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27/03/2009 - 21:16

Flor de Laranjeira – I

Querido Paul:

Meu lindo! Que saudades!
Estou mandando essa cartinha junto com as flores para me desculpar de não ter podido ir à sua festa surpresa de aniversário. Eu fui madrinha de casamento de uma colega de trabalho, o Henrique te explicou? Quando ele ligou para falar da festa eu contei para ele. Como foi sua festa? Foi surpresa mesmo? Você adorou? Espero que um de nós tenha se divertido.
Madrinha, Paul, agora você imagine, euzinha de madrinha. Mas eu fui, Paul. Eu fui. Você iria se orgulhar de ter criado uma moça tão séria. Vencendo todos os obstáculos, cruzando todos os rios, atravessando todos os desertos, enfrentando todas as dificuldades, espremi meu rechonchudo (digamos assim) corpinho de sereia num vestido cinza-prateado, e lá fui eu. Nunca lamentei tanto não ter ido ao aniversário de alguém, você pode acreditar. Sinta-se feliz em não ter sido você o padrinho. Primeiro, a ida. Para que um ser humano vai se casar na Nossa Senhora do Brasil ou na Igreja do Calvário, que são fáceis de chegar e que constam até do mapa da cidade, se pode casar numa igrejinha “linda”, “despojada” e “meiga”, que fica num ponto perdido entre a Penha e São Miguel Paulista? Tudo que eu sei, Paul, é que depois de uma certa avenida, o caminho é indicado por flechas incandescentes. Ainda bem que cheguei à Igreja antes da indicação por estacas com crânios dos inimigos, mas foi assustador mesmo assim. Eu sei que Deus é onipresente, mas acho que tão longe ele não chega não.
Enfim, com a ajuda dos deuses protetores das madrinhas, eu encontrei a tal Igreja. E mal entrei, Dona Carmem, mãe da noiva, mais rápida que um raio me catou pelo cotovelo e me arrastando por tudo que é canto, foi me apresentando aos parentes de um lado e de outro, sempre com comentários pertinentes: “Aquela ali, minha filha, é noiva do irmão da namorada do ex-genro da nora do primo em segundo grau do pai do noivo. Mas não é mesmo uma gente esquisita? Eu falei para a Ana Paula ver bem onde ela estava se enfiando, mas ninguém me escuta naquela casa. Olha o tecido do vestido daquela moça ali. Prima da mãe do noivo. Cetim vagabundo e eu não sei? Aquilo ali éSaldão de Retalhos, eu nunca me engano”. Mas não pense, Paul, que foi só a família do adversário, digo, do noivo, que ela arrasou não! Dona Carmem também não perdoou a família dela: “Vem aqui, minha querida, vou te apresentar o menino mais novo do meu irmão, sabe aquele que tem problemas? O menino tem problemas, não meu irmão. Pois é, mas graças a Deus, descobriram que não era epilepsia, era só uso de drogas pesadas, o menino já está em tratamento.”
Esse reconhecimento de terreno durou horas, Paul. Tá exagero, não foram horas, mas pareceram. Quando a Dona Carmem, finalmente, me depositou no altar (não sem antes um “Você engordou, minha querida, ou é esse vestido que tem um corte esquisito?”), eu estava zonza. Mas a culpa do meu enjôo não era só falatório da Dona Carmem, eu entendi isso assim que olhei em volta com atenção. Paul, a Igreja estava coalhada de flores! Uma florzinha roxa, com o cheiro mais doce do mundo, desses de dar diabetes em pedra. Em meia hora minha curva glicêmica tinha se transformado em um planalto glicêmico. Um pavor. Não, calma, pensando bem, isso não foi um pavor não. Pavor foi quando me apresentaram para o padrinho que seria meu par, um primo da Ana Paula. Paul-de-Deus!
Assim que os peritos da UNICAMP descobrirem se aquele ser pertence à alguma era geológica ou à alguma nave mãe, eu mando avisar. Olha, ser solteira não é nada fácil, viu, Paul? A gente tem que fazer par para madrinha com qualquer imbecil que mandam, ao invés de fazer par com o marido da gente, que pelo menos é um imbecil conhecido. O homem não falava, grunhia. Até os dedos dele eram peludos e ele tinha uns quinze centímetros de testa. Grunhiu alguns sons na minha direção, esmagou minha mão no cumprimento e depois desistiu de mim. Que todos os anjinhos do céu digam amém.
Eu fiquei ali, atordoada, com cara de pato, a bordo de uma sapato com salto estratosférico. O salto do meu sapato não tinha centímetros, tinha andares. Até super bonder e durex eu havia carregado na bolsa para qualquer eventualidade de abalo sísmico nos alicerces do sapato, mas não precisou. Minha única diversão era observar os homens perto de mim. Quem fala mal da moda feminina nos casamentos devia estar ali. Só para te dar uma leve idéia, em volta do altar, três exemplares assustadores: o pai da noiva trajava um inesquecível terno de veludo azul marinho com ombreiras quilométricas, ostentando por baixo do paletó, uma camisa florida de motivos havaianos, a maior gravata borboleta que eu já vi e para arrematar, sapatos de duas cores. O irmão do noivo apavorava num terno branco usado com camisa azul marinho e uma genial gravata borboleta branca com pintinhas azuis. E, prepare-se, Paul, para o modelito do noivo. O noivo, acredite você ou não, estava envolto por um smoking dourado (é, Paul, dourado), camisa branca de babadinhos e gravata borboleta de brocado… acertou, dourada também. Ou melhor, o que havia restado do noivo estava trajado assim. Durante a recepção (sim, tivemos