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Arquivo da Categoria Há um tesouro na casa ao lado

06/11/2009 - 15:37

A primeira vez que vi Lisboa – trecho de uma carta para a Vera

A primeira vez que vi Lisboa, Lisboa não me viu. Era uma noite de inverno, o céu estava cor de chumbo, sem estrela nenhuma e eu, que desci a escadinha do avião toda-toda (no meu tempo a gente saía do avião pela escadinha), esperando ver as sete maravilhas do mundo duma vez só — mais ou menos isso que meu pai havia prometido — não vi coisa alguma. Mas o velho jurou por Deus que era questão de horas.
Hotel, banho, sopa, cama.
Na manhã seguinte, acordamos às vinte para as seis da manhã (meu pai não acreditava em Deus, em alergias e nem em jet-lag e eu herdei suas crenças religiosas. Macho que é macho levanta da cama, toma banho e café, anda, anda, anda, anda e depois vai pro museu). Depois do café, botamos o pé na calçada.
A primeira vez de verdade que vi Lisboa foi como levar um choque, encontrar o primeiro amor, comprar a primeira dúzia de rosas amarelas para si mesma, dar o primeiro beijo, pintar as unhas de cor de uva pela primeira vez, tomar a primeira limonada feita de limão cravo, passar a primeira noite comendo polenta e fazendo fofoca com o amigo num bar gostosinho. A primeira vez que vi Lisboa, cheirei o ar. Nenhum ar do mundo tem o cheiro do ar de Lisboa. Foi uma dessas primeiras vezes, foi cheia de esperança do que estava por vir, do que ainda poderia acontecer, das muitas e muitas possibilidades que a vida encerra.
A primeira vez que qualquer um viu Lisboa faz tanto, tanto tempo, que ninguém sabe quando foi. Lisboa tem um rio, o Tejo e foi ele quem primeiro atraiu gente pra lá, nos remotos tempos que meu velho pai não era vivo e que, portanto, ainda não era o embaixador extraoficial da cidade. Não só o que viraria Lisboa, mas toda a península Ibérica, é habitada desde sempre, primeiro pelos neandertais, depois por nós – o que, na minha modesta opinião, não representou nenhum avanço. Mil anos antes de Cristo (pouco mais, pouco menos, porque historiador é bicho que não se entende… você vai ver o tanto de e-mail que eu vou receber, concordando com a data, discordando da data), meus favoritos, os fenícios, passam por ali em direção à Inglaterra para comprar estanho. Eles compravam e vendiam, fazendo negócio com os moradores locais. Os fenícios, estou cansada de encher seus ouvidos com isso, Vera Maria, foram os caras mais sensacionais que já existiram.
Bão, o Tejo ali por Lisboa formava um porto natural muito do bacana. A moçada local e os fenícios se encontravam ali pra vender uns lances, comprar outros, fofocas, fumar seja lá que a moçada fumava na época, beber uma bebidinha e tale e cousa. Ali mess, os fenicinhos fundaram Alis Ubbo, que no idioma fenício queria dizer “porto seguro”. E o ria ele chamaram de Taghi que quer dizer “boa pescaria”. E aquilo, Verinha, fervia. Nativos iberos, fenícios, judeus, celtas, e miles doutros negos chegando e partindo, adouro.
Os gregos também passaram por lá. Mas eis que gregos e cartagineses (os herdeiros fenícios, também donos de meu amor imorredouro) não iam um coa cara do outro. E por isso os gregos não ficaram ficando, só ficaram passando. O posto de comércio grego não vingou ali. Fosse vivo, meu velho além de te contar isso no ouvidinho sem dar a mínima pro fato do Tarcísio andar armado e ser mau, inda te diria (pois Camões adorava a história de ter sido Lisboa fundada pelo Ulisses, de Homero ):

Ulisses é o que faz a santa casa
A Deusa, que lhe dá língua facunda;
Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.

Hum, mesmo não ficando assim, pra valer, em Lisboa, os gregos tinham um nome prela: Olios hippon – que quer dizer ‘o lugar onde se encontram cavalos’ (os cavalos da Península Ibérica são espetaculares até hoje, Vera – mais uma coisa espetacular numa península espetacular). Os gregos tinham nome para tudo.
Eu queria pensar junto com você, qual seria o nome deles pro estado no qual me encontro, mas deixemos para lá, né mess?
Amo você,
Eu.

***a foto é de 1988, Nelsão no Castelo de São Jorge, Lisboa. Nossa última viagem para lá.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
30/10/2009 - 12:14

Bonne Table – uma coisinha que faltou ao falarmos da França no século XVIII

A Revolução Francesa, além de gerar mudanças políticas e sociais, afetou nossas mesas, muito mais do que você possa imaginar.
Mesmo antes da Revolução Francesa, os restaurantes já existiam em Paris. Durante a Revolução Francesa, porém, os deputados das províncias, em sua maioria, não tinham casa em Paris. Não tinham onde fazer suas refeições, tinham que comer na rua, em lugares próximos ao Palais Royal, onde faziam suas reuniões. Formavam uma clientela assídua, porém heterogênea – esses deputados vinham de pontos muito diferentes da França, com hábitos alimentares variados. Isso obrigava a cidade, não só a aumentar o número de estabelecimentos que possuía, como também seu repertório culinário. Ao mesmo tempo, vários chefes, antes empregados por famílias aristocráticas, caídas em desgraça, migram para estabelecimentos comerciais, o que leva a comida servida à população a um nível de excelência nunca dantes navegado.
Restaurantes de monte e alta culinária – os franceses devem muito à Revolução. E nós também, beibe, nós também.

Uma das histórias nos diz que o termo restaurant foi criado em 1765, pelo proprietário de um estabelecimento que servia sopas quentes anunciadas como restaurantes, ou seja, restaurativas, que restauravam a saúde e o bem-estar.
O Alexandre conhecia outra história: a versão de que o termo viria do fato de se restaurar comida velha para ser reaproveitada. Enfim.
Os restaurantes eram diferentes das tavernas, albergues e cabarets. Eram mais limpos, mais tranquilos e tinham decoração aprimorada. Punham a comida bem feita ao alcance de quem pudesse pagar por ela.

Napoleão não era um gourmet, mas considerava a boa mesa um importante instrumento da diplomacia. Quando seu capelão, Dominique de Pradt, partiu para o exterior, para negociar a paz numa questão do Estado, Napoleão, como última recomendação, lhe disse “Surtout, Monsieur, tenez bonne table” (E, principalmente, meu caro, tenha uma boa mesa).

O grande chef da época, que só trabalhava em casas particulares e serviu, dentre outros o Czar Alexandre I, o Barão Rothschild, Jorge IV da Inglaterra e Luís XVIII, era Marc-Antoine Careme. Abandonado pelos seus pais, paupérrimos, esse francês, nascido em 1754, começou sua carreira com um famoso patissier da época e propôs, ao longo de sua carreira, simplificação, só. Substituiu os complicados coulis do século XVIII por molhos básicos, como maionese, hollandaise, bechamel, bearnaise. Muitos gourmets do fim do século XVIII haviam se arruinado com a Revolução. Não podendo mais manter boas mesas, fundam sociedades de estudo da gastronomia. Seus trabalhos escritos satisfazem a demanda criada pela nova classe alta, gerada pela Revolução. O século XIX abriga muitos escritores de gastronomia e muitas inovações no preparo e na apresentação das refeições.

