L&F

F.,
esta semana trabalhei tanto que nem MSN estou acessando. Mas coisas me alfinetam e eu preciso da sua palavra sábia, eu não sei o que é que te dá credenciais para resolver os meus problemas, mas é sobrenatural, de repente você diz uma palavra, até sem intenção , e bingo, era isso mesmo que eu precisava ouvir.
É a mesma velha história, eu te disse, estou embarcando. Lá vou eu de novo, exercitar meu masoquismo. O que nos leva a fazer isso? É inato, isso? A gente já nasce com o gene da insistência? Ou será que o dia-a-dia, a rotina, são tão engolidores que precisamos sair, subir pra respirar, nem que seja só um pouquinho? E isso acontece com todo mundo ou sou só eu que sou doida varrida? É, porque eu fico pensando, deve até ter gente que pensa: “puxa, eu bem que podia ir ali e fazer isso”, mas fica só nisso, wondering, eu não, vou lá e faço mesmo, será que eu vou para o inferno? E ai, F., acho o céu tãaaaaaaao monótono. Lembra que eu te disse que eu ia sair correndo e gritando e você gostou da idéia? É hora, colega. Vamos sair correndo e gritando porque ou a gente põe a intensidade no volume máximo ou vai pro churrasco do Freitas da Contabilidade amanhã.
Folgo em saber que você e o Torresmo não explodiram, apesar das explosões metafóricas que, eu tenho certeza, estão ocorrendo as we speak. Beijos
L.
L., minha doce L.
Beibe, fazer o quê?
Vai lá.
Se doer, você volta correndo, que eu não sirvo pra grande coisa, mas aqui sempre tem torta e coca-cola e colo e filme. Só tem isso, mas isso tem. E se a G. tiver pavor de vir aqui (e ela tem, né, me parte o coração ela não querer vir aqui) eu vou pra tua casa e te encho o saco lá mess. Vai, dá a cara a tapa (ui, delicia), daí você volta. Ou não. Mas se você não voltar, favor deixar documento passando a G. pro meu nome, sim?
Amor, nem todo mundo é assim, você sabe. A maioria de nós é covarde demais. Sempre covardes. Você, como você mesma disse, vai lá e vê qualé. Eu só vejo vantagens em ser assim, eu te acho do cacete. Deus nos livre do churrasco do Freitas, com os adoráveis pequeninos sobrinhos do Freitas gritando e jogando a tartaruga na piscina, com as encantadoras cunhadas grávidas do Freitas falando de bebês enquanto os machos tostam o pau na grelha, falam de carros (eu posso falar do meu porque o meu quase explodiu) e das tetas da Cynthia, do departamento pessoal. Querida, que Deus nos defenda dessa vida, do Freitas e, já que falamos nisso, do departamento de contabilidade também.
Acho sim, que a gente paga um preço alto demais (hahaha, olha eu me botando na sua turma, como se à sua altura estivesse), acho mesmo, mas a consciência, Lyrão e eu chegamos a esta conclusão, é um caminho sem volta. Talvez seja arrogância falar isso. Tudo bem, é arrogância. Mas quer saber? Dane-se. Eu não vou nunca mais pedir desculpa pelas minhas qualidades, só pelos meus defeitos (o que, convenhamos, ocupa boa parte das minhas escassas horas de vida). E sugiro aos chatinhos de plantão que, em vez de se cutucarem no msn pra dizer “Ih, lá vem a Fal de novo”, pura e simplesmente parem todos, por favor, todos, de falar comigo e de, principalmente, ouvir o que eu tenho a dizer.
Eu acho você do cacete, E., vezes mil. Vai lá. Vai doer, você sabe. Mas você sabe, então, diabos, você também sabe que vai doer se você não for. A vida, minha pequenina e hippe L., a vida dói. Dói em quem vai e em quem não vai. Nós, que escolhemos enxergar a dor, temos mais sorte do que esse bando de leitor de best –seller, “ai, que lindo, o filho da Sarajane tá um rapazinho” (você sabe com qual sotaque eu digo isso), levadores de criança em shopping. Não gosto nada desta música (embora o Rui me faça cantá-la prele quase toda semana), mas a imagem é linda: eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei. Nós colocamos os pés no riacho, dona L. Vai doer pra cacete e não tem volta, não tem volta, não tem volta. Não tem volta nunca mais. Amém.
Amo você