uma festa depois, calma que eu chego lá), eu fui informada dos pormenores escabrosos que fizeram com que o noivo estivesse com aquele ar acabado. Reza a lenda, entre outras coisas, que o galalau consumiu nada mais que uma garrafa e um quarto de vodka durante os festejos de despedida de solterice o que, junto com outras cositas (dançarinas exóticas saindo de dentro de bolos, etc), explicava sua expressão de morte próxima e dolorosa. Outro fato que foi-me esclarecido durante a festa: o atraso da noiva. Tudo bem que é folclórico noivinhas chegando atrasadas e esbaforidas aos seus casamentos, mas a Ana Paula se atrasou duas horas e quarenta minutos! Paul, tudo isso. E eu de salto alto, sem ter para onde correr. Ainda bem, porque meus pés não aguentariam mesmo correr. O que eu apurei depois, durante a festa, foi que o irmão dela, que iria dirigir o Galaxie da família, conduzindo a noiva até a igreja, resolveu comemorar o desencalhe, digo, o casamento da irmã antes, e “amarrou um foguinho” com vinho branco roubado da recepção, o que o levou juntamente com a carro de vinte anos do papai e uma irmã histérica, mal humorada e vestida de noiva de quase trinta primaveras, para debaixo de um ônibus inter-municipal. Comoção geral na família. Ninguém sofreu nada, graças a Deus, a não ser o carro, que ficou irreconhecível, e a pressão de papai, que também ficou irreconhecível. No fim das contas, a Ana Paula teve que ir numa pick-up da Garra para a Igreja (depois dizem que polícia não serve para nada) e o aprendiz de fora-da-lei passou a noite toda prestando esclarecimentos na delegacia. Bem que eu tinha notado o brilho assassino nos olhinhos da Ana Paula ao entrar na Igreja, rebocando seu pobre pai atônito, mas eu estava tão preocupada tentando trazer meus pés de volta à vida, que não fiz muito caso. No final, o que fez com que meus pés voltassem a falar comigo, foi o susto. Sim, Paul, o susto. Nada, nem todos os anos de terapia, nem a leitura dos clássicos, nem a observação do cotidiano, nem os sábios conselhos de minha avó, haviam me preparado para o que eu vi. O vestido de noiva. Aquele vestido de noiva, Paul. Nelson Rodrigues teria escrito umas dez peças sobre ele, caído de joelhos. Não era um vestido de noiva, era o vestido de noiva. Fazia com que a Ana Paula parecesse um “merengue-revortado-fujão-da-padaria”. As camadas e camadas de tule da saia poderiam ter vestido todo um corpo de baile de companhia de dança russa. Seu estilo era neutro-básico-simples-casual, o que quer dizer que tinha decote estilo princesa revestido de tule (mais tule), com acabamento em marabu, babado, sinhaninha, renda rebordada de pérolas, brocado, passamanaria, manga bufante, passa-fita, jabor (não o cineasta, o plissadinho de organza), chamalotte, lacinho, florzinha, pedrinha, ajour, bordado richelier, anquinha, saia rodada, aplicação, sobre-saia de cetim, luvas de organza com botão de pérolas, um véu que levava metros e metros para acabar (devidamente carregado por duas primas mal-humoradas), grinalda, mantilha, terço, aplique, um buquê que desfalcou a Floresta Amazônica por gerações, e coroa. Pensou que ela se esqueceria da coroa? Jamais. A Coroa era de strass.
Enfim, depois de certa agitação, aquele mostruário do Conrado Segreto se posicionou em frente ao altar com o futuro marido e a cerimônia começou. O acabamento do decote em marabu fez a Ana Paula espirrar e ela ainda chorou todo o tempo (não sei se de emoção de vergonha, ou de raiva), o que quer dizer que ela ficou parecendo o Jason, do Sexta Feira 13 depois da chuva. Ela deve ter ficado linda no filme do casamento. Aliás a cerimônia começou e parecia que não ia terminar nunca mais. E pela cara de pânico dos circunstantes, eu não era a única com essa certeza. A Igreja estava numa temperatura média de 41 graus. Padre recém-ordenado, louco para se mostrar, fez um sermão longo, enrolado, cheio de citações em latim. Olha, não foi fácil. Uma tia do noivo desmaiou com o calor e o cheiro das flores e teve que ser carregada para fora e deitada na graminha da frente da Igreja. Os convidados (vamos chamá-los de sobreviventes), se mexia sem parar nos bancos, eu sentia vertigens do alto dos meus intermináveis saltos e meus pezinhos que normalmente já são redondinhos, pareciam duas broas de fubá. Além disso, meu sutiã estava me apertando, a meia calça me pinicava, meu penteado debaixo da casquete (não ria, madrinha tem que usar aquela coisa ridícula), desabava centímetro a centímetro. Quando finalmente, o pré-Papa disse “Pode beijar a noiva”, meu suspiro de alívio foi ouvido por toda a congregação.
De lá a Nau dos Insensatos rumou para a recepção. Dei carona para uma tia do noivo, que me fez um longo e maravilhoso relatório sobre todas as suas doenças e achaques, dores e ossos descalcificados. Cheguei na festa doutora em geriatria e sentindo todos os sintomas das doenças que a boa velhinha falou. Você sabe, não é, Paul, que a única doença que eu não tenho é hipocondria. Bom, pensa você, ela chegou à festa, relaxou, bateu um rango e dançou com algum primo bonitão e hetero do noivo. Sinto decepcioná-lo, Paul, mas a realidade é sempre cruel.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , ,
27/03/2009 - 21:15