Uia, deu fome em vocês? Em mim deu. Té segunda, môs fios.

Fontes:
De Caçador a Gourmet, de Ariovaldo Franco, Ed. SENAC
A Saga da Comida, receitas e história, de Gabriel Bolaffi, Ed. Record

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
16/10/2009 - 12:59

La vie en rose VI

Enquanto a vida mudava tanto na França, o resto do mundo estava apavorado. Isso é, a nobreza do resto do mundo estava apavorada.

Encantados com o sucesso dos franceses, intelectuais burgueses e artesãos na Alemanha e na Bélgica começaram a fazer barulho também, começaram a reclamar da vida que levvam, dos impostos que pagavam. Na Inglaterra a coisa estava sendo levada tão a sério e amealhando tantos entusiastas que se você fosse pego com um exemplar de Os Direitos do Homem, ia pra cadeia na hora (Os Direitos do Homem era uma obra de Thomas Paine, que, influenciado pelos franceses, pregava o fim do Absolutismo e a derrubada dos privilégios da nobreza inglesa).

Os nobres europeus das mais diferentes casas reais estavam brancos de medo. A princípio, demonstraram solidariedade passiva aos franceses, aquela coisa de “Ah, tadinhos, que absurdo, que horror, mas enfim, não é comigo”. Porém com o avanço das adesões àquela maluquice francesa, cabeças coroadas de toda a Europa começaram a se assustar. É aí que a Prússia e a Áustria entram na jogada. Com medo de que seus próprios reinos sofressem o mesmo processo, os monarcas da Prússia e da Áustria emitiram a Declaração de Pillnits, em agosto de 1791. Os historiadores se dividem nesse pedaço, uns dizem que esses dois países estavam de combinação com Luís XVI, outros dizem que não. O que importa é que essa declaração afirma que a restauração da ordem e dos direitos do rei Luís XVI era uma questão de “interesse comum para todos os soberanos da Europa”.

Os líderes do governo francês eram os girondinos, e eles consideravam essa declaração uma ameaça nacional. A vinte de abril de 1792, a Assembléia declara guerra à Áustria e à Prússia. 

Em agosto do mesmo ano, os exércitos da Áustria e da Prússia atravessam as fronteiras francesas e quase ocupam Paris. A francesada fica desesperada. Os radicais (os líderes populares que não faziam parte do governo) e a burguesia média que, embora fizesse parte do governo, não tava concordando com o que era feito, vêem nesse pânico popular uma chance de tomar a dianteira no poder. Os extremistas vão pra vanguarda e controlam a Assembléia.

Os novos líderes chamam a si mesmos de jacobinos (nome derivado do clube parisiense que freqüentavam). As características principais da fase jacobina foram o republicanismo radical e o “Regime do Terror”.

Republicanismo? Acuma? É.

Eles queriam instituir uma república, líderes eleitos. Queriam pôr fim à monarquia.

Uma das principais medidas dos jacobinos foi pedir aos franceses elegerem delegados a uma convenção nacional que promulgasse uma nova constituição.

A convenção se reuniu em 1792 e era composta por republicanos. Só por republicanos. A convenção aboliu a monarquia em 21 de setembro e proclamou a república. Uia! E tem mais, em dezembro abriu processo judicial contra o ex-rei Luís XVI. O julgamento começou no dia 11 de dezembro de 1792.

Senhoras vestidas com suas mais atraentes roupas tomavam sorvetes, chupavam laranjas e bebiam licores. O julgamento de Luís XVI foi, antes de mais nada, um espetáculo. O presidente da sessão abre os trabalhos dizendo: “- Luís, a nação francesa vos acusa. A Assembléia Nacional decretou que deveis ser julgado por ela. Vai-se proceder à leitura da lista dos crimes que vos são imputados“.

Quanto às acusações, Luís XVI respondeu que

“- Àquele tempo não havia lei alguma que me proibisse de agir assim“. 

Ele pediu um advogado de defesa. E teve um. Mas ele já estava condenado. Baubau.
                       

A Convenção realiza mudanças significativas. Nos três anos seguintes, a escravidão seria abolida das colônias francesas, um sistema métrico para pesos e medidas seria adotado, e seria revogado o princípio da primogenitura, de tal forma que os direitos de herança não seriam restritos apenas ao filho mais velho.

As propriedades dos inimigos da revolução foram confiscadas, divididas e postas à venda para que os cidadãos mais pobres pudessem adquiri-las. Os preços foram fixados. Depois de muita discussão, a religião também foi declarada assunto privado. Separaram-se completamente Estado e Religião e todos os credos não hostis ao Estado deveriam ser tolerados. O exército também foi reorganizado. 

Robespierre, o chefe do governo pós-revolução, que ficara doido de raiva com a tentativa de fuga do rei, acelera o julgamento. O rei é condenado e decapitado em 21 de janeiro de 1793.

E, em outubro do mesmo ano, a rainha é condenada e morta também.  Ela tinha 38 anos, minha idade.

Ah, em 1795, a Áustria consegue resgatar a Madame Royale Maria Teresa, a filha mais velha de Maria Antonieta. Ela é criada pelo tio, o Conde de Artois, e como eu já contei pra vocês, casa com o primo.

Luís XVII morre, convenientemente, de uma “moléstia escrofulosa”, em 1793. Ou seja, ele morre na prisão, de fome e de maus-tratos. 

Depois disso, em fevereiro de 1793, Inglaterra, Espanha e Holanda entraram na guerra contra a França, formando a Primeira Coligação Antifrancesa. Esses países (especialmente a Inglaterra) temiam que a expansão francesa através dos Países Baixos fosse uma ameaça à crescente hegemonia mercantil deles no mundo.

Contra eles, o exército francês venceu batalha após batalha, e, entre 1793 e 1796, a França ocupou os Países Baixos, parte da Itália, partes da Espanha, Suíça, Savóia e Renânia.

 

Outras fases e sub-fases da Revolução Francesa viriam. Um general corso, chamado Napoleão, surgiria, assumiria o poder e até, ah, a vida, se auto-coroaria imperador lá, justo lá, na terra onde derrubaram o rei, provando que não temos nexo, juízo e que não fazemos sentido nenhum.

Nunca mais houve uma rainha como nossa garota, nunca mais houve outro século XVIII, nunca mais fomos os mesmos. Para o bem e para o mal.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
09/10/2009 - 08:48

La vie en rose V – uma revolução de fases

Queridinhos, quase acabando, todos bons por aí? Animados com o feriado?

Então, coragem. Vale lembrar, que a  Revolução Francesa teve três fases. Então, como diria o cara do crime da mala, vamos por partes. 

Fase 1:

Período da Assembléia (junho de 1789- 1792)

Desde que os debates tornaram-se de conhecimento público, os preços tinham disparado. Estima-se que uma família pobre, que em agosto de 1788 gastava 50% de seu orçamento para comprar pão, entre fevereiro e julho de 1789 gastaria 80% de seu orçamento para comprar a mesma quantidade.

