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15/01/2010 - 11:31

Ela não tinha ilusões

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Ela não tinha ilusões. Bom, não muitas. Algumas pequenas, daquelas bobas, mais esperanças leves que ilusões, você sabe, perder uns cinco quilos, conseguir trocar de carro no ano que vem, ter grana para matricular a pequena na natação, encontrar uma tinta de cabelo que não a deixasse com cara de avó de alguém, terminar a revisão do livro. Nada de grandes ilusões, nada disso. Ela não esperava um grande amor. Uma grande causa. Uma flechada no coração. Nada que lhe tirasse o sono, a fome, ou a sensação dos dedos dos pés. A vida era isso aí. Uns dias ruins, uns dias mais ou menos. Mas houve um dia. Ah, aquele dia pareceu vir para mudar todos os outros, para mudar as certezas, para alterar rumos. Foi um desses dias que começam com o requeijão espalhando melhor sobre a torrada, o leite sem nata, a menina doce, sem gritos estridentes, o marido calmo e saindo mais cedo, que ela acreditou que ia ser… melhor, talvez? Um pouco menos tolo, um pouquinho só? A falta de trânsito para o escritório, a secretária sorridente, o assistente gentil, o bolo no estômago que sumira, isso tudo não podia ser um sinal? Às 4 da tarde ela não ainda tinha tido saudades, nem arrependimentos, nem… que coisa, nem dor. Dor nenhuma. Um sinal cósmico de que tudo ia mudar, ao menos dentro dela, ao menos hoje, só hoje. E depois? Ah, depois ela podia virar uma abóbora de novo e quem é que ia notar a diferença? Claro que não eram sinais cósmicos, claro que não. Quando ela desligou o abajur naquela noite, às 11 horas, depois de um dia igualzinho aos outros, ainda teve tempo de pensar, antes de cair no seu sono de remédios, que era mesmo uma sorte ela não ter ilusões.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/01/2010 - 15:28

