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24/12/2008 - 08:55

Natal: um pequeno manual de sobrevivência

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Os gatos da Telinha no Natal

Talvez seja só pelas crianças. Talvez seja para fazer sua cara metade feliz. Talvez seja porque você gosta, diabos, você tem o direito de gostar! Mas o fato é que, hoje, por todos os cantos da Terra, famílias se reunirão em torno de pinheiros enfeitados, mesas entulhadas com o melhor que cada um pode oferecer, cunhadas mazinhas e primos com a cara cheia para celebrar o nascimento de Jesus, a esperança ou, simplesmente, o peru recheado de farofa doce da tia Lalá, que é divinal.
Mas, se o convívio familiar já é algo cheio de truques e manhas, o convívio familiar num ambiente lotado, tenso, cheio de crianças berrando e velhas mágoas aflorando, é uma das situações mais perigosas que se pode enfrentar. Assim sendo, leitorinho querido, leitorinha adorada, respire fundo. A véspera de Natal e o almoço do dia 25 podem, mesmo, ser fonte de atritos familiares. Mas podem também não ser. Abaixo, regras simples para que a contagem de corpos seja baixa no dia 26.

1) Se a festa for na sua casa, seja magnânimo. Não importa se você está recebendo porque ama o Natal ou porque foi obrigado pelas circunstâncias – sejam elas quais forem: se você topou, topou. Trate todo mundo bem, sorria, tolere. Tenha a certeza de ter tipos variados de comida para os alérgicos, os vegetarianos, os intolerantes à lactose e toda essa chusma de… enfim, pessoas variadas que compõe o mundo hoje em dia (note que eu ia dizer “e toda essa chusma de chatos que nos assolam”, mas eu sou politicamente correta, certo?). Sim, eu sei, num mundo ideal, composto de pessoas ideais, o cara come o que tiver ou finge que come, tentando não se tornar um fardo para a anfitriã. Mas nos tempos que correm, onde agressividade, assertividade e falta de educação tornaram-se uma coisa só, virou coisa bonita o nhenhenhem e adultos barbados que fazem birra na frente de seus pratinhos, como se três anos de idade tivessem. Cozinhe uns legumes sem sal e um frango bem bestinha presse povo e jure por Deus (fazendo figa com a mão nas costas) que, ah sim, é tudo orgânico, claro.
2) É, as crianças vão gritar, correr, bater umas nas outras, roubar brinquedos umas das outras e, se sua festa for como algumas que já freqüentei, vomitar umas nas outras. Mentalize coisas boas, tenha paciência, não respire fundo e pegue o pano de chão. É Natal, é Natal. Ah, e controle o seu pequeno Átila, o huno, o máximo que puder.
3) Seu marido é um amor, sua mulher é uma deusa, mas a família da criatura é formada de mutantes? Escuta, você tinha que ter checado isso antes de casar. Agora é ligeiramente tarde. Dia 24 de dezembro não é dia de profundas análises sobre “eu entendi porque você virou isso, olha só quem te criou”. Não faça isso. Não faça. Você casou, güenta firme. Vai lá, sorria, troque presentes, elogie os penteados assustadores e as crianças horrorosas (seu filho escapou da maldição genética e é lindo, claro, afinal de contas ele puxou à sua família).
4) Se a festa for em casa alheia, comporte-se como você gostaria que esse bando de selvagens se comportasse na sua casa. Noutras palavras, coma e cale a boca. Em casa, mais tarde, você come um sanduíche. E elogie.
5) Vou dar um conselho que eu acho dificílimo de seguir: não fale mal dos ausentes. Especialmente quando estou brava com alguém, acho difícil manter minha boca fechada. Então, entendo seu desejo de meter o pau no Primo Jambão, aquele sacaneta. Mas resista. Porque é líquido e certo que o primo Jambão vai ser informado que foi assunto na festa, tem sempre algum nojento disposto a contar para ele o que foi que você disse quando ele não estava lá. Fofocar sobre parente ausente é uma das coisas mais deliciosas de Deus, mas resista. Acredite, a vida familiar não precisa de nenhuma ajuda para azedar.
6) Fuja à tentação demoníaca, também, de entrar em qualquer tipo de bate-boca durante a festa.  Quem foi, quem não foi, seu filho vomitou no meu de propósito, você não trouxe a comida combinada, você falou mal de mim ano passado (haha). Não caia nessa. Sorria muito, conte casos engraçados sobre pessoas que ninguém ali conhece, sorria de novo, tome mais uma vodca. Velhas feridas, antigos ressentimentos, verdades inconfessáveis? Isso é material para o divã do seu terapeuta.

Rafaela de Natal

7) Não dê, e eu jamais poderei ser enfática o suficiente sobre isso, não dê em cima de parente nenhum, jamais, especialmente se ele for casado, especialmente se você também for. Pelo amor de Deus. Um passo em falso com o primo Jambão (que esse ano resolveu ir de última hora e que até nem é tão mau assim) na área de serviço, jamais será perdoado, esquecido ou digerido. E ano que vem vão falar mal de você, tenha certeza.
8) Um pedido pessoal: resista, e não fale de doenças, cirurgias, cistos, drenos. Nunca. Ninguém quer saber que remédios você toma, como foram seus exames, de que cor é sua urina. Não fale das suas doenças, não pergunte sobre as doenças alheias.
9) Se a festa é na sua casa, não banque a vítima contando quantas horas você ficou de pé, sofrendo em silêncio, no caixa do supermercado, como foi tudo caro, difícil de fazer, impossível de achar; como você se esforçou e sofreu para alimentar um bando de ingratos. Faça de coração, sorria e me sirva mais um pouco de arroz de lula. Deixar todo mundo culpado não vai facilitar nossa digestão.
10) Pense, concentrado, que é só uma vez por ano. Que, com aquelas pessoas, para o bem e para o mal, você tem algum tipo de ligação – vocês dividem histórias, pessoas, fatos, passado e futuro. Acredite que nem tudo ali gira em torno de você. Pense que ninguém é perfeito. Não, não, nem você. Lembre que nem todos fazemos de nossas vidas o que estávamos destinados a fazer, que nem todos são felizes, que nem todos são malvados, que nem todos agem pensando só no seu mal, que nem todos agem só para magoar você – a maioria das pessoas, a maioria do tempo, nem lembra que você existe. Com isso em mente, tente se divertir de verdade. Tente conversar com aquelas pessoas e realmente estabelecer algum tipo de conexão. Tente. Não pode ser assim tão ruim. Ou pode, sei lá. Mas é só uma noite. Passa rápido. Feliz Natal.

As luzes de Natal com a Nanda

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: ,
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