iG

Publicidade

Publicidade

12/12/2008 - 07:07

Devaneios aleatórios sobre arte

Compartilhe: Twitter

“Arte não é realidade. Arte é arte.”
Pablo Picasso

Leitorzim igueano-e-fofo, prestenção: ao estudar uma civilização, seja ela qual for, nem sempre se encontram vestimentas, alfabeto, sistema decimal, cultura culinária, pensamento lógico, organização social complexa.
*
Mas sempre se encontra arte.
*
Arte.
*
Nós queremos arte, nós precisamos de arte, nós produzimos arte, nós consumimos arte.
*
Todos os povos do mundo usavam/usam adornos e faziam/fazem algum tipo, seja lá qual for, de representação gráfica.
*
Huuuuuuuum, representação gráfica. (momento Homer Simpson, leitor, perdoe)
O que é que você faz numa representação gráfica?
Você cria. Externa emoções.
Uma representação gráfica, abstrata ou não, é criação.
Você é criador.
Hum, você é Criador. O instinto artístico é universal.
*
Para a Carlota, “a arte é o que encanta a alma e os olhos, questiona os nossos paradigmas nos fazendo pensar em novas possibilidades. Nos torna melhores.”
 *
Pensa aí.
Você está lá num mundo desordenado, pouco acolhedor, agressivo.
Você é um indivíduo com limitações, que olha em volta e não entende mais da metade do que vê, ou, que Deus ajude, sente.
Ah, sim, seus sentimentos também estão desordenados, remexidos. O mundo é incrível, maravilhoso, assustador, implacável. A cada dia, você lida com o inexorável ali, bafejando na sua cara. E, como nós sabemos, ele não escova os dentes.
Você olha pra cima e só pode imaginar os motivos de tudo, que forças misteriosas movem as águas, agitam as folhas, motivam a Britney Spears a lançar mais um cd. Você caça o mamute, corre atrás do táxi, paga a fatura do VISA, reproduz sua espécie, alimenta o gato.
*
A Alix me disse que, para ela, “Arte é a liberdade de reinventar o que é, esquecer o que foi, criar o que talvez jamais seria sem esse sopro único, original. Arte é movimento: percurso torto, curvo, emaranhado entre o tempo e o espaço. Não é excursão, mas é uma viagem imperdível.”
*
Em qual momento, exatamente, você se torna um artista?
Em quanto tempo? Quando é que você passa a usar cada um dos seus recursos para produzir o resultado das suas percepções, emoções, instintos? Ou antes, quando é que vem o desejo, a vontade, vá lá, a necessidade de externar isso? Você faz isso para se expressar? Para ganhar dinheiro? Para ser notado? Para estabelecer alguma ordem no caos? É uma tentativa de explicação? É uma prece? Uma emoção incontrolável? É a reencenação da realidade, da sua realidade?
Quem é que pode dizer?
E, aliás, quem é você?
Um elegante arquiteto brasileiro radicado em Portugal, no comecinho dum novo século? Um esquimó gorducho e besuntado em óleo de baleia, no século XIX, vivendo igualzinho há 1000 anos? Um “faz-tudo” estiloso e engraçado, que nas horas vagas ensaia o “naipe” dos tamborins na bateria da Padre Miguel? Ou um habitante dos Pirineus que há 10.000, 15.000 anos, desenhava na parede de sua caverna a última caçada, ou uma caçada desejada, sem saber que, muito tempo depois, nos colocaria nesta confusão?
 *
A Tatiana escreveu uma coisa linda, linda: “Fal, aqui em casa tenho dois com alma de artista, o pai e uma das filhas. Onde a gente vê um objeto, eles vêem uma possibilidade. É bonito de ver que qualquer coisa, qualquer palavra, por mais ordinária que nos pareça, com eles pode ganhar outro significado.

*
Acho que a arte é o mundo visto com olhos especiais.
*
Arte traz em si sua própria justificativa.
Arte tem a ver com prazer, arte tem a ver com expressão. Arte tem a ver com emoção. Arte tem a ver com a nossa conexão ao Divino e eu não estou falando de religião.
*
Não existe nada mais difícil de definir do que arte. Nada. E quem tem a definição de arte prontinha, na ponta da língua, sem titubear nem um cadim? Tá blefando, fuja, salve-se, salve-se.
*
Para a fofa da Gabi, arte é ver o novo no mesmo, é tudo o que se faz com o coração, é quando um sentimento se materializa.
*
Um dos homens mais brilhantes que já conheci, meu amigo Cláudio Luiz Ribeiro, certa vez me lembrou que prazer não está obrigatoriamente ligado à arte. Nem sempre é prazeroso criar uma obra de arte. Que o diga Camille Claudel. E nem sempre é prazeroso vê-la. Quem já viu a Guernica ao vivo e a cores, sabe do que eu falo. Não dá prazer. Dá medo. Dá raiva. Dá vontade de sair correndo e salvar a vida do seu filho e só dali a umas 4 quadras você se dá conta de que não tem filhos e de que roubou o filho duma turista alemã.
*
E isso tudo nós aprendemos quase nus,  20 mil anos atrás, nos Pirineus, na África Central, na França, no Peru, no Piauí, nas praias do Pacífico.
*
Nós aprendemos isso a cada dia, a cada minuto, a cada vez em que nos deparamos com o belo, mas não podemos parar para vê-lo porque a reunião já começou, porque o dentista é às onze horas, porque há que se pegar um ou dois ônibus para chegar lá e deu preguiça. Aprendemos isso em todos os momentos em que nos deparamos com o terrível, com o inexorável, com o inevitável, com o que define a nós mesmos, a nossa geração, a nossa espécie e ele nos dá dor de estômago; e pensamos em colocar tudo isso no papel mas, puff, já passou.
*
O Leo fica aflito quando entende que “todas  as palavras são limitadas e  falhas na tentativa de enclausurar uma abstração ligada a um conceito sem fim que são os sentimentos humanos em suas experiências”. O Leo é o Leo, né? A Fernanda mandou uma frase fofa: “Artista é aquele que cresceu mas não deixou de ser criança”. E a Ângela, que é marxista, disse que arte é um produto a ser consumido. Eu adoro a Ângela.
 *
Arte tem a ver com emoção.
*
Emoção de quem faz, de quem vê. Essa é a única grande certeza sobre a arte.
 
*
E com nossa evolução. Nossa tecnologia vai mudando, nossa arte vai encontrando novos veículos.
*
Você, leitor, define arte como? Conta pra mim?
*
Até a próxima semana.
Beijos
Fal

PS: explicando o nome da categoria das sextas-feiras:
“- Há um tesouro na casa ao lado!
-  Mas não há uma casa ao lado!
-  Então precisamos construir uma!”
Grouxo  Marx

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , ,
Voltar ao topo