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16/01/2009 - 00:31

Cinturinha de Pilão I

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       Pode ser a fase que estou vivendo. Pode ser que meu medo do ‘mundo dos adultos’ me empurre na direção de um passado que acho que foi mais bonito do que o meu futuro será (eu só acho, porque no caso específico desse passado, eu não era nem um projeto). Ou pode ser que eu, pura e simplesmente, esteja ficando velha. Mais velha, dirão alguns. Mas, Deus, se é para fugir, por que não fugir para os anos 50? E existe década melhor, fase melhor, mundo melhor?
*
Eu sei, leitorzinho chato e leitorazinha mal-humorada, eu sei que é um reducionismo brutal e abobado transformar os anos cinquenta nos tais anos dourados.  O mundo nunca foi inocente, puro, lindo ou; ai, meu Santo Antão, dourado. Então, não haveria motivo para considerar justo essa década um reduto de doçura ou felicidade. Eu sei.
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Mas, ah, a Segunda Grande Guerra havia acabado de acabar, algumas das mulheres que participaram do esforço de guerra continuaram trabalhando fora de suas casas, tínhamos abandonado as ombreiras e os casaquinhos com corte marcial, e adotado os tecidos mais brilhantes, mais vaporosos, as cinturinhas marcadas, as saias pregueadas (aliás, ressuscitaríamos as famigeradas ombreiras na não menos famigerada década de 80, mas eu estou frágil e sofrida, não posso falar dos anos 80 hoje).
*
O mundo da década de 50 do século XX parecia seguro, um mundo que se dividia entre bons e maus, sins e nãos, comunas e capitalistas, nós e os outros. Acho que vem daí a atração que eu e tantos outros sentimos por essa década. Ainda que não fosse, porque NUNCA foi, o mundo pelo menos PARECIA seguro.
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E envolta neste climão de escapismo e negação, eu mergulho em DVD’S deliciosos, redentores, não por acaso, estrelados por Doris Day, minha favorita em qualquer década.
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Claro que nem todos os filmes dos anos 50 serviram ao escapismo alienado do qual eu falo com tanta felicidade.  E numa semana vindoura podemos falar de alguns filmes pós-guerra que botam sua mufa pra queimar, babe.
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Mas esta semana, vamos ser felizes para sempre. Vamos acreditar na virgindade da mocinha, na bondade humana, nos tradicionais valores americanos (e vamos também acreditar que somos americanos da década de 50), vamos acreditar que, com o fim da guerra, a vida vai mesmo melhorar, que os conflitos vão acabar e que o mundo se tornará um lugar mais justo, afinal de contas, o bem venceu. Os mocinhos ganharam.
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Por favor, pegue na minha mão e acredite comigo, só mais esta semana, que nós ganhamos. E que tudo, tudo mesmo, vai ficar bem.
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Dançando e cantando, e sendo muitíssimo bem sucedida em tudo quanto foi ramo do show bussiness da primeira metade do século XX (e parte da segunda também), Doris Day foi responsável por mais dores na virilha do que se pode imaginar. O modelo de ‘moça virtuosa’ que ela encarnou em boa parte de seus filmes, serviu de exemplo para nossas românticas mamães e para nossos putificados papais, vá por mim. Se bem que, se sua mãe for remotamente parecida com a minha, devemos ter em mente que ela serviu de modelo inalcançável, hohoho, mas mesmo assim.
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A vida dela não foi açucarada. Foi heavy-metal. Mas ela sorria na tela, ela ainda sorri, e cantando ou não, e sorrindo sempre, e com essa cara de boa-moça-sem-pensamentos-impuros, ela nos transporta para uma realidade encantadora, cálida, ao alcance das mãos de qualquer mocinha que fosse boazinha, que andasse na linha.
*
Hei de falar mais, muito mais, sobre Doris Day, porque ela me fascina, por vários motivos.  Alguns deles, são estes aqui:

