09/09/2009 - 03:14

De: mim
Para: Tito
Salve, Tito. Novidades no front? Como não?
Sábado a prefeitura veio cortar uma árvore do outro lado da rua, em frente à nossa casa. Para arrancar a árvore do chão, eles usam britadeira pra quebrar a calçada. A britadeira detonou um ponto de distribuição de água. Ganha um doce quem acertar qual foi a única casa que ficou sem água desde sábado, com as duas moradoras imbecis tomando banho nos vizinhos e cheias de roupa e de louça acumulada pra lavar. Pois fomos. Eu ia levar minha mãe para um hotel hoje, mas eis que desponta no horizonte valoroso caminhão dos não menos valorosos garotos da SABESP! Sim, sim, sim. Eles quebraram tudo, a calçada do ladilá, a calçada do ladicá, o meio a rua, tudo. E furaram um cano. Outro. Tem, literalmente, uma coluna d’água no meio da rua. Que bacana. Minha câmera está baleada e eu não consigo passar imagens do celular pro computador, senão batia uma chapa procê, é coisa de se ver. O cachorro enlouqueceu, late sem parar, se debate na janela. Bonito isso. Agora, além de não termos água, não temos calçada, há um fosso em volta de nosso castelo. E não podemos ir para o tal hotel, porque há chances dos moços quebrarem a nossa garagem. Onde, aliás, há uma caveira de burro enterrada, tenho certeza (ano passado vivemos mais ou menos a mesma coisa, só que daquela vez ficamos sem luz). Seja bem vindo a 1221, que a Idade Média, e não o Havaí, seja aqui. Beijo grande, Eu.
PS: Como você já deve ter percebido, sou a pior digitadora do planeta. É pegar ou largar.
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De: Tito
Para: mim
Eu pego. E esse seu e-mail é uma crônica pronta.
Corram para as montanhas (mas cubram as cabeças)
T.
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De: mim
Para: Tito
Se você me autorizar a usar nossa correspondência para fins espúrios, farei isso. Eu roubo tudo para transformar em crônica, um hábito horroroso. Minha mãe me proibiu de usar os resultados de exames dela e disse que se eu fizer isso, vem pra cima de mim com devogados. A quebradeira continua. A terra que cobre a rua é dum vermelho quase roxo. Os gatos estão apavorados com o barulho, debaixo da minha cama (meu quarto dá pra rua). O Baco desistiu de latir para os ininmingos e foi dormir. Minha mãe declarou enxaqueca salvadora e foi pra cama. E se alguém algum dia me disse que seria fácil, mentiu. Alexandre faria 43 anos hoje, bela comemoração.
Afinal, no que tanto você trabalha em pleno feriado? Tradutor não tem feriado, final de semana, nada. Nós trabalhamos todos os dias, sempre, sempre. Mas altos executivos chiques e engravatados deveriam estar em suas belíssimas casas de praia, vendo suas esposas-troféu passarem óleo de bronzear nas amigas e planejando passeios de lancha para logo mais. Você me decepciona profundamente. Beijo. Eu.
*
De: Tito
Para: mim
Se você quiser de fato usar nossa correspondência, que o faça, mas por favor não se esqueça de adicionar detalhes sórdidos e/ou comprometedores. Sobre Alexandre, não tenho palavras, apenas um inútil cafuné. Sobre meu trabalho, ah, quando eu era nova, me prometeram tudo isso. Hoje, puta velha, percebo que me enganaram. Ou tudo talvez seja culpa minha mesmo, afinal nunca soube dar nó em gravatas direito. Mas pelo menos nunca tive um emprego de verdade.
Olha o que eu escrevi:
Vermelho quase roxo é a terra revirada, o ano é 1221 e a Inquisição caça bruxas à minha porta, corta a água e quebra a calçada em frente. Cercada em meu próprio fosso, fosso sem água, vendo aqueles altos executivos chiques e engravatados a caminho de suas belíssimas casas de campo, suas esposas-troféu ansiosas por passar óleo de bronzear nas amigas e planejar passeios de lancha para logo mais. Você me decepciona profundamente, é o que todos diriam se vissem eu aqui, ilhada, tudo ao redor barulho, poeira e enxaqueca. E se alguém algum dia me disse que seria fácil, mentiu. E eu, nova na vida, devo ter acreditado.