Flor de Laranjeira II

(cont.)

A recepção foi num clube que fica mais distante ainda do mundo real do que Igreja, imagine você. Eu acho que era na fronteira. Não era alto Goiás, era baixa Bolívia. O clube tinha um desses salões enormes, até os garçons se perdiam ali dentro. Além disso, uma manada de crianças insuportáveis e super ativas, corria para todo lado, pisando no meu pé e me aterrorizando. Demorei uns bons vinte minutos para encontar minha mesa. Quando a encontrei, surpresa! Era a mesa das solteironas! O que você esperava, Paul? Que eu ficasse na mesa dos solteiros-grisalhos-bem-resolvidos-e-bonitões? A escalação do time era a seguinte: do lado do noivo a tal da tia às portas da morte para quem eu dei carona e uma prima em segundo grau, freira. Do lado da noiva, uma irmã sapatão, uma tia encalhada, aparentemente muda e eu, que lentamente sentia as forças me abandonando. Se bem que devo confessar, até que a conversa foi animada. Quebrado o gelo inicial, garramos a falar mal dos homens em geral e dos nossos ex em particular e demos gargalhadas, até a tia aparentemente muda se animou e falou.
Mas nossa animação duraria pouco. Muito pouco. Pois quando eu já ia perguntar a que horas a janta ergueria a sua horrível cabeça, o jantar foi anunciado. Paul, apesar da minha dor e do meu trauma, vou tentar descrever para você essa experiência mística e assustadora. Primeiro, claro, a entrada. Uma pasta vagamente cor-de-rosa, com um sabor vagamente marinho, em cima de uma torradinha de dieta, cercada por uma floresta de cenoura ralada sem tempero. Meu desespero foi tanto que eu quase comi o arranjo de flores com vela dourada do centro da mesa. Mas ainda bem que eu não comi o arranjo, porque no fim da festa a tia muito doente resolveu levá-lo de brinde. Meia hora depois que a pasta e sua amiga inseparável, a torrada de dieta, se debatiam em meu estômago, chegou o primeiro prato. Só posso lhe dizer, Paul, que senti saudades da pasta. Num prato enorme, uma porção ridícula de algo quente, esperava que desbravadores se lançassem ao desafio. Com a audácia que me é peculiar, tomei a iniciativa e investiguei o espécime. Era pato. Caramelado. Com suflê de kiwi. Com a certeza de estar no pesadelo de algum chef tailandês, olhei em volta. Minhas companheiras de mesa e infortúnio estavam estranhamente quietas. Mas como diz o poeta, a fome era negra e eu, nessa experiência com o desconhecido, não fiz feio. Mastiguei vigorosamente a maçaroca e com a coragem que sempre me caracterizou, engoli aquele rango com energia. Sensibilizadas com minha atitude, as companheiras resolveram seguir meu exemplo e em pouco tempo, estávamos melancólicas e lânguidas à espera do segundo prato. Assim que o segundo prato chegou, sentimos falta do jejum. Era um macarrãozinho pálido e desanimado, cujo único acompanhamento eram lasquinhas de azeitona preta que comi sem sentir o gosto, enquanto meu estômago pedia para sair. Quando a sobremesa chegou, uma assustadora sopa fria de morangos (estamos em fevereiro, Paul, sabe Deus a idade desses morangos), eu estava quase inconsciente. Passei o resto da festa numa espécie de pesadelo em câmera lenta, induzida pelos delírios da fome. Depois daquilo0 que convencionou-se chamar de jantar, veio a hora da dança. O primo de Neanderthal veio me chamar para dançar e eu aceitei, Paul, naquela altura do campeonato