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10/07/2009 - 20:56

*Noutras palavras sou muito romântico – I

 

Há séculos usamos “romantismo”, e todos os seus derivados, como uma espada, como um escudo, como ataque e defesa, como definição para o que é e o que não é “definível”. O que importa é ser romântico, sentir o romantismo, espalhar o romance. Romantismo nos arrasta a conceitos tão vagos quanto ele, hipervalorizados como ele e, como ele, difíceis de definir e enquadrar, tais quais amor, glória, beleza, sedução.

 

É romântico o pagodeiro careca que pede, gemendo e piscando, que você ligue no celular dele, é romântico o final de Casablanca, mesmo que a mocinha e o mocinho não terminem juntos. Romântico também é o papel de carta da Hello Kitty, as almofadas de coração no quarto da menina, a mocinha em “Cantando na Chuva” sacrificando a própria carreira, o Alexandre que me levava sabonetes artesanais num dia de semana sem qualquer motivo aparente.

Tudo isso e o que mais você quiser incluir nessa lista são presentificações de valores que o estilo romântico marcou em nossos corações, a ferro e fogo no século XIX: um certo saudosismo, aquela sensação de que no passado é que era legal, a vida idealizada, o parceiro idealizado, a certeza meio amarga – meio blasé, de que os bons dias de outrora não voltarão, o grande amor que nos redimira a todos e, claro, o final da estória recheado de casamentos, vilões punidos e mulheres grávidas.

Os deliciosos professores Faraco e Moura ensinam que o romantismo pode ser um estado d’alma. E esse tal “estado d’alma” pode aparecer em qualquer época, em qualquer tipo de manifestação artística, em maior ou menor intensidade.

Romantismo, assim, pode designar um estado de espírito, um modo de sensibilidade, de ver a vida, senti-la e reagir a ela.

Mas o Romantismo é também o nome de um movimento artístico.

Ele compreende a tendência geral da arte que era feita do final do século XVIII até meados do século XIX (embora diferentes autores dêem diferentes datas, e me deixem doida).

O Romantismo, quando se fala em estilo de época, é algo que acontece entre o final do século XVIII e meados do século XIX. O termo reina numa atmosfera dramática – amorosa, vasta e ao que parece, inacabável.

A localização histórica do estilo romântico é explicação para quase tudo: na Revolução Francesa em curso, no final do século XVIII, cabeças nobres eram cortadas. Um pouco antes disso os Estados Unidos se libertaram da Inglaterra e criaram o primeiro governo constitucional da América. Na Inglaterra, uma forma de produção sem paralelos transformava o mundo como nada antes o fizera.

Quem é que tem o poder nesse mundo nosso? Quem tem grana, como sempre foi, certas coisas não mudam. E quem tem grana? Acertou, a burguesia.

A burguesia tem padrões diferentes da nobreza que uma porção de sentidos, ainda que admire a nobreza e queira imitá-la também num montão de cousas. A burguesia tem que erguer e alicerçar seu, hohoho, “império”, sobre novos padrões. Seus parâmetros são diferentes, seus objetivos também.  

O estilo Romântico será a expressão artística dessas circunstâncias históricas. Foi um movimento que abraçou com a mesma fúria apaixonada o conservadorismo e o desejo libertário, o ontem e o hoje, as novidades e as fórmulas consagradas, o poder e a revolta. Debaixo do signo romântico, coube, e cabe, de um tudo.

 

Contradição, minha senhora? É claro que sim. O Romantismo foi o movimento das contradições por excelência: sua principal marca é o conflito entre o indivíduo e o mundo, o indivíduo e o Estado, o indivíduo e si mesmo – à medida que o homem romântico não corresponde nem às suas próprias expectativas, nem às suas próprias idealizações. A perplexidade do indivíduo diante do mundo que vê à sua volta a frustração do presente na qual se transformou sua crença no progresso, a vida nova prometida pelas muitas revoluções que não veio: tudo isso se traduziu no estilo romântico como emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia.

 

 

Opa… emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia??

Eba.

Sexta-feira que vem, sexta-feira que vem.

 

*frase se Caetano Veloso

**Foto do querido Nelson Biagio Jr.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , ,
30/01/2009 - 04:09

O sentimento dum ocidental (ou O livro que eu quero ler II)

Eu sei, eu sei. Posso até ver os e-mails do Cláudio Luiz e do Rui na minha caixa postal, dizendo que, se eu falar de um livro por vez, nossa lista dos livros de 2009 não acabará nunca. Mas o que é que eu posso fazer, se dois leitores da coluna, a Ana Miranda e o Antônio Luiz, disseram que, em 2009, vão descobrir Cesário Verde?