Com que roupa

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Banho. Banho é fundamental. Banho, lógico. Ninguém aqui está dizendo que você não deveria tomar banho. Mas você devia ter escolhido a roupa antes do banho, e sua cabeça funciona numa hora dessas? Tinha que deixar para escolher depois? Para ficar aflita e suada? Escolhe antes da próxima vez. Agora não tem jeito, vamos lá. Mergulha no seu guarda-roupa, aquela passagem para a terceira dimensão e escolhe uma roupinha. Meu Deus, que zona. O dia que você resolver arrumar isso aqui, cai o Presidente da República, ninguém tem tanto poder político. O ACM podia realizar reuniões aqui, para não ser perturbado. Esse guarda-roupa é a vergonha nacional, nem fica abrindo muita gaveta que é para não ficar nervosa, procura por cima. Eu sei, você não arruma suas gavetas porque elas têm vida própria, tudo bem. Quanta roupa que você tem e não usa, que desperdício. Não tem uma filosofia que diz que a gente tem que usar tudo quanto é roupa do guarda-roupa para a energia circular? Minha filha, se você liberar a energia presa aqui, Itaipu funcionará por mais uns cem anos. Tudo bem, concentra-se, concentra-se que o bicho tá pegando. Como que você aceita um convite desses sem saber se tem roupa antes? Você é doida. Não, eu sou a doida aqui. Eu sou doida por deixar você responder sozinha. No segundo em que ele fez o convite para um café, eu devia ter me metido no meio, tomado as rédeas da situação e dito: “Desculpe, Antônio. Nós agradecemos muitíssimo, mas infelizmente, não vai dar. Essa é uma pobre mulher, abalada e medrosa, e ela não irá, de jeito nenhum, tomar café, nem nenhuma outra coisa com você, nem que você forneça uma venda para os olhos e um cigarro acesso, entendeu? Ela, simplesmente, não pode. Não pode. Ela tem medo de lugares públicos, medo de barulho e medo de você. Além disso, a pobre coitada não tem uma roupa decente e vai acabar derrubando café em você de tão nervosa. Por isso, eu não posso deixá-la ir de forma alguma. Fui clara? Como assim, quem sou eu? Eu sou o superego dela, eu estou no comando agora. Passar bem”. Mas não. Eu com meu liberalismo tonto, fui deixar você decidir sua própria vida, fazer suas próprias escolhas, olha aí no que você foi nos meter. Pensa, minha filha, pensa. Vê se me aparece lá com cara de gente. Meu Deus do céu, você ainda tem esse vestido branco? Impressionante, me sinto num túnel do tempo. Se eu achar um par de meias lurex, saio correndo. Se bem que voltou a moda, né? Parece que sim. Ah, não! Um tomara-que-caia turquesa? Bons tempos aqueles. Essa regata amarela que você comprou no Rio de Janeiro. Pagou uma fortuna me jurando que ia caber nela em um mês. É incrível como eu deixo você me enganar. Menina, e essa blusa branca de babados? De onde será que saiu? E essa calça cor de abóbora? Que Deus lhe perdoe. Olha o que garimpei aqui, que tal o conjunto azul? Isso, o conjunto azul fica legal, ele é bem bonito. Bem bonito e deixa você com uns quadris quilométricos, é isso que você quer? Ele vai pensar que você tem um tabuleiro de acarajé em baixo da roupa, pensa em outra coisa. Dá uma procurada aí, tem que tem algo usável. Ah! O vestido vermelho. Vermelho? Vermelho não é meio…? É, tem razão, nada de vermelho. Deixa o pobre coitado pensando nesse primeiro encontro que você é uma virgem vestal. Usa um tom pastel, banca a santa, e na próxima você escancara. Próxima? Que próxima, minha filha? E se não tiver próxima? Hum? Se não tiver próxima você perdeu sua grande chance. Se eu fosse você, segurava na mão de Deus e ia de vermelho. Tá, vermelho. Tudo bem. Seja o que Deus quiser. Sapato? Vermelho. Bolsa? Vermelha. Batom? Vermelho. Ai, não, eu vou ficar parecendo uma devota da Pomba-Gira. Não dá. Não vou de colegial, mas de vermelho não vai rolar. E o vestido preto? É bonito, é comprido, é chique e sexy ao mesmo tempo e não fica assim tão… tão. Enfim, não fica tão. O preto? O preto é legal. Tá, sapato preto, bolsa preta. Chique, sóbria, vai ficar muito bom. Isso. Bom, roupa resolvida. Ainda bem que você está calma, ansiedade nessas horas é um perigo. Arrumou a bolsa? Batom, medalhinha de São Jorge Guerreiro para dar coragem, celular, bip, camisinha. Não! Não leva o celular e se seu pai liga? Isso, deixa o celular quietinho e desligado aí. Carteira. Carteira é só para constar, você não se atreva a dividir a despesa, ouviu? Agora tira essa máscara de ervas do rosto que você parece a estrela de um espetáculo do Marcel Marceau. E o creme de parafina parece ter deixado seu cabelo meio ensebado, reza para ser só uma impressão. Bom, se meu cabelo ficar esquisito, eu prendo. Cabelo preso? Você não pode, você engordou, se prender o cabelo vai ficar com cara de lua cheia. Credo, que máscara complicada de lavar, tomara que meu rosto não fique todo branco. Ai meu Deus, o que é isso aqui no espelho? É uma espinha? Você arrumou uma espinha no nariz vinte minutos antes de sair? Faz uma mentalização positiva, pelo amor de Deus. Concentre-se que ela vai embora. A espinha sumiu. A espinha sumiu. A espinha sumiu. Olha no espelho de novo. A espinha não sumiu. Espinha não entende nada de mentalização. Passa uma base clarinha em cima. Ah, que linda, parece o Arrelia. Você está uma graça, deixa para lá. Ser mulher é uma operação complicadíssima, deviam ter me avisado antes. Uma trabalheira, uma confusão, ainda bem que você é um ser humano calmo, controlado, razoável. Tá, vai pro secador. Ai, Deus, tá esquisita essa escova. Vira as pontas para baixo. Não, enrola para cima. Calma, nada de pânico. Prende assim, a parte de cima para trás, isso. Passável. Maquiagem. Pelo amor de Deus, cuidado com o olho, você sai de vez em quando parecendo a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Não carrega. Isso. Batonzinho básico. Rímel levinho, tá ótima. Atende o telefone sem bagunçar o cabelo, faz favor.
- Alô?… é ela… oi!… oi, tudo e você?… ah, não?… puxa… não, tudo bem, o que aconteceu?… é mesmo?… coitada… sei… que coisa… é assim mesmo, doença é fogo… coitada… foi repentino, não?… é sim, que coisa… eu? não, imagina… não, para mim tudo bem… mesmo… de verdade… claro que sim, e para falar a verdade, para mim é até melhor… é… fechei o ambulatório só agora, viu que tarde?… então… o Doutor Coelho ficou enrolando, fazendo relatório, um inferno… é… achei que ele não ia embora nunca… então… e eu estou morrendo de dor de cabeça… sei… é, foi um dia puxado para mim também… então… eu ia mesmo ligar para avisar você… ia pedir para a gente marcar num outro dia… juro… pois é, viu que coincidência?… eu estava aqui na cama sem coragem nem de tomar banho, acredita?… então… isso, a gente marca… tá?… tá querido, claro, outro para você, estimo melhoras a ela, viu? Outro. Tchau.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/01/2010 - 18:54

