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Arquivo da Categoria Há um tesouro na casa ao lado

10/07/2009 - 20:56

*Noutras palavras sou muito romântico – I

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Há séculos usamos “romantismo”, e todos os seus derivados, como uma espada, como um escudo, como ataque e defesa, como definição para o que é e o que não é “definível”. O que importa é ser romântico, sentir o romantismo, espalhar o romance. Romantismo nos arrasta a conceitos tão vagos quanto ele, hipervalorizados como ele e, como ele, difíceis de definir e enquadrar, tais quais amor, glória, beleza, sedução.

 

É romântico o pagodeiro careca que pede, gemendo e piscando, que você ligue no celular dele, é romântico o final de Casablanca, mesmo que a mocinha e o mocinho não terminem juntos. Romântico também é o papel de carta da Hello Kitty, as almofadas de coração no quarto da menina, a mocinha em “Cantando na Chuva” sacrificando a própria carreira, o Alexandre que me levava sabonetes artesanais num dia de semana sem qualquer motivo aparente.

Tudo isso e o que mais você quiser incluir nessa lista são presentificações de valores que o estilo romântico marcou em nossos corações, a ferro e fogo no século XIX: um certo saudosismo, aquela sensação de que no passado é que era legal, a vida idealizada, o parceiro idealizado, a certeza meio amarga – meio blasé, de que os bons dias de outrora não voltarão, o grande amor que nos redimira a todos e, claro, o final da estória recheado de casamentos, vilões punidos e mulheres grávidas.

Os deliciosos professores Faraco e Moura ensinam que o romantismo pode ser um estado d’alma. E esse tal “estado d’alma” pode aparecer em qualquer época, em qualquer tipo de manifestação artística, em maior ou menor intensidade.

Romantismo, assim, pode designar um estado de espírito, um modo de sensibilidade, de ver a vida, senti-la e reagir a ela.

Mas o Romantismo é também o nome de um movimento artístico.

Ele compreende a tendência geral da arte que era feita do final do século XVIII até meados do século XIX (embora diferentes autores dêem diferentes datas, e me deixem doida).

O Romantismo, quando se fala em estilo de época, é algo que acontece entre o final do século XVIII e meados do século XIX. O termo reina numa atmosfera dramática – amorosa, vasta e ao que parece, inacabável.

A localização histórica do estilo romântico é explicação para quase tudo: na Revolução Francesa em curso, no final do século XVIII, cabeças nobres eram cortadas. Um pouco antes disso os Estados Unidos se libertaram da Inglaterra e criaram o primeiro governo constitucional da América. Na Inglaterra, uma forma de produção sem paralelos transformava o mundo como nada antes o fizera.

Quem é que tem o poder nesse mundo nosso? Quem tem grana, como sempre foi, certas coisas não mudam. E quem tem grana? Acertou, a burguesia.

A burguesia tem padrões diferentes da nobreza que uma porção de sentidos, ainda que admire a nobreza e queira imitá-la também num montão de cousas. A burguesia tem que erguer e alicerçar seu, hohoho, “império”, sobre novos padrões. Seus parâmetros são diferentes, seus objetivos também.  

O estilo Romântico será a expressão artística dessas circunstâncias históricas. Foi um movimento que abraçou com a mesma fúria apaixonada o conservadorismo e o desejo libertário, o ontem e o hoje, as novidades e as fórmulas consagradas, o poder e a revolta. Debaixo do signo romântico, coube, e cabe, de um tudo.

 

Contradição, minha senhora? É claro que sim. O Romantismo foi o movimento das contradições por excelência: sua principal marca é o conflito entre o indivíduo e o mundo, o indivíduo e o Estado, o indivíduo e si mesmo – à medida que o homem romântico não corresponde nem às suas próprias expectativas, nem às suas próprias idealizações. A perplexidade do indivíduo diante do mundo que vê à sua volta a frustração do presente na qual se transformou sua crença no progresso, a vida nova prometida pelas muitas revoluções que não veio: tudo isso se traduziu no estilo romântico como emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia.

 

 

Opa… emotividade, saudosismo, pessimismo, valorização da morte e melancolia??

Eba.

Sexta-feira que vem, sexta-feira que vem.

 

*frase se Caetano Veloso

**Foto do querido Nelson Biagio Jr.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , ,
26/06/2009 - 18:15

Yes, we can

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O mundo mudava a cada instante. O final do século XIX já anunciava que o século XX vinha aí e não ia ser nada fácil.

Graças ao Iluminismo (que correntes mais medievais tentam, nos dias que correm, fingir que não aconteceu), nossa mentalidade mudava. A aprendizagem, a educação da busca de informação e, claro, de formação, tornam-se constantes, pelo menos na vida de parte da população de muitos países. E nós passamos a questionar várias verdades absolutas. Inclusive o papel da mulher na sociedade. Inclusive, ahá, a proibição do voto feminino em todos os cantos do planeta. Entenda, o direito votar foi sempre o primeiro passo nas reivindicações femininas. Ter direito de ajudar a escolher os rumos de sua nação, abre as portas de uma nova vida e da possibilidade de viver novos papéis para todas as mulheres, de qualquer lugar.

Em 1893, na Nova Zelândia, as mulheres alcançam o direito ao voto, graças a um movimento liderado pela inglesa Kate Sheppard.

A luta das inglesas continua. Em 1897, Millicent Fawcett dá voz ao movimento, organizando-o e usando as próprias mulheres para pressionar o governo. Graças a uma série de leis novas, elas podiam, depois de casadas, manter o controle de suas propriedades e/ou pedir o divórcio! Elas também já podiam freqüentar Universidades.

O movimento sufragista começou a ganhar força entre as mulheres de classe média, mas em pouco tempo a classe trabalhadora e a aristocracia aderiram também. Por volta de 1900, lideradas por mulheres como Emmeline, Christabel e Sylvia Pankhurt, a mulheres começaram a fazer passeatas e piquetes e a se acorrentar à galeria de visitantes na Câmara dos Comuns para exigir mudanças. Elas também rasgavam telas em museus, invadiam santuários masculinos como clubes e pistas de golfe para escrever com ácido na grama “voto para as mulheres”, quebravam vitrines de lojas, incendiavam residências de políticos.

O governo as prendia e elas faziam greve de fome. Sem saber direito como lidar com a situação que havia se tornado uma bomba-relógio, o governo britânico aprovou então uma lei dúbia, chamada “Do Gato e do Rato”, que autorizava que as prisioneiras fossem soltas quando as greves de fome as tornasse muito doentes e que previa que, depois de recuperadas, elas deviam ser presas de novo.

Em 1914, com a Primeira Guerra, o movimento foi interrompido. Só em 1918 as inglesas puderam votar. E tão importante quanto, puderam ser eleitas.

