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Arquivo de fevereiro, 2010

26/02/2010 - 20:02

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Queridos, essa coluna do IG acabou. Sou imensamente grata a todo mundo que passou por aqui, especialmente a quem se deu ao trabalho de me deixar umas linhas.  Para mim, os cliques de vocês foram mais do que importantes, foram fundamentais.
Estou aqui no DROPS e no e-mail: fal.drops@gmail.com

Carinho
Fal

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/02/2010 - 19:29

Quase uma carta de amor

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Querido, estou aqui em Lisboa, pensando em você. Na sua dor, na sua solidão, na minha solidão, que a cada dia que passa é mais pesada e assustadora. Naquilo que você falou antes de eu vir para cá, lembra? Você estava tão triste quando nos despedimos. Triste, cansado, sozinho. Contou do seu stress, da sua baqueada de uns poucos dias antes. E me disse uma coisa dolorosa. Pensamos demais, você disse. E isso, antes de ser um autoelogio, bem sei, é uma crítica a nós dois. Nós pensamos demais, querido, porque ficamos com medo de sentir. Sentir dor, sentir amor, sentir rejeição, medo, ansiedade. Sentir, simplesmente. Então, para nos proteger, pensamos, racionalizamos. Criaturas inteligentes que somos, estraçalhamos toda e qualquer tentativa de aproximação com grossas paredes de certezas e definições. Mantemos qualquer um que nos queira a uma distância segura, isolado por um fosso de “nãos” e teorias (geralmente muito boas, devo admitir).
Entendi seu desabafo, sua aflição, porque eu sou igualzinha a você. Você me fala de como é arredio, da sua “babaquice”. Mas você não foi babaca, só um pouquinho medroso. Tá, vá lá, um pouquinho babaca, também. E acho que, naquela noite em especial, a solidão aí na sua sala da universidade ficou meio pesada. E você se lembrou daquela moça de vestido preto que você foi buscar no aeroporto, naquele começo de abril. Uma moça assustada, tímida e que gostava tanto de você. Acho que você se lembrou o quanto o assustou ser tão gostado, de como você fugiu e a afastou de você. Você se lembrou do seu alívio ao despachá-la para casa na segunda-feira de manhã com seu coração intocado, sua fortaleza de pé, sua vida em ordem. E talvez, só talvez, você tenha se dado conta, então, que tanto sua solidão quanto seu exílio são voluntários, você os escolheu. E pensando nisso, me senti triste. Por nós dois. No dia do nosso desembarque na Normandia, na hora H, no dia D, você mandou suas tropas de volta para casa e me deixou (desculpe, mas o trocadilho é inevitável), a ver navios. Você me mandou embora, mas eu não reclamei. Simplesmente porque eu mesma já fiz isso muitas e muitas vezes. Recuei com outros como você recuou comigo. Você não me deixou amá-lo e quando você fez isso, um “ah-ah” de reconhecimento ecoou nessa minha cabeça oca. Eu já fiz isso. Conheço esse filme e eu morro no final. Você, afinal, foi mais uma das minhas historinhas de quase amor. Seu aparente arrependimento de agora, chega até a ser engraçado. Porque eu penso, querido, que estive nos seus braços todo aquele tempo, tanto tempo, não foi? E das duas uma: ou você não me queria realmente, ou você me queria, mas não soube o que fazer comigo. E agora é muito tarde para que você descubra o que realmente aconteceu, porque eu fui embora e não volto. Tenho que deixar você aí, com suas dúvidas, seus passos incertos, sua quase vontade de ser feliz. Esse quase que nos angustia, porque quase pode ser tudo e quase pode ser nada. É uma palavra sem antônimo, sem explicações, imprecisa ao extremo e, ao mesmo tempo, irritantemente clara. Quase se explica, se basta. Nós quase ficamos juntos, quase fomos bons um para o outro. Agora, eu tenho quase a certeza de que perdemos uma grande oportunidade e você tem quase a certeza de que sua solidão poderia ser um pouco mais branda com a moça de vestido preto por perto. Esse quase que buscamos por aí e não encontramos, porque a falta é nossa. Mas, ah, Deus, já estou eu aqui, racionalizando, analisando e me distanciando. Já formulei uma teoria, expliquei seus pontos e fiz análises. E, palavra de honra, não era nada disso que eu queria. O motivo desta carta era dizer que eu não amo mais você, querido. Não como amei um dia. Descobri que quase, para mim, não é suficiente.
Mas esta carta é também para lhe dizer que existe um outro lado. Algumas coisas não podem ser mudadas, alguns sentimentos não podem ser retirados. O que significa que eu posso não amar mais você, mas o amor que foi seu um dia, vaga por aí sem rumo. Amor não é biodegradável. O amor que um dia foi seu está aí. Com você. Era isso que eu queria lhe dizer. O fantasma de tudo que poderíamos ter sido está aí, por perto de você. Ele recolhe seus suspiros. (Não é o Mário Quintana, que diz que os suspiros de um menininho que dorme são barquinhos? Vou procurar a poesia e mando para você, porque você suspira enquanto dorme). Ri um pouquinho dos seus arrependimentos e sacode a cabeça diante das suas indecisões. Esse amor fica triste quando você  finalmente vai, apaga a luz da sua sala e vai para casa, quase de madrugada, sozinho, para jantar sozinho e dormir sozinho. E quando a solidão aí na sua salinha da universidade, ou na sua casa imaculadamente limpa, doer mais do que o de costume, lembra da moça de vestido preto do aeroporto. Lembra de como ela olhava e ainda olha para você com olhos bons, generosos. Lembra do amor dela. E presta bem atenção. Você não pode estar sozinho. O amor que era para você, ela não teve como recolher porque amor não é reciclável. Ele vaga por aí. E você, querido, não tem apenas a vida que quer. Tem também a vida que merece.
Um beijo.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/02/2010 - 18:26

