair para fora dos 100. Mas Thomaz já sabe que ficar sendo o “rei dos challengers” – ele ganhou quatro na temporada – não é como se constrói o futuro. Ele já cumpriu essa fase e se não tiver a audácia, a coragem e a capacidade de dar o próximo passo, vai se acomodar por ai como vários fizeram.
Mas eu queria a conversa justamente para sentir o jovem. O encontrei motivado e, principalmente, consciente. Agora é trabalhar, lutar e acreditar. Estarei torcendo.

Thomaz Bellucci – 2009, o ano do pulo do gato.