Aquela parte da sociedade que ficaria como sans-cullotes (o nome vem do fato desses caras não usarem os calções da aristocracia e quer dizer, literalmente “sem calções”), ou seja, os artesãos, pequenos funcionários e pequenos comerciantes, professores mais pobrinhos – a raia miúda, todos estão revoltados. Tão revoltados que resolveram invadir o Hôtel des Invalides, onde havia um depósito de armas. Invadem, armam-se e vão à Bastilha à procura de munição. A Bastilha era uma antiga fortaleza construída na Idade Média. Os populares marcharam até a fortificação. Exigiram que o comandante, o Marques de Launay, lhes desse armas. O comandante se negou e ordenou que se abrisse fogo contra a população. O populacho invadiu o troço na unha, matou o comandante e cortou fora a sua cabeça e pegou um montão de munição e pólvora. Uia, fome é um negócio seriíssimo. Gente com fome é capaz de tudo. Até de tomar a Bastilha, em 14 de julho de 1789. Luis de la Rochefoucauld, o Duque de Liancourt, vai comunicar ao rei o que está acontecendo, que a situação é seriíssima e que o bicho pegou. O que eles conversam? (e isso tá nos documentos oficiais, não saiu da minha cabeça)

- Calma, é só uma revolta, meu caro.

- Não, Majestade, é uma revolução.

 

Que mais o povo fez?

Ansiosos por notícias do que acontecia na capital e na Assembléia, os camponeses começaram a temer que talvez a classe média não se interessasse por seus problemas. Também eles estavam desesperados. Invadem e incendeiam residências nobres, solares, mosteiros e residências de bispos entre julho e agosto de 1789, assassinando um monte de nobres em diversas partes da França.

A PARIS! A PARIS!

Em 5 de outubro de 1789, mulheres enlouquecidas com o preço do pão marcham sobre Versalhes, e exigem que o rei volte para Paris e resolva a situação. Invadem um pedaço do castelo, matam uns nobres. O rei, apavorado, cede. A guarda nacional, solidária com a multidão, volta para Paris com os populares e o cortejo tem, à sua frente, soldados que levavam pães e cabeças espetadas em suas baionetas. Dentro de sua carruagem, o rei e a rainha sabem que estão ferrados, embora o rei, mui digno, declarasse “Irei a Paris com minha mulher e meus filhos, confio o que tenho de mais precioso ao amor de meus bons e fiéis súditos”.  

Foi aí, fios, só aí, que a nobreza entendeu que o trem estava feio. Foram necessárias três revoltas populares extremamente violentas para a ficha cair. Famílias nobres saem do país desesperadas. O rei manda seus irmãos e suas famílias irem embora, mas ele decide que vai ficar, e seus filhos também. Que ele quisesse ficar, vá lá, ele queria tentar manter a coroa, mas porque não tirou os meninos do país, seu besta??? (fácil falar agora, né?). Ainda não era tarde demais. Ele podia ter salvado seus filhos, ele podia ter salvado Maria Antonieta.

Como resultado direto das manifestações populares, o rei e os nobres foram convencidos a tratar a Assembléia Nacional como o órgão legislativo da França, a corvéia foi abolida, assim como os dízimos eclesiásticos, a servidão, a maioria das isenções de impostos e os privilégios de caça. Claro que os nobres não abriram mão de todos os seus privilégios, mas que ficaram com medo, ficaram. 

Depois da derrubada dos privilégios, teve mais: a Assembléia preparou uma carta de liberdades, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, cujos pontos básicos diziam que a propriedade era um direito natural, assim como a liberdade, a segurança, e a resistência à opressão. A declaração considerou invioláveis a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a tolerância religiosa. Afirmava que os cidadãos teriam direito a tratamento igual nos tribunais e estabeleceu que a soberania residia no povo e que os funcionários do governo seriam depostos em caso de abuso de poder.

Em novembro de 1789 as terras da Igreja foram confiscadas e usadas como lastro para emissão de assignats ou … papel-moeda – para que se controlasse a inflação.

Em julho de 1790, promulgou-se a constituição civil do clero, que colocava os membros do clero sob autoridade do Estado e estabelecia que padres e bispos deveriam ser eleitos pelo povo, receber salário do governo e jurar defender a nova constituição. A Igreja separou-se parcialmente de Roma, pois o que se queria estabelecer era a Igreja Católica da França, uma instituição nacional, submissa à Roma apenas em tese.

Em 1791, a Assembléia terminou de redigir a nova constituição. O governo transformou-se numa monarquia limitada e o poder era, principalmente, da classe média, ora, por quê? Porque, embora todos os cidadãos tivessem os mesmos direitos, só poderiam votar aqueles que pagassem certa quantidade de impostos. Hum.

O rei foi privado do controle que outrora exercera sobre o exército e a administração geral. Ele arma uma fuga meio estapafúrdia (finalmente), mas são todos apanhados e presos. Antes, viviam confinados numa residência, agora, são separados, presos, ele não vê mais a mulher e os dois filhos.

A constituição francesa era um reflexo do Iluminismo. Foi estabelecida a divisão de poderes sugerida por Montesquieu: o poder executivo seria exercido pelo rei, que indicaria seus ministros; o poder legislativo seria exercido por uma assembléia composta de 745 deputados eleitos; e o poder judiciário seria exercido por juizes eleitos. Bão, isso tudo queria dizer o quê? Que a burguesia estava bonita na fotografia. Eles votavam, tinham liberdade econômica e os obstáculos (as taxas) ao comércio haviam sido eliminados. 

Mas escuta, e o povo? Hum. Isso nos leva à  segunda fase da Revolução, conhecido como o Período da Convenção (que dura de 1792 a 1795) . Entendam uma coisa: o povo, os sans-cullottes, continuavam numa merda federal. As terras da Igreja confiscadas foram (divididas?) vendidas em terrenos tão grandes que eles não podiam comprar. A Assembléia, ainda por cima, manteve o fim das terras comuns para permitir que uma agricultura capitalista se instalasse. E o povo não votava, então, quem iria representá-lo no governo?

As classes baixas estavam loucas da vida com todo esse negócio. Novamente multidões saiam às ruas exigindo pão e trabalho. 

E enquanto o povo estava na rua batendo panela, o que acontecia no resto do mundo?

Ah, na próxima semana saberemos sobre o resto do mundo e, finalmente, o que acontece com a nossa garota.

 E segunda-feira, feirado, croniquinha aqui. Besos.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
02/10/2009 - 18:39

La vie en rose IV

Juramento do Jogo de Péla é retratado por Jacques Louis David nesse quadro. Robespierre tá aí, no primeiro plano, à direita, como estão muitos outros revolucionários, esse quadro tem muitos retratos. No alto, com uma mão erguida, está Bailly, tentando obter silêncio, para ler em voz alta a Declaração de Independência  e Lealdade.Todos os rostos, todas as mãos convergem para ele, ele é o símbolo do que eles mais querem, a república. Lá em cima, nas janelas, o povo espia a reunião. E note que coisa sutil e bem sacada: os ventos da mudança, os ventos da revolução sopram pela sala, fazendo dançarem as cortinas e invertendo guarda-chuvas, pois nada permanecerá o mesmo. Ah, garouto!