Lourdes

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A Lourdes queria ir. O Almeida não queria não. A Lourdes falou que ia estar animado, colorido, ia até ter grupo de pagode. O Almeida falou que ia estar cheio, sem lugar para estacionar, barulhento e bagunçado. A Lourdes disse que tudo bem. Ela iria sozinha. O Almeida berrou que sozinha ela não ia para droga de lugar nenhum. Quando a Lourdes começou a chorar, ele lembrou a ela, sem berrar, que de mais a mais o coração dele estava falhando e que o médico tinha dito que ele não podia se estressar, lembra? Era a chantagem suprema. A Lourdes disse que tudo bem, e eles ficaram em casa. No meio da tarde, os dois assistindo o Gugu, o Almeida teve um ataque. Coração. Chegou ao pronto socorro morto. O enterro foi no dia seguinte. A Lourdes não chorou uma lágrima.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/01/2010 - 11:49

27 anos

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Uma mulher de 27 anos se considera, tecnicamente, com 30. O que quer dizer que nem o desgosto da vovó, nem o que os vizinhos vão pensar, nem um remoto príncipe encantado (para quem a virtude é qualidade fundamental para uma moçoila casadoira), importam muito. Aos trinta, ou quase trinta, poucas coisas importam. O tal relógio biológico, real ou imaginário, começa a provocar seus nervos, sua prima três anos mais nova e dois bebês à sua frente começa a irritar você sem motivo aparente e você começa a preocupar amigos e circunstantes. Portanto, o que estava  matando a Laura Emília naquela possibilidade de gravidez, não era nenhum destes fantasmas. Nem mesmo seu preocupado pai recebendo a notícia a paralisava (pelo menos não muito). O que estava matando a Lau era o pai do possível neném. Não, não como ele reagiria. Mas, meu Deus do céu, quem era o pai dele. Uma cuidadosa consulta à sua confusa agenda, um emaranhado de frases soltas, gráficos exóticos, letras de músicas escritas com lápis de sobrancelha, desenhos e anotações estranhas (o que seria XX#8-B?), revelou que, ao contrário do que ela temia, os possíveis doadores de material genético eram dois e não três. Sim, porque até então, Laura Emília estava na dúvida entre três rapazes doces e maravilhosos. Dois deles aliás, doce e maravilhosamente casados. Enfim, a consulta garantiu que um deles estava fora do circuito. Um alívio pequeno, senhoras e senhores do júri, mas ainda assim um alívio, podem acreditar. Ela já tinha todo um discurso preparado no bolso do colete, que escrevera entre uma crise de choro e outra, enquanto se amaldiçoava por ser tão burra e irresponsável. Ia informar aos dois adoráveis possíveis pais que eles teriam, em poucos meses, um exame de DNA para fazer.
Mas vai daí que, com nove dias angustiantes de atraso, tudo se resolveu. Ironicamente, aquela manchinha vermelha não a deixou tão aliviada quanto era de se esperar. Ela chorou e não era só de alívio. Mas Laura Emília tinha quase trinta. Sabia porque estava chorando.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
01/01/2010 - 14:07

Ano novo de novo

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Eu sei. Vai começar um ano-novo e você está aí, prenhe de boas intenções. Você vai isto, você vai aquilo. Ah, meu bem. Não vai, não. Lá no fundo, você sabe. Eu sei aqui, no raso. A gente não vai, coisa nenhuma. A gente faz essas listas longas que aplacam nossas consciências, mas que não adiantam para nada. Este ano vamos tentar algo diferente? Vamos fazer uma lista de nãos. As coisas que nós não vamos fazer.

1) Em 2010, nós não vamos: parar de comprar sapatos.
Nós adoramos sapatos, amamos sapatos, veneramos sapatos. Eles são lindos, eles são maravilhosos, eles são uma felicidade. Uma mulher nunca pode ter sapatos demais. E por falar nisso, continuaremos gastando uma fortuna em maquiagem e em CD’s, pelos mesmos motivos.

2) Em 2010, nós não vamos: parar de comer besteiras.
É, não vamos não. Seja palhacitos sabor camarão silvestre; leite condensado mamado na lata; macarrão instantâneo sabor picanha de mamute; chocolate em barra com recheio de chocolate, cobertura de chocolate e polvilhado com chocolate; arroz na madrugada, banhado na manteiga de garrafa e coroado com um ovo frito ou sorvete de mariola, a verdade é que nós amamos bobagens e vamos continuar a comê-las até o dia do Juízo Final. Que, do jeito que comemos tralha, pode chegar mais rápido do que esperamos.

