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04/11/2009 - 13:20

Seu cachorro ama você.
Seu cachorro foi programado biologicamente pra amar você.
Ele ama você, mesmo quando você se atrasa ou esquece de botar água pra ele.
Mesmo que você tenha fraquejado.
Mesmo que você fraqueje todos os dias.
Mesmo que você ceda e se perca, mesmo que você minta.
Mesmo que você tenha tanto ódio dentro de você, que doa.
Mesmo que você tenha tanta dor dentro de você, que você odeie.
Mesmo que você tenha estragado tudo.
Mesmo que um ex-caso seu fique noivo duma moça lindíssima, na frente das câmeras da revista Caras, seu cachorro ama você.
Mesmo que você brigue no trânsito e mande o cara do AUDI vir chupar seu pau.
Mesmo que você chegue em casa sujo, pobre, humilhado, mal humorado.
Mesmo que os outros riam de você.
Mesmo que você esteja de ressaca.
Mesmo que você tenha gatos, muitos gatos.
Seu cachorro ama você, mesmo quando você não está com saco pra ele e tranca o bichinho na área de serviço.
Seu cachorro ama você, mesmo quando seu maldito computador dá pau e você perde as imagens das aulas.
Mesmo que você tenha medo de sair de casa.
Mesmo que você tenha medo de falar com as pessoas.
Mesmo quando seu rímel está borrado.
E sabe quando você, com o gato no colo, manda que ele desça da cama?
Mesmo assim, seu cachorro ama você.
Seu cachorro ama você mesmo quando você se odeia.
Mesmo quando você é mesquinha, seu cachorro vai amar você.
Mesmo quando você foge do seu ex-namorado no supermercado.
Mesmo quando todos os seus amigos de infância viraram uns caras emproados e esnobam você solenemente.
Mesmo quando você programa o aparelho de som e ouve a mesma música novecentas vezes.
Mesmo que você trabalhe 15 horas por dia, chegue em casa, caia morto na cama e não brinque com ele.
Mesmo que o amor da sua vida tenha casado com uma menina 10 anos mais nova e 40 quilos mais magra que você.
Mesmo que seu bebê tenha morrido.
Seu cachorro ama você, mesmo quando ele come seu sapato cor de rosa.
Mesmo que o Brad Pitt não responda seus telefonemas.
Mesmo quando você fala com ele na mais irritante voz de bebê desse mundo.

Mesmo que você não veja o que está bem debaixo do seu nariz.
Mesmo que a Laura Guimarães tenha razão e o que mais move você não pode ser dito .
Mesmo quando tanto amor irrita e ofende.
Mesmo quando você está muito doente.
Mesmo quando você esquece de comprar leite.
Mesmo que você tenha sido assaltada por um motoqueiro no farol da Rebouças.
Mesmo que você ponha o bichinho de estimação dele na máquina de lavar roupa e o brinquedo encolha. Mesmo que você não saiba o que fazer com os verbos “competir” e “polir” no presente do indicativo.
Mesmo quando você come chocolate demais.
Mesmo quando você chora olhando no espelho.
Mesmo quando você queima a lasanha, seu cachorro ama você.
Mesmo que você perca o prazo do cliente.
Mesmo quando você toma soníferos demais misturados com martini e, lá no fundo, sabe que não foi sem querer.
Mesmo que você seja caipira no telefone.
Mesmo que, no meio da crise de insônia, você vá lá acordá-lo pra não ficar sozinha.
Mesmo que você tenha desistido da faculdade de veterinária e de mais 6 faculdades.
Seu cachorro ama você, mesmo quando seu saldo está 3.874,98 negativos no banco, mesmo quando sua perna está terrivelmente inchada.
Mesmo que você seja viciada em listas que não servem para nada.
Mesmo que seu aluno repita o ano.
Mesmo que você repita o ano.
Mesmo que você tenha lavado seu teclado encardido no tanque, quebrado a máquina digital, perdido o controle remoto do DVD e que não saiba programar o vídeo cassete.
