“ Se eu achei os desfiles legais? Ah, achei sim. Tinha muita… muita roupa, né? Nesse lance todo de moda rola sempre muita roupa, nesses lances assim. Achei bárbaro, né? Adoro quando tem esses mega-eventos de moda fashion, né? Porque aí junta todas as coleções de todas as griffes num lugar só, né? E a gente assiste tudo junto. Dá um pouco de zoeira na cabeça toda essa informação de uma vez só, mas é legal. E só depois que a gente vai tentar entender que-que rolou, né? Sei lá, eu acho básico isso. Tipo assim… ficar 12 horas vendo um desfile atrás do outro. Se cansa? Não, cara, não cansa, é o mó legal. É uma super oportunidade, né? Para gente que vai se lançar é básico. E eu? Bom, eu tou assim, num lance muito meu, né? Acho que como estudante de moda, eu tenho que investir no… sei lá… no novo, né? Que tá aí, ó, rolando. Para marcar, né? Por isso essa parka de papel celofane, sacou? É a minha cara.”
Mirella Sampaio, 23, estudante de moda.
“Minha coleção? Bom, eu construí minhas roupas de verão assim, basicamente com tecidos transpirantes, entendeu? Porque é verão, entendeu? Quer dizer, não é verão, mas vai ser verão, entendeu? E verão, é calor, faz mais calor, lógico. A gente se mexe e transpira e Deus me livre, tem gente que até sua! É assim, aquela história de ação e reação, ainda mais no Brasil, entendeu? País tropical, aquele negócio. Ah, e as roupas? Então, é isso. Roupas de verão.”
Wanderley A. Bisneto, 43, estilista da griffe “Poder Atômico”.
“Quem não é do ramo pode até achar que isso aqui que eu tô usando é uma mistureba sem sentido e sem critério, mas o povinho da moda sabe muito bem do que eu tou falando. Isso aqui, benzinho, é atitude fashion, é tendência. Daqui uns 10 anos, quando tiver o povo todo da novela das oito usando boina lilás, kilt e sandália de dedos, a Glorinha Kalil vai dizer “Olha lá. E foi o João Henrique que começou!”
João Henrique Mattoso, 28, ator performático desempregado (“Mas com uns lances em vista, viu? O Antunes garantiu.” )
“Eu sou socialite, tá? Essa é minha base. Essa é minha definição. E eu tou ligada, tá? Antenada. Sei o que é up e o que não é. E eu quero estar o tempo todo bonita, chique, fashion mesmo, tá? Mas sem perder a minha identidade, né, minha identidade é tudo. Então, eu viajo nesses desfiles fashion, percebo as tendências mais importantes de cada coleção e adapto tudo ao meu jeito de ser, meu jeito de vida, sei lá, meu eu, né? É assim, uma espécie de Rosaninha Style. Então, o resultado se nota no meu look, nesse tênis de plataforma de lona vermelha, nessa pantalona de lamê, que lamê de dia agora tem tudo a ver, essa camisa cópia fiel do Versace e esse coletinho de crochê básico, que minha avó fez lá em Poços de Caldas e mandou para mim. Tá?”
Rosaninha Assumpção, não declara a idade, socialite. (“Não esquece do p mudo do Assumpção!”)
“Minha coleção de verão, esse ano, é uma tentativa de chegar ali, no eu absoluto de cada um. Coisa assim de moda-integração mesmo. Eu acho isso super-importante. Eu pego a moda da tribo, traduzo, decifro e devolvo para a própria tribo, tipo assim… mostrando para a tal tribo o que realmente ela quer, mesmo que ela não saiba. Às vezes as pessoas não sabem o que querem realmente. Então, eu ensino para elas o que elas gostariam de ter, de ser , e porque não, de vestir. É isso que eu faço. Reciclo o inconsciente coletivo, boto na passarela e chamo a atenção. Vender ? Não imagina, e quem é que ia usar uma coisa dessas? Eu ganho dinheiro mesmo vendendo jeans.”