3) Em 2010, nós não vamos: fazer academia. Eu sei, você sabe, rápido pro próximo tópico.

4) Em 2009, nós não vamos: parar de falar palavrão.
É, não vamos. Vamos continuar com essas bocas imundas, assustando nossas avós, as mães de nossos namorados e servindo de mau exemplo para os filhos chatos dos amigos mais chatos ainda.

5) Em 2010, nós não vamos: emagrecer.
Caras, não sejamos cínicos, ninguém emagrece comendo palhacitos sabor camarão silvestre.

6) Em 2010, nós não vamos: ser mais sociáveis.
Nem ferrando. Nós detestamos as pessoas, elas nos chateiam, incomodam, falam bobagem e não entendem nossas piadas. Nós não vamos conviver com elas, de jeito nenhum.

7) Em 2010, nós não vamos: parar de fumar.
É, cigarro faz mal, cigarro mata e nós não vamos parar, mesmo com um monte de gente boazinha e bem intencionada se metendo em nossas vidas, como se direito tivesse. Nós amamos a nicotina enchendo cada buraco do nosso cérebro de queijo suíço e fazendo nossos (poucos) neurônios (no meu caso são dois: Antão e Peixoto) suspirarem de prazer. Empresta seu isqueiro?

8 ) Em 2010, nós não vamos: poupar 30% do que ganhamos.
Você deve estar de brincadeira. E com o que nós vamos comprar sapatos?

9) Em 2010, nós não vamos: parar de ver tevê.
Claro que não. Queremos que a “máquina de fazer doido” (saudades de Stanislaw Ponte Preta) ocupe cada espacinho de nossas mentes que a nicotina não alcançou, e nos impeça de pensar para todo o sempre, amém.

10) Em 2010, nós não vamos: ser mais organizados.
Não nos enganemos. Nossas chaves continuarão a sumir, nossos guarda-roupas continuarão uma passagem para a quinta dimensão, nossas mesas de trabalho continuarão o caos. E a conta de luz? Será paga com atraso, como sempre.

E assim, com essa lista pregada em nossos quadros de avisos, quem sabe consigamos nos concentrar em uma, duas coisas realmente importantes e assim, talvez, mudá-las, ou cumpri-las, ou torná-las realidade em nossas vidas?

Ah, Deus. Quem é que estamos enganando?