Mesmo que você xingue seu cachorro de “fedido”, mande ele tomar banho na loja e ele volte com dor de ouvido e com uma gravata patética do Piu-Piu, ele ama você.
Mesmo quando todas as suas amigas de infância têm bebês e você não.
Seu cachorro ama você, mesmo quando sua mãe nem tanto.
Mesmo quando você voltou a roer unhas.
Mesmo quando você o atrai com beijocas e biscoitos e daí passe remédio de pulga na nuquinha dela na maior trairagem.
Mesmo quando você chora debaixo do chuveiro, pra sua cara não ficar inchada, seu cachorro vai te amar.
Seu cachorro ama você para sempre, mesmo que nada, nada, nada tenha salvação e que, em parte, a culpa seja sua.
*** Na primeira imagem, Freud, a foto mais linda que o Nelsinho já fez. Na segunda imagem, Baco e Alexandre, a foto mais linda que eu já tirei.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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02/11/2009 - 13:40

O que mata é que ele pode ver o próprio reflexo na janela do escritório de casa: descabelado, com olheiras, uns 5 quilos mais magro, patético. Devia haver uma lei proibindo a gente de se apaixonar depois dos quarenta. Ou depois de estar casado. Mas não. Ele ali, perdido de amor, checando seus mails a cada meia hora, feito um guri. Fumando, sem comer, sem dormir, sem ouvir nem uma palavra do que a mulher tinha dito o final de semana todo. Isso depois de ter sido pego pelo gerente de produtos desenhando corações no bloco durante a reunião da sexta-feira. Ah, e de pau duro, mas isso, graças a Deus, o gerente não tinha como saber. Ou tinha? E por causa de quem? De uma menina, quase uma desconhecida, quase vinte anos mais nova, quase noiva, quase maluca. Maluca. Malucos, os dois. Maluco o mundo, que não percebia nada. Porra, ninguém vai notar essa magreza, essas olheiras, essas noites sem dormir, a risada frouxa, os sumiços? Ninguém vai notar a culpa, a irritação com as crianças, os olhares perdidos no horizonte? E cadê esse e-mail que ela não responde?
** foto linda de Nelson Biagio Jr.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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14/10/2009 - 12:12
Fui até lá porque sou a Tia e, quando se é a Tia, supõe-se que você participe dessas ocasiões. A Mãe me recebeu nervosa. Fomos para o quarto da Menina, que nos esperava de calcinha e sutiã. Dei palpites, ajudei a escolher entre a meia-calça bege e a preta, prendi o cabelo da Menina, dei conselhos, enquanto a Mãe só olhava, quieta. Como é sabido por todos, Mãe não entende patavina, Mãe nunca teve encontros, Mãe já nasceu casada com o Pai e a maior emoção da vida dela é nos levar ao shopping para comprar sapatos. A Tia tem quantos gatos quiser, um marido engraçado e potes com bombons pela sala. A Tia tem uma vida emocionante e misteriosa, pois trabalha fora e cuida da casa, ao contrário da Mãe, que trabalha fora e cuida da casa. Duras as três, lado a lado no sofá, esperamos o Menino chegar. O Menino chegou, a Mãe do Menino também. Menina e Menino foram para a sala de televisão, de onde já haviam sido expulsos os Irmãos Menores e o Pai. Menina e Menino iriam assistir, sozinhos, ao Filme. O Filme custou dezenove idas e voltas da Mãe à locadora, pois o Filme não podia ser nem besta, nem bobo, nem de criancinha, nem com beijos