iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

30/01/2009 - 04:09

O sentimento dum ocidental (ou O livro que eu quero ler II)

Eu sei, eu sei. Posso até ver os e-mails do Cláudio Luiz e do Rui na minha caixa postal, dizendo que, se eu falar de um livro por vez, nossa lista dos livros de 2009 não acabará nunca. Mas o que é que eu posso fazer, se dois leitores da coluna, a Ana Miranda e o Antônio Luiz, disseram que, em 2009, vão descobrir Cesário Verde?

Eu amo o Cesário Verde.

*

Cada palavra que ele nos deu em sua curta vida (e nem foram tantas palavras assim) é preciosa.

*

Cesário Verde foi um cara muito sério. E um escritor daqueles que só o maravilhoso século XIX poderia ter nos dado.

*

Como ele viveu e morreu no século XIX, como escreveu entre 1873 e 1886, temos a mania de enquadrá-lo como realista. Mas ele foi mais que um realista. Ele foi um poeta apaixonado e viceral e, mesmo assim, cínico.

*

Ele olhava o mundo dele com olhos generosos, ainda que sofridos e com muita largueza (foi Dostoiévski, dentre outros, quem disse “Aquele que fala sobre sua aldeia, fala sobre o mundo todo”). Talvez por ser um agricultor, Cesário Verde não fazia uma poesinhazinha confinada e petitica, sua poesia é de grandes espaços, de céu azul, e mesmo quando fala de morte, de tuberculose ou das incertezas da vida, é poesia para ser lida em voz alta, com grandes gestos e teatros. Toda essa amplidão, permitiu a Cesário Verde transitar pelo Realismo, e ir e vir sem cerimônia ou amarras, pelo Parnasianismo e pelo Romantismo, pelo Naturalismo, pelo Impressionismo e ainda, pasmem as senhoras e os senhores, esse cara botou os pezinhos no lago do Expressionismo e do Surrealismo antes, muito antes, que nós começassemos a derreter relógios e deformar fantasias.

*

Alguém aí falou em Modernismo? Ele chegou antes, ele provou que a literatura, e porque não falar na arte e na vida, não estavam assim tão arrumadinhas em camadas de bolo, imóveis e sagradas.

*

Cesário Verde não tem pudores, nem para o amor, nem para a dor, e juro que não estou tentando rimar, nem para o humor.

*

Ele era mesmo um cara amargo e sofrido, com uma vida difícil, de muito trabalho… ele pensava demais – e Deus sabe, a vida não é nada fácil para os que pensam. Mas ele se valia do humor e da ironia e ria de si mesmo, de seu tempo, de sua época e de todos os clichês.

*

Cesário Verde nasceu em 1855. O pai dele era um burguês do século XIX: tinha uma loja de ferragens, uma quinta produtiva e filhos para tocar os negócios. Cesário Verde está à frente da loja da família. E está nos campos colhendo frutas e, suando sob o sol (a natureza de Cesário Verde não é feita de esquilinhos gorduchos e fadinhas da primavera, ainda que ela fosse mais limpa e mais sadia que a cidade), toca o negócio e cuida dos irmãos e paga os funcionários, como gerações e gerações antes dele. Ele está no olho do furacão do século XIX, aquele século maluco e frenético, de fábricas que surgiam, do cotidiano feio e nada poético, de produção em série que começava a existir, dum mundo em larga escala que nunca havia sido visto e que nunca mais iria embora. Ele vê a miséria e as diferenças sociais, ele se frusta por não conseguir ser um grande imortador de vinho e, ao mesmo tempo, por não ser um escritor reconhecido (e o que seria do mundo da literatura sem escritores pobres de grana, pobres de fama e resmungões, eu vos pergunto), ele vê as cidades crescendo, o campo ficando cada dia mais longe, as promessas do futuro chegando, mas o passado – inclusive com com suas doenças agustiantes, como a tuberculose – segurando o passo de todo mundo e, ahá, paradoxalmente, mantendo todos a salvo. Viver no século XIX era viver em conflito e agonia (ah, Fal, e qual século foi moleza, minha filha?), estávamos quase lá, mas não estávamos realmente, e Cesário Verde, que quis ser um poeta pálido, um burguês alienado e um camponês robusto, não foi nada e foi tudo; mesmo quando não percebia, mesmo quando não era.

