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Arquivo de outubro, 2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008 Sem uma categoria | 18:33

Encruzilhada

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Sentado na Encruzilhada, talvez o meu canto mais emocional em Paris, com a compreensível exceção da Quadra Central de Roland Garros, mesmo que por razões diversas, passei o fim da tarde realizando um dos meus programas favoritos na cidade. Usufruindo da hospitalidade de um café parisiense, tomando um Kir de vinho Sancerre, olhando o mundo, especialmente o feminino, passar à minha frente, numa alternância de pressa da parte delas e deslumbramento, de ambos, também por diferentes razões, em um lugar mágico e único.

A Encruzilhada é uma pequena intersecção de ruas charmosas no coração de St Germain, meu quartier favorito da cidade. Nele se encontram a ruas Buci, Mazarin, Dauphine, St Andrés dês Arts e L’Ancienne Comédie. Os carros não são bem vindos e a Buci é de fato vedada a eles, apesar de que vez em quando um deles se esgueira por entre os pedestres que invadem o asfalto.


Eu pensando na vida

Foi ali, de pé no meio desta rua, olhando o casaril centenário, maravilhado com flanar eterno das pessoas, inalando os encantadores odores da feira perene, da floricultura na calçada, dos restaurantes servindo seus filets com fritas, das padarias soltando seus pães quentes e as pâtisseries me tentando dia e noite, que eu decidi, muito tempo atrás, que um dia voltaria a esta cidade sem estar envolvido com algum tipo de trabalho.

Não se pode exigir que a vida nos entregue tudo exatamente como se quer ou planeja, mas quando um sonho se realiza é sempre uma satisfação, mesmo que uma fria pontinha de tristeza venha bater em no cangote por conta das imprevisibilidades da vida.

Aproveito para passar os olhos no jornal, onde leio que Roger Federer não perdeu tempo depois de pular fora do Torneio de Estocolmo esta semana. Fugiu do frio que começa a açoitar capital sueca, assim como a francesa, e foi se refugiar nas brisas quentes do Dubai, seu recanto favorito e aonde vem passando seus momentos de férias e de treinamento. A notícia do jornal pouco fala do tênis ou das razões que levaram o suíço a sair de um torneio onde estava escrito.

O jornal conta, com detalhes, a visita de Roger a um joalheiro local, acompanhado da namorada Miroslava, onde pediu para ver mais de um anel, inclusive um com um diamante de 60 quilates, o mais caro da loja, e outro, rosa e com 16 quilates, segundo informou o indiscreto dono da lojinha.

Será que o tenista é simplesmente um curioso ou o casal tem planos para levar o relacionamento ao próximo nível? Vi aqui na França um ótimo e extenso documentário com o suíço, onde ele diz, com todas as letras, que Miroslava é responsável por levá-lo pela mão pela passagem de garoto para homem, em todos os sentidos. Mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, um homem tem que fazer o que ele tem que fazer. E o que, está sempre dentro de seu coração.


Ao contrário do que afirmava bond, diamantes não são eternos

Autor: paulocleto Tags:

domingo, 5 de outubro de 2008 Sem uma categoria | 11:42

Conflitante, porém é assim.

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Em um dos dias que fui jogar nas quadras do Centro de Treinamento de Roland Garros, estava por lá treinando Gael Monfils, jovem francês, de 22 anos, e talvez a maior esperança local para vencer Roland Garros. Porque o Simon ou o Mathieu é que não serão os que vão acabar com a secura do pessoal.

Alguns acham que o Gasquet ou o Tsonga possam levar. Desses todos, só acredito em Monfils ou Tsonga. O Gasquet tecnicamente até poderia, mas a cabecinha… – precisariam ressussitar o Lacan.
O Tsonga tem 23 anos e começou a se entender no circuito esta temporada, especialmente após sua participação no AO. Mas tem sofrido com contusões e inconstâncias e seu piso favorito não é o saibro. Mas eu não apostaria contra ele e até torço que venha a ser o cara.

Monfils seria a aposta – vamos deixar claro que não estou colocando um euro sequer no rapaz, especialmente depois do rapa aprontado pelos bancos americanos. O francês é um dos mais mascarados do circuito e quando um leitor me pediu para listar os tenistas arrogantes do circuito atual o nome dele foi um dos que me veio à mente.