Juramento do Jogo de Péla é retratado por Jacques Louis David nesse quadro. Robespierre tá aí, no primeiro plano, à direita, como estão muitos outros revolucionários, esse quadro tem muitos retratos. No alto, com uma mão erguida, está Bailly, tentando obter silêncio, para ler em voz alta a Declaração de Independência e Lealdade.Todos os rostos, todas as mãos convergem para ele, ele é o símbolo do que eles mais querem, a república. Lá em cima, nas janelas, o povo espia a reunião. E note que coisa sutil e bem sacada: os ventos da mudança, os ventos da revolução sopram pela sala, fazendo dançarem as cortinas e invertendo guarda-chuvas, pois nada permanecerá o mesmo. Ah, garouto!

 

Oi leitor igueno, como vai a sua sexta-feira? Voltamos com uma um pedaço da nossa história. Não me entenda mal: a monarquia francesa não acabou guilhotinada porque a França não tinha dinheiro e, por isso, o povo sofria privações. A França tinha dinheiro para caramba. Só que mal administrado, mal empregado, mal controlado. Parece com algum lugar que você conhece? Pois eu, sempre que vejo a TV Senado ao lado virtual da minha amada amiga Alice, pergunto a mim mesma onde essa gente estava nas aulinhas de Revolução Francesa.

Mas vamos voltar para a França que é mais negócio: uai, eles não tinham quem controlassem esse Estado? Eles não tinham rei?

Uia, tinham.

Luís XVI, Luís Augusto de Bourbon, nasceu em Versalhes em 23 de agosto de 1754. Era casado com Maria Antonieta de Habsburgo e assumiu o trono da França em 1774 – já falei isso, né? Tou gagá. 

Antes dele e de seu avô, Luís XV, o rei Luís XIV havia sido o representante máximo do Absolutismo. Controlava o país completamente. Mantinha intendentes diretamente designados por ele nas províncias, o que lhe garantia centralização política. A justiça do Estado também dependia da administração real e qualquer um poderia ser preso simplesmente por uma ordem real (lettre de cachet). O rei também fazia as leis para cada estado da sociedade que eram (ponham reparo): Clero (1o. estado), Nobreza (2o. estado) e Burguesia (3o. estado). Notaram que o povo nem entrava na equação, né? Só os dois primeiros estados tinham privilégios e, como já falamos, a carga tributária recaía sobre o terceiro estado. 

Isso quer dizer, amiguinhos, que a confusão na qual o rei Luís XVI se encontrava vinha de muito longe. Já durante os reinados dos Luíses XIV e XV, o desenvolvimento comercial e industrial era limitado por conta da existência de taxações e alfândegas interprovinciais, ou seja, você pagava uma grana alta para transportar seus produtos de um lado para o outro dentro do país. Essa taxação bloqueava a circulação de mercadorias e deixava a burguesia fula da vida. Acumular capital com esse mundo de taxas também era difícil. Resultado? Os preços eram astronômicos, o que espantava os consumidores, o que não permitia que o comércio se desenvolvesse, o que não permitia a expansão industrial. Ufa. 

Isso tudo quer dizer que o cacheado Luís XVI tinha uma belíssima crise em suas mãos. Déficit financeiro bota o governo em xeque, tem jeito não. Fosse viva, minha avó Cida diria “casa em que falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Profundo isso. 

Os impostos (recolhidos feito o nariz, como já vimos) não sustentavam o Estado. O estilo de vida da nobreza também não ajudava. Era muito caro, pro Estado, manter a nobreza. Porque, vejam, a grande maioria dos nobres do país não vivia em suas terras, vivia em Versalhes!! Entre 3 e 4 mil pessoas moravam no Palácio do Rei. Era casa, comida e roupa lavada, literalmente, pra todo esse bando. Que, diga-se de passagem, não pagava impostos. E que, diga-se mais ainda de passagem, ainda contava com pensões e rendimentos estatais. Era muita coisa, pode acreditar. E tem mais. Essa gente dava e ganhava presentes, que inúmeras vezes não saíam do bolso delas e sim dos cofres reais. E quando eu digo presentes, eu não tou falando de cd, camiseta com fota de cachorro, perfume de catálogo, chaveiro e furadeira, essa tralha que você deu pro seu pai de dias dos pais, não. Tou falando de diamantes. Reformas em castelos. Castelos novinhos. Coroas de ouro maciço. O veio Luís XVI, quando queria fazer um agrado em Maria Antonieta, lascava um castelo novo na mão da mina. Ou mandava reformar um jardim daqueles que parece uma fazenda.  

Por intermédio de seu ministro de finanças, Brienne, o rei tentou solucionar a crise, o coitadinho. Para tanto, propôs uma série de medidas:

  • O estabelecimento de um imposto único
  • A liberação do comércio interno
  • Reforma fiscal que taxasse tanto o clero quanto a nobreza
  • Contenção de despesas do governo

 

Simples, né? Foi nada, o clero e a nobreza se opuseram a tudo, trincaram os dentes e não deixaram nenhuma mudança acontecer. Ainda pressionaram Luis XVI a convocar os Estados Gerais, uma assembléia composta por representantes do clero, da nobreza e da burguesia, que tinha o poder de apoiar ou derrubar as reformas sugeridas. Fazia mais de 150 anos que esse órgão não se reunia. A população aceitou a convocação, pois essa parece ser a única solução para os problemas da França – e exigiu que o número de representante do terceiro estado fosse igual ao das outras duas classes juntas e também que o voto fosse individual. O rei se pronunciou contra “a duplicação do terceiro estado”, despertando a fúria dos populares e perdendo o pouco apoio que tinha da classe média. No dia 20 de junho de 1789, ao chegarem para a votação, os representantes populares e os membros do clero partidários do terceiro estado encontraram trancadas as portas do salão de reuniões e não conseguiram entrar na assembléia. Retiraram-se para uma quadra de jogo de péla, que ficava próxima dali. Chefiados por Mirabeau e pelo abade Sieyes, todos fazem o que ficou conhecido como “juramento do jogo de péla”: comprometem-se a não se separar enquanto não houvesse uma constituição, por eles elaborada, para a França. Afirmaram ainda seu direito de agir como o poder supremo da nação. Luís XVI reconheceu esse direito em 27 de junho e obrigou os representantes dos outros dois estados a se reunirem com os representantes populares.

20 de junho de 1789 ficaria conhecido como o dia do início da Revolução Francesa.

Mesmo tendo sido obrigados a aceitar o terceiro estado na assembléia, clero e nobreza não deixaram que as reformas passassem. A aristocracia não se tocou naquele momento, mas foi exatamente aí que ela se fubecou. 

 

E com ela, a nossa menina. E o que era para ser uma série de textos sobre ela, ganhou vida própria e desaguou nos mares turbulentos da história da Revelução Francesa. E eu, que não sou historiadora, sou apenas uma cronista à procura de assunto, volto na próxima sexta, com mais um eletrizante capítulo.

