Como os meus leitores gostam das minhas historinhas, decidi publicar algumas colunas do passado para colorir ainda mais a cobertura de Roland Garros. Começo hoje e, conforme for, vou usando o expediente através do evento. É uma maneira de levá-los através do túnel do tempo, misturando passado e presente, e contar um pouco de minha história com a de Roland Garros. Começo com uma das primeiras publicadas no Jornal da Tarde em 1996, um ano antes de Gustavo Kuerten vencer em Paris pela primeira vez e assim, finalmente, o público brasileiro se ligar no evento.
Prometendo ser a última vez em suas carreiras, Yannick Noah e Henri Leconte entraram na Quadra A para jogar a primeira rodada de duplas. Noah, atual capitão da equipe de Copa Davis, foi o ultimo francês que venceu Roland Garros, em 1983. Figura exuberante, filho de uma francesa e jogador de futebol de Camarões, trouxe a ginga africana para o tênis para o delírio dos franceses.
Fã do Brasil, especialmente sua gente e música, é amigo dos jogadores brasileiros assim como de Gilberto Gil. Convidado ao torneio de Itaparica como espectador, jogou, e bem, futebol todos os dias. Do tênis ficou longe. É bom nos dois esportes, graças a uma incrível força e habilidade física. Faz o maior sucesso com o público feminino pelo físico de guerreiro e um feliz casamento de garra, audácia e charme que esparramava pela quadra.
Ontem, infelizmente, havia uma grande diferença entre o que podia oferecer, e o público, seu exigente aliado, clamava. A técnica, a explosão, e o ritmo não estão mais lá, mas a admiração do público sim. O congraçamento dele, Leconte e o público, através das brincadeiras e risadas mostraram qual era o real significado da presença de ambos na Quadra A.
Os dois adversários, Tarango e Delaitre, nem que fosse combinado poderia ser um par tão perfeito de adversários do dois mosqueteiros. Antipáticos, sempre causando problemas com jogadores, juízes e o público, são dois mal amados que definitivamente tiveram que fazer a cabeça para o jogo. Quietos e passivos jogaram um tênis burocrático e deixaram todas as brincadeiras, comentários e o show para quem sabe. Ganharam, mas não levaram.
Levando o jogo para o terceiro set, Noah e Leconte ainda fizeram o público acreditar, mas eles mesmo não pareciam convencidos de que poderiam ganhar. No final, fiel a fama de “showman”, Noah fez as dez mil pessoas cantarem e aplaudirem. Agradeceu e saiu rapidamente da Quadra Central pela última vez. Já eram 19hs e tinha outro compromisso importante.
No Hard Rock Cafe, tenistas, homens e mulheres, esperavam pelo astro da noite, o mesmo Noah, agora transfigurado em cantor. Com dois CDs no mercado; Carlos Kirmayr tem um deles e me assegura que o cara é bom. Enquanto comiam uma comida horrível, que perpetua a fama da cozinha americana pelo mundo, aqueles que já perderam iam tomando suas Heinekens.
Antes de Noah, um sueco menos cotado, com ajuda de um baterista e Kirmayr no baixo emplacavam Dylan e Neil Young. O Café, repleto de fotos e souvenirs de rockeiros, estava lotado. Além dos tenistas, o publico que sempre consegue convites para tais festas; modelos, starlets, socialites, todas querendo uma casquinha dos jogadores.
Na rua muita gente tentava, sem sucesso entrar, viu quando Noah chegou. Logo estava no palco cantando, para a felicidade do jovem Gustavo Kuerten, sucessos do ídolo do tenista catarinense, Bob Marley. Um time de sul americanos formava na frente do palco o grupo mais animado. Dançando só ou acompanhados, divertiam-se a valer. Quase todos solteiros e cheios de amor para dar, empolgavam as modelestes francesas que sempre tiveram um fraco pelo exótico charme sul americano.
Após varios “reggaes”, Noah anunciou; “maintenant, musica para a gente branca”. Mandaram ver em alguns “Rock’nRoll” e finalmente cederam lugar para a próxima estrela da noite. Ricardo “Pardal”Accyoli, técnico de Fernando Meligeni e ex jogador, canta e toca guitarra bem. Com Peter Lundegren, tambem ex jogador e atualmente pagando seus pecados como o mais recente técnico de “Chino” Rios, na bateria e Kirmayr no baixo. Pardal segurou bem o show para o público que já estava alegre e aceitando todas. Yannick voltou ao palco para o grand finale, cantando, em dueto com o brasileiro, o sucesso dos Beatles “twist and shout”. Quase duas da manhã, os tenistas esperavam por taxis para voltar para os hotéis. É a única hora que eles não tem direito a um dos 90 carros e 230 motoristas a sua disposição – apesar de que sempre tem um ou outro “jeitinho”.


Yannick Noah, como tenista, cantor e pai, do pivô dos Bulls na NBA.