*

Ele morreu em 1886, de tuberculose, como deve morrer um herói do século XIX.

E eu não vou ficar aqui me estendendo sobre seu genial jeitim de fazer contraste entre campo e cidade, de falar sobre seu trabalho na lavoura, sobre sua família, sobre sua vida burguesa e pacata, sobre seu testemunho acerca o mundo que o cercava e o mundo que ele gerava em seu coração. Vou apenas lhes dar um conselho, porque nós, as velhas senhoras, temos autorização Divina pra aconselhar jovenzinhas bonitas e menininhos encantadores. Façam como o Sr. Cesário, Ana, Antônio, e procurem “sentir tudo, de todas as maneiras”. Sempre. Vai doer pra caramba, mas fiquem firmes. Ele ficou.

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , ,
26/12/2008 - 07:32

Entre mortos e feridos

A gata natalina da Carol

Querida Lígia:
Estou aqui. E sobrevivi, claro. Sempre sobrevivo, Lígia, você sabe. De um jeito ou de outro. Deve ter barata no meu DNA, não é possível. Já posso me ver, depois da Grande Guerra Nuclear, abobada e meio cegueta, vagando sozinha entre as pilhas de entulho. Você riu, né? Adoro fazer você rir. Do nosso pessoal, entre mortos e feridos, todos parecem ter se salvado também (mesmo achando esse ditado uma idiotice – se houve algum morto, como todos podem ter se salvado? – uso e adoro). A Cé encontrou com todo mundo que ela odeia (essa parece ser uma das especialidades do Natal, Lígia, botar a gente em contato com os parentes mais nojentos que nós temos) e, para se fazer um agradinho, mergulhou no bolo de nozes. Fez ela muito bem. A Carol, na França, com aquele maridinho amado, comeu casquinha de siri, riu e namorou. A gente respira fundo e tenta não odiar a Carol. A Gi foi pra casa do irmão e ficou firme. A Anna Bárbara passou um Natal não-natalino com a família bonita que tem, numa clara demonstração de bom senso. Adoro a Anna Bárbara e você ficaria louca com ela. A Rose ficou quieta na torre, nem passou pela sala, de camisola, para fazer pratinho, olha que santa? A Dani P., que não gosta de Natal, participou da encenação, cumpriu o papel dela no lenga-lenga e sonhou com um Natal diferente. Ah, Lígia, eu também. Também sonhei.  A Katia, pessoa de bom coração, encheu a sala dela de balões depois que as crianças foram dormir (vivo encantada com as tradições de cada família), acreditou em Papai Noel a cada minuto e foi a pessoa boa que ela sempre é. A Nanda passou quietinha, em casa, a Nenéia  passou na casa dos outros, mas também quietinha, pra não fazer marola. A Nenéia não é nada boba. A Ângela acordou de ressaca. A Margot se emocionou com as coisas pequenas, a Laura Andreia se comportou e esperou passar, a Ludmyla – que não passava o Natal em casa há cinco anos – ficou com a mãe e viu filmes na tevê, a Paula Clarice já sabia exatamente como ia ser mas se divertiu mesmo assim. Quem mais, Lígia? Ah, a Anunciação viu o pai, de 90 anos, abrir os presentes com felicidade de menino e se emocionou muitíssimo. Nossa Silvinha, que já havia providenciado Papai Noel particular para a Isa (a Isa está enorme, você iria desmaiar de susto), depois, com a família toda, jantou a comida maravilhosa da dona Leda. O Elísio, o Otávio e o Rui passaram dormindo, meus meninos sabidos. A Maloca passou com as irmãs e a Mãe e os muitos sobrinhos, sobrinhos-netos e vizinhos da irmã, entre jogos de tômbola e truco, entre javali e carneiro assado, entre as promessas de 2009. A Mari passou sozinha e bem consigo mesma, o Claudinho passou só e na melhor companhia do mundo (ele tem me escrito tão lindo, Lígia). A Catarina, para quem o Natal tem a ver com Jesus e não com presentes e Papai Noel, foi a duas missas e depois foi para casa e rezou até dormir. A Alline passou feliz, entre as tradições da família do marido. O Gigio, aquele amado, até que gosta de Natal e Ano-Novo, mas declarou que nem sempre participa, o que eu achei sensacional. A Ana descobriu, de novo, como são maravilhosos os filhos que ela tem. A Isa, depois de muitos anos, passou com os pais, bebeu vinho tinto e se calou, não para deixar de  arrumar confusão, mas porque ela sabe que só nos atinge o que permitimos que nos alcance. Eu, que não sou e nem nunca serei tão sábia quanto a Isa, me deixei ser atingida, ah, Lígia, eu me deixei pegar. E um alvo do meu tamanho, vamos combinar, é difícil de errar. Eu me deixei ser alvejada e, também por isso, passei uma véspera de Natal pequena e quieta. E muito, muito triste, ainda que… bem. Eu estava triste, mas estava bem, dá pra entender, Lígia? Pensei demais em você, nos Natais que nunca tivemos, pensei em Alexandre, em todos os Natais que tivemos, em todos os que nunca teremos, pensei nas minhas escolhas, todas, todas elas, que me trouxeram até aqui e nos meus mecanismos de sobrevivência. Só pensei, né, Lígia, minha especialidade, muitos pensamentos (todos tortos), pouca ação. Chorei um pouco, abracei o cachorro, à meia-noite desejei feliz natal para a Silvana pelo msn, ela que, em Porto Alegre, parece estar (quase) nas mesmas condições de temperatura e pressão que eu. Dormi depois, um sono curto, sem sonhos, quase sem ar, um sono que você costumava chamar de “instante”, lembra,quando você me ligava e dizia “Fal, eu dormi um instante”.

