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31/07/2009 - 13:49

Cinema


 
Cinema é fotografia.

Você já ouviu essa frase mil vezes. E é mesmo.

O cinema só existe, você só tem a chance de olhar para a cara linda do Robert Redford e maldizer sua própria carga genética porque, no século XIX, um cara chamado Joseph-Nicephore Neepce e outro nego, chamado Louis-Jacques Laguerre, na França, inventaram a fotografia.

Ela inventada, um monte de outros homens, com suas experimentações e pesquisas, foram incrementando o processo, decompondo fotos, projetando a imagem com luz, explorando sua possibilidade de movimento, fixando imagens no filme de celuloide.

Daí, os irmãos Lumiere conseguem projetar imagens ampliadas numa tela, graças ao cinematógrafo, um equipamento que tem um mecanismo de arrasto para a película.

Por fim, são eles que definem a arte de fazer cinema. Objetivamente, cinema é a técnica (oui, e a arte), de projetar imagens animadas numa tela, através de um projetor.

Do latim imago-gims, vêm imagem, imaginação e imaginário.

Então, você tá lá no escurinho do cinema, com pipoca e todo um sortimento de balinhas e drops, pra quê? Pra entregar sua cabeça e seu tempo pra alguém que vai ocupar seus pensamentos pelas próximas horas.
A sala escura está cheia de outras pessoas, prestes a passar pelo mesmo que você.

O cinema nos pega auditivamente, tem música (uma das mais primitivas forma de arte), mas tem imagens – e nós somos extremamente visuais. Mais que isso, ele te obriga a ficar imóvel, prestando absoluta atenção à trama, por 90, 120 minutos ou mais, e no escuro – você não recebe nenhum outro estímulo.

Além disso, ao contrário de teatro e espetáculos de dança – que também têm som e imagem e também são assistidos no escuro, no cinema você pode se entregar sem medo, pode projetar seus sentimentos na tela sem nenhum pudor porque o que está ali na sua frente não são pessoas reais – são representações de pessoas.

O cinema é a loucura de todos nós, é de longe a forma de arte mais querida, que desperta mais paixões, porque ele encerra em si todas as outras formas de arte. Porque nele, de muitas formas diferentes, cada um de nós é o protagonista. Porque, finalmente, nos sentamos todos juntos, vendo juntos sombras na parede da caverna, aconchegados e em segurança, vivendo aventuras que jamais viveríamos.

O entretenimento é a coluna dorsal do sistema capitalista. Trabalhamos 8 horas por dia e dormimos 8 horas por dia, mas o que nos move é a possibilidade de brincar 8 horas por dia.

O entretenimento, aliado sempre ao consumo, é a cenoura presa numa vara de pescar, meio metro à frente do cavalo. A promessa de que iremos nos divertir é o que mantém a carroça em movimento.
 

O que é que você vê? Possibilidades de diversão. De entretenimento. Vivemos e trabalhamos, aceitamos todas as regras, aturamos todas as chatices – porque falta pouco pro feriado. Porque este ano o feriado cai na terça, porque este final de semana eu vou pra São Paulo com a Ângela enfiar o pé na jaca, porque esta pilha de trabalho vai me permitir comprar aqueles livros caros.

Nunca foi fácil viver, jamais a vida humana correu sem percalços. Os sistemas políticos vêm e vão, e nada, nada mesmo, é definitivo.

Sabendo disso, o sistema capitalista nos oferece algo em troca. Fica, amor, fica, eu sei que o trabalho é duro, mas olha todas as coisas divertidas que você pode fazer se ficar!! Olha quanto filme, cinema com ar refrigerado e pipoca em embalagem-balde, montes de peças de teatro, algumas até com ator da Globo, festival de dança panamericana, Bienal de Arte cheia de instalações, fica amor, fica! A gente transforma tudo o que você quiser em arte e em entretenimento, culinária, moda, jardinagem, fica, que aqui tem 200 canais de TV!!

