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16/09/2009 - 19:50

Drops, drops

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No meio de uma aula de oratória, a Cecília Quevedo deu um suspiro fundo e me disse: “Sabe quando você percebe que está ficando velha? Quando as pessoas que costumavam tratá-la como criança começam a morrer”. E sorriu para mim, com seus olhões azuis tristes.
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“Eu me pergunto, Linda, o que foi que eu fiz? Eu passei todo esse tempo protegendo um homem fraco e indeciso de 44 anos? Foi isso, não foi? Foi exatamente isso que eu fiz. Esse homem que não resolve nada, que não assume essa situação? Ah, Linda, tá caindo um monte de fichas na minha cabeça…”.
Eu suspiro porque as fichas desabam na minha cabeça também.
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Bem que eu avisei. O jogo seria duro e sua alma ainda era frágil para enfrentá-lo. Avisei que ela não sabia onde estava se enfiando, que o páreo seria coisa de profissional. Mas ela não me ouviu. Mesmo com esse monte de avisos, a teimosa deu de ombros e foi. Encarou um final de semana em Ilha Bela com o Jonas e as três filhas do primeiro casamento dele. Seguiu na mais perigosa das viagens. Voltou de lá no domingo à noite. Segunda à tarde, recomeçou com a terapia. Bem que eu avisei.
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Teve gente que achou muito radical, mas eu achei que foi bem feito. A Marcela disse em voz alta, para a festa inteira ouvir, que na casa dela tinha uma colcha do mesmo tecido, com a mesma estampa que o vestido da Bia. A Bia fez bem de jogar o vinho na cara dela. Eu acho.
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Alguém me emprestou um livro surpreendente. Um livro que ensina como qualquer moça comum pode conquistar o homem perfeito e casar com ele. Eu li de boca aberta e olhos arregalados. O homem perfeito, aparentemente, é fisgado através de regrinhas que devem ser seguidas à risca: não puxar conversa, não telefonar, não tomar iniciativa, não dar carona, não aceitar convites feitos com menos de quatro dias de antecedência, não rachar a conta, não ir para a cama antes do sétimo (!) encontro, não beber álcool na frente dele, não fazer muitas perguntas, não beijar no primeiro encontro. Acabei de dar um tapa na minha própria testa. Faço tudo errado há 27 anos.
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A mãe descobriu que ela dava para o namorado. Descobriu porque na época que ela estava fazendo a Residência Médica, eles resolveram dar um tempo no Carnaval. Durante esse tempo, ela transou com um menino da Residência Médica. Quando acabou o Carnaval, eles voltaram, e a burra contou. O tal do namorado era um troglodita, deu um soco no nariz dela. A irmã dela ficou sabendo, contou para a mãe, foi um escândalo, até a Residência Médica ela teve que deixar. Agora pode parecer dramalhão mexicano, mas no começo da década de setenta ainda era fogo, por mais que ares liberais já estivessem soprando. No mesmo ano, a mãe dela acabou descobrindo que uma outra filha fez um aborto e que uma outra ainda ia morar com o noivo sem casar. Mas o que ela nunca perdoou, foi o soco no nariz.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/04/2009 - 13:55

Só drops

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Na hora de ir embora ele passou a mão no cabelo dela e murmurou um “Fica bem” desajeitado. Ela achou bonitinho, porque “fica bem” é uma forma de despedida que ela aprendeu com a mãe dela, e que ele começou a falar de tanto ouví-la. Ainda com o jeito de despedida da sua mãe, ela respondeu “Fica bem você também”. Deu ré no carro e foi embora. Mas ela não ficou nada bem e dirigiu pelas Marginais durante duas horas antes de voltar para casa.
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Ajoelhado ao lado da cama, nu e com os braços abertos, o Marcos dubla a mais engraçada música sertaneja que eu já ouvi na vida. Uma música que fala sobre vinhos, reconciliações e camisolas pretas. Ele dubla com uma carinha séria, sentida, concentrado que me faz dar gargalhadas altas e gostosas. Escorrego para dentro do abraço dele sem nem conseguir lembrar da última vez que me senti assim, tão relaxada e feliz.
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Tomei coragem e terminei o namoro. Ele era muito doce, não e entenda mal. E eu realmente gostava muito dele. Mas ele tinha essa mania: discutia a relação, com todos os seus prós e contras em qualquer lugar, na frente de qualquer um. A mãe dele sabia de cada uma de nossas brigas, o cara da avícola ficou sabendo que eu só durmo de janela aberta e, meu Deus, a tia que guarda os carros na rua da feira foi informada que eu detesto camisinha. Tive que acabar com o namoro, entendeu? Cacete, aquilo não era um relacionamento a dois, era um filme do Arnaldo Jabor.
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- Sabe o que você precisa, Manuela? Encarar sua mãe de frente, sem amarras, mostrar para ela que você cresceu e não tem medos de conflitos!
- Belo conselho, vindo de um homem que só fala com a própria mãe duas vezes por ano, pelo telefone e depois que desliga, fica três horas em posição fetal!
- Já disse que não é posição fetal e sim uma posição hindu de relaxamento.
- Abraçado num cobertorzinho de bichinhos, Renato?
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A Adriana me chama:
- Bi, vem aqui ouvir o que o Washington tem para contar.
- Devo levar o meu bloco de notas?
- Não, Fofa, traz um lencinho.
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Mesa do Valtão:
- Quem foi que disse que “o casamento é a única aventura ao alcance dos covardes”, Valtão?
- Meu pai.
- Pára de beber e responde, Valtão, tou falando sério, poxa.
- Eu também, Luiz.

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A Cláudia foi a um cartório reconhecer firma:
- Lindíssima, sabe o que eu descobri lá? Custa quatrocentos e cinquenta reis para casar! Linda, que absurdo!
- Nossa, Clau, como é caro, porque será que custa tanto?
- Ah, eu li no quadro de avisos. É para a papelada e a tal da “diligência”… que deve servir para descobrir se o “Bagulho” já não tem família, né, lindíssima? Sabe como é que são os “Bagulhos”.
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Mesa do Valtão, quarenta minutos depois:
- Você é muito pessimista, Valtão. Olha o exemplo do Beto e da Paola. Eles se amam!
- Claro, né, Luiz, eles ainda não se conhecem bem!

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
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