E se hoje podemos escolher se queremos ou não nos casar (e com quem), se queremos ou não ter filhos, cortar os cabelos, fumar em público – e, vamos esperar, que, um dia, até mesmo votar aqui no Brasil, pois o voto deveria ser um direito comum a todos os cidadãos, não uma obrigação – devemos a todas as mulheres que vieram antes de nós, e às que vieram antes delas. A história é um processo, um contínuo, um fluir sem fim e não um monte de dados e fatos isolados e sem ligação. E entender a vida, os motivos e as questões de quem veio antes de nós, ajuda a entender, sim, quem somos e para onde vamos, mas mais importante que isso, porque fazemos as coisas que fazemos. Nossas escolhas, todas elas, começaram um em algum lugar. Vamos estudar.

PS: No Brasil, podemos votar desde 1932. Foi outro dia.

(ah, sim: esse site, em inglês, traz muitas informações interessantes sobre o assunto)

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , ,
24/06/2009 - 07:45

Marli

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Comunista sim, senhor, como não? Comunista de proibir Sílvio Santos e Pato Donald, os mais temíveis agentes do capitalismo imperialista. Não comia criancinha, mas bem que mascava uns pés de criancinhas, prelas verem o que era bão. Érico Veríssimo na cama, depois da escola, antes do almoço. Chico Buarque no carro, buscando as crianças na escola. Ah, sim, crianças ainda, ambos com mais de trinta. Cachorros enormes. Banho nos cachorros enormes. Internacional Comunista era canção de ninar. Quando todo mundo tinha patins de botas, a filha ganhou patins de tênis, lindos, azuis, sensação, “foi minha mãe que escolheu”. Cabelo tão fininho, paina, “pêlo” de pintinho. Italiano sem sotaque, francês de moça de colégio de freiras, latim dos césares. Mãos lindas, de fazer comercial, frias, frias, unhas com esmalte clarinho, gelatina e complexo B. Pés tão magrinhos que, segundo o genro, não têm meio, só começo e fim. Peitos lindos, um dos orgulhos da vida da filha. Perfume de limão. Sobrancelha que, erguida, vale por uma bronca de duas mil laudas, sobrancelha de cinema. Voz que treme um pouquinho às vezes, de gripe, de choro, de fome, de sono. Jogos de tênis, corridas do Ayrton Senna. Yoga. Muito pouca paciência com os imbecis desse mundo, o que quer dizer que vive impaciente. Veemência, apoio incondicional, discursos pelo telefone. Óculos, luvas, chapéus e carro doirado, a escola parava na hora da saída, o coração da menina explodindo de orgulho, de prazer com a exibição, “é a MINHA mãe”. Tom de voz ideal para manter à distância as setembrinas deste mundo. A melhor oradora do mundo, a melhor cantora do mundo. Nenhuma crença em Deus. Nem no diabo. Nem na Terra do Sol. Filmes do Fred Astaire, livros do Loyola, paixonite pelo Dr. Reis dividida com a filha. Remédio para diabetes engolido com Coca-Cola, enlatados americanos na TV “pela curiosidade sociológica”, claro, claro. Plantas que nunca morrem. Cabecices, livros de mitologia germânica, filósofos alemães, teólogos tchecos, filmes insuportáveis, vindos d’alguma parte suculenta e remota da Rússia, rádio do carro fixo em estações de música experimental, a filha suspirando de saco cheio, tapas na testa da filha. Feijoada, claro, mas light. Café com leite docinho. Teorias da conspiração borbulhantes, gritos de “Coisa da máfia, eu sabia, eu sabia!”, sempre que alguém morre ou se dá bem. Rins preguiçosos, críticas implacáveis, melhor amiga com câncer, pastora alemã com a barriga cheia de cachorrinhos, netos pouco vistos, filho genial, nora que sorri, filha mal-educada, genro perfeito, óculos na ponta do nariz, pudim de sobremesa, aniversário, anivrsário, aniversário.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , ,
19/06/2009 - 14:42