 

Segunda-feira tem croniquinha e nós nos vemos por aqui. Né?

Beijos, bom final de semana

Fal

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado, Sem categoria Tags:
25/09/2009 - 20:13

La vie en rose III – e eis que a chapa esquenta

 “Os homens nascem e permanecem sempre livres e iguais no que tange a seus direitos.” – Declaração do Homem e do Cidadão, 1789. 

1789. Grande ano. A França era o centro do mundo europeu.

Em 1778, havia sido o primeiro país a reconhecer os Estados Unidos da América como país independente, e tinha acordos comerciais e militares bem bacaninhas com os americanos. Benjamim Franklin era recebido na corte francesa com carinho e veneração.

Em todo o continente, nobreza e burguesia rosnavam uma para a outra. Os absolutistas desejavam manter suas antigas liberdades, e suas imposições atravancavam a vida dos mercadores continentais. A burguesia começava a pensar e esse negócio de pensar é um perigo. Questionava-se de por que a nobreza tinha tantos privilégios, como o de ser isenta de pagamentos de impostos. Questionava-se sobre o fato de ser proibida de participar da vida política dos países europeus.

A França, no final do século XVIII, era governada por Luís XVI – marido de nossa heroína  –  e o governo do país estava extremamente confuso. A máquina burocrática estava emperrada. Em vez de sanear as contas e serviços, os conselheiros do rei criavam novos órgãos governamentais a três por quatro – e esses novos departamentos só faziam retardar ainda mais as providências a serem tomadas. Havia superposição de funções e uma porção de funcionários inúteis recebendo salário do governo. Parte dessa desorganização refletia-se no cumprimento das leis: cada província francesa seguia um código particular, baseado em costumes locais. O que era crime aqui não era crime acolá. Ninguém se entendia, processos demoravam décadas para ir a julgamento. Esse sistema judicial aumentava a confusão e a revolta popular. 

A coleta de impostos também era afetada. A arrecadação de rendas públicas não seguia regras certas. Em vez de nomear coletores oficiais, o rei seguia o sistema romano e arrendava a arrecadação. Sim, você entendeu direito, o rei “terceirizava” o recolhimento de impostos! Claro que o Estado era roubado. 

Toda essa organização deficiente resultava num problema grave para o reino: falta de grana. 

A Guerra dos Cem Anos, contra a Inglaterra, que ocupara a maior parte do século, deixara a França falida. A Guerra da Independência Americana, na qual a França tinha posto dinheiro também e ajudado muito os Estados Unidos, mandando tropas e grana (e que eles não se esqueçam disso), também trouxera problemas financeiros para o país.

O clero e a nobreza, protegidos por leis que eles mesmos haviam criado, estavam isentos do pagamento da grande maioria das taxas e impostos do país. O Estado não tinha mais de onde tirar dinheiro. Não tinha? Como não? Ora bolas, e para que foi que Deus inventou o povo? O ônus principal de fornecer fundos ao governo recaía sobre o povo. Mas os artesãos e funcionários não tinham como pagar taxas. Para quem sobrava a conta, então? Para os camponeses e os burgueses. 

Resumindo a ópera, os camponeses e burgueses estavam putos. E desesperados. E putos. E desesperados. Eu já falei que eles estavam putos?

Os camponeses eram taxados de formas inimagináveis. Mesmo os camponeses inteiramente livres tinham que pagar uma renda anual ao senhor que, no passado, havia sido o dono das terras! Além disso, os camponeses tinham que contribuir com banalités (banalidades), ou taxa de uso sobre várias coisas nas propriedades, como pontes, o moinho, o forno comum, etc. – as taxas continuavam a ser cobradas MESMO que o camponês tivesse seu próprio forno ou moinho. Havia também a corvée (a corvéia). Durante várias semanas por ano o camponês deveria abandonar seus campos e cuidar das estradas públicas.

Hum, outra coisa: a caça. Não importava se você era o dono da terra ou não, você só podia caçar se fosse de família nobre. Nem pra matar a fome, tia? Nem, sobrinhos. Havia sido assim na Idade Média, era assim no século XVII. Além disso, a qualquer momento, os campos por você cultivados, que custaram tanto trabalho, podiam ser pisoteados por turmas de cavaleiros perseguindo algum coelhinho fofo ou raposinha inocente – e a você só restaria calar a boca (a respeito de caçadas, não sei de quem é a frase, mas adoro: “Caçadas são o inominável perseguindo o incomível”).

Durante o século XVII, outra ação dos nobres prejudicava muito os camponeses franceses: as terras públicas ou comuns estavam sendo fechadas. Nessas terras comuns, um camponês poderia levar seu gado para pastar ou apanhar lenha. Elas eram um recurso importantíssimo para o modo de vida daquelas pessoas. E agora, caras como Charles Calonne e Lomenie de Brienne, conselheiros econômicos do rei, vinham dizer que essas terras eram um obstáculo ao progresso da agricultura? E que iam passá-las nos cobres pra fazer mais um dinheirinho para o rei? Como assim? 

Do outro lado, a classe média também não estava nada feliz. Médicos, advogados, grandes atacadistas, pequenos empresários, banqueiros: separados por gradações baseadas na renda, todos esses caras estavam sendo comidos vivos pelas taxações absurdas do governo. E tem mais, por mais dinheiro que um profissional desses pudesse acumular, ele jamais teria os mesmos privilégios da nobreza, não poderia participar da vida política da França. Não poderia tomar nenhuma decisão. Os salários eram fixados por leis incoerentes, os impostos eram taxados por leis doidas e a classe média só pagava as contas. 

Trocando em miúdos? Tava todo mundo puto da cara com a nobreza, com o Estado e, claro, com o rei. 

E aí que tudo o que você leu até agora são as bases sociais para a Revolução Francesa.

Mas um movimento grande e importante como esse nunca ocorre sem algum tipo de base intelectual. Claro que apenas ideias não desencadeiam uma revolução, mas sem ideias revolução nenhuma é possível. “Foram as ideias que deram forma e substância ao descontentamento experimentado por tantas pessoas, em especial entre a classe média” – Professor E. Burns.

Dentre todas as teorias surgidas na época, duas delas tiveram papel de destaque para expressar os desejos revolucionários: a primeira delas foi a Teoria Liberal, de pensadores como Locke, Montesquieu e Voltaire.

No Segundo Tratado do Governo Civil, de 1690, Locke afirmava que, originalmente, todos os homens viviam num estado de liberdade e igualdade absolutas, onde não havia qualquer tipo de governo ou controle. Só se obedecia à lei da natureza. Os homens, porém, começaram a ver desvantagens nessa organização e acabaram por estabelecer uma sociedade e instituir um governo, dando a ele um único poder, o de e executar a lei natural. Assim, para Locke, o governo nada mais era que o poder conjunto de todos os membros da sociedade e sua autoridade jamais poderia ser maior que “aquela que essas pessoas possuíam no seu estado natural, antes de formarem um grupo social e cederem-na à comunidade”. O que Locke queria dizer é que todos os poderes que não fossem expressamente cedidos ao governo eram dos indivíduos e que se o governo abusasse do seu poder o povo poderia se rebelar contra ele, dissolvê-lo, derrubá-lo.