Eu amo o Cesário Verde.

*

Cada palavra que ele nos deu em sua curta vida (e nem foram tantas palavras assim) é preciosa.

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Cesário Verde foi um cara muito sério. E um escritor daqueles que só o maravilhoso século XIX poderia ter nos dado.

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Como ele viveu e morreu no século XIX, como escreveu entre 1873 e 1886, temos a mania de enquadrá-lo como realista. Mas ele foi mais que um realista. Ele foi um poeta apaixonado e viceral e, mesmo assim, cínico.

*

Ele olhava o mundo dele com olhos generosos, ainda que sofridos e com muita largueza (foi Dostoiévski, dentre outros, quem disse “Aquele que fala sobre sua aldeia, fala sobre o mundo todo”). Talvez por ser um agricultor, Cesário Verde não fazia uma poesinhazinha confinada e petitica, sua poesia é de grandes espaços, de céu azul, e mesmo quando fala de morte, de tuberculose ou das incertezas da vida, é poesia para ser lida em voz alta, com grandes gestos e teatros. Toda essa amplidão, permitiu a Cesário Verde transitar pelo Realismo, e ir e vir sem cerimônia ou amarras, pelo Parnasianismo e pelo Romantismo, pelo Naturalismo, pelo Impressionismo e ainda, pasmem as senhoras e os senhores, esse cara botou os pezinhos no lago do Expressionismo e do Surrealismo antes, muito antes, que nós começassemos a derreter relógios e deformar fantasias.

*

Alguém aí falou em Modernismo? Ele chegou antes, ele provou que a literatura, e porque não falar na arte e na vida, não estavam assim tão arrumadinhas em camadas de bolo, imóveis e sagradas.

*

Cesário Verde não tem pudores, nem para o amor, nem para a dor, e juro que não estou tentando rimar, nem para o humor.

*

Ele era mesmo um cara amargo e sofrido, com uma vida difícil, de muito trabalho… ele pensava demais – e Deus sabe, a vida não é nada fácil para os que pensam. Mas ele se valia do humor e da ironia e ria de si mesmo, de seu tempo, de sua época e de todos os clichês.

*

Cesário Verde nasceu em 1855. O pai dele era um burguês do século XIX: tinha uma loja de ferragens, uma quinta produtiva e filhos para tocar os negócios. Cesário Verde está à frente da loja da família. E está nos campos colhendo frutas e, suando sob o sol (a natureza de Cesário Verde não é feita de esquilinhos gorduchos e fadinhas da primavera, ainda que ela fosse mais limpa e mais sadia que a cidade), toca o negócio e cuida dos irmãos e paga os funcionários, como gerações e gerações antes dele. Ele está no olho do furacão do século XIX, aquele século maluco e frenético, de fábricas que surgiam, do cotidiano feio e nada poético, de produção em série que começava a existir, dum mundo em larga escala que nunca havia sido visto e que nunca mais iria embora. Ele vê a miséria e as diferenças sociais, ele se frusta por não conseguir ser um grande imortador de vinho e, ao mesmo tempo, por não ser um escritor reconhecido (e o que seria do mundo da literatura sem escritores pobres de grana, pobres de fama e resmungões, eu vos pergunto), ele vê as cidades crescendo, o campo ficando cada dia mais longe, as promessas do futuro chegando, mas o passado – inclusive com com suas doenças agustiantes, como a tuberculose – segurando o passo de todo mundo e, ahá, paradoxalmente, mantendo todos a salvo. Viver no século XIX era viver em conflito e agonia (ah, Fal, e qual século foi moleza, minha filha?), estávamos quase lá, mas não estávamos realmente, e Cesário Verde, que quis ser um poeta pálido, um burguês alienado e um camponês robusto, não foi nada e foi tudo; mesmo quando não percebia, mesmo quando não era.

*

Ele morreu em 1886, de tuberculose, como deve morrer um herói do século XIX.

E eu não vou ficar aqui me estendendo sobre seu genial jeitim de fazer contraste entre campo e cidade, de falar sobre seu trabalho na lavoura, sobre sua família, sobre sua vida burguesa e pacata, sobre seu testemunho acerca o mundo que o cercava e o mundo que ele gerava em seu coração. Vou apenas lhes dar um conselho, porque nós, as velhas senhoras, temos autorização Divina pra aconselhar jovenzinhas bonitas e menininhos encantadores. Façam como o Sr. Cesário, Ana, Antônio, e procurem “sentir tudo, de todas as maneiras”. Sempre. Vai doer pra caramba, mas fiquem firmes. Ele ficou.

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , ,
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