Um Coliseu para você e para mim

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Era uma vez um imperador chamado Vespasiano. E a história dele começa assim:
Em 68 d.C. Nero foi derrubado pela oposição, declarado inimigo público pelo Senado, caçado pelos guardas da cidade. Com a ajuda de um escravo, Nero corta sua garganta antes de ser preso. Suas últimas palavras foram: “Que grande artista morre em mim”. Bão, com a morte de Nero, em 68 d.C., a cadeira tá vaga. De Julio Cesar a Nero era todo mundo da mesma linhagem familiar. Pela primeira vez, desde Julio Cesar, Roma não tem um herdeiro. Os generais romanos começam a se matar e, em um ano, Roma tem quatro imperadores: todos eles generais, todos eles querendo pudê. Muito pudê. Gaba, Otão, Vitélio, Vespasiano.
Gaba, Otão, Vitélio: Eles vão se tornando imperadores nessa ordem. Mas cada um deles tem base de sustentação muito fraca e são mortos pelo sucessor (quer dizer, Otão se matou). Cada um deles só é imperador por pouquíssimos meses. Acontece que Vespasiano era queridíssimo pelas legiões egípcias, assim como pelas legiões da Judeia e da Síria. Apoiadíssimo pelo exército, Vespasiano é aclamado imperador, manda matar Vitélio e estamos conversados. Seus homens matam Vitélio e vup, ele vira imperador. Vespasiano foi um sopro de ar fresco depois da confusão que foi o império do Nero e da bagunça Galba/Vitélio. Vespasiano fez uma rigorosa reforma tributária, cortou os gastos e promoveu uma estabilidade política muito bem-vinda. Ele era um cara comum, soldado, simples, frugal – e o povo o adorava por isso. Pacifica Roma, abafa rebeliões em Jerusalém, onde meio milhão de judeus morre e mais de cem mil são feitos escravos, reformulou o Senado e conquistou de uma vez por outra a Bretanha. Ele deu uma bela saneada nas contas do Império e também calou rebeliões na Gália. Ele restaurou o Capitólio e reorganizou o exército, que tava um lixo de bagunçado. Ele ampliou o império, fortaleceu as fronteiras. E quando morreu, virou Deus. Nada mal, né? Depois dele, Roma foi governada por seus filhos, um de cada vez, Tito e Domiciano.
Tá, mas e o Coliseu? Por que é que o Coliseu é tão importante? Porque o Coliseu não esteve sempre lá. E ele é um símbolo importante. De mudança. De perseverança. De poder. E, por que não, de grana. O que acontece é que Vespasiano precisava melhorar, rápido, a imagem do governo. Precisava tirar os 300 mil desempregados das ruas de Roma, onde a rapeize vivia bêbada, violenta e doidona. Vespasiano queria acalmar seus cidadãos. Diverti-los. Entretê-los. Fazê-los sentir orgulho de sua cidade. Fazê-los sentir-se parte de alguma coisa. Hum. Um anfiteatro. Diversão para 55 mil pessoas (tem historiador que dá 70 mil como o número máximo lá dentro), com entrada e saída fáceis, comida à vontade, todo mundo protegido da chuva e do sol, com uma visão bacana do espetáculo. Vespasiano era um cara sabido. Ele sabia que, pra redimir o Império das palhaçadas de Nero, ia ter que dar duro. O lugar escolhido foi exatamente o ponto onde Nero tinha seu lago de peixinhos. O recado do veio Vespa era claro: “Vou construir um lugar pro povo, onde todo mundo tenha acesso à diversão – é uma maravilha, mas não é pra mim, é pra vocês. Eu sou bacana.” Vespasiano bota as melhores cabeças de Roma trabalhando pelo povo. Ele drena o lago do Palácio de Nero e ergue ali o Coliseu. Golpe de Mestre. Ele pega o espaço particular de um mau imperador e entrega esse lugar, transformado, para o povo. A construção teve início no ano de 72 d.C. e foi financiada pelo saque a templos judeus em Jerusalém. Doze mil prisioneiros judeus foram trazidos a Roma para trabalhar na construção. Mais de seis mil toneladas de concreto foram usadas. Empregaram gruas de madeira sofisticadas para erguer blocos de terra e, em oito anos, o Coliseu se erguia a quase 50 m do chão. Roma já era como é hoje: lotada, impossível de andar, cheia de ruazinhas estreitas. Construir ali é, e era, um pesadelo. Em seus quilômetros quadrados viviam 1 milhão de pessoas. Sim, a palavra é abarrotada. O mundo nunca tinha visto tamanha densidade populacional. Construir no meio de uma cidade tão populosa exigia um instrumento que pudesse levantar as coisas. Os romanos tinham o know how pressas coisas. Alguns de seus aquedutos tinham 30 metros de altura. Os romanos tinham guindastes incríveis. Tecnologia de primeiro mundo – polias. Com as polias combinadas, multiplicando a força, e cordas fortes, os romanos erguiam monstruosos blocos de pedra. Vespasiano queria o treco feito em menos de dez anos. Você ouviu bem: dez anos. Os construtores piraram. Bão. Para pôr a arena do Coliseu no lugar do lago, os engenheiros começaram drenando a área – o novo edifício seria alto e precisaria de uma base apropriada, sólida, estável. Ele precisaria repousar num leito sólido de pedras. Para drenar o lago e chegar ao leito de pedra, os engenheiros romanos cavaram profundas valas até o Rio Tibre, de modo que toda a água do lago fluísse em direção ao rio. Feito isso, tudo quanto era construtora de Roma levou pra lá seus guindastes e a estrutura de mármore do Coliseu começou a ser construída. Os romanos descobriram, muito antes de sonhar com o Coliseu, que cinza vulcânica misturada à água vira concreto. (Nota: um ano antes do Coliseu estar terminado, o Vesúvio entrou em erupção. Cinzas e a água da chuva revestiram a cidade duma duríssima camada de… concreto. A cinza vulcânica, ou “pozzolana”, era o ingrediente principal do concreto usado no Coliseu, misturada com cal, cascalho e água. Isso gerava um concreto muito forte). Hum, os romanos tinham outro trunfo tecnológico: o arco. Sem arcos não haveria Coliseu. E nem um monte de outras coisas. Os arcos são semicirculares, certo? Certo, tia Fal. Isso permite que eles suportem muito mais peso porque dirigem a força da carga para suas pernas. Os arcos permitiram que o doido do Vespasiano metesse quatro níveis de assentos no Coliseu, com a construção chegando a 48 metros de altura. O Coliseu representava a riqueza, o poder, a capacidade romana. O Coliseu controlava a multidão de até 70 mil pessoas com ingressos e um complexo sistema de corredores que distribuía os espectadores pelo anfiteatro. Cento e dez fontes de água e dois banheiros. Nos dias de muito sol uma lona podia ser aberta sobre o Coliseu, protegendo os espectadores. Sim, você leu direito, teto retrátil. A lona era desenrolada por marinheiros romanos que eram posicionados em torno da arcada superior do Coliseu. Essa cobertura podia ser movida de acordo com o Sol e de acordo com o vento. Era uma delícia ficar lá, sentado confortável, na sombrinha, olhando os negos se matarem. Diversão saudável para toda a família. Vespasiano morreu um ano antes do Coliseu ficar pronto. Em 80 d.C., o Coliseu foi inaugurado por seu filho e sucessor, Tito. A carnificina que acontecia no Coliseu só podia ser vista fora dali em guerras. Os canais de água construídos abaixo do lago artificial de Nero foram deixados intactos e adaptados para inundar o Coliseu e depois drená-lo, o que permitia espetáculos aquáticos no anfiteatro.
O Coliseu viu de tudo. Leões, cristãos apavorados, desafetos de vários imperadores, gladiadores, execuções, simulações de batalhas – inclusive batalhas navais – representações de caçadas, culminando na morte de inúmeros grandes felinos, rinocerontes, hipopótamos, elefantes, girafas, crocodilos e avestruzes; peças teatrais, dancinhas de virgens vestais, turistas encantados, saque, pilhagem, destruição, decadência. O Coliseu viu de tudo.
Pão e circo para o povo por séculos, para sempre se valer o inconsciente coletivo, o Coliseu foi e continua sendo tudo isso e muito mais. É um testemunho em cinza vulcânica, mármore e sangue das nossas muitas capacidades e competências, dos nossos vários talentos, da nossa eterna necessidade de superação, do nosso orgulho, das nossas fraquezas, da nossa pequenez, da nossa crueldade e da nossa soberba. É um testemunho da nossa, ah, humanidade.

É que hoje é sexta-feira. E esta não foi uma semana tão fácil quanto achei que seria. E, de muitas formas, eu, que não tenho como orquestrar a morte de imperadores, ser aclamada por tropas, drenar lagos e erguer símbolos de concreto e cinza vulcânica, precisava me lembrar que sim, há humanidade em tudo, para o bem e para o mal. E que são possíveis mudanças, assim como os erros. E que, de muitas formas, são possíveis os recomeços.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , , , , , , , , , ,
05/06/2009 - 15:44

São sedutoras as vozes da noite

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Kafka aos seis anos  em Praga (desconheço o fotógrafo)

Reflexões calmas, inclusive as mais calmas, ainda são melhores do que as decisões desesperadas.”

A Metamorfose

 Discutindo os dias que correm, os desastres aéreos, os queridos que se vão (achei que só eu achava que os melhores vão antes), a ameaça patética de um terceiro mandato e, ah, por que não, o inexorável, um amigo muito culto terminou o telefonema dizendo que estes são tempos kafkanianos.