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/12/2009 - 06:59

O museu

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Tenho trinta e oito anos e estou sozinho numa casa que já foi minha. Bom, talvez ela ainda seja minha, eu nem sei mais. Estou só e preciso falar com alguém. Com qualquer um, nem que seja com você, meu “Querido Diário”.
Querido Diário hoje eu acordei e sinto que estou perdendo a razão. A Esther e as crianças foram embora há três semanas e eu fiquei aqui sozinho, enlouquecendo lentamente.
É um bom começo para um diário. Minha filha mais velha tem um. Mas ela foi embora. Minhas duas filhas, meu filho e minha mulher. Voltaram todos para Israel. Para a casa da mãe da Esther. “Minha terra”, a Esther dizia. “Vou voltar para a minha terra”. Ela ameaçou tanto, durante tanto tempo. Eu nunca acreditei. Mas ela foi mesmo.
Quando nos conhecemos eu era um garoto. Fui para Israel fazer o serviço militar. Foi lá que eu a conheci, a filha do rabino. A menina mais bonita de Jerusalém, de Israel, do mundo.
Durante três anos frequentei aquela sinagoga com assiduidade. Minha mãe, quando recebeu uma carta da minha tia, falando do meu súbito interesse religioso, contou para o meu pai, que me ligou às gargalhadas para perguntar o que eu estava aprontando. Riu quando soube da minha paixão pela filha do rabino. Minha mãe não riu tanto. Ela pode não ser religiosa, mas é uma boa mãe judia, preocupada com o casamento dos rebentos. Durante meses fez preleções e profecias sobre o quanto éramos diferentes e o quanto ia dar errado. Claro que eu não quis ouvir. Disse-lhe que ela era uma mãe judia ciumenta e segui com a minha vida.
Até que um dia… um dia a Ester olhou para mim. Olhou só não, sorriu também. E veio falar comigo. E eu nunca mais vi ninguém na minha frente. Tudo para mim começava e terminava naquela mulher. Eu não tinha nenhum plano que não a incluísse, que não a envolvesse.
Olho à minha volta agora e vejoos objetos, grandes e pequenos, que compunham a nossa casa, o nosso lar. Todos comprados por nós dois, um a um, devagarinho. Ela não levou quase nada. Deixou suas coisas para trás. Eu fiquei para trás também.
É tortura ficar nesta casa, eu bem sei. E eu me angustio e me entristeço e me maltrato aqui. Mas eu vivi nesta casa doze anos, Querido Diário, aonde mais eu poderia ir agora? Meus filhos aprenderam a andar aqui. Para o primeiro dia de escola, cada um deles saiu daqui. Esse é o único lugar que sei chamar de casa. Todas as nossas coisas estão aqui. Não. Todas as minhas coisas estão aqui.
Querido Diário, eu ando pela casa e a ouço estalar. Vejo as camadas de pó em cima dos móveis, mas não tenho coragem de chamar ninguém para limpar. A primeira coisa que fiz, depois que eles foram embora, foi despedir a faxineira. Não tomo nenhuma providência para mudar as coisas por aqui. Tudo está exatamente como eles deixaram. Os brinquedos. As roupinhas espalhadas. A camisola com a qual minha mulher dormiu na última noite e que não levou por estar muito velha. As toalhas em cima das camas das crianças. Tudo igual. Minha mãe veio aqui no sábado. “Eles foram embora há semanas, você vai ficar vivendo nesse buraco para sempre?”. Expliquei que não era um buraco, que era a minha casa e que ela não tinha nada a ver com isso. Ela sacudiu a cabeça e foi embora. Mas eu sei que ela vai voltar. Munida de baldes, esfregões e boas intenções. Mas eu não vou deixá-la entrar, eu não posso, você me entende, Querido Diário? Nada pode mudar, nada pode sair do lugar em que está. Nenhuma lembrança pode mudar. Se algo assim acontecer, perco minhas crianças para sempre. Perco meu passado, perco minha história
Eu enlouqueço, Querido Diário, enlouqueço e falo com você. Saio para o trabalho cedo, como na rua, e volto no mesmo horário que voltava antes. E ouço suas vozes e suas risadas, seus gritinhos mesmo antes de abrir a porta. Como sempre foi. A TV e o rádio ligados ao mesmo tempo, minha menina mais velha andando para lá e para cá falando no telefone sem fio, os gritos, o “Paiê! Vem cá!” Eu ouço tudo isso, Querido Diário, e que Deus me ajude, estou prestes a responder.
Quase tenho medo de mim mesmo. E se não fossem os fantasmas, as sombras, as lembranças e as visitas esporádicas de minha preocupada mãe, eu estaria só. Estou quase só, portanto. Quase assustado. E certamente, quase maluco. Ouvindo vozes. Tendo edificantes relacionamentos com pratos sujos na pia e profundas conversas com folhas de papel.
Vago pela casa que foi nossa, onde vejo agora, toda minha história exposta, catalogada, explicada. Como num museu. Meu museu particular. O museu da minha vida.
Vago pelo meu museu, tropeço em cabelinhos de bonecos playmobil, quase perco a unha do dedão num velocípede velho. Ando pela casa e meus lamentos de dor, de saudades, de medo, ficam presos nas paredes. O museu fecha, todos vão embora e um único fantasma, patético e trapalhão, fica de zelador, guardando os ursos de pelúcia e as bonecas, os vídeo-games e as bicicletas, que serão todos substituídos por novos, num novo país, por um novo papai. Esse fantasma guarda o front, junta seus pedaços e sente pena de si mesmo. E, para o que mais me incomodava, Querido Diário, eu arrumei solução. Incomodava muito só poder abraçar meus filhos nos meus sonhos, sabe? Porque eu só durmo umas poucas horas de cada vez. Mas para isso arrumei solução. Comprei algumas dessas pílulas branquinhas. Elas me fazem dormir e sonhar com minha família. E em sonhos eu não só os ouço como os abraço também. Então esta noite vou me deitar com minhas pílulas e meus fantasmas. E vou dormir. Vou sonhar. Amanhã o museu vai estar fechado para visitação.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/12/2009 - 21:01