Não me diga mais quem é você

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E aí, leitorzinho filho de Gandhi? Tudo bem? Batendo um tamborzim?
*
Caráter não muda, senhor leitor. Você escolhe ver ou não ver, entender ou não entender, saber ou não saber. Eu escolho não saber, geralmente. E depois me acabo de chorar, claro.
*
Dizia minha doce avó, e alguém relembrou essa frase nalgum lugar recentemente, ‘Pedro quando fala de Paulo, está falando de Pedro’. Hahahahaha, é. É.
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E já que falamos de frases, minha professora de latim, dona Nair, dizia: ‘cada um dá o que tem’. Racionalizar é viver, é o que eu sempre digo.
*
Ah, eu, eu e minha energia negativa. :o )))
*
Ah, imersa em recuerdos madrileños, lembrando coisas pra minha querida Ana que vai pra lá. Uma cidade espetacular, bons cafés, avenidas largas, museus divinais.  A última vez que estive lá foi com meu pai, que sentado num café pertinho da Plaza Santa Ana, botou um holiúde contrabandeado na boca e, quando me inclinei pra acender pra ele, disse bem baixinho “ainda bem que eu vim ver Madrid antes de morrer”. Ele só iria morrer quatro anos depois, mas eu entendo exatamente como ele se sentiu. Eu também espero poder voltar a Madrid (e a Lisboa) uma última vez. Ah, por onde anda aquele mecenas, Luci?
*
 Nós fomos ao Prado uma última vez, e vimos as pinturas negras do Goya de mãos dadas e vimos Las Meninas abraçados, e nessa hora ele me disse, Ana, que quando perguntado sobre quem eram os grandes mestres da pintura, Goya respondeu “Velázquez, Rembrandt y la naturaleza”. :o ))
*
Ele não era nada fácil, mas era dono das cidades, de muitas delas, de Madrid inclusive, e dizia que o amor por Madrid nos faz sempre moços, sempre belos e sempre atentos.
*
Baco e sua atração assassina e doida por cães maiores que ele. Hoje tinha solto na rua um labrador amarelo, lindo, lindo, a sorte é que geralmente esses cães são uns bocós. O cretino foi pra cima parecendo um maluco. Um dia a gente ainda vai se foder no meio da rua. E o engraçado é que da cachorrinha gordinha e maluquinha aqui da vizinha do lado, a Célia dos gatos (não confundir com a Célia da minha mãe), que é uma cãzinha fofa, petitica e meiga, que só quer brincar e que usa capinha cor de rosa no inverno, o cretino tem pavor. É um bocoioba, deus me livre. A dona do labradorzão (ele se chama Acácio) é uma menina duns 20 anos, linda e ótema de mal humorada, que fica sentada num degrau duma da Joaquim Nabuco, enquanto o cachorro dela corre que nem um debilóide no meio da avenida. Ela mora pra cimão (no lado podre de rico do Beco, enquanto que nós moramos abaixão, leitor, na parte bem pobre) e disse que era a primeira vez que ela andava com o cachorro dela ali na Joaquim Nabuco e tão cedo. Geralmente ela anda na rua dela e lá pelas 10 da manhã e parecia beeeem brava de estar na rua às cinco e pouco da madrugada.
- E porque você veio tão cedim andar com seu cachorro hoje, Camila?
- Ah, porque eu tou virada do baile.
:o ))
No fim de tudo, amarrei esse meu cachorro insuportável numa árvore pra poder beijocar e estapear o Acácio em paz. Cachorro mais lindo do mundo, lamentei não tar coa máquina.
*
Um abraço especial ao Endrigo e a todos os usuários da maravilhosa lan do Cebola, nossos leitores diletos, e ao próprio Cebola, que tem os melhores computadores do Rio de Janeiro, a internet mais rápida, os preços mais camaradas e as cadeiras mais macias.
*
Não me diga mais quem é você, leitor. Não porque amanhã tudo volta ao normal, mas porque a ignorância é uma benção. Eu também não vou dizer.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/02/2010 - 23:05

