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16/03/2009 - 01:17

L&F

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F.,

esta semana trabalhei tanto que nem MSN estou acessando. Mas coisas me alfinetam e eu preciso da sua palavra sábia, eu não sei o que é que te dá credenciais para resolver os meus problemas, mas é sobrenatural, de repente você diz uma palavra, até sem intenção , e bingo, era isso mesmo que eu precisava ouvir.

É a mesma velha história, eu te disse, estou embarcando. Lá vou eu de novo, exercitar meu masoquismo. O que nos leva a fazer isso? É inato, isso? A gente já nasce com o gene da insistência? Ou será que o dia-a-dia, a rotina, são tão engolidores que precisamos sair, subir pra respirar, nem que seja só um pouquinho? E isso acontece com todo mundo ou sou só eu que sou doida varrida? É, porque eu fico pensando, deve até ter gente que pensa: “puxa, eu bem que podia ir ali e fazer isso”, mas fica só nisso, wondering,  eu não, vou lá e faço mesmo, será que eu vou para o inferno? E ai, F., acho o céu tãaaaaaaao monótono. Lembra que eu te disse que eu ia sair correndo e gritando e você gostou da idéia? É hora, colega. Vamos sair correndo e gritando porque ou a gente põe a intensidade no volume máximo ou vai pro churrasco do Freitas da Contabilidade amanhã.

 Folgo em saber que você e o Torresmo não explodiram, apesar das explosões metafóricas que, eu tenho certeza, estão ocorrendo as we speak. Beijos

L.

 

L., minha doce L.

Beibe, fazer o quê?

Vai lá.

Se doer, você volta correndo, que eu não sirvo pra grande coisa, mas aqui sempre tem torta e coca-cola e colo e filme. Só tem isso, mas isso tem. E se a G. tiver pavor de vir aqui (e ela tem, né, me parte o coração ela não  querer vir aqui) eu vou pra tua casa e te encho o saco lá mess. Vai, dá a cara a tapa (ui, delicia), daí você volta. Ou não. Mas se você não voltar, favor deixar documento passando a G. pro meu nome, sim?

Amor, nem todo mundo é assim, você sabe.  A maioria de nós é covarde demais. Sempre covardes. Você, como você mesma disse, vai lá e vê qualé. Eu só vejo vantagens em ser assim, eu te acho do cacete. Deus nos livre do churrasco do Freitas, com os adoráveis pequeninos sobrinhos do Freitas gritando e jogando a tartaruga na piscina, com as encantadoras cunhadas grávidas do Freitas falando de bebês enquanto os machos tostam o pau na grelha, falam de carros (eu posso falar do meu porque o meu quase explodiu) e das tetas da Cynthia, do departamento pessoal. Querida, que Deus nos defenda dessa vida, do Freitas e, já que falamos nisso, do departamento de contabilidade também.

Acho sim, que a gente paga um preço alto demais (hahaha, olha eu me botando na sua turma, como se à sua altura estivesse), acho mesmo, mas a consciência, Lyrão e eu chegamos a esta conclusão, é um caminho sem volta. Talvez seja arrogância falar isso. Tudo bem, é arrogância. Mas quer saber? Dane-se. Eu não vou nunca mais pedir desculpa pelas minhas qualidades, só pelos meus defeitos (o que, convenhamos, ocupa boa parte das minhas escassas horas de vida). E sugiro aos chatinhos de plantão que, em vez de se cutucarem no msn pra dizer “Ih, lá vem a Fal de novo”, pura e simplesmente parem todos, por favor, todos, de falar comigo e de, principalmente, ouvir o que eu tenho a dizer.

Eu acho você do cacete, E., vezes mil. Vai lá. Vai doer, você sabe. Mas você sabe, então, diabos, você também sabe que vai doer se você não for. A vida, minha pequenina e hippe L., a vida dói. Dói em quem vai e em quem não vai. Nós, que escolhemos enxergar a dor, temos mais sorte do que esse bando de leitor de best –seller, “ai, que lindo, o filho da Sarajane tá um rapazinho” (você sabe com qual sotaque eu digo isso), levadores de criança em shopping. Não gosto nada desta música (embora o Rui me faça cantá-la prele quase toda semana), mas a imagem é linda: eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei. Nós colocamos os pés no riacho, dona L. Vai doer pra cacete e não tem volta, não tem volta, não tem volta. Não tem volta nunca mais. Amém.

Amo você

 

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , , ,
02/01/2009 - 07:36

Gutierrez

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Você já se esbudegou de comer tender, peru, lombo, pernil, farofas variadas, quindão, lula à vinagrete, churrasco, panetone… você já se acabou de beber caipirinhas, caipiroscas, cana, o vinho ordinário que seu cunhado deu, espumante vagabundo, uísque genérico e cerveja. Muita cerveja.

Você já distribuiu entre os seus entes queridos os presentinhos comprados na loja da coreana, que só vende muamba. O único presente “de verdade” que você tinha pra dar era um livro peba, um best-seller daqueles que figuram nas hediondas listas das revistas de circulação semanal. O tal livro foi embrulhado e dado pro seu sogro, pra fazer aquela moral com o cretino. O cretino quase morreu de apoplexia quando abriu o pacote e viu que era o mesmo livro que ele havia lhe dado ano passado, até com a dedicatória, olha lá.

Você já ganhou gravatas inomináveis, baciadas de meias sem personalidade e um incrível prendedor de gravatas, em formato de cavalo, do primo da sua mulher, ele mesmo um equino.

As mulheres da sua família já mergulharam naquele maldito ponche de pêssego, e assim, você já viu sua mãe de fogo, sua sogra de fogo, sua mulher e suas primas de fogo, e sua tia Dinah, também devidamente alcoolizada, se abanando com a camiseta e provando que seu tio Geraldão não tem do que se queixar.

Você já encheu o saco na festinha de confraternização da firma e chamou o Freitas, da contabilidade, de camelo. Posto que o Freitas é genro do dono e deve ser promovido à gerência em dois ou três anos, ponha as suas barbas de molho.

Você já ficou preso num engarrafamento dentro do shopping, já brigou com metade da sua família e foi ofendido pela outra metade, já chegou à conclusão (de novo) de que sua nora é uma megera e seu neto é um monstrinho, já sentiu saudade dos que se foram (certamente, se esquecendo de que eles também eram todos uns babacas), já gastou os tubos em férias, presentes e comida pros outros, já pisou em dois cocôs e inúmeros xixis feitos por “Cherry”, a poodle que sua filha pediu e ganhou de Natal, e pela qual ela jurou se responsabilizar. Hum-hum.

Você já se comoveu até as lágrimas com a peça de final de ano da escola do seu caçula, para em seguida decidir que vai matá-lo, quando descobriu que o palhaço botou um brinco no nariz.

Hoje é dia 2 de janeiro e apenas um fim de semana separa você da vida real, do trabalho, dos imbecis do trabalho, das notinhas para o contador e das contas; e você, sem saber se na segunda-feira para de fumar, faz uma dieta, começa a jogar tênis todo santo dia, como aquela gostosa da vizinha, a Dona Vera, larga a sua amante, a Samira, ou ainda, que Deus nos ajude, se pinta o cabelo de “acaju”, muda seu nome pra Gutierrez e passa a gastar todo o seu salário em cubanos e camisas de seda estampadas.

Sei lá. Mas parece que a vida do Gutierrez é bem mais divertida que a sua.

 

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , , ,
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