E foi isso, Lígia. Lamentei demais você não estar aqui, Alexandre não estar aqui. Lamentei estar aqui.
Sigo amando você, pensando e sonhando com você, com os Natais que nunca tivemos, os Natais que eu nunca terei.
eu

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags: , , , , , , , ,
19/12/2008 - 15:07

Filmes. Filmes de Natal.

Era uma infância encantada. E não, não são meus olhos, os olhos da meninazinha de tranças, que morava numa casa às margens da represa Billings, com cães enormes, cavalos lindos e lobisomem de verdade no quintal. Mesmo os adultos que nos freqüentavam na época, achavam que era um conto de fadas, pelo menos no Natal.
*
No resto do ano tínhamos lá nossos cantos escuros, nossas dores, nossas incertezas.
*
Durante a época do Natal, porém,  morávamos não na oficina, mas na casa de campo do Pai Natal (nossos livros de tecido eram escritos em português de Portugal, Papai Noel era Pai Natal para as crianças Vitiello). O comunismo da minha mãe só durava de janeiro a novembro, e em dezembro ela se transformava na mais burguesa das mãezinhas de classe média, e fazia biscoitos em formato de estrelinha, e acendia as quatro velas do advento, e decorava a casa toda numa fúria verde-e-vermelha que se mantém até hoje, ainda que o Natal não seja mais o que era, ainda que a meninazinha de tranças dela tenha virado uma velha senhora cínica, que revira os olhos e geme “Tá, mãe, pra mim qualquer coisa tá boa”.
*
Em dezembro, as caixas com enfeites, guirlandas e bolinhas, desciam, tomavam a sala toda e a arrumação começava. Minha mãe arrumava tudo sozinha. Passávamos várias tardes úmidas (com a delícia adicional de não termos nos anos 70, época abençoada, essa aberração aos olhos do Senhor chamada horário de verão. Então, a tarde virava noite e o escuro chegava na hora em que deveria mesmo chegar); ela, revirando caixas, arrumando e contando histórias; eu, sentada na enorme poltrona de camurça cinza do meu velho, tomando gemada (com uma beiradinha de conhaque, de quando em vez, não duvide), vendo minha mãe arrumar as coisas que brilhavam, cochilando (pô, conhaque!) e vendo televisão.
*
Ah, sim, fim de ano, com o comunismo diluído na corrente sanguínea, minha mãe dava uma liberadinha na tevê.
*
E o que eu via? Todos os anos, senhoras e senhores, e quem foi criança na década de 70 não me deixará mentir sozinha, Um dia de sol, de  Joseph Sargeant, feito em 1973. Sim, sim, sim, com direito ao John Denver cantando que o sunshine on my shoulders make me happy. A história era uma desgraceira: amores não correspondidos, mãe com câncer, menininha órfã e tal; mas, no final, o amor verdadeiro triunfava, a árvore da minha mamãe ficava linda, o conhaquinho me deixava balão (leitorzins, minha mãe não me embebedava – bem, não muito – não fiquem com uma idéia errada), mas o fato é que ver a reprise desse filme vagabundo e meloso, todo santo ano, era o que me colocava no clima de Natal. Tantos prazeres juntos, tantas coisas gostosas e felizes, embaladas pela voz da minha mãe,  relembravam-me que vinha por aí um mês de delícias, de promessas cumpridas, de laços de fita vermelhos, de sabonetes dentro das meias (minha mãe enchia nossas meias penduradas de sabonetes, não é fofo?). Eu amava o Natal, amava aquela família, amava aqueles cães e cavalos, e barco a remo (mesmo tendo medo dele) e o lobisomem que morava no quintal (mesmo tendo pavor dele). Eu amava aquela vida. Eu amava o Natal.