Flora

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Às vezes, ela sonha com ele. Sonhou que ele colocava os braços em volta dela e ela sentia a pele dele e a respiração, o cheiro. Era um sonho de cinema, eles corriam pela praia, os cabelos perfeitos; e tomavam sorvete na mesma taça, e se embrulhavam na frente da lareira, e riam. E ela sabia, no sonho, que, de alguma forma, eles ficariam juntos. Sempre. Acordada, além de se lembrar do sonho, ela se espanta em constatar como é brega, mesmo dormindo, mas, e daí, foi um sonho lindo. E ela acordou tão pequena, tão infeliz, que besteira, mas foi assim, ela acordou infeliz porque a vida não foi exatamente o que ela queria que fosse. Três filhos, uma vida inteira, um trabalho e ela acordou de seu sonho tão real, tão quentinho, tão bom e entendeu que ama o mesmo homem há 30 anos, e que os terapeutas amadores vão todo para o diabo, se ela diz que ama, ela ama e fim de papo. Ele se levantou, fez café, mandou a tropa para a escola, ensaiou uma limpada rápida na geladeira, mas não deu tempo, e foi correndo para o escritório. Passou o dia todo infeliz e fungando, chorou um pouco no banheiro da firma, mandou e-mail para a melhor amiga, que entendeu, claro, e consolou, porque papel de amiga é este, entender e consolar: bronquinha é coisa de terapeuta, e tentar resolver é coisa de mãe. De amigo a gente só quer ombro. Ela o vê de vez em quando, na tevê; ao longo da vida ele se meteu com gabinetes e seus políticos, e ela o vê em fotos nas revistas, sorrisos, inaugurações, opiniões, debates e festas; e ela se lembra dele quando ele era um menininho. Um menininho gorducho e louro, com uma voz esquisita e bela, que cantava e dançava os jingles da tevê e a fazia rir tanto e a fazia acreditar num mundo melhor, numa vida melhor. Ela se lembra que era uma menina e já o amava, e que agora ela é uma senhora e o ama da mesma forma, e a lembrança desse amor é uma facada. Ela não quer fazer drama, não é uma sofredora profissional, ele não a quis, aliás, ela sorri com amargura, ele não a quis várias vezes e ela foi em frente,  se casou, construiu uma casa – duas, se contar o sítio –, teve filhos e uma carreira, e frequenta muitas reuniões de terninho e cabelo preso, e vai à degustações de vinho e teatrinhos na escola, e ela ainda o ama. Tanto, tanto. Ele nunca deu nada a ela, ela nunca teve cartas de amor, nem lembranças, nem filhos, nem fotos na neve, ele nunca sequer a beijou, ela nunca teve e nem terá nada dele, a não ser esses sonhos reais, com sabor, com textura, com sons, esses sonhos reais que a fazem acordar desesperada e lembrar que ela ama o mesmo, o mesmo homem há 30 anos. Às vezes, ela sonha com ele.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/12/2009 - 02:05

A Valéria

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A Valéria se irritava o tempo todo com aquilo. Ela não falava nada, mas bufava bastante. A mania do Jairo de tirar o sapato em todos os lugares que eles estivessem era mesmo de dar nos nervos. Na casa dos pais dela, na casa dos pais dele, nas festas, no teatro, para dirigir, lá estava o Jairo com os pezões de fora. Ele nem tentava se justificar. “Eu gosto e pronto”. Naquela noite no Belas Artes, quando o filme acabou e o Jairo disse “Péra aí que eu vou por os sapatos”, a Val não perou nada, nem olhou para trás. Foi logo saindo do cinema, ia esperar por ele lá em baixo. O lanterninha teve que descer dois lances de escada para encontrá-la e avisá-la que o rapaz que estava com ela tinha um problema. “Um problema?”. “É, ele não consegue achar o sapato”. A Val subiu, puta. Ela, o solícito lanterninha, o Jairo (que ela chama de “aquele bestalhão” quando conta a história) e o gerente deram uma busca e apreensão pelo cinema atrás do tal sapato. O esquerdo. Operação Pente Fino. E nada. O sapato tinha evaporado. “Alguém pode ter calçado por engano. Tem muita gente que tira os sapatos no cinema”, comentou o gerente. Ele quase que fala “malucos” ao invés de “gente”, mas se conteve a tempo. “Mas então, devia ter o sapato que o cara não calçou aqui!”, respondeu o Jairo. A lógica desse argumento era irrefutável. E o Jairo teve que sair do cinema com um sapato a menos. Aliás, um sapato a menos na mão, porque, quando a Val viu que o plano dele era sair com um pé calçado e um descalço, bloqueou na hora. Obrigou o Jairo a sair com o sapato sobrevivente na mão. Claro que no dia seguinte ela mandou um moto-boy até a firma dele, devolver a aliança de noivado. E não atende mais os telefonemas do Jairo, de jeito nenhum.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/12/2009 - 12:45

