Romantismo | Palavras da Fal
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24/07/2009 - 18:05

Noutras palavras, sou muito romântico – III

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Ainda sobre Romantismo, anotações soltas, para acabar.

- O romantismo domina a música do século XIX. Weber, Schubert, Hoffman, Meldesson, Schumann, Berlioz, Verdi, Wagner e Brahms (pelo menos nalgum ponto de suas alegres carreiras) são românticos. E, mesmo assim, eu pulei um monte.

- Mesmo com traços em comum, os românticos são todos diferentes entre si. O romantismo, ao permitir liberdade de expressão, incentiva os talentos individuais e, claro, as diferenças entre seus representantes. E mais, autores de países diferentes ainda são mais diferentes entre si, de tal forma que o estudioso Otto Maria Carpeax, não fala em Romantismo na música, mas sim em Romantismos: Romantismo alemão, Romantismo francês, Romantismo inglês etc..

- O Romântico está sempre recriando a realidade. No Neoclassicismo, essa recriação passava pela imitação da arte greco-romana.
Já no Romantismo, não se espera a obediência a esquemas pré-estabelecidos, nem modelos de criação gregos e latinos. O Romântico se expressa de forma única, individual.

- A busca do Romantismo será sempre analisar e se expressar por meio dos sentimentos, não mais da razão. O sentimento individual dá a dimensão exata do mundo, que busca, ao expressar-se, o absoluto, o infinito, a perfeição – que são inalcançáveis. A impossibilidade de alcançar a perfeição, o ideal, gera insatisfação, amargura, sofrimento e dor, que, de muitas formas, são as molas propulsoras para a criação Romântica. Conheci poucas coisas que representem melhor esse espírito Romântico, essa característica Romântica em especial, do que um trecho de uma linda carta de amor que Camile Claudel escreve para Rodin. Sim, eu sei, eles tão lá pra frente, invadindo o século XX, mas o espírito é o mesmo. À certa altura, ela diz “Há algo de ausente que me atormenta”.

- É isso. O artista Romântico é empurrado adiante por essa coisa ausente, essa completude que nunca chega, esse tormento de saber-se, para sempre, incompleto. O tormento e o desespero são tantos e tão profundos, que muitas vezes o artista Romântico não vê outra alternativa, a não ser a morte.

- O Romântico se sente um desajustado. “Tal desajustamento conduz ao mal do século, definido como a aflição e a dor decorrentes da falta de sintonia com o mundo.” – Faraco e Moura, no Língua e Literatura.

O mal do século é esse estado de espírito que acaba por levar o Romântico a procurar a solidão, a viver sua dor e seu sofrimento de maneira profunda e contínua.
Também como saída para o desequilíbrio que via à sua volta, o Romântico desenvolve formas de fuga ou de evasão da realidade.

- Uma das formas de evasão do Romântico, é o tempo. Ele recua em busca do passado histórico ou individual, em busca de completude, em busca da felicidade que existiu um dia. O Romântico é o rei do “eu era feliz e não sabia”.

- Acho encantador verificar quão românticos ainda somos. Somos tão, tão tocados por esse movimento de séculos atrás, somos tão influenciados por ele, dependentes dele até. Temos todo um sistema de crenças e vários kits de sobrevivência emocional calcados nesse período. Somos maniqueístas e nacionalistas e saudosistas e tudo o mais que o Romantismo exaltou. Somos sim, todo o tempo, queiramos ou não, para o bem e para o mal. Hum. Inté.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
17/07/2009 - 15:11

Noutras palavras, sou muito romântico II

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retrato de Beethoven pintado por Joseph Karl Stieler em 1820

Ah, a vida. Eis que a vida muda. Sempre. Queiramos nós ou não. E, geralmente, láááá no fundo, não queremos, mas isso é conversa pruma outra sexta-feira.

Bão. Durante o século XVIII, nossas vidas mudaram como nunca, lembram? A revolução intelectual, a Independência Americana, a Revolução Francesa, o Iluminismo, a burguesia no poder (só pra gente ter em mente: quando a Revolução Francesa terminou, a Europa tinha 180 milhões de habitantes. Em 1914, 460 milhões).