demais, nem com beijos de menos, nem com palavrões, nem com nada que a Menina não julgasse inspirador. Aos 12 anos somos críticos de arte implacáveis. A Mãe da Menina contou para a Mãe do Menino sobre a difícil arte de escolher meias-calças. A Mãe do Menino descreveu, com alguma crueldade, o lento ritual da seleção da camisa perfeita. Quando o Pai perguntou se nos lembrávamos dessa sensação, suspiramos. Eu me lembrava. Ele era lindo, chamava-se Victor, tocava violão e veio à minha casa buscar uma fita de vídeo. Ficou parado na minha sala por três minutos enquanto eu pegava a tal fita. Depois disse adeus e foi embora. Eu morri por dentro. Eu doía de amor. Mas não contei essa história em voz alta. Ninguém, aliás, disse nada. Sacudimos nossas cabeças em silêncio. A Tia deu sua missão por cumprida e foi para casa, para sua vida glamurosa e seus chinelos de cachorrinho.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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30/09/2009 - 22:01
Homens kamikase era o tema do nosso almoço naquela sexta. Homens que jogam o aviãozinho deles em cima do nosso barco. Homens que trazem um adesivo no peito, onde se lê, em letras miúdas: “Odeio minha vida e não tenho coragem de sair dela. Por favor, me tire daqui.” Homens que dão o telefone da casa deles, pedem para você ligar dizendo que é a moça da revista Veja, e ficam putos se você diz que não vai ligar. Homens que dão detalhes sobre a vida dos filhos pedindo opiniões, listam os defeitos da esposa, fazem reclamações sobre sua casa, elegem você a salvação de suas vidas, o único motivo de alegria deles. Nós três concordamos que a única saída possível é correr para longe deles, sem olhar para trás.
*
Ela ainda guarda o leque que ele lhe trouxe da Espanha, há mais de trinta anos. Ela só o usa em grandes ocasiões. Ela o chama de Neco, adora quando ele a chama de Neguinha, e mesmo com as nossas piadas e gozações, não consegue vê-lo como um homem de quase 60 anos. Ele é seu irmãozinho, seu menino, e durante a ceia de Natal, enquanto ele devora a farofa doce que ela faz para ele todos os anos, seus olhos brilham de orgulho e amor.
*
As duas na frente de uma das carruagens do museu:
- Esta aqui Carlota Joaquina trouxe para Portugal no meio do seu dote, quando veio se casar com Dom João VI.
- Bah, e as moças iam se casar munidas, não, Gringa?
- Gauchinha, as moças só se casavam porque tinham munição. As que não tinham, iam bordar em conventos, em meio à castidade e neuroses. As munidas, pelo menos, levavam suas neuroses para passear de carruagem.
*
Quando comento como é estranho esse relacionamento da nossa amiga, uma mulher maravilhosa e engraçada, com o marido, um pretensioso, medíocre, a Maria Inês sorri e murmura: “Pense nos ganhos secundários, queridinha, ganhos secundários”.
*
Ele me disse: “Não vá se apaixonar por mim”. Eu respondi que ele não corria esse risco. Falei do fundo do meu coração.
*
Ela disse a ele que nove anos de casamento ruim não era uma crise, era uma tradição. Ele sorriu com tristeza e concordou. Ela ficou com as crianças. Ele ainda chora, às vezes.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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14/09/2009 - 12:23
“Tua graça caminha pela casa. Moves-te blindada em abstrações.”