*

“Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer.”

                                                                                                                Carta a Pollak

*

Franz Kafka nasceu em Praga no final do século XIX. Ele foi um desses escritores que só o século XIX poderia ter nos dado. Sabe, gente como Melville,  Eça de Queiróz e Zola – cada um de um país, uma época do século XIX e com um estilo absolutamente particular, mas todos representantes geniais daquele século movimentado, inovador, instigante, incrível. O século XIX foi o século que nos inventou, a você e a mim, foi o século onde as raízes do que fazemos, cremos e sonhamos foram lançadas, e esses homens maravilhosos foram parte muito importante dele.

*

“Em última análise, parece-me que devíamos ler apenas livros que nos mordam e firam. Se o livro que estamos a ler não nos desperta violentamente como uma pancada na cabeça para que nós haveríamos de nos dar o trabalho de o ler? Um livro tem que ser como a picareta para o mar gelado dentro de nós. É isso que penso.”

Carta a Pollak

*

Mas não deixa de ser interessante observar que Kafka, que morreu em 1904, teve a maior parte de sua obra publicada postumamente. O que quer dizer que, ao contrário dos outros escritores aqui citados, ele só foi descoberto, lido e analisado no século passado.

*

“São sedutoras as vozes da noite: também assim cantavam as Sereias… Não fora de justiça para com elas, atribuir-lhes o deliberado propósito de seduzir: elas sabiam que possuíam garras e nenhum seio fértil, e disso lamentavam-se em altas vozes – mas não tinham culpa de soarem tão belos os lamentos.”

Os Lamentos

*

Em plena revolução industrial, Kafka imprimiu, a cada linha que escreveu, a estranheza e o desconforto que aquele mundo novo, cheio de máquinas, com um sistema de trabalho e novas regras, nos trazia.

*

“Só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutáve.l”

Diário

*

Um mundo que produzia em série, que sacramentava e, de muitas formas, ritualizava a classe média, que vencia distâncias com trens de ferro, que revolucionava a comunicação com o telégrafo e com um negócio novo, que ninguém podia prever se iria ou não cair no gosto popular, chamado telefone.

*

Kafka não canta em verso e prosa o desenvolvimento tecnológico e industrial do século XIX. Kafka fala de nosso espanto, de nossa dor, de nossa pequeneza, frente a um mundo tão grande e tão misterioso. Kafka fala sobre o incerto que há em nós, sobre o frágil, o que se equilibra com dificuldade, nós, um pé no bote, outro na margem.

*

O homem de Kafka não ama as máquinas enormes e brilhantes e não vê nenhuma vantagem em atravessar a Europa no estômago de uma engrenagem de ferro. O homem de Kafka quer saber que diabos ele faz ali, qual é sua motivação, qual é sua função e, principalmente, onde cabem todas as coisas que ele sente e é.

*

Kafka, um autor do realismo do século XIX, lido e estudado no século XX, está sempre em nossos pensamentos. Fazemos histórias em quadrinhos baseadas em seus contos, ele é citado (ai de nós) em músicas populares, seus contos são adaptados de novo e de novo para o teatro, escrevemos teses sobre ele e sua obra, mas também sobre sua vida sentimental e familiar, todo o tempo. Esmiuçamos seus diários e seus desenhos, procuramos mensagens cifradas, queremos explicações, queremos que ele nos justifique, queremos…

*

Nesse sentido, meu amigo está certo, somos todos kafkanianos. Sua angústia fala à nossa alma e, de muitas formas, suas questões ainda são as nossas. Nossos conflitos existenciais, nossa perda de rumo, as reviravoltas da vida que nos deixam pasmos, nossos muitos medos, nossos questionamentos. Kafka nos entende, ele já sentiu isso tudo muito antes de nós, Kafka nos ampara, ele já falou disso tudo há muito tempo.

*

Ler e reler Kakfa é descobrir a nós mesmos e aos nossos descaminhos. É, humildemente, declarar que não sabemos tudo, que não temos todas as respostas, que estamos aturdidos diante da vida, por mais que queiramos engrossar a voz e fazer afirmações taxativas.

Ler Kakfa é dizer “bem, vamos lá, mais uma vez”. E ir.

*

“E, como levava uma existência divina, Deus o tomou para Si; ninguém o viu mais”

Diário

****

Fontes (material de pesquisa sobre o autor, uma pequena parte dele, sem contar, claro, os livros de Kafka, que são muitos e podem ser encontrados, em português, nas mais variadas condições, edições caríssimas e luxuosas e em sebos, por preços muito baixos):

Kafka

Autor: Erich Heller

Editora: Cultrix

Conversas com Kafka

Autor: Gusstav Janouch

Editora: Novo Século

Anjos Necessários: Tradição e Modernidade em Kafka, Benjamin e Scholem

Autor: Robert Alter

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
29/05/2009 - 16:03

O Fazendeiro Frustrado

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Sir Isaac Newton, pintado por Van der Bawr  

 

Platão é meu amigo, mas a verdade é minha maior amiga” – Aristóteles.

 

 

 Newton leu essa frase quando estava em Cambridge, sozinho, sem grana, sem amigos, estudando feito um maluco, buscando um sentido para tudo o que ele sabia, para tudo o que ele sentia – para tudo o que ele era.

Como é que ele foi parar lá?

Seu pai também se chamava Isaac Newton.

Era um pequeno proprietário rural e morreu antes de Isaac nascer, o que fez de nosso herói uma “criança póstuma”.

Do pai analfabeto, Isaac herdou o solar dos Woolsthorpe e um punhado de terras que rendiam uns bons trocados nas mãos de seus arrendatários.

Quando ele tinha três anos, sua mãe, Hannah Ayscough, casou-se com um pároco chamado Barnabas Smith.

O piedoso pároco queria uma esposa, mas não queria criar o filho de outro homem.

Por isso, Hannah deixa Isaac para trás quando se muda para a casa do novo marido. E ele é criado pela avó.

*

Isaac cresce num mundo rústico, mas um mundo que também apreendeu a usar a força da água e do vento para polir, moer e para esmagar.

Isaac e seus contemporâneos estavam familiarizados com a forja, o moinho e a fornalha. A Inglaterra onde Isaac cresceu era um país rural, formado de vilarejos espalhados, fazendolas e sítios, que se regulava pelo calendário cristão e que, como em muitas outras partes do mundo, produzia objetos de metal (panelas e chaleiras de bronze, barras e pregos de ferro etc.), vidro, lentes, papel, tinta, relógios mecânicos e tinha, além de um serviço postal eficiente, um sistema numérico capaz de expressar frações.