Quando não estava odiando os padres, Voltaire estava odiando os reis. Como Locke, considerava sagrados os direitos iguais à liberdade, à igualdade, à propriedade e à proteção das leis.

Montesquieu era um entusiasta das idéias de Locke, como Voltaire. Acreditava que governos eficientes eram os que se harmonizavam com o povo a que iriam servir. Para a França, acreditava que a melhor forma de governo era a Monarquia limitada. Era também defensor ferrenho da separação de poderes. Montesquieu não tinha muita fé no caráter do homem, e achava que ele sempre daria um jeito de fazer alguma patifaria, de abusar do poder e cair no despotismo, por isso achava que o governo devia ser separado em três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário. Assim, com cada ramo do governo agindo como freio dos demais, evitaríamos o abuso e a tirania.

A classe média francesa adorava Locke e suas teorias sobre direito natural, governo limitado, direito de resistência ao abuso e à tirania e defesa da propriedade privada. 

A segunda teoria que expressava os desejos revolucionários era a Teoria do Ideal da Democracia. O maior teórico da democracia foi Rousseau, que afirmava que o poder deveria vir só do povo, que todas as decisões deveriam vir do povo e que caberia também ao povo garantir que suas regras fossem cumpridas. O governo deveria ser apenas o agente executivo da vontade popular. O governo, para Rousseau, não deveria formular a vontade geral e, sim, cumpri-la. 

As duas teorias partiam do princípio de que o Estado, a despeito de todas as suas falhas, era uma necessidade e que qualquer forma de governo deveria ter bases contratuais. Ambas acreditavam que os direitos fundamentais de cada indivíduo deveriam ser preservados e ambas eram extremamente atraentes para todos aqueles que estavam insatisfeitos com a ordem das coisas. 

Essas teorias estavam ainda sendo apoiadas por uma série de teóricos que protestavam contra o controle público sobre a produção e o comércio.

Homens como o economista escocês Adam Smith (1723-1790) eram definitivos quanto à necessidade de que fossem reduzidos os poderes do governo a um mínimo que garantisse a segurança do indivíduo e só. Defendia que é o trabalho a verdadeira fonte de riqueza. Tais homens acreditavam que o papel do Estado era intervir para coibir injustiça, opressão e desmandos, para garantir a propriedade privada e para administrar as áreas que fugiam do ramo de atividades da iniciativa privada, como educação e saúde pública.  

Foram essas pessoas, numa linha MUITO geral, que lançaram as bases teóricas da Revolução Francesa.

E o que a nossa heroína tem a ver com isso? Meus filhos, vem ela não perde por esperar. Coragem, tamos acabando.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
11/09/2009 - 18:14

La vie en rose – I

Maria Antonieta em 1770, cadim depois de seu casamento, pintada por Wagenschon, que era um craque. Ponha reparo nestes babados, leitor. Precisamos falar sobre moda do século XVIII um dia.

Maria Antonieta em 1770, cadim depois de seu casamento, pintada por Wagenschon, que era um craque. Ponha reparo nestes babados, leitor. Precisamos falar sobre moda do século XVIII um dia.

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O destino de minha filha somente poderá ser completamente grandioso ou muito infeliz. Considero terminados seus dias de alegria” – Maria Teresa, imperatriz da Áustria, mãe de Maria Antonieta, quando a filha vira rainha da França. 

O Rei Carlos VI, da Áustria, da casa real dos Habsburgo, não teve filhos homens. Então, ele muda a lei, para que sua menina, Maria Teresa, possa assumir o trono.

Fez com que o povo de seu país e os governantes de outros países reconhecessem a menina como futura governante, como sua sucessora.

Mas vai daí que Carlos VI morre.

O povo não queria ser governado por uma mulher. E os reis dos outros países queriam pilá um pedaço daquele patezão que era o império herdado pela mocinha: Áustria, Hungria, o norte da Itália (Florença, Mântua e Milão) e a Bélgica. Nada mal.

Maria Teresa assume o trono como Rainha da Boêmia e da Hungria. Aos 19 anos, se casa com Francisco de Lorena, príncipe italiano, um lorde, um santo, calmo até a medula, ela mandava nele pra chuchu.

Quando ela assumiu o trono, explodiram rebeliões em tudo quanto foi canto de seu império. Ela foi lá e brigou. Fez alianças improváveis, mexeu pauzinhos inviáveis, ergueu um exército imbatível e, depois de oito anos de briga, seu comando deixou de ser contestado e ela virou imperatriz daquilo tudo. 

Mas sabendo que, mais cedo ou mais tarde, algum engraçadinho iria encher o saco de novo, Maria Teresa teve um lance genial: fez com que seu pacato marido fosse coroado imperador. Sacaram? Aí nego não ia mais poder dizer que o império era comandado por mulézinha e tale e cousa. Claaaaro que quem mandava era ela, claro. Ela só fingiu ceder o comando ao marido.  

Ao que tudo indica, a vida em família era feliz. A moça era uma coelha e desovou 19 criancinhas em 20 anos. Sim, minha amiga tomadora de pílula, você entendeu bem. Um-por-ano, ou quase.

Desses 19, três morreram na primeira infância.

A 15ª criança a sobreviver foi uma menina.

Maria Antônia Josefina Joana D’Asburgo Lorena nasceu em 2 de novembro de 1755. Quando foi decapitada, 37 anos depois, os franceses a chamavam de Rainha Marie Antoniette. Nós a conhecemos por Maria Antonieta (o caçula da Rainha seria o 16º a sobreviver, e seria o Arcebispo de Colônia). 

O pai de Maria Teresa havia sido um grande músico, e suas crianças também tocavam vários instrumentos. Aliás, em 1762, no Palácio de Hofburg, perante toda a família da Imperatriz Maria Teresa, o menino prodígio de Viena, Mozart, de sete anos, tocou piano ao lado de sua irmãzinha. À certa altura, ele tropeçou e caiu. Maria Antônia, que tinha a mesma idade que ele, ajudou-o a se levantar e ele a pediu em casamento. Quando a Rainha perguntou ao menino por que ele queria se casar com Maria Antonieta, ele respondeu: “Por gratidão”. Num é fofo? Hum-hum. Tá.

A Imperatriz Maria Teresa era autoritária, mandona, dirigia o país com mãos de ferro, mas parece ter sido uma boa mãe, próxima e calorosa, pelo menos até a morte do marido. E o “calorosa” é para os padrões da época, lembrem-se crianças, lembrem-se, século XVIII, o amor materno ainda não havia sido inventado em toda sua glória.

As crianças imperiais quase não comiam carne, viviam à base de fritas, verduras e queijos. Os mais velhos cuidavam dos mais moços e, num tempo em que os aristocratas viam os filhos meia dúzia de vezes por ano, Maria Teresa cuidava deles pessoalmente. 

Em 1765, o imperador Francisco morreu. A imperatriz incluiu seu filho, José, como coregente, e lentamente, foi se afastando dos filhos.

As crianças passam a ser peças políticas importantes, e ela foi casando um por um, fazendo alianças necessárias ao reino.