Talvez ele tenha o necessário para vencer na sua própria casa. Porém, para realizar tal feito terá que comer o pão que o diabo amassou, fazer severas mudanças na sua mentalidade e colocar o tênis como sua maior e única prioridade. Além de buscar ajuda.

Quem poderia ajudá-lo seria Yannick Noah. Mas este está morando em Nova York e não quer saber de nada. Pelo background cultural e étnico poderia fazer uma boa e necessária influencia no Monfils, além de conhecer o caminho das pedras.

O jovem francês é daqueles que se acham reis da cocada preta e por isso continua jogando abaixo de suas capacidades reais, o que é o crucial para o assunto. À parte disso, sem necessariamente influir no assunto, tem, vamos dizer assim, certa ausência de caráter exemplar em quadra. Se pudesse expulsava os juízes e marcava as linhas ele mesmo. Ainda não descobriu que a maneira de se sobrepor e ser um campeão em quadra é outra – vide Nadal e Federer – e isso tem tudo a ver com o assunto.

Mas é extremamente atlético, no que me lembra o Noah. Infelizmente, para ele, as comparações param por aí, se esquecermos que os dois são negros. Tem bons golpes de fundo de quadra, sabe volear e definitivamente sabe sacar. Além disso, essa sua personalidade, esse seu jeito um tanto bagaceiro, lhe dá também ferramentas para ser um vencedor em quadra, quando não está tropeçando na própria personalidade. Pode parecer contraditório. De fato, e é exatamente assim que funciona.

Só teria que ser capaz de colocar em quadra seu melhor tênis, e todas as mudanças positivas necessárias, durante sete jogos e quinze dias de uma primavera parisiense nos próximos anos. No dia que o vi treinar com seu técnico, o australiano Roger Rashid – porque na França não tem ninguém bom os bastante!? – o banco de sua quadra estava repleto com um bando de “manos” – os amigos dele.

Após o treino, enquanto eu esperava a chuvinha impertinente dar uma folga, assisti ele e seu pessoal sair do centro de treinamento. Gael e seus manos saíram pela esquerda, com fones de ouvido, falando alto, em direção a um carrão. O técnico Rashid saiu pela direita, só, todo encolhido pela garoa.

Enquanto olhava o grupo indo pela esquerda e o técnico pela direita algo me pareceu claro na minha mente. Enquanto esse cara não der um pé na bunda dos manos e sair pela direita com o técnico, ele não vence aqui – nem que a Torre Eiffel crie pernas e saia caminhando.


Gael Monfils em Roland Garros – precisaria focar para ganhar

Autor: paulocleto Tags:

sexta-feira, 3 de outubro de 2008 Sem uma categoria | 19:03

Bate bola em Roland Garros

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Hoje fui novamente a Roland Garros bater umas bolinhas para me divertir e manter a forma – afinal, come-se bem por aqui e tenho sérios adversários a enfrentar na minha volta.

O meu parceiro de hoje foi o ex-tenista Patrice Dominguez. Como a maioria dos leitores é amadora no que se refere ao tênis, além de estarem mais familiarizados com o tênis atual, vale uma introdução.

Patrice tem 58 anos, dois a menos do que eu, jogou o circuito nos anos setenta e chegou a #36 do ranking mundial. É Diretor Técnico Nacional, principal cargo técnico da Federação Francesa, que é uma potência imensurável no nosso padrão, foi o diretor do Aberto de Monte Carlo durante anos, trabalha como comentarista de TV francesa há duas décadas e preside o tênis competitivo na França.

São cerca 80 mil partidas de diferentes classes infanto-juvenis por ano, aproximadamente 400 tenistas juvenis e 40 técnicos sob sua supervisão – os tenistas bancados e os técnicos assalariados – além de toda a estrutura de formação, assistência a tenistas em transição e a profissionais. Nestes últimos, os homens sob a supervisão de Cedric Pioline e as mulheres de Georges Goven. Goven também da minha idade e Pioline, 39 anos, foi #5 do mundo e, durante um tempo, treinado pelo meu pupilo Carlos Kirmayr.