*
O mundo gira, a Lusitana roda, o Natal não é mais o que costumava ser (mas, e o que é?) e nem meu filmim vagabundo é reprisado, embora eu ainda navegue no conhaque. Mas é dezembro, eu faço pacotes coloridos para meus quatro sobrinhos que moram longe com as belas coisas compradas na loja da Sandra e, enquanto isso, pergunto aos que amo, que filme faz ou fazia por eles, o que o filme das desgracinhas fazia por mim: que filme traz o Natal até você, ainda que não fale especificamente dessa festa? Que filme embala seus sonhos natalinos, que filme bota você no clima?
*
Recebi mais de cem e-mails e recados falando sobre filmes. Somos todos encantados pela mágica que faz a fotografia – ela mesma, mágica absoluta –  ganhar vida e se mexer, mudando para sempre nosso mundo. Todos amamos filmes, todos temos nossas existências marcadas e demarcadas por eles. Vou mencionar apenas algumas das pessoas recebidas, agradecendo de coração a todo mundo que me ajudou a lembrar que o mundo, o nosso mundo, é tão maior, tão maior.
*
“A Felicidade não se compra” do Frank Capra é o clássico dos clássicos, lembrado com carinho pela Pati Linden, o Ig, pela Susana e pelo Freitas.
Para a Valentina, 8 anos, filha da Káthia, “O Expresso Polar” é o campeão, ano após ano. E pra filha da Katiane também.
“A Noviça Rebelde” leva o coração da Deh e da Carol.
Gi Jardim lembrou de um que eu amo, porque eu amo tudo que o Bill Murray faz (a Anunciação, gosto impecável, também ama): “Os Fantasmas contra-atacam”. A música do final é sensacional, né meninas?
A Pati Azevedo gosta de “A rena do nariz vermelho”, a Carolina gosta de Sobrevivendo ao Natal”.
O Francisco, que costuma passar o Natal vendo filmes, muitos filmes, lembrou de uma das melhores comédias que a W. Goldberg já fez na vida: O Sócio, de 1996. Filmão, comédia rasgada, cheia de virada e com a Whoopi impecável. Bela lembrança.
A Gi gosta do Tio Patinhas no papel de Scrooge em “Contos de Natal do Mickey”.
 *
A Iolene gosta dum monte, de Outono em Nova Iorque a Milagre na Rua 34 (que a Laura Andréia também ama muito); passando pelo “O Estranho Mundo de Jack”, lembrado por várias pessoas. Ah, e ela foi a única que se lembrou de Mensagem para você”, filme totalmente cara de Natal, né?
A Alix, que é muito chique, gosta do “Le Pere Noel est une ordure”, de 1982. “… é o máximo de filme de Natal, originalmente uma peça de teatro que podia durar de 2 a 6h conforme o entusiasmo dos atores e o delírio da platéia!”. Hum. Eu preciso ver esse.
A Tina Lopes e a Maira Tomazzi, do mesmo:  “Uma História de Natal”, porque é engraçado e leve, e faz rir ao invés de chorar.

