boa noite?
Dei uma olhada no tenisbrasil e vi que o José Nilton escreveu uma nota sobre a exorbitância dos preços nos ingressos de Wimbledon. Já que muitos leitores me pedem para que conte algumas das minhas histórias do circuito – não sei ainda o porquê da minha reticência a respeito, mas estou trabalhando na questão – aproveito para lembrar uma delas. No caso, o receio é o de passar por um tremendo de um “marcão”, como verão abaixo. Mas vamos lá.
O site pescou na internet que os ingressos das finais de Wimbledon valem cerca de U$6 mil. Na verdade, quem quiser pagar isso pela internet que o faça, mas geralmente saem um pouco mais em conta, sempre dependendo do assento. Por U$6 mil dá quase para sentar no Royal Box no colo da Duquesa de Kent.
A realidade é que os assentos ficam mais caros nos últimos três dias do evento, quando se conhece os finalistas das mulheres e dos homens. Os preços oscilam conforme o confronto. Se as partidas são entre dois tenistas que criaram uma expectativa, antes ou durante o torneio, os preços aumentam. Se a partida não causa maiores frissons, o preço não inflaciona tanto.
Em 1981 eu estava em Wimbledon para a final masculina entre Bjorn Borg e John McEoroe, uma final que mudaria a história do esporte – a última do sueco. A final masculina acontece às 14hs. A noite anterior tinha sido das interessantes e terminei por ir dormir tarde. Acordei também tarde, tomei um late breakfast, li o The Times, tomei um banho e me preparei para sair. No elevador encontrei a tenista Bettina Bunge, uma peruana/alemã de muita habilidade e top 10 na época, acompanhada da mãe. Cumprimentamos-nos e ela perguntou se eu iria a Wimbledon. Confirmei e Bettina perguntou se eu queria ficar com dois ingressos, já que ambas estavam de partida. Detalhe – o lugar dos tenistas é dos melhores.
A noite realmente havia sido intensa e minha mente ainda não estava na freqüência habitual. Olhei para Bettina, uma loirinha de rosto delicado e bonito, cabelos curtos, corpo enxuto e que conhecia desde os tempos em que era a grande rival de minha irmã Ruth, nos Sul-Americanos, e me perdi nos seus olhos azuis. Agradeci, mas tinha meu ingresso.
Cheguei à porta do hotel, subi no táxi e parti para Wimbledon. Chegando perto do estádio – aquilo é uma zona residencial e as ruas ficam congestionadas, o motorista colocou na Radio Wimbledon. A rádio só funciona na região e na época do torneio, com entrevistas, reportagens, informações e as transmissões das partidas.
Enquanto meu olhar deslizava pelo mar de pessoas de pessoas chegando ao All England e o gramado que fica do outro lado da rua do clube, ouvi o radialista informar que naquele dia os cambistas – e na época não eram sequer ilegais – estavam vendendo os ingressos a U$2.5 mil cada um. Naquele elevador, não sei se pela força dos acontecimentos da noite anterior ou se pelo azul dos olhos da Bettina, U$5 mil me escaparam de uma maneira imperdoável e inesquecível.

bettina