toda a dignidade que eu possuí um dia já havia me abandonado. Além disso era ele ou outro primo da noiva, um louro de dez anos. E sabe que o espécime até que não dança mal? Ele tem braços fortes. Dançamos um tempão. Até tivemos o que na tribo dele deve ser uma conversa animada, cheia de sons e grunhidos. Além disso eu já fiz os exames de gravidez, está tudo bem. O Baile da Saudade só foi interrompido, aliás rudemente, quando o pai da noiva todo suado, de pifão, sem paletó, a bordo da sua inominável camisa de Bora-Bora, resolveu que o casamento da sua única filha era o lugar ideal para se montar uma lavanderia e dar um tapa na roupa suja da família. O adjetivo mais doce que ele usou para descrever sua sogra, a venerável avozinha da noiva, só é encontrado em compêndios atualizados de medicina. Veterinária. O vendaval de recriminações parecia interminável. Foi tão constrangedor, Paul, que eu senti saudades da minha família, imagine você. Por fim, conseguiram tirar o microfone da mão do pé-de-cana e um surreal show de calouros teve início, com uma senhora, a avó do noivo, cantando árias de ópera num italiano que parecia espanhol. Cantoria essa, imediatamente seguida de um concurso da dança do Tchan. Depois de mais uns números que envergonharam o mundo dos espetáculos de toda parte, veio a hora do buquê. Eu, boa madrinha solteirona que sou, me posicionei na linha de frente, cheia de esperança. Mas não peguei o buquê. Ninguém pegou. A Ana Paula se entusiasmou na hora de jogá-lo e dando um passo para trás, tropeçou e caiu na piscina. Novo corre-corre. Resolvi que era demais para mim e iniciei um discreto processo de saída à francesa. Peguei minha bolsinha (forrada com o mesmo tecido do vestido e do sapato), minha lembrancinha de casamento (um porta retrato, made in Taiwan, em formato de coração dourado), e fui lentamente arrastando o que restava deste pobre corpo em direção à saída quando… certo, a tia doente me alcançou e com olhos tristes e pidões me convenceu a lhe dar nova carona, jurando que morava bem pertinho. Em vez de perguntar pertinho de onde, eu concordei. Fomos nós três (eu, a velha e o enorme arranjo do centro da mesa que ela surrupiou), rumo ao cafofo da velhinha, que jurou em falso, porque morava longe. Mesmo. Rodei boa parte da madrugada com a piedosa senhora no carro, passando por todas as pontes, favelas e blitz policiais dessa cidade, enquanto ela tentava se lembrar em que floresta miserável ela se escondia. Eu só queria me arrastar para debaixo de uma pedra e morrer. Quando finalmente encontramos a casa dela, lágrimas me vieram aos olhos. Ela pensou que fosse de saudades antecipadas dela e me consolou dizendo que me faria uma surpresa em breve e me visitaria. Chorei mais e mais alto, empurrei a velha para fora do meu carro e rumei para o meu lar, onde me joguei na cama, sem sapatos e com balão de oxigênio, e de onde só tenho saído para me consultar com um adorável e competente psiquiatra que aceita cheque pré-datado para 2005. Mas uma coisa me consola. Em breve eu e o primo de Neanderthal (o nome dele é Gusmão) vamos nos casar (ele me deu uma aliança linda feita de osso e grunhiu o mais romântico pedido de casamento que já ouvi), e eu me vingarei de vocês na minha cerimônia de casamento. Hahahahaha

Beijos alucinados,
Ass: EU

 

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