Paolo Estênio, 54, dono da estilista e dono da griffe “Chica-Chica-Bum”
“Não quero causar polêmica, não estou aqui para magoar ninguém, mas o desleixo do pessoal aqui do Brasil é constrangedor. Eu nunca vi tanta gente feia, bagunçada e largada junta em toda a minha vida. Uma jagunçada pavorosa. Isso aqui parece o baile à fantasia da Família Adams. Os modelitos das coleções já são pavorosos, mas os da platéia… faça-me o favor. Ninguém de terno, ninguém de gravata, isso aqui parece final Ferroviário X Bragantino. Francamente! Onde está o glamour, onde está o party-look, onde está o aplomb desse povo? O que é isso, minha gente? Graças a Deus, eu moro em Miami. Miami é primeiro mundo, as pessoas se vestem como devem se vestir. Achei tudo um pavor.”
Hugo Araújo, 48, decorador.
“Pois é, todo mundo aí, na trilha dessa garotada, com uma tendência “não-usável” que eu, pessoalmente, considero bárbara. Para a passarela não tem coisa melhor! É super básico, super simples, super despojado. Esse lance de não dar para usar essas roupetas é genial, porque deixa o estilista mais leve, mais livre, mais solto, para pirar, viajar, criar, com seus próprios sentimentos. E daí que ninguém compra? Ninguém está comprando nada mesmo, meu amor, a crise é mundial!”
Fernanda Magalhães, 35, consultora de moda.
“Eu sinto isso tudo assim, tipo um barato cósmico, entendeu, linda? Porque o que a gente vê aqui é só o invólucro. Você vai para um novo plano, para uma viagem astral superior e nessa viagem você não vai precisar de roupa, não. Aliás, você não vai precisar nem de corpo. É isso que importa. Então aqui, a gente está só para curtir, para deixar rolar esse clima bárbaro de companheirismo, amizade e troca profunda a nível de ser humano. Nada que é material tem valor, porque tudo passa, caixão não tem gaveta, não é mesmo? Ah, falando nisso, eu te dei o cartão da minha confecção? Recebemos uns tecidos novos chiquérrimos!”
Marília Gomes, 49, dona de confecção.
“Estou adorando ver os desfiles. Todos lindos, poderosos, um luxo. Claro que o meu desfile se destacou, mas meu amor, você queria o quê? Eu tenho oito meses de Paris na bagagem cultural! Fiz a coleção assim, numa estética fashion baseada nesse lances de cores, partindo do princípio que, assim como o branco e o preto, o turquesa e o abóbora conversam legal, têm uma sintonia fina. Com essa base das cores, meu sportwear entra num momento dance, assim, tipo Ibiza.”
Cacá Louis, 36, estilista da griffe “Cacá Louis”.
“Olha, eu particularmente, senti os desfiles esse ano muito assim…deixa eu capturar uma palavra que você entenda… muito “respiração”, fui claro? Quer dizer, uma manobra assim, de dentro para fora e de fora para dentro, fui claro? Essa é a real interação moda-arte, minha filha. É aí que você realmente percebe o desenvolvimento da singularidade do indivíduo criador. Sim, porque na real, somos todos criadores, fui claro? Tem tudo a ver com essa ecologia básica de desejo, de verdade, de entrega, de encontro. O fashion-creator de hoje tem a obrigação de resgatar a escolha das conexões, de expandir a vitalidade contida, de restaurar a visão do eu abalado.”
Camilo Estevão, 33, hair-stylist. ( “Não vá dizer que eu sou cabeleleiro, heim?”)
“Olha, meu filho, eu não sei não. Eu sou paga por mês, pelos donos aqui da firma. Quando tem uma coisa assim feito essa, que eles chamam de evento, que dura muitos dias seguidinhos, eu nem volto para minha casa, porque eu moro em Ermelino Matarazzo. Ah, é bom, né, uns meninos animados, com os cabelos coloridos, eu acho bonito. Não, imagina, eu tiro minhas roupas no crediário da minha filha, isso aí eu nunca ia ter coragem de usar. Meu velho me mata, sabe como que é, né? Mas é, é legal, sim. Eu só prefiro quando é congresso de médico. Ah, não sei, são uns moços mais bonitos, tudo doutor, né? E eles sempre me dão umas amostras grátis de remédio.”
Lourdes Maria, 41, faxineira do evento.