Moda fashion

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“ Se eu achei os desfiles legais? Ah, achei sim. Tinha muita… muita roupa, né? Nesse lance todo de moda rola sempre muita roupa, nesses lances assim. Achei bárbaro, né? Adoro quando tem esses mega-eventos de moda fashion, né?  Porque aí junta todas as coleções de todas as griffes num lugar só, né? E a gente assiste tudo junto. Dá um pouco de zoeira na cabeça toda essa informação de uma vez só, mas é legal. E só depois que a gente vai tentar entender que-que rolou, né? Sei lá, eu acho básico isso. Tipo assim… ficar 12 horas vendo um desfile atrás do outro. Se cansa? Não, cara, não cansa, é o mó legal. É uma super oportunidade, né? Para gente que vai se lançar é básico. E eu? Bom, eu tou assim, num lance muito meu, né? Acho que como estudante de moda, eu tenho que investir no… sei lá… no novo, né? Que tá aí, ó, rolando. Para marcar, né? Por isso essa parka de papel celofane, sacou? É a minha cara.”
Mirella Sampaio, 23, estudante de moda.

“Minha coleção? Bom, eu construí minhas roupas de verão assim, basicamente com tecidos transpirantes, entendeu? Porque é verão, entendeu? Quer dizer, não é verão, mas vai ser verão, entendeu? E verão, é calor, faz mais calor, lógico. A gente se mexe e transpira e Deus me livre, tem gente que até sua! É assim, aquela história de ação e reação, ainda mais no Brasil, entendeu? País tropical, aquele negócio. Ah, e as roupas? Então, é isso. Roupas de verão.”
Wanderley A. Bisneto, 43, estilista da griffe “Poder Atômico”.

“Quem não é do ramo pode até achar que isso aqui que eu tô usando é uma mistureba sem sentido e sem critério, mas o povinho da moda sabe muito bem do que eu tou falando. Isso aqui, benzinho, é atitude fashion, é tendência. Daqui uns 10 anos, quando tiver o povo todo da novela das oito usando boina lilás, kilt e sandália de dedos, a Glorinha Kalil vai dizer “Olha lá. E foi o João Henrique que começou!”
João Henrique Mattoso, 28, ator performático desempregado (“Mas com uns lances em vista, viu? O Antunes garantiu.” )

“Eu sou socialite, tá? Essa é minha base. Essa é minha definição. E eu tou ligada, tá? Antenada. Sei o que é up e o que não é. E eu quero estar o tempo todo bonita, chique, fashion mesmo, tá? Mas sem perder a minha identidade, né, minha identidade é tudo. Então, eu viajo nesses desfiles fashion, percebo as tendências mais importantes de cada coleção e adapto tudo ao meu jeito de ser, meu jeito de vida, sei lá, meu eu, né? É assim, uma espécie de Rosaninha Style. Então, o resultado se nota no meu look, nesse tênis de plataforma de lona vermelha, nessa pantalona de lamê, que lamê de dia agora tem tudo a ver, essa camisa cópia fiel do Versace e esse coletinho de crochê básico, que minha avó fez lá em Poços de Caldas e mandou para mim. Tá?”
Rosaninha Assumpção, não declara a idade, socialite. (“Não esquece do p mudo do Assumpção!”)

“Minha coleção de verão, esse ano, é uma tentativa de chegar ali, no eu absoluto de cada um. Coisa assim de moda-integração mesmo. Eu acho isso super-importante. Eu pego a moda da tribo, traduzo, decifro e devolvo para a própria tribo, tipo assim… mostrando para a tal tribo o que realmente ela quer, mesmo que ela não saiba. Às vezes as pessoas não sabem o que querem realmente. Então, eu ensino para elas o que elas gostariam de ter, de ser , e porque não, de vestir. É isso que eu faço. Reciclo o inconsciente coletivo, boto na passarela e chamo a atenção. Vender ? Não imagina, e quem é que ia usar uma coisa dessas? Eu ganho dinheiro mesmo vendendo jeans.”
Paolo Estênio, 54, dono da estilista e dono da griffe “Chica-Chica-Bum”

“Não quero causar polêmica, não estou aqui para magoar ninguém, mas o desleixo do pessoal aqui do Brasil é constrangedor. Eu nunca vi tanta gente feia, bagunçada e largada junta em toda a minha vida. Uma jagunçada pavorosa. Isso aqui parece o baile à fantasia da Família Adams. Os modelitos das coleções já são pavorosos, mas os da platéia… faça-me o favor. Ninguém de terno, ninguém de gravata, isso aqui parece final Ferroviário X Bragantino. Francamente! Onde está o glamour, onde está o party-look, onde está o aplomb desse povo? O que é isso, minha gente? Graças a Deus, eu moro em Miami. Miami é primeiro mundo, as pessoas se vestem como devem se vestir. Achei tudo um pavor.”
Hugo Araújo, 48, decorador.