*

O Carlão lembrou de vários, todos eles muito bons, mas de um que me é particularmente caro: “Contos de Nova Iorque”… é lindo, lindo. O Neutron e o Fabinho gostam de “Esqueceram de Mim”, sãos uns lindos, esses meninos.
*
Teve um campeão de cartas e eu vou citar apenas alguns dos que elegeram esse filme como a delícia de Natal (ao todo, ele foi citado por 73 pessoinhas na minha pesquisa): Inessa, Rosinha, Sônia, Bela, Magá, Pablo, Bia, três Denises diferentes, Silvana, Ângela, Kika, Carmem, Patrícia, Susana, Isabela, Sílvia, Carla, Simone e mais, muito mais gente, escolhe “Simplesmente Amor” como seu filme favorito de Natal, pela magia, pela beleza, pela capacidade de nos fazer sonhar, pelos encontros, pela graça, pelo humor e pelo Rodrigo Santoro de cueca.
*
E eu fico aqui, pensando que a cereja do bolo, quem tem mesmo razão, é meu amado, amado amigo Cláudio Luiz, que declara que “filme bom de Natal, Fal, é aquele que tem final feliz”.
Um beijo, queridos. Até segunda.

 

PS: Os comentários de vocês na coluna passada, sobre o que fica de 2008 estão de partir do coração

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , , , , , ,
12/12/2008 - 07:07

Devaneios aleatórios sobre arte

“Arte não é realidade. Arte é arte.”
Pablo Picasso

Leitorzim igueano-e-fofo, prestenção: ao estudar uma civilização, seja ela qual for, nem sempre se encontram vestimentas, alfabeto, sistema decimal, cultura culinária, pensamento lógico, organização social complexa.
*
Mas sempre se encontra arte.
*
Arte.
*
Nós queremos arte, nós precisamos de arte, nós produzimos arte, nós consumimos arte.
*
Todos os povos do mundo usavam/usam adornos e faziam/fazem algum tipo, seja lá qual for, de representação gráfica.
*
Huuuuuuuum, representação gráfica. (momento Homer Simpson, leitor, perdoe)
O que é que você faz numa representação gráfica?
Você cria. Externa emoções.
Uma representação gráfica, abstrata ou não, é criação.
Você é criador.
Hum, você é Criador. O instinto artístico é universal.
*
Para a Carlota, “a arte é o que encanta a alma e os olhos, questiona os nossos paradigmas nos fazendo pensar em novas possibilidades. Nos torna melhores.”
 *
Pensa aí.
Você está lá num mundo desordenado, pouco acolhedor, agressivo.
Você é um indivíduo com limitações, que olha em volta e não entende mais da metade do que vê, ou, que Deus ajude, sente.
Ah, sim, seus sentimentos também estão desordenados, remexidos. O mundo é incrível, maravilhoso, assustador, implacável. A cada dia, você lida com o inexorável ali, bafejando na sua cara. E, como nós sabemos, ele não escova os dentes.
Você olha pra cima e só pode imaginar os motivos de tudo, que forças misteriosas movem as águas, agitam as folhas, motivam a Britney Spears a lançar mais um cd. Você caça o mamute, corre atrás do táxi, paga a fatura do VISA, reproduz sua espécie, alimenta o gato.
*
A Alix me disse que, para ela, “Arte é a liberdade de reinventar o que é, esquecer o que foi, criar o que talvez jamais seria sem esse sopro único, original. Arte é movimento: percurso torto, curvo, emaranhado entre o tempo e o espaço. Não é excursão, mas é uma viagem imperdível.”
*
Em qual momento, exatamente, você se torna um artista?
Em quanto tempo? Quando é que você passa a usar cada um dos seus recursos para produzir o resultado das suas percepções, emoções, instintos? Ou antes, quando é que vem o desejo, a vontade, vá lá, a necessidade de externar isso? Você faz isso para se expressar? Para ganhar dinheiro? Para ser notado? Para estabelecer alguma ordem no caos? É uma tentativa de explicação? É uma prece? Uma emoção incontrolável? É a reencenação da realidade, da sua realidade?
Quem é que pode dizer?
E, aliás, quem é você?
Um elegante arquiteto brasileiro radicado em Portugal, no comecinho dum novo século? Um esquimó gorducho e besuntado em óleo de baleia, no século XIX, vivendo igualzinho há 1000 anos? Um “faz-tudo” estiloso e engraçado, que nas horas vagas ensaia o “naipe” dos tamborins na bateria da Padre Miguel? Ou um habitante dos Pirineus que há 10.000, 15.000 anos, desenhava na parede de sua caverna a última caçada, ou uma caçada desejada, sem saber que, muito tempo depois, nos colocaria nesta confusão?
 *
A Tatiana escreveu uma coisa linda, linda: “Fal, aqui em casa tenho dois com alma de artista, o pai e uma das filhas. Onde a gente vê um objeto, eles vêem uma possibilidade. É bonito de ver que qualquer coisa, qualquer palavra, por mais ordinária que nos pareça, com eles pode ganhar outro significado.