*

Infeliz, com saudades da mãe, o solitário menino Isaac Newton não sabia, mas já tinha à sua volta tudo o que o ajudaria a ser um grande cientista, um grande pensador.

Quando a mamãe volta para casa depois de ficar viúva – de novo – Newton já sabia ler. Também já sabia as tabuadas e já conhecia a Bíblia – frequentara a escola do vilarejo. Mamãe não fez muito caso do fato de Newton cortar pedras para fazer relógios de sol e de ele já entender, mesmo antes de saber do que se tratava, a órbita elíptica da Terra e a inclinação de seu eixo, que o Sol subia e descia no céu durante o ano, segundo um padrão. Os relógios mecânicos eram raros em Woolsthorpe e, quando alguém perguntava as horas por ali, era aconselhado a consultar um dos muitos relógios de sol do menino Newton – eles eram conhecidos por sua exatidão. A mãe de Newton pode não ter feito caso disso tudo, mas também não o mandou parar de estudar. Pelo contrário. Enviou o guri para uma escola em Grantham, que ficava a 13 quilômetros de distância. O menino ficava hospedado com um boticário, Mister William Clark.

*

Morando no sótão da casa dos Clark, Newton frequentou a King’s School, onde aprendeu grego, latim, teologia e hebreu. Henry Stokes, o mestre-escola durão, também incluía aritmética no currículo de seus meninos, futuros fazendeiros. Achava importante que os guris aprendessem a medir áreas e formas, a calcular acres, a mexer com logaritmos para medir terras e mais: ainda esperava que eles inscrevessem polígonos regulares em um círculo e calculassem o comprimento de cada um dos lados, exatamente como Arquimedes fizera para calcular o pi.

*

Quando ele está com 16 anos, a mãe o manda voltar para casa. Ela quer que ele assuma seu papel e administre a vida prática da família, cuide da fazenda e dos negócios. Isaac volta e passa seus dias arrastando-se pela propriedade, com a cara mais infeliz do mundo, um fazendeiro frustrado, brigando com os irmãos, fugindo do trabalho, zanzando pra cima e pra baixo, sabendo que queria alguma coisa da vida, mas não sabia o quê. Seu desamparo era tão óbvio que o mestre-escola Strokes e o irmão de sua mãe, o reverendo Ayscough, conseguiram que Isaac fosse mandado para Cambridge. Contrariada, a mãe lhe mandava bem pouco dinheiro, então ele vivia na universidade como subsizar – ou seja, ele ganhava seu sustento incumbindo-se de pequenas tarefas e servindo os outros alunos às refeições.

*

O currículo da universidade pareceu chatinho a Newton. Seguia ainda a tradição escolástica medieval. Logo, estudavam-se, basicamente, textos gregos e romanos e Aristóteles. Hum, como? Aristóteles? Epa, isso era interessante.

Lógica, ética, retórica, cosmologia, mecânica: Aristóteles estava com tudo.

*

Newton leu Aristóteles nos mais diversos idiomas e foi se encantando com tudo o que lia. Com ele, deu-se conta de que o mundo é, sem dúvida, o mundo das substâncias. E que o conjunto das qualidades de cada substância conduz a uma forma e que, ao mudarem, as propriedades das substâncias produzem movimento.

*

Movimento – ação, transformação, alteração.

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Puxar, arrastar, empurrar, carregar, largar, girar, circundar, separar, unir, combinar, crescer, alterar, minguar, diminuir, aumentar, morrer. Aristóteles conjuga todos esses verbos como movimento e Newton lê pela gramática de Aristóteles.

*

O menino Newton e o velho Aristóteles parecem concordar que movimento é vida.

*

Usando Aristóteles como base, Newton viaja a obra de todos os grandes. Fica pasmado e pirado com a filosofia geométrica e mecânica de Descartes. Perde-se de amores por Galileu e suas teorias sobre velocidade. Enche sua cabeça e seus cadernos de anotações de dúvidas, tabelas, listas, questionamentos.

Começa uma nova sessão em um dos seus cadernos: questiones quaedam philosophicae (algumas questões filosóficas).

*

E assim cria para si mesmo (e para nós, mas isso ele não sabia) um novo começo.

Organizando seu caderno com títulos elementares, ele começava a mudar a vida dele – e a nossa também.

*

O que Newton descobriu é a essência do que fazemos e vivemos.

*

Não quero nem saber se você é budista ou católico, antes disso comungamos da mesma fé, somos todos newtonianos.

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Quando você joga uma bolinha de papel no cesto e atinge seu alvo, meu bem, você está professando nossa fé.

As leis newtonianas fazem parte das nossas vidas dum jeito tal que parece instituição.

Mas não são.

*

Acreditamos que o avião sai daqui e chega ali, em poucas horas, acreditamos em cálculos de distâncias, acreditamos nos mecanismos que regem as marés, acreditamos que a luz não “está por aí” e sim que ela vem do sol e demora oito minutos e meio para chegar. Assimilamos as idéias newtonianas como fé, de tal forma que fica difícil imaginar quão gigantesca foi a mudança operada por sua obra.

*

Se hoje a vida é menos difícil, se para nós o universo é mais decifrável, se temos leis matemáticas e estatísticas, tabelas e padrões para nos tirar das brumas cotidianas, devemos a Newton e a seu trabalho de vida inteira.

*

O domínio do mundo, ou vá lá, essa ilusão de domínio, esse certo domínio que temos de nosso mundo, vem de nossa certeza de que a natureza é regida por leis racionais e universais e não por misteriosos desejos divinos.

Ela vem também do nosso entendimento dessas leis, entendimento que devemos em grande parte a Newton. 

Calcular e prever distâncias e trajetórias, a mensuração das marés, a localização de navios e do Amyr Klink no oceano através de latitude e longitude e mais montes de outras coisas que facilitam a vida?

Agradeço a São Isaac Newton pela graça alcançada.

 

***

Fonte (e, claro, dica quentíssima de leitura)

Isaac Newton – uma biografia

Autor: James Gleick

Editora: Cia das Letras

Nota da autora: Obrigada a todos que chamaram atenção para o meu pavoroso erro de digitação

 

 

 

 

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
09/03/2009 - 12:05

Baco I

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Baco não comandou as forças expedicionárias americanas na Europa durante a Primeira Guerra Mundial.

 

Baco não foi uma das muitas transformações do período neolítico.

 

Baco gostava de assistir Lost no começo, mas faz muito tempo que ele está sem saco.

 

Baco um dia vai morar na praia.

 

Baco acha esses cachorros que usam roupinha uns ridículos.

 

Baco não tem porte de arma.

 

Baco tem um ratinho chamado Eric, o ratinho rói-rói. E um fiu-fiu que chama Fiu-Fiu. E um cachorrinho Philip.