1) Ardida como pimenta (Calamity Jane), 1955, direção de David Butler, com Doris Day, Philip Carey, Paul Harvey, Chubby Johnson, Howard Keel. Calamity Jane é uma moça trabalhadora e durona do velho oeste que, ahá, apaixona-se, canta belas canções, compra um vestido, pinta a casa de cor-de-rosa e descobre que, na cozinha, será mais feliz. Eu também era mais feliz quando ficava na cozinha. Não me xingue, assista esse filme lindo sem preconceito, entre no clima. A Doris Day canta que é uma beleza.  E ah, sabia que a Calamity Jane existiu de verdade, nasceu em 1852 e se chamava Martha Jane Cannary? Menino, Palavras da Fal é cultura!
2) Um Pijama Para Dois (The Pajama Game), 1957, direção de George Abbott, com Doris Day, John Raitt, Carol Haney, Eddie Foy Jr., Reta Shaw, Barbara Nichols. Na década de 50, os Estados Unidos se estabeleceram, de uma vez por todas, como superpotência. O capitalismo é a força que nos afastará de todos os males, amém. O que vem por aí começa a se desenhar, e palavras como ‘produtividade’ ganham força nova. Nessa história (que foi um musical da Broadway), empregados de uma fábrica de pijamas são obrigados a aumentar sua carga horária e sua, ai, produtividade, quando surge, ora por quem sois, a belíssima representante do sindicato, a dona Doris Day. Stanley Donen dirigiu, dentre outros, ‘Cantando na Chuva’. Ele sabia o que estava fazendo.
3) Confidências à meia-noite (Pillow Talk), 1959, direção de  Michael Gordon, com Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Thelma Ritter, Nick Adams, Julia Meade. Esse é o primeiro dos três filmes que Day faz com Hudson. Não parece que foram mais? Parece, mas foram só três. Hoje em dia, a situação que eles vivem é impensável, mas tempo houve, meus filhos, em que telefone era coisa rara, complicada e cara (se bem que caro ainda é). Nesse passado distante, uma decoradora e um compositor têm que compartilhar uma linha telefônica. Entenda, eles moram em casas separadas e nunca se viram, mas por algum problema técnico, precisam dividir a linha. E se falam, e brigam e vão se conhecendo sem nunca terem se visto, veja você, décadas e décadas antes da internet.
*
Semana que vem retomamos nossa conversa sobre os livros que queremos ler. Agora, corre lá na locadora. Beijos. Bom final de semana, té segunda.
Fal

“Estou em Hollywood há tanto tempo, que quando cheguei aqui, Doris Day ainda não era virgem” – Grouxo Marx

(imagem do site: http://www.papergoodies.com/scripts/prodView.asp?idProduct=158 )

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , ,
12/12/2008 - 07:07

Devaneios aleatórios sobre arte

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“Arte não é realidade. Arte é arte.”
Pablo Picasso

Leitorzim igueano-e-fofo, prestenção: ao estudar uma civilização, seja ela qual for, nem sempre se encontram vestimentas, alfabeto, sistema decimal, cultura culinária, pensamento lógico, organização social complexa.
*
Mas sempre se encontra arte.
*
Arte.
*
Nós queremos arte, nós precisamos de arte, nós produzimos arte, nós consumimos arte.
*
Todos os povos do mundo usavam/usam adornos e faziam/fazem algum tipo, seja lá qual for, de representação gráfica.
*
Huuuuuuuum, representação gráfica. (momento Homer Simpson, leitor, perdoe)
O que é que você faz numa representação gráfica?
Você cria. Externa emoções.
Uma representação gráfica, abstrata ou não, é criação.
Você é criador.
Hum, você é Criador. O instinto artístico é universal.
*
Para a Carlota, “a arte é o que encanta a alma e os olhos, questiona os nossos paradigmas nos fazendo pensar em novas possibilidades. Nos torna melhores.”
 *
Pensa aí.
Você está lá num mundo desordenado, pouco acolhedor, agressivo.
Você é um indivíduo com limitações, que olha em volta e não entende mais da metade do que vê, ou, que Deus ajude, sente.
Ah, sim, seus sentimentos também estão desordenados, remexidos. O mundo é incrível, maravilhoso, assustador, implacável. A cada dia, você lida com o inexorável ali, bafejando na sua cara. E, como nós sabemos, ele não escova os dentes.
Você olha pra cima e só pode imaginar os motivos de tudo, que forças misteriosas movem as águas, agitam as folhas, motivam a Britney Spears a lançar mais um cd. Você caça o mamute, corre atrás do táxi, paga a fatura do VISA, reproduz sua espécie, alimenta o gato.
*
A Alix me disse que, para ela, “Arte é a liberdade de reinventar o que é, esquecer o que foi, criar o que talvez jamais seria sem esse sopro único, original. Arte é movimento: percurso torto, curvo, emaranhado entre o tempo e o espaço. Não é excursão, mas é uma viagem imperdível.”
*
Em qual momento, exatamente, você se torna um artista?
Em quanto tempo? Quando é que você passa a usar cada um dos seus recursos para produzir o resultado das suas percepções, emoções, instintos? Ou antes, quando é que vem o desejo, a vontade, vá lá, a necessidade de externar isso? Você faz isso para se expressar? Para ganhar dinheiro? Para ser notado? Para estabelecer alguma ordem no caos? É uma tentativa de explicação? É uma prece? Uma emoção incontrolável? É a reencenação da realidade, da sua realidade?
Quem é que pode dizer?
E, aliás, quem é você?
Um elegante arquiteto brasileiro radicado em Portugal, no comecinho dum novo século? Um esquimó gorducho e besuntado em óleo de baleia, no século XIX, vivendo igualzinho há 1000 anos? Um “faz-tudo” estiloso e engraçado, que nas horas vagas ensaia o “naipe” dos tamborins na bateria da Padre Miguel? Ou um habitante dos Pirineus que há 10.000, 15.000 anos, desenhava na parede de sua caverna a última caçada, ou uma caçada desejada, sem saber que, muito tempo depois, nos colocaria nesta confusão?
 *
A Tatiana escreveu uma coisa linda, linda: “Fal, aqui em casa tenho dois com alma de artista, o pai e uma das filhas. Onde a gente vê um objeto, eles vêem uma possibilidade. É bonito de ver que qualquer coisa, qualquer palavra, por mais ordinária que nos pareça, com eles pode ganhar outro significado.