*
De: mim
Para: Tito
Tudo bem. Já vi isso no cinema. Estou preparada. Você é eu, é isso, né, você é eu e nós dois somos o Brad Pitt e nós três somos o Edward Norton? Estou preparada. Sabia que isso ia acontecer um dia. Beijo e obrigada, cafuné nunca é inútil.
Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão
Tags: alexandre, árvore, Idade Média, prefeitura
26/01/2009 - 00:02

Houve você um dia. Sorriso de menina. Pele de menina. E eu amei você, como amei poucas vezes na vida, porque a vida é assim mesmo. A gente ama poucas pessoas desse jeito. Sua voz, sua respiração. Seus erres de Bauru. O orgulho dos seus filhos, “os moleques”, você dizia. Seus telefonemas malucos no meio do dia, no meio da noite, “Fal, tá dormindo? Liga na Globo, por que só tem filme bom de madrugada?”. Seus telefonemas de horas com Alexandre, os filmes, as risadas, os segredos. Suas receitas impecáveis. Seu método genial de ler receitas. Seus dentes tão brancos, seu nariz perfeito, seu cabelo perfeito. Eu me lembro. Não ligo que doa, gosto de lembrar. E me lembro quando vejo os olhos doces da Sil, e a pele linda da Tati, e as graças da Mani, e o silêncio da Maloca. Lembro quando me dou conta de que a Naty vai ter um bebê e que você não está aqui pra nos ensinar o que fazer, pra me ensinar a ser tia. Lembro a cada vez que a Carla San é boa comigo. Lembro quando choro por tudo com a Helga, que não tem medo de amar, nem de chorar, nem de coisa nenhuma, e no meio desse meu ateísmo militante, dou graças a Deus pela Helga todos os dias. Lembro enquanto o Mauro balança a cabeça e apaga o cigarro com toda a atenção. Lembro quando fofoco com a Rô e faço planos irreais com a Ju. Lembro porque o Otávio me abraçou em agosto e chorou para dizer “Eles não viram o livro”, e ele falava de você, de Alexandre. Você não viu o livro. Lembro quando mordo o pé do Davi, você iria amar o bebê da Paula, com todo o coração. A Silvana, a Elaine e a Lu chegaram e eu não pude mostrar você pra elas. E eu sempre tive tanto orgulho de mostrar você pros outros. A Isa vem aí e quem vai levar a Isa pra comprar coisas de cozinha? E lembro quando dirijo meu carro no meio da madrugada, temerariamente, cantando alto, falando sozinha, chorando tanto. Fecho os olhos e sinto seu cabelo na minha mão, como se fôssemos personagens do Salinger, e o amarelo do seu vestido tivesse grudado em mim. Marco o seu aniversário no meu calendário; em todos os meus calendários pro resto da vida, tem seu aniversário. E tem este aniversário aqui, que não é seu, é meu, é de quem amou e ama você, querida. Um ano sem você, depois de tão pouca você na minha vida, por tão pouco tempo, poucos anos, poucos filmes, poucos encontros, um nadinha de batons da avon, alguns passeios de carro, risoto com o Otávio, Fred Astaire com a Maloca, gargalhadas com o Alexandre. Faz um ano, mas foi ontem, mas foi há um ano e é agora. É exatamente agora, é exatamente agora. Faz um ano hoje. E é sempre, todos os dias.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
Tags: alexandre, aniversário, calendário, telefone
14/01/2009 - 08:05

Os mesmos foguetes, o mesmo homem-bomba, as mesmas crises no mundo das finanças, as mesmas capas de revista idiotas (Caetano já perguntou “Quem lê tanta notícia?” e ninguém soube responder), a mesma chuva, que traz as mesmas enchentes, os mesmos-aviões-com-o-mesmo-atraso-nos-mesmos-aeroportos, o mesmo calor insuportável, a mesma espera, a mesma espera, a mesma espera. Sou só eu ou as semanas não estão mesmo passando? Não, as coisas – acredite em mim quando digo que sei – não são as mesmas, mas ao mesmo tempo são e são e são. Onde está o Ronnie Von quando precisamos dele?