 

Baco gosta de dormir a tarde, no travesseiro do papai.

 

Baco não opera maquinário pesado.

 

Baco não tem todas as respostas.

 

Baco não sabe fritar ovo.

 

Baco não vai reler Rimbaud.

 

Baco não é a favor da inclusão social.

 

Baco não é originário da Índia.

 

Baco não é um grande conhecedor da farmacopédia e das ervas medicinais.

 

Baco não está presente na grande maioria dos minerais da crosta terrestre.

 

Baco não nasceu em Montevidéu.

 

Baco nunca meditou no convento de Trujillo, Espanha.

 

Baco tem medo da panela de pressão.

 

As idéias abolicionistas de Baco nunca evoluíram para uma concepção nacionalista da história.

 

Baco não come feijão.

 

A pintura de Baco não surpreende, sobretudo, pela inusitada combinação de uma linguagem expressionista com elementos claramente vitorianos.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
30/01/2009 - 04:09

O sentimento dum ocidental (ou O livro que eu quero ler II)

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Eu sei, eu sei. Posso até ver os e-mails do Cláudio Luiz e do Rui na minha caixa postal, dizendo que, se eu falar de um livro por vez, nossa lista dos livros de 2009 não acabará nunca. Mas o que é que eu posso fazer, se dois leitores da coluna, a Ana Miranda e o Antônio Luiz, disseram que, em 2009, vão descobrir Cesário Verde?

Eu amo o Cesário Verde.

*

Cada palavra que ele nos deu em sua curta vida (e nem foram tantas palavras assim) é preciosa.

*

Cesário Verde foi um cara muito sério. E um escritor daqueles que só o maravilhoso século XIX poderia ter nos dado.

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Como ele viveu e morreu no século XIX, como escreveu entre 1873 e 1886, temos a mania de enquadrá-lo como realista. Mas ele foi mais que um realista. Ele foi um poeta apaixonado e viceral e, mesmo assim, cínico.

*

Ele olhava o mundo dele com olhos generosos, ainda que sofridos e com muita largueza (foi Dostoiévski, dentre outros, quem disse “Aquele que fala sobre sua aldeia, fala sobre o mundo todo”). Talvez por ser um agricultor, Cesário Verde não fazia uma poesinhazinha confinada e petitica, sua poesia é de grandes espaços, de céu azul, e mesmo quando fala de morte, de tuberculose ou das incertezas da vida, é poesia para ser lida em voz alta, com grandes gestos e teatros. Toda essa amplidão, permitiu a Cesário Verde transitar pelo Realismo, e ir e vir sem cerimônia ou amarras, pelo Parnasianismo e pelo Romantismo, pelo Naturalismo, pelo Impressionismo e ainda, pasmem as senhoras e os senhores, esse cara botou os pezinhos no lago do Expressionismo e do Surrealismo antes, muito antes, que nós começassemos a derreter relógios e deformar fantasias.

*

Alguém aí falou em Modernismo? Ele chegou antes, ele provou que a literatura, e porque não falar na arte e na vida, não estavam assim tão arrumadinhas em camadas de bolo, imóveis e sagradas.

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Cesário Verde não tem pudores, nem para o amor, nem para a dor, e juro que não estou tentando rimar, nem para o humor.

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Ele era mesmo um cara amargo e sofrido, com uma vida difícil, de muito trabalho… ele pensava demais – e Deus sabe, a vida não é nada fácil para os que pensam. Mas ele se valia do humor e da ironia e ria de si mesmo, de seu tempo, de sua época e de todos os clichês.

*

Cesário Verde nasceu em 1855. O pai dele era um burguês do século XIX: tinha uma loja de ferragens, uma quinta produtiva e filhos para tocar os negócios. Cesário Verde está à frente da loja da família. E está nos campos colhendo frutas e, suando sob o sol (a natureza de Cesário Verde não é feita de esquilinhos gorduchos e fadinhas da primavera, ainda que ela fosse mais limpa e mais sadia que a cidade), toca o negócio e cuida dos irmãos e paga os funcionários, como gerações e gerações antes dele. Ele está no olho do furacão do século XIX, aquele século maluco e frenético, de fábricas que surgiam, do cotidiano feio e nada poético, de produção em série que começava a existir, dum mundo em larga escala que nunca havia sido visto e que nunca mais iria embora. Ele vê a miséria e as diferenças sociais, ele se frusta por não conseguir ser um grande imortador de vinho e, ao mesmo tempo, por não ser um escritor reconhecido (e o que seria do mundo da literatura sem escritores pobres de grana, pobres de fama e resmungões, eu vos pergunto), ele vê as cidades crescendo, o campo ficando cada dia mais longe, as promessas do futuro chegando, mas o passado – inclusive com com suas doenças agustiantes, como a tuberculose – segurando o passo de todo mundo e, ahá, paradoxalmente, mantendo todos a salvo. Viver no século XIX era viver em conflito e agonia (ah, Fal, e qual século foi moleza, minha filha?), estávamos quase lá, mas não estávamos realmente, e Cesário Verde, que quis ser um poeta pálido, um burguês alienado e um camponês robusto, não foi nada e foi tudo; mesmo quando não percebia, mesmo quando não era.

*

Ele morreu em 1886, de tuberculose, como deve morrer um herói do século XIX.

E eu não vou ficar aqui me estendendo sobre seu genial jeitim de fazer contraste entre campo e cidade, de falar sobre seu trabalho na lavoura, sobre sua família, sobre sua vida burguesa e pacata, sobre seu testemunho acerca o mundo que o cercava e o mundo que ele gerava em seu coração. Vou apenas lhes dar um conselho, porque nós, as velhas senhoras, temos autorização Divina pra aconselhar jovenzinhas bonitas e menininhos encantadores. Façam como o Sr. Cesário, Ana, Antônio, e procurem “sentir tudo, de todas as maneiras”. Sempre. Vai doer pra caramba, mas fiquem firmes. Ele ficou.