“Pois é, todo mundo aí, na trilha dessa garotada, com uma tendência “não-usável” que eu, pessoalmente, considero bárbara. Para a passarela não tem coisa melhor! É super básico, super simples, super despojado. Esse lance de não dar para usar essas roupetas é genial, porque deixa o estilista mais leve, mais livre, mais solto, para pirar, viajar, criar, com seus próprios sentimentos. E daí que ninguém compra? Ninguém está comprando nada mesmo, meu amor, a crise é mundial!”
Fernanda Magalhães, 35, consultora de moda.

“Eu sinto isso tudo assim, tipo um barato cósmico, entendeu, linda? Porque o que a gente vê aqui é só o invólucro. Você vai para um novo plano, para uma viagem astral superior e nessa viagem você não vai precisar de roupa, não. Aliás, você não vai precisar nem de corpo. É isso que importa. Então aqui, a gente está só para curtir, para deixar rolar esse clima bárbaro de companheirismo, amizade e troca profunda a nível de ser humano. Nada que é material tem valor, porque tudo passa, caixão não tem gaveta, não é mesmo? Ah, falando nisso, eu te dei o cartão da minha confecção? Recebemos uns tecidos novos chiquérrimos!”
Marília Gomes, 49, dona de confecção.

“Estou adorando ver os desfiles. Todos lindos, poderosos, um luxo. Claro que o meu desfile se destacou, mas meu amor, você queria o quê? Eu tenho oito meses de Paris na bagagem cultural! Fiz a coleção assim, numa estética fashion baseada nesse lances de cores, partindo do princípio que, assim como o branco e o preto, o turquesa e o abóbora conversam legal, têm uma sintonia fina. Com essa base das cores, meu sportwear entra num momento dance, assim, tipo Ibiza.”
Cacá Louis, 36, estilista da griffe “Cacá Louis”.

“Olha, eu particularmente, senti os desfiles esse ano muito assim…deixa eu capturar uma palavra que você entenda… muito “respiração”, fui claro? Quer dizer, uma manobra assim, de dentro para fora e de fora para dentro, fui claro? Essa é a real interação moda-arte, minha filha. É aí que você realmente percebe o desenvolvimento da singularidade do indivíduo criador. Sim, porque na real, somos todos criadores, fui claro? Tem tudo a ver com essa ecologia básica de desejo, de verdade, de entrega, de encontro. O fashion-creator de hoje tem a obrigação de resgatar a escolha das conexões, de expandir a vitalidade contida, de restaurar a visão do eu abalado.”
Camilo Estevão, 33, hair-stylist. ( “Não vá dizer que eu sou cabeleleiro, heim?”)

“Olha, meu filho, eu não sei não. Eu sou paga por mês, pelos donos aqui da firma. Quando tem uma coisa assim feito essa, que eles chamam de evento, que dura muitos dias seguidinhos, eu nem volto para minha casa, porque eu moro em Ermelino Matarazzo. Ah, é bom, né, uns meninos animados, com os cabelos coloridos, eu acho bonito. Não, imagina, eu tiro minhas roupas no crediário da minha filha, isso aí eu nunca ia ter coragem de usar. Meu velho me mata, sabe como que é, né? Mas é, é legal, sim. Eu só prefiro quando é congresso de médico. Ah, não sei, são uns moços mais bonitos, tudo doutor, né? E eles sempre me dão umas amostras grátis de remédio.”
Lourdes Maria, 41, faxineira do evento.

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14/12/2009 - 20:24

Tereza

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Nesse exato momento, eu quero um chá gelado, unhas mais grossas e coragem, muita coragem. Amanhã, talvez, eu queira dinheiro para pagar a conta da conexão banda larga e guias para uns exames, mas agora eu quero mesmo é um vestido que mostre meus peitos e uma meia que não desfie. Quero dias mais longos e um namorado secreto, uma chapinha perpétua e um nariz novo. Cílios postiços? Não é má idéia. E, já que falamos nisso, uma pintinha bem aqui. Quero mais cultura geral, para poder discorrer sobre o pai de Luiz, o Grande, e sobre os afluentes do rio Amazonas. Quero uma aula instantânea de postura, saber andar com um livro equilibrado na cabeça. Quero andar com um revisor sempre de prontidão, como a Madonna andava com aquela maquiadora. Quero dormir mais cedo, acordar mais tarde, comer mais carboidratos e mais brigadeiro. Quero som, luz e fúria, e morar num prédio com manobrista. Quero ter mais ilusões, muitas, muitas, quero acreditar em tudo, cair em mim e luxar a alma

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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