*
Acho que a arte é o mundo visto com olhos especiais.
*
Arte traz em si sua própria justificativa.
Arte tem a ver com prazer, arte tem a ver com expressão. Arte tem a ver com emoção. Arte tem a ver com a nossa conexão ao Divino e eu não estou falando de religião.
*
Não existe nada mais difícil de definir do que arte. Nada. E quem tem a definição de arte prontinha, na ponta da língua, sem titubear nem um cadim? Tá blefando, fuja, salve-se, salve-se.
*
Para a fofa da Gabi, arte é ver o novo no mesmo, é tudo o que se faz com o coração, é quando um sentimento se materializa.
*
Um dos homens mais brilhantes que já conheci, meu amigo Cláudio Luiz Ribeiro, certa vez me lembrou que prazer não está obrigatoriamente ligado à arte. Nem sempre é prazeroso criar uma obra de arte. Que o diga Camille Claudel. E nem sempre é prazeroso vê-la. Quem já viu a Guernica ao vivo e a cores, sabe do que eu falo. Não dá prazer. Dá medo. Dá raiva. Dá vontade de sair correndo e salvar a vida do seu filho e só dali a umas 4 quadras você se dá conta de que não tem filhos e de que roubou o filho duma turista alemã.
*
E isso tudo nós aprendemos quase nus,  20 mil anos atrás, nos Pirineus, na África Central, na França, no Peru, no Piauí, nas praias do Pacífico.
*
Nós aprendemos isso a cada dia, a cada minuto, a cada vez em que nos deparamos com o belo, mas não podemos parar para vê-lo porque a reunião já começou, porque o dentista é às onze horas, porque há que se pegar um ou dois ônibus para chegar lá e deu preguiça. Aprendemos isso em todos os momentos em que nos deparamos com o terrível, com o inexorável, com o inevitável, com o que define a nós mesmos, a nossa geração, a nossa espécie e ele nos dá dor de estômago; e pensamos em colocar tudo isso no papel mas, puff, já passou.
*
O Leo fica aflito quando entende que “todas  as palavras são limitadas e  falhas na tentativa de enclausurar uma abstração ligada a um conceito sem fim que são os sentimentos humanos em suas experiências”. O Leo é o Leo, né? A Fernanda mandou uma frase fofa: “Artista é aquele que cresceu mas não deixou de ser criança”. E a Ângela, que é marxista, disse que arte é um produto a ser consumido. Eu adoro a Ângela.
 *
Arte tem a ver com emoção.
*
Emoção de quem faz, de quem vê. Essa é a única grande certeza sobre a arte.
 
*
E com nossa evolução. Nossa tecnologia vai mudando, nossa arte vai encontrando novos veículos.
*
Você, leitor, define arte como? Conta pra mim?
*
Até a próxima semana.
Beijos
Fal

PS: explicando o nome da categoria das sextas-feiras:
“- Há um tesouro na casa ao lado!
-  Mas não há uma casa ao lado!
-  Então precisamos construir uma!”
Grouxo  Marx

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , ,
Voltar ao topo