Jogamos indoors, nas quadras subterrâneas de Roland Garros – a temperatura de 13º afugenta, além do que todo o pessoal em treinamento está no meio da temporada indoors. As quadras de saibro, onde se joga Roland Garros, estão praticamente abandonadas e “adormecendo”. Uma ou outra são usadas por amadores. As principais descansam – serão refeitas após o inverno.

Nosso bate-bola, tudo de bom, foi bem corrido, pelo menos para nossas velocidades. Como disse Pioline, que passou um tempo curtindo nosso joguinho, estamos muito mais no tempo de jogo dele – que joga uns poucos Masters por temporada – do que os nossos vizinhos que batem sem dó nas bolinhas.

Quem de fato nos fez companhia em quadra foi Patrick Proisy que, para quem não sabe, foi vice-campeão em Roland Garros em 1972, perdendo a final para o espanhol Andrés Gimeno. Conheço Proisy desde 1966, quando jogamos o Orange Bowl. Ele formava o time francês com Goven, outro amigo, que estava por aqui estes dias e foi ontem para o Japão com suas meninas. Fiquei sabendo que três dias atrás Amelie Mauresmo, 29 anos e ainda sofrendo as conseqüências de uma apendicite, se separou de seu técnico de seis anos, Loic Courteau.

Vou continuar pedalando bastante pela cidade, que é um programão, percebi, manteve a força das minhas pernas, e na próxima terça-feira volto para a minha derradeira partida nas quadras de Paris.
Coloquei isto tudo para dar uma perspectiva ao post anterior e seus comentários.

Nas breves conversas com Dominguez sobre a Federação, uma montanha de informação me é despejada. Alguns números eu lembro a maioria não – conforme ele vai falando a minha agonia e estresse atinge níveis incontroláveis e talvez eu prefira obstruir. A realidade entre a federação e, consequentemente, o tênis deles e o nosso é indescritível e frustrante.

Alguns números do ano passado: a federação realizou 2 milhões de partidas, em todos os níveis, em 10.449 torneios, tem 1 milhão e cem mil tenistas inscritos em 8.515 clubes com 33.400 quadras, 13 mil professores de iniciantes e 562 mil infanto-juvenis inscritos!
Nem sei quantos eventos profissionais – futures, challengers – fazem. Sei que são cinco grandes, entre eles um Masters Series um Grand Slam.

A principal, porém não única fonte de renda da Federação Francesa é Roland Garros, que fatura 150 milhões de Euros e deixa um lucro de 50 milhões a cada evento. Destes, 17 milhões vão para o departamento de Dominguez, que é bem amplo, não vou nem explicar, para formar novos valores. Eles têm 11 homens e sete mulheres entre os 100 melhores do ranking.

Nossa confederação é inexistente em termos de formação de jogadores e temos dois brasileiros entre os 100 – o Thiago está chegando lá. Quando mencionei a Patrice as maravilhas de ter tal orçamento, ele respondeu que existem metas e cobranças. Mas que a diferença para todos os envolvidos – o Grande Nirvana – seria um deles, mulher ou homem, vencer ali, e apontou com o queixo a Quadra Philippe Chatrier – eles não vencem desde Yannick Noah em 1983. Senti um sorriso amenizando minha face, que tentei esconder, e pensei; o Guga venceu três!


Quadra Central de Roland Garros descansando


Os três Ps – Proisy, Cleto e Dominguez

Autor: paulocleto Tags:

quinta-feira, 2 de outubro de 2008 Sem uma categoria | 19:19

Torneios fora de mão

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O leitor Gustavo quer saber minha opinião sobre os principais eventos tenisticos – Aberto do Brasil no Sauípe, e Copa Petrobras em Aracaju estarem longe dos olhos dos principais centros, onde está a maioria dos tenistas.

Acredito que o Brasil Open não deva acontecer na Bahia por muito mais tempo. Acredito até, que se a escolha fosse dos organizadores eles o realizariam em São Paulo ou Rio. Mas o principal patrocinador do primeiro, o Banco do Brasil, tinha interesses no Sauípe e Aracajú também é escolha do patrocinador.