Vinícius de Moraes
A única joia que Clara usa é a aliança grossa, prateada. Mão esquerda. Ela sorri. Ela faz trocadilhos engraçados. Ela é quase bonita. E Nestor olha para ela. E não vê, realmente, mais nada. Ele ri da risada de Clara. Ele bebe o seu olhar. E quando ela chama, ele corre. Ele corre, literalmente. E ele toca em Clara. Ele não toca em ninguém, mas ele toca nela. Aperta seu braço. E a tira para dançar. Nestor observa cada movimento de Clara. Quando ela tomba a cabeça. E fala do passado. E bebe o espumante. Nada escapa a Nestor. E não, ele não é o dono da aliança grossa, prateada. Mas não faz mal. Há muito tempo, Nestor deixou de se importar. Muito tempo. Ele volta seus olhos castanhos na direção de Clara e eles se transformam em caramelo. Em calda. E mesmo havendo outra pessoa na sala, Nestor fala com Clara. Só com ela. O rosto iluminado. A voz mansa. Clara. Giordana desce a escada, barulho de caco de vidro em seu peito. No vaso improvisado, havia uma única flor. Cor-de-rosa.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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07/09/2009 - 01:09

Ela acha que Maurício tem uns vinte e três, vinte e cinco anos. Ela torce para que ele já tenha trinta, mas duvida. Os olhos dele, que moram atrás de óculos com armação escura e grossa, são abertos e puros, e sorriem. Maurício ainda não sofreu. Ele não pode mesmo ter mais de vinte e poucos anos. Ela tem quarenta e dois. E dá ré no carro velho e desobediente, muito irritada consigo mesma. Ela tem palpitações por causa de um menino de cabelos escuros (não há um fio de cabelo branco na cabeça dele), óculos, sardento, bonito. Maurício tem a voz rouca e fala baixo. E ela não sabe mais nada sobre ele. E ele deve ser uns quinze, talvez vinte anos mais novo que ela. Ele pode ser casado (tá cheio de gente casada que não usa aliança, não é?), ele pode estar no quarto casamento e ter três filhos com cada mulher (não há idade certa para começar a errar), ele pode ser noivo (idem), ele pode ser gay, ou adorador do Grande Abóbora. Ela não tem a menor ideia. Ela só sabe que ele é doce e bem humorado, atencioso e gentil. Ela só sabe que nos últimos meses tem arrumado toda e qualquer desculpa para ir até ele, sorridente e perfumada. E enquanto fala com ele, com os dentes à mostra, usando sapatos novos, ela sabe que está fazendo um papel ridículo. Ela sabe. Mas não pode deixar de olhar para ele. Maurício mudou a armação dos óculos.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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28/08/2009 - 19:21

Ela sabia que não devia, mas ainda assim, ligou para ele. Foi um impulso incontrolável, ela explicaria depois para a Adri e o Wash, seus amigos de almoços semanais. Eles iriam sacudir a cabeça e passar um pito nela. Mas naquela hora ela sentiu vontade e ligou. Afinal, não era o aniversário dele? E ela não era uma moça muito bem educada? Ia ligar sim, e o que é que tinha?
Ligou, falou com a telefonista, que transferiu a ligação. E então, ela falou com ele. Falou com ele bem baixinho, chamando-o de Bru, de olhinhos fechados. Falou com ele imóvel, com cuidado, se controlando, rezando para que ele não percebesse as lágrimas em sua voz. Desejou um feliz aniversário, muitas felicidades, muitos anos de vida. Mandou recomendações para os meninos, que, ela sabia, jamais seriam dadas, e contou que sim, o pai e o irmão estavam como sempre, malucos, mas felizes. Falava com ele se abandonando, uma tola, de volta por alguns instantes para a adolescência, não tinha mais de quinze anos. Abria os olhos de vez em quando para olhar a foto dele na sua mão. Ele a chamava de “Gringa”, os gaúchos chamam os italianos de gringos. Enquanto ele contava sobre os preparativos da festa que ele e a mulher iam dar naquela noite, eram os olhos dele que ela via. Depois, quando ele começou a falar do tempo, do clima no sul, ela ainda via seus olhos. Quando ele começou a dizer que ela era muito especial, ela fechou os olhos com força. Ser muito especial é pior ainda do que ser simpática. As simpáticas ainda têm salvação, as muito especiais, não. Só existe um estágio abaixo de ser muito especial. Você sabe que está nele quando entra numa festa e aquele certo homem chega perto de você, dá um tapa nas suas costas e diz “Graaaaaaaaaaaaande Fulana!!”