Foi isso que uniu Maria Antonieta ao rei da França (na época em que eles casaram, ele ainda não era rei), Luís XVI.

Luís XVI, neto de Luís XV, não tinha mais os pais. Eles haviam morrido de tuberculose. O avô trama, com a mãe dela, para ele se casar com Maria Antonieta.

Em 1770, ela chega, aclamada pelo povo, à França.

O povo estava encantado com ela.

O rei, Luís XV? Encantado, oras.

E o futuro rei? A-p-a-v-o-r-a-d-o.

Tolinho.

Na próxima semana, queridos, tem mais.

Cuidem-se, tenham um final de semana lindo, lindo.

Amor

Fal

PS: Indicação de leitura? Claro. Maria Antonieta, a última rainha da França, da  Antonia Fraser, editora Record.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado, Sem categoria Tags: , , ,
14/08/2009 - 18:56

Um bom cão

Um cão não preenche o vazio da perda, não resolve todos os problemas, não pode afastar a dor – nem mesmo um bom cão tem tanto poder (‘E qual cão não é bom?’, pergunta o meu cão, Baco, enquanto afago sua cabecinha branca deliciosa e ponho minh’alma, ou o que resta dela, no lugar).

Mas um cão, e Judith Summers prova a cada linha com sua prosa bem humorada e terna, pode sim nos ajudar a restabelecer as prioridades quando tudo, mas tudo mesmo, está perdido. Um cão, com o amor que só ele é capaz de devotar, pode ancorar nosso coração que parece estar indo embora. Um cão nos leva para passear, quando tudo o que queremos é fugir. Um cão pode ser a ponte que nos leva de volta às pessoas que amamos, quando a mágoa nos separou delas. Um cão lambe nosso rosto quando não conseguimos parar e chorar e raspa a patinha em nossa mão, quando não sabemos o que fazer.
George, o cão de Judith, é amor o tempo todo (‘Como todo cão’, Baco acaba de me cutucar) e é só isso que importa quando estamos em frangalhos e o dia está nublado.

E se George – como todo cão – tem lá seus dias de manha, de fazer xixi fora do lugar certo e de fúria e destruição contra o patrimônio da casa (Baco disfarça olhando para cima) isso é apenas uma pequena (‘Minúscula’, sopra Baco) parte do todo que faz um cão ser um cão, esse camarada que ama você acima de todas as coisas e que o recebe em sua casa como um rei, depois do mundo ter cuspido em sua cabeça o dia todo.

Após perder o marido e o pai, e não conseguir alcançar seu filho e socorrê-lo em sua própria dor, Judith descobre que George, com sua graça, sua capacidade infinita de amar e, claro, sua manha, chega a lugares que, ela sozinha, jamais conseguiria.

Essa é, sim, uma história de amor. As histórias com cães geralmente são.

Judith, apesar de tudo, é uma pessoa de muita sorte. Eu sou uma pessoa de muita sorte. Esperamos que você também seja.

**

Indicação de leitura:

Minha vida com George, de Judith Summers

Editora Rocco

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
07/08/2009 - 19:34

Ana Terra ou: uma confissão – I

Acontece que eu não gostava da Ana Terra. Sim, Ana Terra, a matriarca da maravilhosa trilogia de Erico Verissimo, O tempo e o vento. Ganhei o primeiro volume de O tempo e o vento aos doze anos. Dado por uma mãe que não tinha nenhuma fé religiosa, cujas crenças políticas começavam a desbotar e que só acreditava, de coração, na salvação através da arte.

Essa era uma mãe que lia para os filhos O apanhador no campo de centeio e Mulherzinhas. Eu devia ter uns nove anos e meu irmãozinho Pedrão, uns sete. Pouco depois, nossa hora de dormir começava com Rumo à estação Finlândia. Yeah.
A filosofia da velha era simples e, passados trinta anos (trinta anos, mamãe) ainda acho certíssima: se eles não gostarem é porque não estão prontos. Então, ela lia. Ou nos dava para ler. Se a gente não gostava, ela não obrigava, ela dava outro livro, até acertar. Isso aliado ao seu colo macio – disponível quase que exclusivamente na hora da leitura – e aliado ao fato de livros serem encarados como privilégio a ser conquistado além casa, criou dois leitores dementes, ávidos, furiosos, arrombadores de cartão de crédito em livrarias e sebos vida afora, para todo o sempre, amém.

Mas, opa, tergiversei.

Enfim, ganhei O tempo e o vento e comecei a ler.

E detestei. Não entendi nada daquele começo, do Liroca na torre. Depois veio a parte dos padres, da Missão, aquilo me deu no saco. E depois veio a Ana Terra. Eu tinha era nojo da Ana Terra. Nojo. A Ana Terra virou o símbolo máximo de toda a opressão que eu, mártir da causa, sofria daquela mãe déspota e autoritária. Ai, adolescente é um saco, meu bom Deus.

Mas os anos passaram, fiquei mais velha e – cof cof cof – mais sábia.

E, num momento de ócio, peguei no O tempo e o vento. Pra nunca mais largar. Nunca mais.

E o que foi que eu mais amei?

Sim, a Ana Terra. E o Capitão Rodrigo e a velha Bibiana e mais ainda, o Toríbio.

Mas antes e além, como sempre fiz, amei o narrador, o cara que torna a história possível para mim.
Tudo nesta vida começa pelo narrador. O narrador traz todo o mundo psicológico da Ana pro leitor, assim, de bandeja. Seus gostos e seus medos, a secura e a doçura dos seus pensamentos, tudo que ela quer, tudo que ela teme. No último livro da trilogia a gente entende o porquê do carinho do narrador com todo mundo do livro, mas a esta altura a gente só comove com o gostar que ele tem. Esse narrador do Verissimo ama todas as personagens, mesmo as más, mesmo as que erram. E é tão lindo ver como o narrador ama a Ana e entende a Ana e o pai da Ana e a mãe dela. O narrador entende o lado de todo mundo e torce por todo mundo, sem ficar dividido ou ser dúbio em nenhum momento.

É um dos mais maravilhosos narradores da história da literatura, de todos os tempos, em todos os lugares. O narrador do O tempo e o vento pega a todos, autor, personagens e leitores pela mão, e pela mão ele nos leva pra lá e pra cá, como um amigo que na hora da aflição ou da dor te diz ‘Vamos fumar lá fora?’. O narrador do Verissimo vive me levando para fumar lá fora.

A descrição que ele faz do lugar, das coisas e das gentes é deliciosa.

Ele descreve o lugar e você que ir para lá. Já. ‘Por favor’, diz você para o narrador, ‘me leva daqui’.  A rudeza do lugar só se equipara à beleza do lugar, os verdes do Veríssimo me invadem desde sempre, as pedras, o riacho, a Ana lavando a roupa e cantando, a água limpinha, gelada, onde ela pode se olhar e se perguntar se é bonita, se é bonita. Você se encanta pelas pessoas, por sua rudeza, por sua força, pela coragem que cada um deles têm, por essa força que só um clã pode trazer. Os Terra permanecem juntos, trabalham juntos, vivem aquela vida dura e incerta juntos e juntos cuidam uns dos outros.