*
Nada entendo de mecanismos compensatórios, mas não deixa de ser engraçado observar que a falta de atrativos (das mais diversas naturezas) de um cavalheiro, quase sempre é inversamente proporcional à certeza que ele tem que todas as mulheres do planeta estão apaixonadas por ele. Noutras palavras, o cara é chato, feio, tem mau hálito, vida pregressa complicadíssima (filhas ciumentas, ex-mulher psicopata), é velhusco, cheio de manias, desempregado e, certamente, não um Adonis, mas, uau, o que você mais o escuta dizer é ‘eu me afastei dela porque ela estava envolvida demais’.
Hohohoho, o ser humano é divertido de observar.
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A Zélia Gattai morreu dia 17 de maio do ano passado. E antes de ser lembrada como a grande escritora que foi ( e é, né, uma tremenda duma escritora), ela é lembrada como a mulher de Jorge Amado. Já era assim em vida. E quer saber duma? Ela nunca se incomodou. Ela adorava ser a mulher de Jorge Amado, ser reconhecida por isso. Ela nunca teve vergonha de ser companheira dele, nunca. Acho isso muito lindo.
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Mabele e Alexandre na sala de casa.
- A melhor invenção do mundo é o celular.
- Por que, mamãe?
- Porque quando eu me esqueço de comprar alguma coisa, eu ligo pro Helenildo e ele traz.
- Então a maior invenção do mundo é o Helenildo, mamãe.
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As eleições municipais vieram, viram, venceram e se foram (graças a Deus), mas deixaram de lembranças seus secretariados. Ah, os secretariados. Os secretariados.
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Ela me mandou um e-mail muito doce, perguntando por que é que as mulheres fazem essas besteiras, essas escolhas absurdas, esse monte de bobagens. E eu respondi, claro, que se soubesse a resposta tava podre de rica. Nem o velho e bom pai Freud sabia, minha filha, e você quer saber? A gente fica de longe, torcendo… e lamentando, profundamente. Enquanto os outros lamentam por nós, porque nós também só fazemos burrada, como você beeeem sabe.
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“Última Parada: 174″, o filme do Bruno Barreto ficou fora da peneira dos filmes do Oscar. O quê? Não, não vi o filme, nem sei se é bão. Mas torço. Pode ser (é, eu sei) ufanismo babaca, mas eu, que não dou a mínima pra Olimpíadas, campeonatos de tênis, e disputas disto e daquilo (meu marido Alexandre – que além de ser um doce, era um sábio – dizia “Bibi, competição é coisa pra cavalo”), sempre me pego torcendo desvairada pros filmes brasileiros, em qualquer treco que eles concorram.
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Constatar o óbvio é sempre assustador e decepcionante. Não deveria, né, porque, afinal, é o óbvio, meudeusdocéééééu, mas assim é que são as cousas neste reino encantado.
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Risca é área, senhoras, e não cabe recurso.
Mantenham seus narizes limpos, nós nos vemos na sexta. Ah… vamos de Doris Day na sexta-feira? Eu preciso que os anos 50 me redimam e me salvem, mesmo que só um pouquinho.
E desculpem a não-resposta nos comentários (que mesmo sem respostinhas, são lidos e curtidos, vocês sabem disso, né?). Semana que vem, com a vida quase em ordem, retomo minha fazeção de respostas, inclusive cuidando dos comentários desta semana. Palavra.
Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão
Tags: alexandre, caetano, celular, constatar o óbvio, mecanismos compensatórios, ronnie von, zélia gattai
26/12/2008 - 07:32

A gata natalina da Carol
Querida Lígia:
Estou aqui. E sobrevivi, claro. Sempre sobrevivo, Lígia, você sabe. De um jeito ou de outro. Deve ter barata no meu DNA, não é possível. Já posso me ver, depois da Grande Guerra Nuclear, abobada e meio cegueta, vagando sozinha entre as pilhas de entulho. Você riu, né? Adoro fazer você rir. Do nosso pessoal, entre mortos e feridos, todos parecem ter se salvado também (mesmo achando esse ditado uma idiotice – se houve algum morto, como todos podem ter se salvado? – uso e adoro). A Cé encontrou com todo mundo que ela odeia (essa parece ser uma das especialidades do Natal, Lígia, botar a gente em contato com os parentes mais nojentos que nós temos) e, para se fazer um agradinho, mergulhou no bolo de nozes. Fez ela muito bem. A Carol, na França, com aquele maridinho amado, comeu casquinha de siri, riu e namorou. A gente respira fundo e tenta não odiar a Carol. A Gi foi pra casa do irmão e ficou firme. A Anna Bárbara passou um Natal não-natalino com a família bonita que tem, numa clara demonstração de bom senso. Adoro a Anna Bárbara e você ficaria louca com ela. A Rose ficou quieta na torre, nem passou pela sala, de camisola, para fazer pratinho, olha que santa? A Dani P., que não gosta de Natal, participou da encenação, cumpriu o papel dela no lenga-lenga e sonhou com um Natal diferente. Ah, Lígia, eu também. Também sonhei. A Katia, pessoa de bom coração, encheu a sala dela de balões depois que as crianças foram dormir (vivo encantada com as tradições de cada família), acreditou em Papai Noel a cada minuto e foi a pessoa boa que ela sempre é. A Nanda passou quietinha, em casa, a Nenéia passou na casa dos outros, mas também quietinha, pra não fazer marola. A Nenéia não é nada boba. A Ângela acordou de ressaca. A Margot se emocionou com as coisas pequenas, a Laura Andreia se comportou e esperou passar, a Ludmyla – que não passava o Natal em casa há cinco anos – ficou com a mãe e viu filmes na tevê, a Paula Clarice já sabia exatamente como ia ser mas se divertiu mesmo assim. Quem mais, Lígia? Ah, a Anunciação viu o pai, de 90 anos, abrir os presentes com felicidade de menino e se emocionou muitíssimo. Nossa Silvinha, que já havia providenciado Papai Noel particular para a Isa (a Isa está enorme, você iria desmaiar de susto), depois, com a família toda, jantou a comida maravilhosa da dona Leda. O Elísio, o Otávio e o Rui passaram dormindo, meus meninos sabidos. A Maloca passou com as irmãs e a Mãe e os muitos sobrinhos, sobrinhos-netos e vizinhos da irmã, entre jogos de tômbola e truco, entre javali e carneiro assado, entre as promessas de 2009. A Mari passou sozinha e bem consigo mesma, o Claudinho passou só e na melhor companhia do mundo (ele tem me escrito tão lindo, Lígia). A Catarina, para quem o Natal tem a ver com Jesus e não com presentes e Papai Noel, foi a duas missas e depois foi para casa e rezou até dormir. A Alline passou feliz, entre as tradições da família do marido. O Gigio, aquele amado, até que gosta de Natal e Ano-Novo, mas declarou que nem sempre participa, o que eu achei sensacional. A Ana descobriu, de novo, como são maravilhosos os filhos que ela tem. A Isa, depois de muitos anos, passou com os pais, bebeu vinho tinto e se calou, não para deixar de arrumar confusão, mas porque ela sabe que só nos atinge o que permitimos que nos alcance. Eu, que não sou e nem nunca serei tão sábia quanto a Isa, me deixei ser atingida, ah, Lígia, eu me deixei pegar. E um alvo do meu tamanho, vamos combinar, é difícil de errar. Eu me deixei ser alvejada e, também por isso, passei uma véspera de Natal pequena e quieta. E muito, muito triste, ainda que… bem. Eu estava triste, mas estava bem, dá pra entender, Lígia? Pensei demais em você, nos Natais que nunca tivemos, pensei em Alexandre, em todos os Natais que tivemos, em todos os que nunca teremos, pensei nas minhas escolhas, todas, todas elas, que me trouxeram até aqui e nos meus mecanismos de sobrevivência. Só pensei, né, Lígia, minha especialidade, muitos pensamentos (todos tortos), pouca ação. Chorei um pouco, abracei o cachorro, à meia-noite desejei feliz natal para a Silvana pelo msn, ela que, em Porto Alegre, parece estar (quase) nas mesmas condições de temperatura e pressão que eu. Dormi depois, um sono curto, sem sonhos, quase sem ar, um sono que você costumava chamar de “instante”, lembra,quando você me ligava e dizia “Fal, eu dormi um instante”.
E foi isso, Lígia. Lamentei demais você não estar aqui, Alexandre não estar aqui. Lamentei estar aqui.
Sigo amando você, pensando e sonhando com você, com os Natais que nunca tivemos, os Natais que eu nunca terei.
eu
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
Tags: alexandre, ângela, barata, claudio luiz, DNA, guerra nuclear, javali, lígia, ressaca
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