. Daí acabou. Daí você já era. Desejando mais e mais felicidades, ela desligou o aparelho. E chorou baixinho naquela saleta fria. E enquanto chorava, pensou nele. No quanto ele estava distante dela. Distante dela geograficamente, distante dela emocionalmente, distante dela, até, historicamente. Distante, distante, distante. Deu-se uma sacudida mental e foi parando de chorar aos pouquinhos. Daquele seu jeito disperso pensou e tirou conclusões (se não brilhantes, pelo menos de forte efeito calmante), sobre dor, sobre perda, sobre inconstância, sobre amor. Ria agora, baixinho e sentido, porque mais uma vez, caíra numa armadilha de sua própria autoria. Mais uma vez se entregara à dor tão certa, tão óbvia, tão clara, tão definitiva. Essa dor conhecida, que cada vez que se apresentava, levava pedacinhos do seu coração. Olhou para o homem sério da fotografia. Sorriu para ele com algum ressentimento. E pode existir paixão sem ressentimento? Sabia que não iria mais falar com ele, ou tê-lo, ou que Deus a ajudasse, vê-lo de novo. E que essa perda, essa dor, fazia parte da história que ela havia, voluntariamente, escolhido como deles. Ela, mais uma vez, havia amado sozinha, sonhado sozinha, investido sozinha. Porque havia querido. Porque sua carência tinha raízes tão profundas e dolorosas que gostar de quem não gostava dela era mais fácil. Porque assim talvez se defendesse de coisas mais sérias, relacionamentos mais profundos. Talvez porque se sentisse confortável usando o véu dos mártires. Ou ainda, porque era uma maluca-sem-juízo, como lhe diria seu bom amigo Wash. Guardou a fotografia na gaveta, assoou o nariz e saiu para almoçar. Merecia cada instante da bronca do Wash e da Adri.
**foto de Nelson Biagio Jr.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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17/08/2009 - 14:30

Carteira, óculos de sol, batom com tampa, chaves da casa da minha mãe, medalha de Santa Terezinha. Onde está o papel do estacionamento? Livro de crônicas do Veríssimo, maço de cigarros vazio, maço de cigarros cheio. Eu não vou chorar. Não vou chorar por você, Paulo, não no meio da calçada da Avenida Paulista, não agora, não nessa vida, não por você. Eu não posso me dar ao luxo de chorar por você. Adesivo que eu comprei no farol de um surdo mudo, batom sem tampa e o barulho das moedas no fundo da bolsa. Que droga, onde foi parar aquele papelzinho amarelo do estacionamento? E por que eu estou tão nervosa? Não foi para isso que eu vim? E eu não percebi direitinho o que estava acontecendo? A distância, a falta de tempo, as viagens com a família, as intermináveis reuniões (ainda ouço a voz odiosa da secretária: “Dr. Paulo não pode atendê-la. Sim, ele ainda está em reunião. É, eu sei que ele está em reunião há dez horas, mas ele é um homem importante, fazer o quê? Sim, eu anoto, vou colocar na pilha junto com seus outros recados). O Dr. Paulo teve tantas reuniões nas últimas semanas que deve ter resolvido todos os problemas do mundo. Burra, burra, burra. No que você pensou que estava se metendo? Achou que ia ser engraçado? Achou que todo esse tempo tendo casos com homens casados, você nunca iria se apaixonar por nenhum deles? E agora que você se apaixonou e está aí, debaixo desse sol inexplicável para um começo de agosto, fazendo esse papel patético, espera que alguém tenha pena de você? Ninguém, meu amor, ninguém tem pena da (na linguagem da sua avó) outra. Por que você sabe que o nome técnico mais levinho é esse, não é? Sua mãe deve ter outros, mais claros. A mulher dele, se soubesse de você, teria alguns im-pu-bli-cá-veis. E com razão, devo acrescentar, toda, toda razão. Folheto de propaganda política com o telefone de alguém anotado num canto a lápis de olho, bloquinho de post-it, chicletes, livro de contos do Nelson de Oliveira, celular, bateria do celular, recarregador de carro para celular e a conta do celular que venceu dia 25 e você se esqueceu de pagar. Eu tenho que ter posto o papel do estacionamento por aqui. Tenta lembrar de tudo o que você fez. Parei o carro na porta do estacionamento, peguei o maldito papelzinho amarelo e fui com ele na mão até o restaurante. Entrei, o Paulo já estava lá. Ele se levantou para me beijar, puxou a cadeira para mim. Sentei, tirei os óculos escuros, abri a bolsa e joguei aqui dentro, os óculos e o