Nossas vidas nunca haviam sido tão complexas.

E, com isso, eu não quero dizer que os que vieram antes de nós tinham vidas fáceis ou simples, porque o passado nunca foi feito de “bons e velhos tempos que não voltam mais”, não nos iludamos.

Mas o fato é que nunca na história tínhamos tanto com o que lidar, não importando a qual classe econômica pertencesse nossa família.

Ideais sociais e políticos multiplicavam-se, a confusão era geral, conflitos e problemas sociais surgiam de todos os lados  - e nós não sabíamos nem por onde começar.

Contrário ao Neoclassicismo, o Romantismo baseia-se na liberdade de criação e no individualismo, tão caro à burguesia.

Metamos o martelo nas teorias, nas políticas e nos sistemas. Abaixo esse velho reboco que mascara a fachada da arte. Nada de regras, nem de modelos!” – Victor Hugo.

Com a burguesia alçando voo e transformando-se na nova força política e financeira na Europa, no final do século XVIII, tanto o clero quanto a nobreza, perdem a função de mecenato.

Eles não podem mais financiar os artistas, pelo menos não da forma e na quantidade em que costumam financiar – falta-lhes cacife.

A burguesia passa a ser a grande consumidora de arte no continente, mas, caras, a burguesia tem seu próprio jeito de fazer as coisas: o jeito capitalista. Era comum que o artista patrocinado pela nobreza  – fosse qual fosse sua área de atuação – não raro, vivesse na propriedade de seu gentil patrocinador, que assumia suas despesas e lhe dava um salário e condições de criar, enquanto lhe fazia encomendas.

O burguês, por outro lado, raramente encomendava alguma coisa. O que ele queria era pagar o preço justo (ou o que ele considerava justo) para assistir, ouvir, olhar ou ver a mais recente criação do artista. Exatamente como nós fazemos hoje. Como assim? Olha só: por mais que eu ame o Kenneth Branagh e os filmes que ele faz, eu não dou casa, comida e roupa lavada pra ele, e muito menos faço encomendas de filmes e pago por isso. O máximo que eu faço é pagar o ingresso do cinema e o aluguel da fita de vídeo (umas 200 vezes) e achar que ele é maravilhoso – mesmo não tendo boca.

 

Com o advento da Revolução Industrial, do começo do capitalismo e, sure, do Romantismo, somem os mecenas.

Os financiadores da arte passam a ser os membros daquela massa anônima, que agora pode pagar para ver coisas bonitas também (embora, na maioria das vezes, não possa pagar para tê-las – como nós, amiguinhos), e que assiste aos artistas, ávida por novidades, no escuro dos teatros.

Ah! Então.

Exatamente nessa transição entre o jeito aristocrático e o jeito burguês de se financiar arte, surge Ludwig van Beethoven (1770-1827).

Ele nasceu em Bonn, na Alemanha. Seu pai era um alcoólatra violento, que alimentava sonhos de grandeza sobre o talento precoce do filho, e que queria garantir que ele fosse um novo Mozart com surras de cinta. Mas Beethoven não foi um menino prodígio. E o talento que ele demonstrava desde petitico, só amadurece aos 22 anos, quando Beethoven se livra do pai e muda para Viena. Lá, ele alcança algum reconhecimento como improvisador ao piano, tocando em bares. Suas primeiras composições agradam parte do púbico, mas nenhuma parte da crítica.

Mesmo assim, Beethoven passa os anos mais felizes em Viena. Essa primeira parte de sua vida profissional ele passa flanado por entre simpáticos aristocratas que o financiam e o tratam muitíssimo bem. Seu jeito rude, instável, grosseiro e seus comentários insolentes são tidos como excentricidades inerentes ao talento – os ares do Romantismo já sopravam, os gênios tinham certas liberdades.

Beethoven sonhava em casar-se com uma jovem aristocrática bonita e rica e “uma dessas condessas da qual ignoramos o nome: é a famosa amada imortal, da qual Beethoven fala em uma carta não datada e sem endereço, talvez fosse aquela à qual foi dedicada a Sonata ao Luar”. – Otto Maria Carpeax no O Livro de Ouro da História da Música.

