*Noutras palavras sou muito romântico – I

Há séculos usamos “romantismo”, e todos os seus derivados, como uma espada, como um escudo, como ataque e defesa, como definição para o que é e o que não é “definível”. O que importa é ser romântico, sentir o romantismo, espalhar o romance. Romantismo nos arrasta a conceitos tão vagos quanto ele, hipervalorizados como ele e, como ele, difíceis de definir e enquadrar, tais quais amor, glória, beleza, sedução.
É romântico o pagodeiro careca que pede, gemendo e piscando, que você ligue no celular dele, é romântico o final de Casablanca, mesmo que a mocinha e o mocinho não terminem juntos. Romântico também é o papel de carta da Hello Kitty, as almofadas de coração no quarto da menina, a mocinha em “Cantando na Chuva” sacrificando a própria carreira, o Alexandre que me levava sabonetes artesanais num dia de semana sem qualquer motivo aparente.
Tudo isso e o que mais você quiser incluir nessa lista são presentificações de valores que o estilo romântico marcou em nossos corações, a ferro e fogo no século XIX: um certo saudosismo, aquela sensação de que no passado é que era legal, a vida idealizada, o parceiro idealizado, a certeza meio amarga – meio blasé, de que os bons dias de outrora não voltarão, o grande amor que nos redimira a todos e, claro, o final da estória recheado de casamentos, vilões punidos e mulheres grávidas.
Os deliciosos professores Faraco e Moura ensinam que o romantismo pode ser um estado d’alma. E esse tal “estado d’alma” pode aparecer em qualquer época, em qualquer tipo de manifestação artística, em maior ou menor intensidade.
Romantismo, assim, pode designar um estado de espírito, um modo de sensibilidade, de ver a vida, senti-la e reagir a ela.
Mas o Romantismo é também o nome de um movimento artístico.
Ele compreende a tendência geral da arte que era feita do final do século XVIII até meados do século XIX (embora diferentes autores dêem diferentes datas, e me deixem doida).
O Romantismo, quando se fala em estilo de época, é algo que acontece entre o final do século XVIII e meados do século XIX. O termo reina numa atmosfera dramática – amorosa, vasta e ao que parece, inacabável.
A localização histórica do estilo romântico é explicação para quase tudo: na Revolução Francesa em curso, no final do século XVIII, cabeças nobres eram cortadas. Um pouco antes disso os Estados Unidos se libertaram da Inglaterra e criaram o primeiro governo constitucional da América. Na Inglaterra, uma forma de produção sem paralelos transformava o mundo como nada antes o fizera.
Quem é que tem o poder nesse mundo nosso? Quem tem grana, como sempre foi, certas coisas não mudam. E quem tem grana? Acertou, a burguesia.
A burguesia tem padrões diferentes da nobreza que uma porção de sentidos, ainda que admire a nobreza e queira imitá-la também num montão de cousas. A burguesia tem que erguer e alicerçar seu, hohoho, “império”, sobre novos padrões. Seus parâmetros são diferentes, seus objetivos também.
O estilo Romântico será a expressão artística dessas circunstâncias históricas. Foi um movimento que abraçou com a mesma fúria apaixonada o conservadorismo e o desejo libertário, o ontem e o hoje, as novidades e as fórmulas consagradas, o poder e a revolta. Debaixo do signo romântico, coube, e cabe, de um tudo.
Contradição, minha senhora? É claro que sim. O Romantismo foi o movimento das contradições por excelência: sua principal marca é o conflito entre o indivíduo e o mundo, o indivíduo e o Estado, o indivíduo e si mesmo – à medida que o homem romântico não corresponde nem às suas próprias expectativas, nem às suas próprias idealizações. A perplexidade do indivíduo diante do mundo que vê à sua volta a frustração do presente na qual se transformou sua crença no progresso, a vida nova prometida pelas muitas revoluções que não veio: tudo isso se traduziu no estilo romântico como emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia.
Opa… emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia??
Eba.
Sexta-feira que vem, sexta-feira que vem.
*frase se Caetano Veloso
**Foto do querido Nelson Biagio Jr.