papel. Joguei as coisas dentro da bolsa e fiz o quê? Olhei para o Paulo que falava sem parar sobre as filhas, sobre um concurso cretino de jardinagem que a mulher dele havia vencido no final de semana, e dos planos deles para a reforma da casa de Caraguá. Os planos deles. Planos. Sejamos francas, sua tonta, você achava mesmo que ele iria se separar dela? Nunca. Nem em um milhão de anos. Nem que Cristo viesse à Terra. Nem que chovesse canivete. Você, o oráculo das moças que têm casos. Você, sua arrogante, com suas regras prontas. “Nunca telefone”, “Não ouça histórias sobre filhos”, “Não se envolva em problemas domésticos”, “Não deixe que ele fale mal da esposa”. Você que sabia tanto, que entendia tanto, tão sábia, tão segura, tão superior. Você, que dizia conhecer truques que nem haviam sido inventados ainda. Você não tem competência nem para encontrar uma porra de um comprovante de estacionamento, e fica aí, ditando regras, tendo certezas. E agora, hum? Vai fazer o que com seu sonhozinho de criar os filhos dele numa montanha, com a música do Waltons de fundo? Vai fazer o que agora que você finalmente acordou, ou melhor, foi acordada (um pouco de perspectiva histórica, por favor) para o fato de que ele não é o Richard Gere (embora tenha aqueles olhos tristes e… controle-se mulher!), que você não é a Julia Roberts (ok, disso você já sabia) e que vocês não estão em Los Angeles? Porque meu amor, claro que foi nisso que você pensou, claro que foi nisso que você quis acreditar, e eu não sei? E eu não te conheço? Outro maço de cigarros, você está fumando demais. O isqueiro que você ganhou dele. (Lembra? Da última viagem que ele fez com a família para Aruba), talão de cheques solto, carteira, bolsinha de moedas vazia, claro, estão todas no fundo da bolsa, pó compacto, chupeta. Chupeta? Você teve um filho sem eu saber? De quem será isso? Montes de canetas com tampa e sem tampa. Trata de encontrar esse papel cretino e resista à tentação de colocar a culpa no Paulo. Você só ia ficar mais patética se virasse uma daquelas mulheres frágeis, medrosas, cegas e iludidas, que terminam as histórias balbuciando um estúpido “mas ele disse…”. A culpa é sua, só sua. Você tem trinta anos, CPF e plano de saúde. É você que tem que responsabilizar por sua vida e suas escolhas. E o Paulo, você sabe, foi uma escolha sua. Todos os outros também o foram, mas com o Paulo você resolveu pagar para ver. E, Cristo, como viu. Sua agenda cheias de papeizinhos misteriosos! Deve estar aqui. Não, não, esse não é, não também. Não está na agenda. Não está na bolsinha de maquiagem? Meu Deus, que sol! Para que uma bolsinha de maquiagem se você tem tanta maquiagem solta na bolsa? Graças a Deus você não chorou na frente dele. Não chorou quando ele disse que ele e a mulher conversaram muito e estavam dispostos a se permitirem uma segunda chance. Não chorou quando ele disse que gostaria muito de continuar a vê-la, desde que você entendesse, sem qualquer compromisso (O grande sacana. Como se antes ele estivesse preocupado com algum tipo de compromisso). Mas o melhor de tudo foi que nem biquinho você fez quando ele disse que você havia sido muito importante na vida dele e que você era muito nova e muito simpática e com certeza encontraria um homem que a merecesse e valorizasse. Eles sabem o quanto dói e fazem de propósito, ou é sem querer que eles nos arrasam com uma frase dessas? Você sorriu, balançou a cabeça com gravidade e desejou boa sorte nessa tentativa, deixando claro que não, não ficariam mágoas, afinal, eram ambos adultos e sabiam que o final seria assim. E quando você abriu sua carteira e deixou dinheiro suficiente para pagar uns dez martínis? Essa foi digna do Oscar. Você se levantou com classe, se despediu com classe, caminhou até a porta de vidro com classe e por isso, essa cena assombrosa no guichê do estacionamento está quase perdoada. Ah! Claro, você colocou o papelzinho no bolso do casaco! Isso, entregue o papel para a moça. Tudo bem, pode, mas uma lágrima só, agora pode. Sem ruídos. Ok, duas lágrimas, tudo bem. Pronto, seu carro chegou. Vai embora para a sua casa, que você tem uma porção de coisas para resolver hoje. Boa garota. Engata a primeira, sem ela engatada não adianta apertar o acelerador. Isso. O manobrista deve ter adorado o isqueiro folheado a ouro com uma palmeira em alto relevo.
