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07/08/2009 - 19:34

Ana Terra ou: uma confissão – I

Acontece que eu não gostava da Ana Terra. Sim, Ana Terra, a matriarca da maravilhosa trilogia de Erico Verissimo, O tempo e o vento. Ganhei o primeiro volume de O tempo e o vento aos doze anos. Dado por uma mãe que não tinha nenhuma fé religiosa, cujas crenças políticas começavam a desbotar e que só acreditava, de coração, na salvação através da arte.

Essa era uma mãe que lia para os filhos O apanhador no campo de centeio e Mulherzinhas. Eu devia ter uns nove anos e meu irmãozinho Pedrão, uns sete. Pouco depois, nossa hora de dormir começava com Rumo à estação Finlândia. Yeah.
A filosofia da velha era simples e, passados trinta anos (trinta anos, mamãe) ainda acho certíssima: se eles não gostarem é porque não estão prontos. Então, ela lia. Ou nos dava para ler. Se a gente não gostava, ela não obrigava, ela dava outro livro, até acertar. Isso aliado ao seu colo macio – disponível quase que exclusivamente na hora da leitura – e aliado ao fato de livros serem encarados como privilégio a ser conquistado além casa, criou dois leitores dementes, ávidos, furiosos, arrombadores de cartão de crédito em livrarias e sebos vida afora, para todo o sempre, amém.

Mas, opa, tergiversei.

Enfim, ganhei O tempo e o vento e comecei a ler.

E detestei. Não entendi nada daquele começo, do Liroca na torre. Depois veio a parte dos padres, da Missão, aquilo me deu no saco. E depois veio a Ana Terra. Eu tinha era nojo da Ana Terra. Nojo. A Ana Terra virou o símbolo máximo de toda a opressão que eu, mártir da causa, sofria daquela mãe déspota e autoritária. Ai, adolescente é um saco, meu bom Deus.

Mas os anos passaram, fiquei mais velha e – cof cof cof – mais sábia.

E, num momento de ócio, peguei no O tempo e o vento. Pra nunca mais largar. Nunca mais.

E o que foi que eu mais amei?

Sim, a Ana Terra. E o Capitão Rodrigo e a velha Bibiana e mais ainda, o Toríbio.

Mas antes e além, como sempre fiz, amei o narrador, o cara que torna a história possível para mim.
Tudo nesta vida começa pelo narrador. O narrador traz todo o mundo psicológico da Ana pro leitor, assim, de bandeja. Seus gostos e seus medos, a secura e a doçura dos seus pensamentos, tudo que ela quer, tudo que ela teme. No último livro da trilogia a gente entende o porquê do carinho do narrador com todo mundo do livro, mas a esta altura a gente só comove com o gostar que ele tem. Esse narrador do Verissimo ama todas as personagens, mesmo as más, mesmo as que erram. E é tão lindo ver como o narrador ama a Ana e entende a Ana e o pai da Ana e a mãe dela. O narrador entende o lado de todo mundo e torce por todo mundo, sem ficar dividido ou ser dúbio em nenhum momento.

É um dos mais maravilhosos narradores da história da literatura, de todos os tempos, em todos os lugares. O narrador do O tempo e o vento pega a todos, autor, personagens e leitores pela mão, e pela mão ele nos leva pra lá e pra cá, como um amigo que na hora da aflição ou da dor te diz ‘Vamos fumar lá fora?’. O narrador do Verissimo vive me levando para fumar lá fora.

A descrição que ele faz do lugar, das coisas e das gentes é deliciosa.

Ele descreve o lugar e você que ir para lá. Já. ‘Por favor’, diz você para o narrador, ‘me leva daqui’.  A rudeza do lugar só se equipara à beleza do lugar, os verdes do Veríssimo me invadem desde sempre, as pedras, o riacho, a Ana lavando a roupa e cantando, a água limpinha, gelada, onde ela pode se olhar e se perguntar se é bonita, se é bonita. Você se encanta pelas pessoas, por sua rudeza, por sua força, pela coragem que cada um deles têm, por essa força que só um clã pode trazer. Os Terra permanecem juntos, trabalham juntos, vivem aquela vida dura e incerta juntos e juntos cuidam uns dos outros.