Queremos, basicamente, ser felizes, certíssimos que essa felicidade passa pela diversão – o capitalismo descobriu que a arte divertida nos encontra e nos acalma – nos ajuda a suportar a reunião das 11, o chefe bolha, os alunos que guincham e a dor. O entretenimento serve muito bem ao consumo-totem sagrado do capitalismo, gera receita, dá empregos e nos faz suportar esta vida de merda. Nada mal.

A vida cotidiana de cada um de nós depende de uma intrincada e bem articulada rede de entretenimento, que passa pelos valores culturais de cada sociedade, pela produção industrial e pelos valores ideológicos, que vão do gibi ao Programa do Ratinho, do seu blog favorito ao último filme-cabeça que você viu no festival.

 

O cinema supre nossa cota necessária de fantasia pra que consigamos aguentar a cultura de trabalho que mantém nossa vida como é. A gente sabe que é “mentirinha”, mas é uma mentirinha tão verossímil, tão crível. A sala escura aumenta a evidência da tela colorida, e o tamanho dos seres humanos que vemos é tão proporcional, é tão real, é tão fácil de acreditar.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: ,
24/06/2009 - 07:45

Marli

Comunista sim, senhor, como não? Comunista de proibir Sílvio Santos e Pato Donald, os mais temíveis agentes do capitalismo imperialista. Não comia criancinha, mas bem que mascava uns pés de criancinhas, prelas verem o que era bão. Érico Veríssimo na cama, depois da escola, antes do almoço. Chico Buarque no carro, buscando as crianças na escola. Ah, sim, crianças ainda, ambos com mais de trinta. Cachorros enormes. Banho nos cachorros enormes. Internacional Comunista era canção de ninar. Quando todo mundo tinha patins de botas, a filha ganhou patins de tênis, lindos, azuis, sensação, “foi minha mãe que escolheu”. Cabelo tão fininho, paina, “pêlo” de pintinho. Italiano sem sotaque, francês de moça de colégio de freiras, latim dos césares. Mãos lindas, de fazer comercial, frias, frias, unhas com esmalte clarinho, gelatina e complexo B. Pés tão magrinhos que, segundo o genro, não têm meio, só começo e fim. Peitos lindos, um dos orgulhos da vida da filha. Perfume de limão. Sobrancelha que, erguida, vale por uma bronca de duas mil laudas, sobrancelha de cinema. Voz que treme um pouquinho às vezes, de gripe, de choro, de fome, de sono. Jogos de tênis, corridas do Ayrton Senna. Yoga. Muito pouca paciência com os imbecis desse mundo, o que quer dizer que vive impaciente. Veemência, apoio incondicional, discursos pelo telefone. Óculos, luvas, chapéus e carro doirado, a escola parava na hora da saída, o coração da menina explodindo de orgulho, de prazer com a exibição, “é a MINHA mãe”. Tom de voz ideal para manter à distância as setembrinas deste mundo. A melhor oradora do mundo, a melhor cantora do mundo. Nenhuma crença em Deus. Nem no diabo. Nem na Terra do Sol. Filmes do Fred Astaire, livros do Loyola, paixonite pelo Dr. Reis dividida com a filha. Remédio para diabetes engolido com Coca-Cola, enlatados americanos na TV “pela curiosidade sociológica”, claro, claro. Plantas que nunca morrem. Cabecices, livros de mitologia germânica, filósofos alemães, teólogos tchecos, filmes insuportáveis, vindos d’alguma parte suculenta e remota da Rússia, rádio do carro fixo em estações de música experimental, a filha suspirando de saco cheio, tapas na testa da filha. Feijoada, claro, mas light. Café com leite docinho. Teorias da conspiração borbulhantes, gritos de “Coisa da máfia, eu sabia, eu sabia!”, sempre que alguém morre ou se dá bem. Rins preguiçosos, críticas implacáveis, melhor amiga com câncer, pastora alemã com a barriga cheia de cachorrinhos, netos pouco vistos, filho genial, nora que sorri, filha mal-educada, genro perfeito, óculos na ponta do nariz, pudim de sobremesa, aniversário, anivrsário, aniversário.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , ,
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