*foto do Endrigo, sempre gentil
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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03/08/2009 - 15:38
Inajara, cunhada de Regina Paula, levantou às quatro da manhã para limpar o cocô do cachorrinho, naquela chuva.
Escorregou no quintal, lógico, abriu a cabeça.
O namorado dela, o Ricardo (irmão da Rê), levantou correndo, mesmo engessado, para correr com ela para um pronto-socorro.
O pai dela não achava a chave do portão, depois foi a chave do carro que sumiu, não se tinha a mais remota noção de onde estaria a carteirinha do plano de saúde, enfim, naquela chuva e naquele frio, àquela hora da madrugada, ninguém era de ninguém.
Chegando ao pronto-socorro, ainda queriam prender o Ri, porque aquela história estava mal contada, esse negócio de cachorro era absurdo (convenhamos, é esquisito mesmo) e aquele sangue esguichando da cabeça da moça tinha que ser resultado de espancamento.
No final, não prenderam ninguém, mas o médico raspou metade da cabeça da Iná para dar os 11 pontos, sem levar em consideração que ela gastou 140 reais fazendo decapagem e reflexo no cabelo, depois de pintá-lo de preto por 15 anos.
Enfim, quando eles voltaram para casa, o sol já estava alto.
A Iná estava cheia de hematomas e meio careca, e todo mundo estava com sono, cansado, com fome e mal-humorado.
Qual a conclusão da Cláudia Cristina, vendedora da Natura, piloto de provas da Elizabeth Arden, viciada terminal em cremes milagrosos, ácidos glicólicos, tintas variadas para cabelo e rímel incolor?
- Tá vendo, Lindíssima, a gente com tanta vaidade, e nada nesse mundo vale nada. Não cai uma folha da árvore se Deus não quiser.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
Tags: Regina Paula
20/07/2009 - 15:53
Ela sente vontade de chorar. Como uma adolescente, como uma idiota. Porque ele não a quer. Porque ele não sinaliza. Na verdade, porque ele não sinaliza como ela quer, o que ela quer. Ela quer uma xícara gigante de café e algum carinho no rosto. Mas ele diz uma coisa num dia, uma coisa completamente diferente num e-mail, em seguida, e uma terceira coisa, tirada sabe Deus lá de onde, num telefonema esquisito. Ela é uma senhorinha, ela já tem muita experiência, ela não precisa ler aquele livro para entender que ele não a quer. E, além disso, ela não é burra, ela entendeu cada sinal. Mas ela tenta. Sejamos francos, ela se humilha. É ridículo, mas ela passa mensagenzinhas para ele pelo celular. E ela nem quer dar pra ele. Bom, pelo menos, não muito. Ela quer companhia. Ela quer ouvir sua risada. Ela quer que o abismo desapareça por umas horas. E, quando ele manda uma carta que termina com “tenha uma boa semana”, ela se sente mortalmente ofendida. Como é que ele acha que ela vai ter uma boa semana sem vê-lo? Ela quer cometer todos os erros conhecidos, de novo e de novo.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida
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