Ana Terra

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Acontece que eu não gostava da Ana Terra. Sim, Ana Terra, a matriarca da maravilhosa trilogia de Erico Verissimo, O tempo e o vento. Ganhei o primeiro volume de O tempo e o vento aos doze anos. Dado por uma mãe que não tinha nenhuma fé religiosa, cujas crenças políticas começavam a desbotar e que só acreditava, de coração, na salvação através da arte.

Essa era uma mãe que lia para os filhos O apanhador no campo de centeio e Mulherzinhas. Eu devia ter uns nove anos e meu irmãozinho Pedrão, uns sete. Pouco depois, nossa hora de dormir começava com Rumo à estação Finlândia. Yeah.
A filosofia da velha era simples e, passados trinta anos (trinta anos, mamãe) ainda acho certíssima: se eles não gostarem é porque não estão prontos. Então, ela lia. Ou nos dava para ler. Se a gente não gostava, ela não obrigava, ela dava outro livro, até acertar. Isso aliado ao seu colo macio – disponível quase que exclusivamente na hora da leitura – e aliado ao fato de livros serem encarados como privilégio a ser conquistado além casa, criou dois leitores dementes, ávidos, furiosos, arrombadores de cartão de crédito em livrarias e sebos vida afora, para todo o sempre, amém.

Mas, opa, tergiversei.

Enfim, ganhei O tempo e o vento e comecei a ler.

E detestei. Não entendi nada daquele começo, do Liroca na torre. Depois veio a parte dos padres, da Missão, aquilo me deu no saco. E depois veio a Ana Terra. Eu tinha era nojo da Ana Terra. Nojo. A Ana Terra virou o símbolo máximo de toda a opressão que eu, mártir da causa, sofria daquela mãe déspota e autoritária. Ai, adolescente é um saco, meu bom Deus.

Mas os anos passaram, fiquei mais velha e – cof cof cof – mais sábia.

E, num momento de ócio, peguei no O tempo e o vento. Pra nunca mais largar. Nunca mais.

E o que foi que eu mais amei?

Sim, a Ana Terra. E o Capitão Rodrigo e a velha Bibiana e mais ainda, o Toríbio.

Mas antes e além, como sempre fiz, amei o narrador, o cara que torna a história possível para mim.
Tudo nesta vida começa pelo narrador. O narrador traz todo o mundo psicológico da Ana pro leitor, assim, de bandeja. Seus gostos e seus medos, a secura e a doçura dos seus pensamentos, tudo que ela quer, tudo que ela teme. No último livro da trilogia a gente entende o porquê do carinho do narrador com todo mundo do livro, mas a esta altura a gente só comove com o gostar que ele tem. Esse narrador do Verissimo ama todas as personagens, mesmo as más, mesmo as que erram. E é tão lindo ver como o narrador ama a Ana e entende a Ana e o pai da Ana e a mãe dela. O narrador entende o lado de todo mundo e torce por todo mundo, sem ficar dividido ou ser dúbio em nenhum momento.

É um dos mais maravilhosos narradores da história da literatura, de todos os tempos, em todos os lugares. O narrador do O tempo e o vento pega a todos, autor, personagens e leitores pela mão, e pela mão ele nos leva pra lá e pra cá, como um amigo que na hora da aflição ou da dor te diz ‘Vamos fumar lá fora?’. O narrador do Verissimo vive me levando para fumar lá fora.

A descrição que ele faz do lugar, das coisas e das gentes é deliciosa.