*
Acho que a arte é o mundo visto com olhos especiais.
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Arte traz em si sua própria justificativa.
Arte tem a ver com prazer, arte tem a ver com expressão. Arte tem a ver com emoção. Arte tem a ver com a nossa conexão ao Divino e eu não estou falando de religião.
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Não existe nada mais difícil de definir do que arte. Nada. E quem tem a definição de arte prontinha, na ponta da língua, sem titubear nem um cadim? Tá blefando, fuja, salve-se, salve-se.
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Para a fofa da Gabi, arte é ver o novo no mesmo, é tudo o que se faz com o coração, é quando um sentimento se materializa.
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Um dos homens mais brilhantes que já conheci, meu amigo Cláudio Luiz Ribeiro, certa vez me lembrou que prazer não está obrigatoriamente ligado à arte. Nem sempre é prazeroso criar uma obra de arte. Que o diga Camille Claudel. E nem sempre é prazeroso vê-la. Quem já viu a Guernica ao vivo e a cores, sabe do que eu falo. Não dá prazer. Dá medo. Dá raiva. Dá vontade de sair correndo e salvar a vida do seu filho e só dali a umas 4 quadras você se dá conta de que não tem filhos e de que roubou o filho duma turista alemã.
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E isso tudo nós aprendemos quase nus,  20 mil anos atrás, nos Pirineus, na África Central, na França, no Peru, no Piauí, nas praias do Pacífico.
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Nós aprendemos isso a cada dia, a cada minuto, a cada vez em que nos deparamos com o belo, mas não podemos parar para vê-lo porque a reunião já começou, porque o dentista é às onze horas, porque há que se pegar um ou dois ônibus para chegar lá e deu preguiça. Aprendemos isso em todos os momentos em que nos deparamos com o terrível, com o inexorável, com o inevitável, com o que define a nós mesmos, a nossa geração, a nossa espécie e ele nos dá dor de estômago; e pensamos em colocar tudo isso no papel mas, puff, já passou.
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O Leo fica aflito quando entende que “todas  as palavras são limitadas e  falhas na tentativa de enclausurar uma abstração ligada a um conceito sem fim que são os sentimentos humanos em suas experiências”. O Leo é o Leo, né? A Fernanda mandou uma frase fofa: “Artista é aquele que cresceu mas não deixou de ser criança”. E a Ângela, que é marxista, disse que arte é um produto a ser consumido. Eu adoro a Ângela.
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Arte tem a ver com emoção.
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Emoção de quem faz, de quem vê. Essa é a única grande certeza sobre a arte.
 
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E com nossa evolução. Nossa tecnologia vai mudando, nossa arte vai encontrando novos veículos.
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Você, leitor, define arte como? Conta pra mim?
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Até a próxima semana.
Beijos
Fal

PS: explicando o nome da categoria das sextas-feiras:
“- Há um tesouro na casa ao lado!
-  Mas não há uma casa ao lado!
-  Então precisamos construir uma!”
Grouxo  Marx

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , ,
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