 

 

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , ,
16/01/2009 - 00:31

Cinturinha de Pilão I

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       Pode ser a fase que estou vivendo. Pode ser que meu medo do ‘mundo dos adultos’ me empurre na direção de um passado que acho que foi mais bonito do que o meu futuro será (eu só acho, porque no caso específico desse passado, eu não era nem um projeto). Ou pode ser que eu, pura e simplesmente, esteja ficando velha. Mais velha, dirão alguns. Mas, Deus, se é para fugir, por que não fugir para os anos 50? E existe década melhor, fase melhor, mundo melhor?
*
Eu sei, leitorzinho chato e leitorazinha mal-humorada, eu sei que é um reducionismo brutal e abobado transformar os anos cinquenta nos tais anos dourados.  O mundo nunca foi inocente, puro, lindo ou; ai, meu Santo Antão, dourado. Então, não haveria motivo para considerar justo essa década um reduto de doçura ou felicidade. Eu sei.
*
Mas, ah, a Segunda Grande Guerra havia acabado de acabar, algumas das mulheres que participaram do esforço de guerra continuaram trabalhando fora de suas casas, tínhamos abandonado as ombreiras e os casaquinhos com corte marcial, e adotado os tecidos mais brilhantes, mais vaporosos, as cinturinhas marcadas, as saias pregueadas (aliás, ressuscitaríamos as famigeradas ombreiras na não menos famigerada década de 80, mas eu estou frágil e sofrida, não posso falar dos anos 80 hoje).
*
O mundo da década de 50 do século XX parecia seguro, um mundo que se dividia entre bons e maus, sins e nãos, comunas e capitalistas, nós e os outros. Acho que vem daí a atração que eu e tantos outros sentimos por essa década. Ainda que não fosse, porque NUNCA foi, o mundo pelo menos PARECIA seguro.
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E envolta neste climão de escapismo e negação, eu mergulho em DVD’S deliciosos, redentores, não por acaso, estrelados por Doris Day, minha favorita em qualquer década.
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Claro que nem todos os filmes dos anos 50 serviram ao escapismo alienado do qual eu falo com tanta felicidade.  E numa semana vindoura podemos falar de alguns filmes pós-guerra que botam sua mufa pra queimar, babe.
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Mas esta semana, vamos ser felizes para sempre. Vamos acreditar na virgindade da mocinha, na bondade humana, nos tradicionais valores americanos (e vamos também acreditar que somos americanos da década de 50), vamos acreditar que, com o fim da guerra, a vida vai mesmo melhorar, que os conflitos vão acabar e que o mundo se tornará um lugar mais justo, afinal de contas, o bem venceu. Os mocinhos ganharam.
*
Por favor, pegue na minha mão e acredite comigo, só mais esta semana, que nós ganhamos. E que tudo, tudo mesmo, vai ficar bem.
*
Dançando e cantando, e sendo muitíssimo bem sucedida em tudo quanto foi ramo do show bussiness da primeira metade do século XX (e parte da segunda também), Doris Day foi responsável por mais dores na virilha do que se pode imaginar. O modelo de ‘moça virtuosa’ que ela encarnou em boa parte de seus filmes, serviu de exemplo para nossas românticas mamães e para nossos putificados papais, vá por mim. Se bem que, se sua mãe for remotamente parecida com a minha, devemos ter em mente que ela serviu de modelo inalcançável, hohoho, mas mesmo assim.
*
A vida dela não foi açucarada. Foi heavy-metal. Mas ela sorria na tela, ela ainda sorri, e cantando ou não, e sorrindo sempre, e com essa cara de boa-moça-sem-pensamentos-impuros, ela nos transporta para uma realidade encantadora, cálida, ao alcance das mãos de qualquer mocinha que fosse boazinha, que andasse na linha.
*
Hei de falar mais, muito mais, sobre Doris Day, porque ela me fascina, por vários motivos.  Alguns deles, são estes aqui:

1) Ardida como pimenta (Calamity Jane), 1955, direção de David Butler, com Doris Day, Philip Carey, Paul Harvey, Chubby Johnson, Howard Keel. Calamity Jane é uma moça trabalhadora e durona do velho oeste que, ahá, apaixona-se, canta belas canções, compra um vestido, pinta a casa de cor-de-rosa e descobre que, na cozinha, será mais feliz. Eu também era mais feliz quando ficava na cozinha. Não me xingue, assista esse filme lindo sem preconceito, entre no clima. A Doris Day canta que é uma beleza.  E ah, sabia que a Calamity Jane existiu de verdade, nasceu em 1852 e se chamava Martha Jane Cannary? Menino, Palavras da Fal é cultura!
2) Um Pijama Para Dois (The Pajama Game), 1957, direção de George Abbott, com Doris Day, John Raitt, Carol Haney, Eddie Foy Jr., Reta Shaw, Barbara Nichols. Na década de 50, os Estados Unidos se estabeleceram, de uma vez por todas, como superpotência. O capitalismo é a força que nos afastará de todos os males, amém. O que vem por aí começa a se desenhar, e palavras como ‘produtividade’ ganham força nova. Nessa história (que foi um musical da Broadway), empregados de uma fábrica de pijamas são obrigados a aumentar sua carga horária e sua, ai, produtividade, quando surge, ora por quem sois, a belíssima representante do sindicato, a dona Doris Day. Stanley Donen dirigiu, dentre outros, ‘Cantando na Chuva’. Ele sabia o que estava fazendo.
3) Confidências à meia-noite (Pillow Talk), 1959, direção de  Michael Gordon, com Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Thelma Ritter, Nick Adams, Julia Meade. Esse é o primeiro dos três filmes que Day faz com Hudson. Não parece que foram mais? Parece, mas foram só três. Hoje em dia, a situação que eles vivem é impensável, mas tempo houve, meus filhos, em que telefone era coisa rara, complicada e cara (se bem que caro ainda é). Nesse passado distante, uma decoradora e um compositor têm que compartilhar uma linha telefônica. Entenda, eles moram em casas separadas e nunca se viram, mas por algum problema técnico, precisam dividir a linha. E se falam, e brigam e vão se conhecendo sem nunca terem se visto, veja você, décadas e décadas antes da internet.
*
Semana que vem retomamos nossa conversa sobre os livros que queremos ler. Agora, corre lá na locadora. Beijos. Bom final de semana, té segunda.
Fal

“Estou em Hollywood há tanto tempo, que quando cheguei aqui, Doris Day ainda não era virgem” – Grouxo Marx

(imagem do site: http://www.papergoodies.com/scripts/prodView.asp?idProduct=158 )

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , ,
19/12/2008 - 15:07

Filmes. Filmes de Natal.

