O sentimento dum ocidental (ou O livro que eu quero ler II)
Eu sei, eu sei. Posso até ver os e-mails do Cláudio Luiz e do Rui na minha caixa postal, dizendo que, se eu falar de um livro por vez, nossa lista dos livros de 2009 não acabará nunca. Mas o que é que eu posso fazer, se dois leitores da coluna, a Ana Miranda e o Antônio Luiz, disseram que, em 2009, vão descobrir Cesário Verde?
Eu amo o Cesário Verde.
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Cada palavra que ele nos deu em sua curta vida (e nem foram tantas palavras assim) é preciosa.
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Cesário Verde foi um cara muito sério. E um escritor daqueles que só o maravilhoso século XIX poderia ter nos dado.
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Como ele viveu e morreu no século XIX, como escreveu entre 1873 e 1886, temos a mania de enquadrá-lo como realista. Mas ele foi mais que um realista. Ele foi um poeta apaixonado e viceral e, mesmo assim, cínico.
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Ele olhava o mundo dele com olhos generosos, ainda que sofridos e com muita largueza (foi Dostoiévski, dentre outros, quem disse “Aquele que fala sobre sua aldeia, fala sobre o mundo todo”). Talvez por ser um agricultor, Cesário Verde não fazia uma poesinhazinha confinada e petitica, sua poesia é de grandes espaços, de céu azul, e mesmo quando fala de morte, de tuberculose ou das incertezas da vida, é poesia para ser lida em voz alta, com grandes gestos e teatros. Toda essa amplidão, permitiu a Cesário Verde transitar pelo Realismo, e ir e vir sem cerimônia ou amarras, pelo Parnasianismo e pelo Romantismo, pelo Naturalismo, pelo Impressionismo e ainda, pasmem as senhoras e os senhores, esse cara botou os pezinhos no lago do Expressionismo e do Surrealismo antes, muito antes, que nós começassemos a derreter relógios e deformar fantasias.
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Alguém aí falou em Modernismo? Ele chegou antes, ele provou que a literatura, e porque não falar na arte e na vida, não estavam assim tão arrumadinhas em camadas de bolo, imóveis e sagradas.
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Cesário Verde não tem pudores, nem para o amor, nem para a dor, e juro que não estou tentando rimar, nem para o humor.
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Ele era mesmo um cara amargo e sofrido, com uma vida difícil, de muito trabalho… ele pensava demais – e Deus sabe, a vida não é nada fácil para os que pensam. Mas ele se valia do humor e da ironia e ria de si mesmo, de seu tempo, de sua época e de todos os clichês.
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Cesário Verde nasceu em 1855. O pai dele era um burguês do século XIX: tinha uma loja de ferragens, uma quinta produtiva e filhos para tocar os negócios. Cesário Verde está à frente da loja da família. E está nos campos colhendo frutas e, suando sob o sol (a natureza de Cesário Verde não é feita de esquilinhos gorduchos e fadinhas da primavera, ainda que ela fosse mais limpa e mais sadia que a cidade), toca o negócio e cuida dos irmãos e paga os funcionários, como gerações e gerações antes dele. Ele está no olho do furacão do século XIX, aquele século maluco e frenético, de fábricas que surgiam, do cotidiano feio e nada poético, de produção em série que começava a existir, dum mundo em larga escala que nunca havia sido visto e que nunca mais iria embora. Ele vê a miséria e as diferenças sociais, ele se frusta por não conseguir ser um grande imortador de vinho e, ao mesmo tempo, por não ser um escritor reconhecido (e o que seria do mundo da literatura sem escritores pobres de grana, pobres de fama e resmungões, eu vos pergunto), ele vê as cidades crescendo, o campo ficando cada dia mais longe, as promessas do futuro chegando, mas o passado – inclusive com com suas doenças agustiantes, como a tuberculose – segurando o passo de todo mundo e, ahá, paradoxalmente, mantendo todos a salvo. Viver no século XIX era viver em conflito e agonia (ah, Fal, e qual século foi moleza, minha filha?), estávamos quase lá, mas não estávamos realmente, e Cesário Verde, que quis ser um poeta pálido, um burguês alienado e um camponês robusto, não foi nada e foi tudo; mesmo quando não percebia, mesmo quando não era.
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Ele morreu em 1886, de tuberculose, como deve morrer um herói do século XIX.
E eu não vou ficar aqui me estendendo sobre seu genial jeitim de fazer contraste entre campo e cidade, de falar sobre seu trabalho na lavoura, sobre sua família, sobre sua vida burguesa e pacata, sobre seu testemunho acerca o mundo que o cercava e o mundo que ele gerava em seu coração. Vou apenas lhes dar um conselho, porque nós, as velhas senhoras, temos autorização Divina pra aconselhar jovenzinhas bonitas e menininhos encantadores. Façam como o Sr. Cesário, Ana, Antônio, e procurem “sentir tudo, de todas as maneiras”. Sempre. Vai doer pra caramba, mas fiquem firmes. Ele ficou.



