Cinema

Cinema é fotografia.
Você já ouviu essa frase mil vezes. E é mesmo.
O cinema só existe, você só tem a chance de olhar para a cara linda do Robert Redford e maldizer sua própria carga genética porque, no século XIX, um cara chamado Joseph-Nicephore Neepce e outro nego, chamado Louis-Jacques Laguerre, na França, inventaram a fotografia.
Ela inventada, um monte de outros homens, com suas experimentações e pesquisas, foram incrementando o processo, decompondo fotos, projetando a imagem com luz, explorando sua possibilidade de movimento, fixando imagens no filme de celuloide.
Daí, os irmãos Lumiere conseguem projetar imagens ampliadas numa tela, graças ao cinematógrafo, um equipamento que tem um mecanismo de arrasto para a película.
Por fim, são eles que definem a arte de fazer cinema. Objetivamente, cinema é a técnica (oui, e a arte), de projetar imagens animadas numa tela, através de um projetor.
Do latim imago-gims, vêm imagem, imaginação e imaginário.
Então, você tá lá no escurinho do cinema, com pipoca e todo um sortimento de balinhas e drops, pra quê? Pra entregar sua cabeça e seu tempo pra alguém que vai ocupar seus pensamentos pelas próximas horas.
A sala escura está cheia de outras pessoas, prestes a passar pelo mesmo que você.
O cinema nos pega auditivamente, tem música (uma das mais primitivas forma de arte), mas tem imagens – e nós somos extremamente visuais. Mais que isso, ele te obriga a ficar imóvel, prestando absoluta atenção à trama, por 90, 120 minutos ou mais, e no escuro – você não recebe nenhum outro estímulo.
Além disso, ao contrário de teatro e espetáculos de dança – que também têm som e imagem e também são assistidos no escuro, no cinema você pode se entregar sem medo, pode projetar seus sentimentos na tela sem nenhum pudor porque o que está ali na sua frente não são pessoas reais – são representações de pessoas.
O cinema é a loucura de todos nós, é de longe a forma de arte mais querida, que desperta mais paixões, porque ele encerra em si todas as outras formas de arte. Porque nele, de muitas formas diferentes, cada um de nós é o protagonista. Porque, finalmente, nos sentamos todos juntos, vendo juntos sombras na parede da caverna, aconchegados e em segurança, vivendo aventuras que jamais viveríamos.
O entretenimento é a coluna dorsal do sistema capitalista. Trabalhamos 8 horas por dia e dormimos 8 horas por dia, mas o que nos move é a possibilidade de brincar 8 horas por dia.
O entretenimento, aliado sempre ao consumo, é a cenoura presa numa vara de pescar, meio metro à frente do cavalo. A promessa de que iremos nos divertir é o que mantém a carroça em movimento.
O que é que você vê? Possibilidades de diversão. De entretenimento. Vivemos e trabalhamos, aceitamos todas as regras, aturamos todas as chatices – porque falta pouco pro feriado. Porque este ano o feriado cai na terça, porque este final de semana eu vou pra São Paulo com a Ângela enfiar o pé na jaca, porque esta pilha de trabalho vai me permitir comprar aqueles livros caros.
Nunca foi fácil viver, jamais a vida humana correu sem percalços. Os sistemas políticos vêm e vão, e nada, nada mesmo, é definitivo.
Sabendo disso, o sistema capitalista nos oferece algo em troca. Fica, amor, fica, eu sei que o trabalho é duro, mas olha todas as coisas divertidas que você pode fazer se ficar!! Olha quanto filme, cinema com ar refrigerado e pipoca em embalagem-balde, montes de peças de teatro, algumas até com ator da Globo, festival de dança panamericana, Bienal de Arte cheia de instalações, fica amor, fica! A gente transforma tudo o que você quiser em arte e em entretenimento, culinária, moda, jardinagem, fica, que aqui tem 200 canais de TV!!
Queremos, basicamente, ser felizes, certíssimos que essa felicidade passa pela diversão – o capitalismo descobriu que a arte divertida nos encontra e nos acalma – nos ajuda a suportar a reunião das 11, o chefe bolha, os alunos que guincham e a dor. O entretenimento serve muito bem ao consumo-totem sagrado do capitalismo, gera receita, dá empregos e nos faz suportar esta vida de merda. Nada mal.
A vida cotidiana de cada um de nós depende de uma intrincada e bem articulada rede de entretenimento, que passa pelos valores culturais de cada sociedade, pela produção industrial e pelos valores ideológicos, que vão do gibi ao Programa do Ratinho, do seu blog favorito ao último filme-cabeça que você viu no festival.

O cinema supre nossa cota necessária de fantasia pra que consigamos aguentar a cultura de trabalho que mantém nossa vida como é. A gente sabe que é “mentirinha”, mas é uma mentirinha tão verossímil, tão crível. A sala escura aumenta a evidência da tela colorida, e o tamanho dos seres humanos que vemos é tão proporcional, é tão real, é tão fácil de acreditar.