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Era uma infância encantada. E não, não são meus olhos, os olhos da meninazinha de tranças, que morava numa casa às margens da represa Billings, com cães enormes, cavalos lindos e lobisomem de verdade no quintal. Mesmo os adultos que nos freqüentavam na época, achavam que era um conto de fadas, pelo menos no Natal.
*
No resto do ano tínhamos lá nossos cantos escuros, nossas dores, nossas incertezas.
*
Durante a época do Natal, porém,  morávamos não na oficina, mas na casa de campo do Pai Natal (nossos livros de tecido eram escritos em português de Portugal, Papai Noel era Pai Natal para as crianças Vitiello). O comunismo da minha mãe só durava de janeiro a novembro, e em dezembro ela se transformava na mais burguesa das mãezinhas de classe média, e fazia biscoitos em formato de estrelinha, e acendia as quatro velas do advento, e decorava a casa toda numa fúria verde-e-vermelha que se mantém até hoje, ainda que o Natal não seja mais o que era, ainda que a meninazinha de tranças dela tenha virado uma velha senhora cínica, que revira os olhos e geme “Tá, mãe, pra mim qualquer coisa tá boa”.
*
Em dezembro, as caixas com enfeites, guirlandas e bolinhas, desciam, tomavam a sala toda e a arrumação começava. Minha mãe arrumava tudo sozinha. Passávamos várias tardes úmidas (com a delícia adicional de não termos nos anos 70, época abençoada, essa aberração aos olhos do Senhor chamada horário de verão. Então, a tarde virava noite e o escuro chegava na hora em que deveria mesmo chegar); ela, revirando caixas, arrumando e contando histórias; eu, sentada na enorme poltrona de camurça cinza do meu velho, tomando gemada (com uma beiradinha de conhaque, de quando em vez, não duvide), vendo minha mãe arrumar as coisas que brilhavam, cochilando (pô, conhaque!) e vendo televisão.
*
Ah, sim, fim de ano, com o comunismo diluído na corrente sanguínea, minha mãe dava uma liberadinha na tevê.
*
E o que eu via? Todos os anos, senhoras e senhores, e quem foi criança na década de 70 não me deixará mentir sozinha, Um dia de sol, de  Joseph Sargeant, feito em 1973. Sim, sim, sim, com direito ao John Denver cantando que o sunshine on my shoulders make me happy. A história era uma desgraceira: amores não correspondidos, mãe com câncer, menininha órfã e tal; mas, no final, o amor verdadeiro triunfava, a árvore da minha mamãe ficava linda, o conhaquinho me deixava balão (leitorzins, minha mãe não me embebedava – bem, não muito – não fiquem com uma idéia errada), mas o fato é que ver a reprise desse filme vagabundo e meloso, todo santo ano, era o que me colocava no clima de Natal. Tantos prazeres juntos, tantas coisas gostosas e felizes, embaladas pela voz da minha mãe,  relembravam-me que vinha por aí um mês de delícias, de promessas cumpridas, de laços de fita vermelhos, de sabonetes dentro das meias (minha mãe enchia nossas meias penduradas de sabonetes, não é fofo?). Eu amava o Natal, amava aquela família, amava aqueles cães e cavalos, e barco a remo (mesmo tendo medo dele) e o lobisomem que morava no quintal (mesmo tendo pavor dele). Eu amava aquela vida. Eu amava o Natal.
*
O mundo gira, a Lusitana roda, o Natal não é mais o que costumava ser (mas, e o que é?) e nem meu filmim vagabundo é reprisado, embora eu ainda navegue no conhaque. Mas é dezembro, eu faço pacotes coloridos para meus quatro sobrinhos que moram longe com as belas coisas compradas na loja da Sandra e, enquanto isso, pergunto aos que amo, que filme faz ou fazia por eles, o que o filme das desgracinhas fazia por mim: que filme traz o Natal até você, ainda que não fale especificamente dessa festa? Que filme embala seus sonhos natalinos, que filme bota você no clima?
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Recebi mais de cem e-mails e recados falando sobre filmes. Somos todos encantados pela mágica que faz a fotografia – ela mesma, mágica absoluta –  ganhar vida e se mexer, mudando para sempre nosso mundo. Todos amamos filmes, todos temos nossas existências marcadas e demarcadas por eles. Vou mencionar apenas algumas das pessoas recebidas, agradecendo de coração a todo mundo que me ajudou a lembrar que o mundo, o nosso mundo, é tão maior, tão maior.
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“A Felicidade não se compra” do Frank Capra é o clássico dos clássicos, lembrado com carinho pela Pati Linden, o Ig, pela Susana e pelo Freitas.
Para a Valentina, 8 anos, filha da Káthia, “O Expresso Polar” é o campeão, ano após ano. E pra filha da Katiane também.
“A Noviça Rebelde” leva o coração da Deh e da Carol.
Gi Jardim lembrou de um que eu amo, porque eu amo tudo que o Bill Murray faz (a Anunciação, gosto impecável, também ama): “Os Fantasmas contra-atacam”. A música do final é sensacional, né meninas?
A Pati Azevedo gosta de “A rena do nariz vermelho”, a Carolina gosta de Sobrevivendo ao Natal”.
O Francisco, que costuma passar o Natal vendo filmes, muitos filmes, lembrou de uma das melhores comédias que a W. Goldberg já fez na vida: O Sócio, de 1996. Filmão, comédia rasgada, cheia de virada e com a Whoopi impecável. Bela lembrança.
A Gi gosta do Tio Patinhas no papel de Scrooge em “Contos de Natal do Mickey”.
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A Iolene gosta dum monte, de Outono em Nova Iorque a Milagre na Rua 34 (que a Laura Andréia também ama muito); passando pelo “O Estranho Mundo de Jack”, lembrado por várias pessoas. Ah, e ela foi a única que se lembrou de Mensagem para você”, filme totalmente cara de Natal, né?
A Alix, que é muito chique, gosta do “Le Pere Noel est une ordure”, de 1982. “… é o máximo de filme de Natal, originalmente uma peça de teatro que podia durar de 2 a 6h conforme o entusiasmo dos atores e o delírio da platéia!”. Hum. Eu preciso ver esse.
A Tina Lopes e a Maira Tomazzi, do mesmo:  “Uma História de Natal”, porque é engraçado e leve, e faz rir ao invés de chorar.

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O Carlão lembrou de vários, todos eles muito bons, mas de um que me é particularmente caro: “Contos de Nova Iorque”… é lindo, lindo. O Neutron e o Fabinho gostam de “Esqueceram de Mim”, sãos uns lindos, esses meninos.
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Teve um campeão de cartas e eu vou citar apenas alguns dos que elegeram esse filme como a delícia de Natal (ao todo, ele foi citado por 73 pessoinhas na minha pesquisa): Inessa, Rosinha, Sônia, Bela, Magá, Pablo, Bia, três Denises diferentes, Silvana, Ângela, Kika, Carmem, Patrícia, Susana, Isabela, Sílvia, Carla, Simone e mais, muito mais gente, escolhe “Simplesmente Amor” como seu filme favorito de Natal, pela magia, pela beleza, pela capacidade de nos fazer sonhar, pelos encontros, pela graça, pelo humor e pelo Rodrigo Santoro de cueca.
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E eu fico aqui, pensando que a cereja do bolo, quem tem mesmo razão, é meu amado, amado amigo Cláudio Luiz, que declara que “filme bom de Natal, Fal, é aquele que tem final feliz”.
Um beijo, queridos. Até segunda.

 

PS: Os comentários de vocês na coluna passada, sobre o que fica de 2008 estão de partir do coração

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , , , , , , , ,
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