Entre condessas, aristocratas simpáticos e sonhos de amor, Beethoven passa a 1ª fase de sua carreira.

No comecinho do século XIX, Beethoven começa a desenvolver uma doença misteriosa nos ouvidos que, lentamente, vai lhe roubando a audição.

Desesperado, ele pensa em se matar, mas por pouco tempo. Segue vivendo, continua compondo, namorando meio mundo, cultivando sua vasta obra e seu jeitão de gênio atormentado.

Em 1814, reúnem-se em Viena alguns dos mais importantes políticos, aristocratas e intelectuais da Europa, e Beethoven é aclamado como o maior músico do século e “como artista, só comparável a Goethe”. – O.M.C.

Ele, aliás, chamava a si mesmo de “Napoleão da Música” e foi o primeiro músico a impor condições aos seus editores.

Quando fica surdo de vez, Beethoven se afasta do convívio social. Conserva uns poucos amigos e parece ser bem chegado num copo. Esse é aquele Beethoven cabeludo, de cenho franzido e de cara amarrada, que conhecemos, cujo busto morava em cima do piano da minha professora de música, Tia Arlete.

Sua última aparição em público foi no dia 7 de maio de 1824, e ele já era incapaz de reger. Foram executadas a Nona Sinfonia e a Missa Solenis e Beethoven foi aclamado pela multidão que lotava o teatro.

Oia aqui. Esqueça aquela imagem de “pobre-surdinho-incompreendido-e-esquecido”, que Hollywood incutiu em nossas jovens mentes impressionáveis. Ele morreu pobrinho? Morreu. Não na miséria, não passando fome, só pobrinho. Meu avô também morreu pobrinho, e não era um coitadinho. Beethoven escolheu se afastar do mundo, escolheu gastar cada tostão de suas economias sustentando um sobrinho forgado. Essa história de “coitadinho do Ludovico” é uma palha que extrapola o Romantismo e vira romantismo rasgado. Ele nunca foi um coitado, nunca foi uma vítima. Ele era um cara durão pra cacete, lutador sim, sofredor jamais. Mesmo no lance da “Amada Imortal”, que até virou um livro e um filme, chatos pra cacete, é tudo uma fantasia do autor, uma belíssima fantasia. Caçamba, quem nunca sofreu por amor? Hum, e a surdez? Tá bom, o cara era surdo, mas a surdez só se tornou obstáculo pra Beethoven trabalhar nos últimos anos de sua vida. A gente tá acostumado (e tem certa necessidade mórbida), de ver até caras sérios, como o biógrafo Romain Rolland a tratarem a vida de Beethoven (e muitos outros) como uma luta inglória, “ele contra as forças do mal da sórdida e corrompida sociedade”. Cuidado. Beethoven teve uma vida feliz, cheia, criativa, divertida, animada e próspera. Seu IMENSOOO talento foi reconhecido em vida, ele comeu todo mundo que quis, foi venerado tanto pela nobreza, quanto pela burguesia e viveu segundo seus padrões e suas normas.

Para os franceses, ele foi romântico. Para os alemães, ele foi clássico. Pra mim, ele é do cacete.

O fato é que, para muitos, Beethoven esgota certas formas e gêneros: fica difícil, depois dele, escrever uma sinfonia ou uma sonata realmente inovadora.

A liberdade e a questão pessoal estão sempre presentes na obra de Beethoven. Não à toa que ele é considerado o grande artista individualista de todos os tempos, sua maior qualidade, enquanto compositor, é sua individualidade. Suas sinfonias, seus quartetos de cordas, as pastorais, as sonatas para piano, a grande Missa Solemnis, todas elas nos arrebatam, sua força nos deixa prostados e as promessas de poder de sua música fazem nossa cabeça girar.

Ele é meu favorito, e, minha mãe, que entende muito mais de música do que jamais serei capaz, bate na minha cabeça com a caixinha do CD do Mozart. Mas eu não ligo. Ele é e pronto.

Semana que vem?

Claro.