Não é só aqui que eventos são realizados em resorts, como o Sauípe, e longe dos grandes centros. Itaparica já era assim. Indian Wells é um exemplo, apesar de que pela magnitude do torneio conseguem atrair o publico do sul da Califórnia. Eles são bancados pela prefeitura local, riquíssima. Kitzbuhl é outro. São vários. Como seus tenistas conhecidos disseram, para eles é confortável – fica tudo perto e à mão, é quase uma semana de lazer bem pago, apesar de estranharem a falta de público.

Talvez isso fosse diferente se quando os torneios acontecessem em São Paulo o público não deixasse de comparecer, como aconteceu anteriormente, por conta de acharem os ingressos caros. Mas que os promotores preferiam, e de certa maneira também os tenistas, não tenho dúvidas. Mas grandes torneios são eventos muito caros e alguém precisa pagar a conta. Se o paulistano, ou carioca ou outros, não pagam, o patrocinador, quando encontrado, o que não é nada fácil, paga e leva para onde quer.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008 Sem uma categoria | 16:21

Circuito sob medida

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Desde os tempos que escrevia no Jornal da Tarde e no O Estado de São Paulo aprendi uma coisa. Eu escrevo o que quero, mas muitos lêem ali o que querem. Traduzindo, eu posso escrever algo que alguns entendem seja lá o que for. Na verdade, aprendi que isso é um fato também em conversas. Já vi gente brigando, apesar de estarem dizendo a mesma coisa – se simplesmente “ouvissem” ao invés de “sentirem” em cima do que acham que os outros dizem, talvez tivéssemos menos confusões. Em italiano a palavra “sentire”, pode ser tanto “ouvir” como “sentir”, o que sempre me intrigou e talvez explique tanta confusão.

Como já disse em resposta a um comentário, a minha perspectiva sobre o tênis é longa e histórica. Não entrei no esporte em 1997, quando Kuerten venceu RG, nem o mês passado. Eu disputei meu primeiro Campeonato Brasileiro Infantil em 1959 – são quase 50 anos.

Há coisas no tênis que são padrões que se repetem e há fatos que são únicos. Estou aqui para passar meu ponto de vista que teoricamente é de alguma maneira abalizado. Se não eu não estaria aqui e nem vocês apareceriam. Leiam, comentem, acrescentem, criem se quiserem, mas não afirmem o que eu não afirmei.

O post anterior era uma introdução ao fato da Copa Petrobras, que é o maior circuito Challenger da América Latina, estar mais uma vez de volta ao Brasil. O evento, um remake de diferentes circuitos que a America Latina já teve – começando com a Copa Marlboro nos anos setenta e a Copa Ericsson uma década atrás. A Copa Petrobras é o amadurecimento de todos eles, levando em conta a realidade do continente, oferecendo a tenistas e ao público uma ótima opção de se jogar e assistir a bons torneios profissionais.

O único senão do circuito para mim, uma visão um tanto egoísta, mas realista, é que nenhum dos torneios aconteça em São Paulo. Eles acontecem em Bogotá, Aracaju, Assunção, Montevideo, Buenos Aires e Santiago. Todos jogados em saibro, o que também respeita a cultura tenistica local.

O circuito é excelente para os tenistas, aqui penso mais nos “locais”, adquirirem pontos, prêmios, experiência e confiança, tudo no cenário mais favorável pelas circunstâncias geográficas e culturais. Acreditem isso faz uma boa diferença.

Complementando o post anterior, a característica da Copa seria a de preparar o tenista para a próxima fase do circuito, a do circuito ATP, e não a de servir de berço esplendido. Uma legião de tenistas, argentinos especialmente, e brasileiros, como Kirmayr, Motta, Meligeni, Oncins, Mattar, Hocevar e Kuerten, entre outros brasileiros e sul americanos, o fizeram e alavancaram suas carreiras.

O jogador precisa de ambição e metas claras para encontrar dentro de si forças para trabalhar no nível durissimo que o progresso na profissão exige. Um circuito como a Copa Petrobras é excelente para colocar o tenista em face com a realidade e assim poder realizar, junto com seu técnico, o necessário para as melhorias necessárias que o levarão ao próximo nível. Quem ganha também é o público, com a oportunidade de acompanhar esse crescimento individual e o conflito que o confronto entre diferentes tenistas do mesmo nível oferece.

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