Ele descreve o lugar e você que ir para lá. Já. ‘Por favor’, diz você para o narrador, ‘me leva daqui’.  A rudeza do lugar só se equipara à beleza do lugar, os verdes do Veríssimo me invadem desde sempre, as pedras, o riacho, a Ana lavando a roupa e cantando, a água limpinha, gelada, onde ela pode se olhar e se perguntar se é bonita, se é bonita. Você se encanta pelas pessoas, por sua rudeza, por sua força, pela coragem que cada um deles têm, por essa força que só um clã pode trazer. Os Terra permanecem juntos, trabalham juntos, vivem aquela vida dura e incerta juntos e juntos cuidam uns dos outros.

E isso é extremamente atraente para nós, que mesmo na década de 40, ou principalmente lá (afinal a Segunda Guerra tinha acabado e só deus poderia saber que espécie de horror nos esperava então… Ainda que não exatamente em nossas casas, a mudança estava no ar, como sempre está quando uma guerra acaba… As guerras, mesmo as psicológicas, mudam nosso mundo – vencedores ou vencidos – todas as vezes e para sempre), precisamos de segurança, dos velhos e bons valores familiares no volume máximo, pais autoritários, mamãe submissas, filhos já adultos e ainda obedientes, trabalho duro, remissão de pecados, todo mundo da cama (ou, no caso dos Terras, da esteira) para o trabalho e do trabalho para casa e aiaiai.

Não é a toa que depois da Segunda Grande Guerra vieram os anos 50, suas cinturinhas de vespa, móveis pé de palito, homens sabichões usando ternos com ombreiras enoooormes (e, se você se lembrar bem, quem usava ombreiras enormes nos anos 40 eram as mulheres, claro, os homens estavam na guerra, alguém tinha que tomar conta da casa, travestir-se tanto quanto fosse possível, com todos os símbolos da autoridade masculina… lembra, aqueles tailleurs de corte militar?) e mulheres, que ainda de cabelos curtos, tinham estrogênio em doses cavalares, exemplos de doce domesticidade. Escapismo no grau máximo, vamos pensar na vida e no mundo depois.
E já que eu estou aqui, mais uma coisa: nós já entramos na Segunda Guerra precisando desesperadamente dum escapismozim. A “guerra para acabar com todas as guerras”, a primeira Guerra Mundial, falhara miseravelmente em seu intento, estávamos em guerra, blé, outra vez… não dá pra estranhar que roliúde tenha vividos seus anos doirados durante a Segunda Guerra Mundial… há que ser muito bom em musicais para fazer todo um planeta esquecer das promessas que ele mesmo fez. Assim, entramos na Guerra ávidos por escapismo, e nos atiramos no cinema, saímos da guerra dementes por escapismo, e mergulhamos na década mais escapista, sensacional, adiadora-da-vida-lá-fora que o século XX conheceu. Que qualquer século conheceu.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
05/02/2010 - 20:07

Correio eletrônico

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Independência, Ju, até vá lá. Tudo bem. Mas morte? Não, de jeito nenhum.

Beijos, Fal

*

Amiga: Aqui em casa ele acaba comigo. Depois vai pro escritório, levantar a auto-estima das secretárias.

ass: L.

*

Ah, querida, casa-se por tantos motivos, tantas razões, para irritar o próximo, para magoar o pai, para se vingar da mãe, porque não se quer ser a “prima solteirona” no próximo Natal, porque não se tem o que fazer no sábado à noite, para atormentar o ex-noivo, para  ter do que viver, para ter filhos (como sou antiga, rárárá!). Case-se para ser feliz, querida,  por que não?

beijos, Vera

*

Mas, por mal dos pecados, ainda teve, hoje, na televisão, um especial do Paul MacCartney. Jamais entrei na deles, mas me lembro, muito bem, das avassaladoras mudanças das quais eles fizeram parte. Que fiz, internada numa biblioteca? Passei para a prateleira do lado. Nessa prateleira avistei um pedacinho da página onde estava escrito “The book is on the table”. Aí, desmaiei. Era passado demais para o meu domingo.

Abraços, Maria José.

*

Amélia, meu bem:

Não tenho medo do futuro, não temo o porvir. Não tenho medo  de ser pobre , de ficar velha, de engravidar, de morrer. Não tenho medo de perdê-la. Não tenho medo da terceira guerra mundial, do coreano maluco, de pegar  catapora, de bater no carro, de andar na chuva. Só tenho medo de mim. E de você, um pouco.

Amor, Sandra.