E isso é extremamente atraente para nós, que mesmo na década de 40, ou principalmente lá (afinal a Segunda Guerra tinha acabado e só deus poderia saber que espécie de horror nos esperava então… Ainda que não exatamente em nossas casas, a mudança estava no ar, como sempre está quando uma guerra acaba… As guerras, mesmo as psicológicas, mudam nosso mundo – vencedores ou vencidos – todas as vezes e para sempre), precisamos de segurança, dos velhos e bons valores familiares no volume máximo, pais autoritários, mamãe submissas, filhos já adultos e ainda obedientes, trabalho duro, remissão de pecados, todo mundo da cama (ou, no caso dos Terras, da esteira) para o trabalho e do trabalho para casa e aiaiai.

Não é a toa que depois da Segunda Grande Guerra vieram os anos 50, suas cinturinhas de vespa, móveis pé de palito, homens sabichões usando ternos com ombreiras enoooormes (e, se você se lembrar bem, quem usava ombreiras enormes nos anos 40 eram as mulheres, claro, os homens estavam na guerra, alguém tinha que tomar conta da casa, travestir-se tanto quanto fosse possível, com todos os símbolos da autoridade masculina… lembra, aqueles tailleurs de corte militar?) e mulheres, que ainda de cabelos curtos, tinham estrogênio em doses cavalares, exemplos de doce domesticidade. Escapismo no grau máximo, vamos pensar na vida e no mundo depois.
E já que eu estou aqui, mais uma coisa: nós já entramos na Segunda Guerra precisando desesperadamente dum escapismozim. A “guerra para acabar com todas as guerras”, a primeira Guerra Mundial, falhara miseravelmente em seu intento, estávamos em guerra, blé, outra vez… não dá pra estranhar que roliúde tenha vividos seus anos doirados durante a Segunda Guerra Mundial… há que ser muito bom em musicais para fazer todo um planeta esquecer das promessas que ele mesmo fez. Assim, entramos na Guerra ávidos por escapismo, e nos atiramos no cinema, saímos da guerra dementes por escapismo, e mergulhamos na década mais escapista, sensacional, adiadora-da-vida-lá-fora que o século XX conheceu. Que qualquer século conheceu.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , ,
16/01/2009 - 00:31

Cinturinha de Pilão I

       Pode ser a fase que estou vivendo. Pode ser que meu medo do ‘mundo dos adultos’ me empurre na direção de um passado que acho que foi mais bonito do que o meu futuro será (eu só acho, porque no caso específico desse passado, eu não era nem um projeto). Ou pode ser que eu, pura e simplesmente, esteja ficando velha. Mais velha, dirão alguns. Mas, Deus, se é para fugir, por que não fugir para os anos 50? E existe década melhor, fase melhor, mundo melhor?
*
Eu sei, leitorzinho chato e leitorazinha mal-humorada, eu sei que é um reducionismo brutal e abobado transformar os anos cinquenta nos tais anos dourados.  O mundo nunca foi inocente, puro, lindo ou; ai, meu Santo Antão, dourado. Então, não haveria motivo para considerar justo essa década um reduto de doçura ou felicidade. Eu sei.
*
Mas, ah, a Segunda Grande Guerra havia acabado de acabar, algumas das mulheres que participaram do esforço de guerra continuaram trabalhando fora de suas casas, tínhamos abandonado as ombreiras e os casaquinhos com corte marcial, e adotado os tecidos mais brilhantes, mais vaporosos, as cinturinhas marcadas, as saias pregueadas (aliás, ressuscitaríamos as famigeradas ombreiras na não menos famigerada década de 80, mas eu estou frágil e sofrida, não posso falar dos anos 80 hoje).
*
O mundo da década de 50 do século XX parecia seguro, um mundo que se dividia entre bons e maus, sins e nãos, comunas e capitalistas, nós e os outros. Acho que vem daí a atração que eu e tantos outros sentimos por essa década. Ainda que não fosse, porque NUNCA foi, o mundo pelo menos PARECIA seguro.
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E envolta neste climão de escapismo e negação, eu mergulho em DVD’S deliciosos, redentores, não por acaso, estrelados por Doris Day, minha favorita em qualquer década.
*
Claro que nem todos os filmes dos anos 50 serviram ao escapismo alienado do qual eu falo com tanta felicidade.  E numa semana vindoura podemos falar de alguns filmes pós-guerra que botam sua mufa pra queimar, babe.
*
Mas esta semana, vamos ser felizes para sempre. Vamos acreditar na virgindade da mocinha, na bondade humana, nos tradicionais valores americanos (e vamos também acreditar que somos americanos da década de 50), vamos acreditar que, com o fim da guerra, a vida vai mesmo melhorar, que os conflitos vão acabar e que o mundo se tornará um lugar mais justo, afinal de contas, o bem venceu. Os mocinhos ganharam.
*
Por favor, pegue na minha mão e acredite comigo, só mais esta semana, que nós ganhamos. E que tudo, tudo mesmo, vai ficar bem.
*
Dançando e cantando, e sendo muitíssimo bem sucedida em tudo quanto foi ramo do show bussiness da primeira metade do século XX (e parte da segunda também), Doris Day foi responsável por mais dores na virilha do que se pode imaginar. O modelo de ‘moça virtuosa’ que ela encarnou em boa parte de seus filmes, serviu de exemplo para nossas românticas mamães e para nossos putificados papais, vá por mim. Se bem que, se sua mãe for remotamente parecida com a minha, devemos ter em mente que ela serviu de modelo inalcançável, hohoho, mas mesmo assim.
*
A vida dela não foi açucarada. Foi heavy-metal. Mas ela sorria na tela, ela ainda sorri, e cantando ou não, e sorrindo sempre, e com essa cara de boa-moça-sem-pensamentos-impuros, ela nos transporta para uma realidade encantadora, cálida, ao alcance das mãos de qualquer mocinha que fosse boazinha, que andasse na linha.
*
Hei de falar mais, muito mais, sobre Doris Day, porque ela me fascina, por vários motivos.  Alguns deles, são estes aqui:

1) Ardida como pimenta (Calamity Jane), 1955, direção de David Butler, com Doris Day, Philip Carey, Paul Harvey, Chubby Johnson, Howard Keel. Calamity Jane é uma moça trabalhadora e durona do velho oeste que, ahá, apaixona-se, canta belas canções, compra um vestido, pinta a casa de cor-de-rosa e descobre que, na cozinha, será mais feliz. Eu também era mais feliz quando ficava na cozinha. Não me xingue, assista esse filme lindo sem preconceito, entre no clima. A Doris Day canta que é uma beleza.  E ah, sabia que a Calamity Jane existiu de verdade, nasceu em 1852 e se chamava Martha Jane Cannary? Menino, Palavras da Fal é cultura!
2) Um Pijama Para Dois (The Pajama Game), 1957, direção de George Abbott, com Doris Day, John Raitt, Carol Haney, Eddie Foy Jr., Reta Shaw, Barbara Nichols. Na década de 50, os Estados Unidos se estabeleceram, de uma vez por todas, como superpotência. O capitalismo é a força que nos afastará de todos os males, amém. O que vem por aí começa a se desenhar, e palavras como ‘produtividade’ ganham força nova. Nessa história (que foi um musical da Broadway), empregados de uma fábrica de pijamas são obrigados a aumentar sua carga horária e sua, ai, produtividade, quando surge, ora por quem sois, a belíssima representante do sindicato, a dona Doris Day. Stanley Donen dirigiu, dentre outros, ‘Cantando na Chuva’. Ele sabia o que estava fazendo.
3) Confidências à meia-noite (Pillow Talk), 1959, direção de  Michael Gordon, com Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Thelma Ritter, Nick Adams, Julia Meade. Esse é o primeiro dos três filmes que Day faz com Hudson. Não parece que foram mais? Parece, mas foram só três. Hoje em dia, a situação que eles vivem é impensável, mas tempo houve, meus filhos, em que telefone era coisa rara, complicada e cara (se bem que caro ainda é). Nesse passado distante, uma decoradora e um compositor têm que compartilhar uma linha telefônica. Entenda, eles moram em casas separadas e nunca se viram, mas por algum problema técnico, precisam dividir a linha. E se falam, e brigam e vão se conhecendo sem nunca terem se visto, veja você, décadas e décadas antes da internet.
*
Semana que vem retomamos nossa conversa sobre os livros que queremos ler. Agora, corre lá na locadora. Beijos. Bom final de semana, té segunda.
Fal

“Estou em Hollywood há tanto tempo, que quando cheguei aqui, Doris Day ainda não era virgem” – Grouxo Marx

(imagem do site: http://www.papergoodies.com/scripts/prodView.asp?idProduct=158 )

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , ,
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