 

* imagem daqui

**bibliografia? tem um mundo de coisa, mas esse aqui você tem que ler: O Livro de Ouro da História da Música, de Otto Maria Carpeax

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: ,
10/07/2009 - 20:56

*Noutras palavras sou muito romântico – I

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Há séculos usamos “romantismo”, e todos os seus derivados, como uma espada, como um escudo, como ataque e defesa, como definição para o que é e o que não é “definível”. O que importa é ser romântico, sentir o romantismo, espalhar o romance. Romantismo nos arrasta a conceitos tão vagos quanto ele, hipervalorizados como ele e, como ele, difíceis de definir e enquadrar, tais quais amor, glória, beleza, sedução.

 

É romântico o pagodeiro careca que pede, gemendo e piscando, que você ligue no celular dele, é romântico o final de Casablanca, mesmo que a mocinha e o mocinho não terminem juntos. Romântico também é o papel de carta da Hello Kitty, as almofadas de coração no quarto da menina, a mocinha em “Cantando na Chuva” sacrificando a própria carreira, o Alexandre que me levava sabonetes artesanais num dia de semana sem qualquer motivo aparente.

Tudo isso e o que mais você quiser incluir nessa lista são presentificações de valores que o estilo romântico marcou em nossos corações, a ferro e fogo no século XIX: um certo saudosismo, aquela sensação de que no passado é que era legal, a vida idealizada, o parceiro idealizado, a certeza meio amarga – meio blasé, de que os bons dias de outrora não voltarão, o grande amor que nos redimira a todos e, claro, o final da estória recheado de casamentos, vilões punidos e mulheres grávidas.

Os deliciosos professores Faraco e Moura ensinam que o romantismo pode ser um estado d’alma. E esse tal “estado d’alma” pode aparecer em qualquer época, em qualquer tipo de manifestação artística, em maior ou menor intensidade.

Romantismo, assim, pode designar um estado de espírito, um modo de sensibilidade, de ver a vida, senti-la e reagir a ela.

Mas o Romantismo é também o nome de um movimento artístico.

Ele compreende a tendência geral da arte que era feita do final do século XVIII até meados do século XIX (embora diferentes autores dêem diferentes datas, e me deixem doida).

O Romantismo, quando se fala em estilo de época, é algo que acontece entre o final do século XVIII e meados do século XIX. O termo reina numa atmosfera dramática – amorosa, vasta e ao que parece, inacabável.

A localização histórica do estilo romântico é explicação para quase tudo: na Revolução Francesa em curso, no final do século XVIII, cabeças nobres eram cortadas. Um pouco antes disso os Estados Unidos se libertaram da Inglaterra e criaram o primeiro governo constitucional da América. Na Inglaterra, uma forma de produção sem paralelos transformava o mundo como nada antes o fizera.

Quem é que tem o poder nesse mundo nosso? Quem tem grana, como sempre foi, certas coisas não mudam. E quem tem grana? Acertou, a burguesia.

A burguesia tem padrões diferentes da nobreza que uma porção de sentidos, ainda que admire a nobreza e queira imitá-la também num montão de cousas. A burguesia tem que erguer e alicerçar seu, hohoho, “império”, sobre novos padrões. Seus parâmetros são diferentes, seus objetivos também.  

O estilo Romântico será a expressão artística dessas circunstâncias históricas. Foi um movimento que abraçou com a mesma fúria apaixonada o conservadorismo e o desejo libertário, o ontem e o hoje, as novidades e as fórmulas consagradas, o poder e a revolta. Debaixo do signo romântico, coube, e cabe, de um tudo.

 

Contradição, minha senhora? É claro que sim. O Romantismo foi o movimento das contradições por excelência: sua principal marca é o conflito entre o indivíduo e o mundo, o indivíduo e o Estado, o indivíduo e si mesmo – à medida que o homem romântico não corresponde nem às suas próprias expectativas, nem às suas próprias idealizações. A perplexidade do indivíduo diante do mundo que vê à sua volta a frustração do presente na qual se transformou sua crença no progresso, a vida nova prometida pelas muitas revoluções que não veio: tudo isso se traduziu no estilo romântico como emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia.

 

 

Opa… emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia??

Eba.

Sexta-feira que vem, sexta-feira que vem.

 

*frase se Caetano Veloso

**Foto do querido Nelson Biagio Jr.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , ,
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