*

Querida M.:

Sonho com você constantemente. Você está nua, de cabelos soltos, sentada nos degraus da casa do seu pai. Nem Freud sonharia um treco desses. Melaine Klein talvez, mas o Freud? Nunquinha.

Ass: sua P.

*

Querida F., quando você, com síndrome de pânico, triste, cheia de porras pra resolver, desanimada, gorda e pobre, respira fundo, sacode os fantasmas de cima do ombro, vira pra alguém e diz cheia de energia “VAMOS PASSAR O SÁBADO NA ESTRADA?!”, porque esse alguém vive dizendo o quanto relaxa na estrada e fica feliz quando viaja, você não quer ombros caídos, cara de cu e uma vago “Hum, e aonde a gente ia?”. O que você quer, o que você precisa, no mínimo, é dum “Vamos!!!” entusiasmado.

Pensamentos sombrios pruma sexta-feira, né?

Vou voltar para a reunião.

G.

*

O que eu vejo nele, Ângela? A melhor meia hora da minha vida.

cuide-se

Fal

*

Fal, não sei se devo engolir tanto sapo pra manter aquele casamentinho com meu príncipe falido, ou semando esse sapo pra outro brejo, pra fazer companhia à vaca que já está lá.

beijos, Li.

*

Perdemos o hábito, o medo, o rumo, o trem, a noção, as chaves do carro e a vergonha, claro. Perdemos tanta coisa pelo caminho. Eu o perdi e nem me lembro onde. Ou porque. E você?

*

Minha bela Helga, dancei, flertei (olha como eu sou velha?), bebi, cantei, a noite foi divertidíssima. Comigo agora é assim, pego a dor desprevenida.

amor, sempre

Fal

*

Guriazinha querida, não consigo entender seu espanto a respeito do entusiasmo do Nelsão pela Setembrina. Queridinha, quem ama o burro, inteligente lhe parece.

Beijos da sua Inesita.

*

Nós superamos isso, meu bem. Feliz ou infelizmente.

amor

F.

*

Ângela: pensei sobre a sua pergunta. Eu ia ser uma dessas pessoas que não sabem nunca onde estão, que não ligam pro nome da rua nem pro número da casa. Eu ia amar só as pessoas que merecem meu amor. Eu nunca ia ter preguiça de raspar a perna. Eu ia ter longas unhas vermelhas e uma cinturinha de pilão, ao invés desse meu look de “cozinheira inglesa” – você sabe, gorda, relaxada e com roupas esquisitas. Eu ia ter um cavalo. Eu ia viver de escrever. E eu ia escrever cousas que deixariam todo mundo admirado com meu talento. Ia ter amigos intelectuais, que teriam conversas interessantes e que viriam à minha casa fumando cachimbos. Eu teria um pai que me amasse. Eu jamais guiaria um carro, não ia nem ter carta. Eu teria tempo. Teria mais talento e menos vocação. Teria cabelos vermelhos. Eu iria me amar mais. Eu iria ser organizada de verdade. Paciente. Eu seria uma dessas pessoas que pensam antes de fazer. Eu usaria chapéus. Saberia usar pronomes. Faria jardinagem ou teria alguma outra atividade aristocrática. Não teria medo de falar em público. Não teria pesadelos. Teria um piano na sala. Não aturaria nenhum medíocre, nunca, nunca. Só usaria salto alto. Faria bolos altos, fofos, daqueles que não solam. Acreditaria em Deus. Acreditaria num mundo melhor, num lugar melhor, numa vida melhor.

beijuca

Fal

*

Ah, Docinha, não sabes disso? Então falhei miseravelmente na tua educação. Toda delicadeza, querida, toda, é perdida.