E isso é extremamente atraente para nós, que mesmo na década de 40, ou principalmente lá (afinal a Segunda Guerra tinha acabado e só deus poderia saber que espécie de horror nos esperava então… Ainda que não exatamente em nossas casas, a mudança estava no ar, como sempre está quando uma guerra acaba… As guerras, mesmo as psicológicas, mudam nosso mundo – vencedores ou vencidos – todas as vezes e para sempre), precisamos de segurança, dos velhos e bons valores familiares no volume máximo, pais autoritários, mamãe submissas, filhos já adultos e ainda obedientes, trabalho duro, remissão de pecados, todo mundo da cama (ou, no caso dos Terras, da esteira) para o trabalho e do trabalho para casa e aiaiai.

Não é a toa que depois da Segunda Grande Guerra vieram os anos 50, suas cinturinhas de vespa, móveis pé de palito, homens sabichões usando ternos com ombreiras enoooormes (e, se você se lembrar bem, quem usava ombreiras enormes nos anos 40 eram as mulheres, claro, os homens estavam na guerra, alguém tinha que tomar conta da casa, travestir-se tanto quanto fosse possível, com todos os símbolos da autoridade masculina… lembra, aqueles tailleurs de corte militar?) e mulheres, que ainda de cabelos curtos, tinham estrogênio em doses cavalares, exemplos de doce domesticidade. Escapismo no grau máximo, vamos pensar na vida e no mundo depois.
E já que eu estou aqui, mais uma coisa: nós já entramos na Segunda Guerra precisando desesperadamente dum escapismozim. A “guerra para acabar com todas as guerras”, a primeira Guerra Mundial, falhara miseravelmente em seu intento, estávamos em guerra, blé, outra vez… não dá pra estranhar que roliúde tenha vividos seus anos doirados durante a Segunda Guerra Mundial… há que ser muito bom em musicais para fazer todo um planeta esquecer das promessas que ele mesmo fez. Assim, entramos na Guerra ávidos por escapismo, e nos atiramos no cinema, saímos da guerra dementes por escapismo, e mergulhamos na década mais escapista, sensacional, adiadora-da-vida-lá-fora que o século XX conheceu. Que qualquer século conheceu.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , ,
31/07/2009 - 13:49

Cinema


 
Cinema é fotografia.

Você já ouviu essa frase mil vezes. E é mesmo.

O cinema só existe, você só tem a chance de olhar para a cara linda do Robert Redford e maldizer sua própria carga genética porque, no século XIX, um cara chamado Joseph-Nicephore Neepce e outro nego, chamado Louis-Jacques Laguerre, na França, inventaram a fotografia.

Ela inventada, um monte de outros homens, com suas experimentações e pesquisas, foram incrementando o processo, decompondo fotos, projetando a imagem com luz, explorando sua possibilidade de movimento, fixando imagens no filme de celuloide.

Daí, os irmãos Lumiere conseguem projetar imagens ampliadas numa tela, graças ao cinematógrafo, um equipamento que tem um mecanismo de arrasto para a película.

Por fim, são eles que definem a arte de fazer cinema. Objetivamente, cinema é a técnica (oui, e a arte), de projetar imagens animadas numa tela, através de um projetor.

Do latim imago-gims, vêm imagem, imaginação e imaginário.

Então, você tá lá no escurinho do cinema, com pipoca e todo um sortimento de balinhas e drops, pra quê? Pra entregar sua cabeça e seu tempo pra alguém que vai ocupar seus pensamentos pelas próximas horas.
A sala escura está cheia de outras pessoas, prestes a passar pelo mesmo que você.

O cinema nos pega auditivamente, tem música (uma das mais primitivas forma de arte), mas tem imagens – e nós somos extremamente visuais. Mais que isso, ele te obriga a ficar imóvel, prestando absoluta atenção à trama, por 90, 120 minutos ou mais, e no escuro – você não recebe nenhum outro estímulo.

Além disso, ao contrário de teatro e espetáculos de dança – que também têm som e imagem e também são assistidos no escuro, no cinema você pode se entregar sem medo, pode projetar seus sentimentos na tela sem nenhum pudor porque o que está ali na sua frente não são pessoas reais – são representações de pessoas.

O cinema é a loucura de todos nós, é de longe a forma de arte mais querida, que desperta mais paixões, porque ele encerra em si todas as outras formas de arte. Porque nele, de muitas formas diferentes, cada um de nós é o protagonista. Porque, finalmente, nos sentamos todos juntos, vendo juntos sombras na parede da caverna, aconchegados e em segurança, vivendo aventuras que jamais viveríamos.

O entretenimento é a coluna dorsal do sistema capitalista. Trabalhamos 8 horas por dia e dormimos 8 horas por dia, mas o que nos move é a possibilidade de brincar 8 horas por dia.

O entretenimento, aliado sempre ao consumo, é a cenoura presa numa vara de pescar, meio metro à frente do cavalo. A promessa de que iremos nos divertir é o que mantém a carroça em movimento.
 

O que é que você vê? Possibilidades de diversão. De entretenimento. Vivemos e trabalhamos, aceitamos todas as regras, aturamos todas as chatices – porque falta pouco pro feriado. Porque este ano o feriado cai na terça, porque este final de semana eu vou pra São Paulo com a Ângela enfiar o pé na jaca, porque esta pilha de trabalho vai me permitir comprar aqueles livros caros.

Nunca foi fácil viver, jamais a vida humana correu sem percalços. Os sistemas políticos vêm e vão, e nada, nada mesmo, é definitivo.

Sabendo disso, o sistema capitalista nos oferece algo em troca. Fica, amor, fica, eu sei que o trabalho é duro, mas olha todas as coisas divertidas que você pode fazer se ficar!! Olha quanto filme, cinema com ar refrigerado e pipoca em embalagem-balde, montes de peças de teatro, algumas até com ator da Globo, festival de dança panamericana, Bienal de Arte cheia de instalações, fica amor, fica! A gente transforma tudo o que você quiser em arte e em entretenimento, culinária, moda, jardinagem, fica, que aqui tem 200 canais de TV!!

Queremos, basicamente, ser felizes, certíssimos que essa felicidade passa pela diversão – o capitalismo descobriu que a arte divertida nos encontra e nos acalma – nos ajuda a suportar a reunião das 11, o chefe bolha, os alunos que guincham e a dor. O entretenimento serve muito bem ao consumo-totem sagrado do capitalismo, gera receita, dá empregos e nos faz suportar esta vida de merda. Nada mal.

A vida cotidiana de cada um de nós depende de uma intrincada e bem articulada rede de entretenimento, que passa pelos valores culturais de cada sociedade, pela produção industrial e pelos valores ideológicos, que vão do gibi ao Programa do Ratinho, do seu blog favorito ao último filme-cabeça que você viu no festival.

 

O cinema supre nossa cota necessária de fantasia pra que consigamos aguentar a cultura de trabalho que mantém nossa vida como é. A gente sabe que é “mentirinha”, mas é uma mentirinha tão verossímil, tão crível. A sala escura aumenta a evidência da tela colorida, e o tamanho dos seres humanos que vemos é tão proporcional, é tão real, é tão fácil de acreditar.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: ,
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