Amor,

Rui.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
01/02/2010 - 20:53

Consultório

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Ela nem devia estar ali naquela terça-feira de manhã. O dentista dela era o Dr. Manoel. Mas sua obturação do fundo caíra durante o churrasco na casa da Nininha, no sábado. Quando ela reclamou da obturação, da dor e da viagem do Dr. Manoel justo naquela semana, o marido da Nininha pediu para a mulher anotar o telefone da Dra. Shirley num papel, que a Dra. Shirley era ótima. Por isso ela estava ali, na sala de espera da Dra. Shirley, logo cedo. Bom, talvez cedo demais, mas ela tinha ficado com medo de não ter onde estacionar o carro. A Dra. Shirley a cumprimentou e explicou que tinha dois pacientes marcados antes dela. Ela disse que tudo bem, que iria ficar ali, esperando e abriu uma revista. Um pouco depois, ele chegou. Ele sim, deveria estar ali. Ele estava fazendo um tratamento demorado, que incluía canais, obturações e coroas. Ele vinha toda semana, naquele mesmo horário. Chegou esbaforido e se queixando do trânsito. Ela ergueu os olhos da revista para comentar que desde que sua família se mudara para o Morumbi, há três anos, ela nunca mais passara por ali, e tinha ficado assustada com o volume do trânsito. Ele respondeu que realmente estava impossível, mas que no Morumbi também não devia ser fácil. Ela disse que não era não, principalmente porque na região tinha um monte de colégios, o que significava mães paradas em fila dupla. Tinha o Cervantes, o Ítaca, o Fernando Pessoa, o Porto Seguro, o Santo Américo, o… Ele a interrompeu para perguntar se ela era casada. Ela disse que era sim e perguntou se ele também era. Ele disse que também era. Ela respondeu um “ah”. Eles ficaram em silêncio um pouco. Aí, a Dra. Shirley apareceu na porta e pediu para eles terem um pouquinho de paciência, porque a coroa do Seu William ia demorar. Eles disseram que tudo bem. A Dra. Shirley entrou. Ele levantou para pegar uma revista. Quando foi se sentar, sentou-se perto dela. Ela cruzou a perna. Ele cruzou a perna. Ela tirou um fiapo imaginário da saia. Ele limpou os óculos no lenço. Ela arrumou o cabelo atrás da orelha. Ele abriu e fechou a correia do relógio. Ela tossiu e perguntou se ele tinha filhos. Ele respondeu que não, porque a mulher dele não podia. Ela contou que tinha duas meninas e um menino, sem ele perguntar. Ele fez um desses comentários vagos que fazemos sobre os filhos dos outros. Ela perguntou o que ele fazia. Ele respondeu que era funcionário público federal, e ela? Ela disse que era fisioterapeuta, mas que estava parada até o caçula ficar maiorzinho. O celular dela tocou. Ela colocou a revista de lado e atendeu. Era o marido. Ela disse para ele que estava tudo bem e que eles iriam jantar na casa da Carmem e do Áureo, que ela havia confirmado. Ouviu um pouco em silêncio e depois disse que não adiantava ele reclamar,que ele que tinha pedido para marcar aquele jantar em primeiro lugar, que ela nem gostava muito da Carmem, mas que agora ficava muito chato desmarcar em cima da hora. Ela se despediu do marido com um beijo barulhento e guardou o telefone na bolsa. Ele comentou que até que aquela sala de espera era fresquinha. Ela concordou e disse que era porque o prédio era antigo, então, o pé direito era alto, dava corrente de ar. Ele sorriu para ela. Ela sorriu para ele. Ele colocou a mão na perna dela, com a palma virada para cima e perguntou se alguma vez na vida ela já havia sentido alguma coisa assim. Ela encaixou a mão dela na mão dele e murmurou que não. Ele suspirou como ela. Eles ficaram assim, de mãos dadas, quinze minutos. Aí, a Dra. Shirley saiu acompanhando o Seu William, que foi embora. A Dra. Shirley estranhou a cena, mas não fez nenhum comentário. Depois do tchau para o Seu William,virou-se e disse: “Vamos lá, Rodolfo?”, e assim ela ficou sabendo o nome dele. Depois a Dra. Shirley disse: “Você espera mais um pouquinho, Isabel?”, e ele ficou sabendo o nome dela. Ele beijou a mão dela e entrou no consultório seguido por uma atônita Dra. Shirley, que àquela altura do campeonato não entendia mais nada. Quarenta minutos depois, quando acabou o tratamento daquela semana, eles saíram de dentro da sala da Dra. Shirley. Ele doido para falar de novo com ela, dar seu cartão e pedir, por favor, para ela ligar. A Dra. Shirley louca para saber como aquela história iria acabar. A única pessoa na sala de espera era o Coronel Meireles, um militar reformado, que estava ali só para fazer limpeza. Ele deu um oi para a Dra. Shirley e disse que a moça pedira para avisar que teve que sair antes, mas que telefonaria para marcar uma nova consulta. A Dra. Shirley agradeceu o recado, chamou o Coronel para a consulta e se despediu dizendo: “Então, mesma hora na semana que vem, Rodolfo?”, mas sem olhar para ele. Ele estava visivelmente perturbado e a Dra. Shirley ficou sem jeito.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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