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Arquivo de janeiro, 2010

29/01/2010 - 21:57

Rembrandt e outras delicadezas

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Em 1869, a margarina foi patenteada, em Paris. Já comíamos lixo antes, eu sei, mas é um marco, vá? Uma das piores ideias desta humanidade tão cheia de ideias ruins.

*

Porque a delicadeza, suas muitas formas e detalhes, têm estado em meus pensamentos (e, espero, em minhas ações). Porque a delicadeza e tudo o que ela encerra, por uma porção de motivos que não vêm ao caso, tem me ocupado os dias. Porque a não-delicadeza para comigo deixou de ser um estado natural do meu coração e me fez ver que eu mereço mais, sim, até mesmo de você, tenho passado algum tempo apagando endereços das agendas e da caixa postal, fotos e bilhetes. Porque a delicadeza, em estado bruto ou lapidado, em suas mais variadas manifestações, é cada vez mais necessária, ler a Claudia Letti me fez feliz: A moça que faz a limpeza em casa virou um quadro, por engano. Quem chega elogia as flores de cabeça pra baixo. Não conto. E não desviro.”

*

Ainda falando de delicadeza, Ney, nos comentários: “Não há fracasso pessoal, há sim, busca, espera! Que se danem os fortes, cheios de soberbo “amor próprio”, mas tirar a espera de quem tem tão pouco??? Só o tempo, que é implacável com fortes e fracos, pode atirar essa pedra.”

*

Os templos românicos se orientam para leste: é onde o sol nasce e é onde Jerusalém está.

*

Em 1606, nasceu o holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, já que falamos em delicadeza.  Goya, aquele homem brilhante, à certa altura da vida disse que só reconhecia três mestres: Velázquez, Rembrandt e a Natureza. Mestre de Goya, portanto, e também do corpo, da alma e dos estados de espírito.  Rembrandt sabia o que fazer sobre o chiaroscuro. Adorava contrastes fortes de luz e sombras. A escuridão em seu trabalho oculta detalhes desnecessários e os contrastes dramatizavam cenas comuns. Sua personagem principal é a luz, não a claridade pura que realça as formas, mas aquele raiozinho fugidio que é afogado na sombra. Seus belos efeitos de luz e sombras estão em toda parte, em cada rosto, nos chapéus, nos objetos em cima das mesas. E as vidas daquelas pessoas ficam tão importantes, cada pequeno gesto é tão relevante e revelador. É de extrema delicadeza enxergar na vida do outro, seus maiores e menores gestos, tamanha relevância. Ninguém entendeu a angústia e a solidão como ele, salvo, talvez, Van Gogh, muitos anos depois, pelo menos é minha humilde opinião. O mistério da vida, a finitude humana, a impotência de cada um de nós. Está tudo lá. Dê uma boa olhada no trabalho desse cara. É introspectivo, é quase doloroso e todo mundo com cara de quem sabe um grave segredo sobre a vida e não vai te contar. Rembrandt está no barroco, mas Rembrandt não é barroco, dá para entender? Como nós, de muitas formas.

“A vida é tão elaborada que o evento não pode e não vai igualar-se à expectativa”

                   Charlote Brontë

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/01/2010 - 17:41

(Quase) Todas as perguntas do mundo

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Você já chorou de desespero? O que seria de nós sem o chocolate? Por que é que a visita que chega sem avisar que viria, chega sempre quando seu enlatado americano favorito acaba de começar? Você já jantou danone só pra não ter que sujar a pia? Para onde estão indo as pessoas que parecem saber para onde estão indo? Por que é que todas as sua amigas de infância estão mais magras que você, têm carreiras incríveis e pelo menos um filho cada uma? Pra onde vão os pés de meia perdidos? Por que seu cérebro não tem um botãozinho de liga e desliga? Quando foi que você se meteu nessa encrenca? Por que é que os gatos vomitam no sofá e não no chão, que é bem mais fácil de limpar? Você já teve a impressão que essa vida não lhe pertence? Por que é que você só descobre que o papel toalha acabou depois de quebrar uma garrafa de suco de tomate? Por que é que ninguém mais além de você mesma pode resolver seus problemas? Eu adoraria ter alguém que resolvesse tu-do. Você está de saco cheio de ouvir falar de sem-terras, do cachorrinho do Obama, do Caso Daniel Dantas e das suas muitas falhas e defeitos? De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar? Você já quis tatuar um gatinho no seu pé? Você já comeu um pacote inteirinho de biscoito de aveia e mel com requeijão enquanto via um episódio de Sex and the City no sábado de noite? Por que o aspirador, a máquina de lavar e a TV quebram juntos? Solidariedade? Por que é que depois duma vida dedicada (em parte, em parte) ao estudo da literatura portuguesa, com amor, com seriedade, com paixão, tem sempre um achando que vc cita F.Pessoa e Fernando Namora porque aprendeu de orelhada no mondo blog? Os babacas da sua vida contam sempre com a sua capacidade de cura e regeneração? Você sabe o que é estar diariamente à beira do precipício, equilibrada num pé ruim e o outro que vacila, num solo cheio de erosão? Por que é que você assiste ” Nosso Amor de Ontem” de madrugada, sozinha, fungando, assoando o nariz no lençol e esperando um final diferente. Hum?

( update da Silvana que, como eu, também está assolada pelos anos 80: Por que não eu? Aaaaahhhh aaaaahhhhh, por que não ee??)

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/01/2010 - 14:05

Horácio

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Era sábado. E quem cria filhos em São Paulo sabe da dificuldade em arrumar programa para a criançada nos sábados à tarde.
Vai daí que naquele fatídico sábado, exaustos de teatrinhos infantis e parquinhos bobocas, o Cláudio e a Silvana resolveram levar as duas filhas para uma dessas feiras de “Mamães e Filhotes” que os shoppings adoram promover. No banco de trás, Carolina de oito anos e a Camila de seis, não aguentavam de excitação. O que seria uma feira de mamães e filhotes? O papai disse que tinha bichinhos, mas quais, como? Dava para pegar no colo, podia beijar? Era tanta pergunta sobre a tal da feira que já estava dando nos nervos. Chegaram lá, shopping lotado, estacionamentos idem, as crianças inquietas, um inferno. A feira tão pomposamente anunciada, era na verdade, um corredor comprido e estreito, com stands dos dois lados e uma porção de tristonhos filhotes de cães e gatos presos em gaiolas, mas para as meninas estava maravilhoso. Gritaram a cada novo cãozinho, correram para toda parte, se espalharam e entoaram mil vezes, como um mantra, o refrão “Pai, compra?”.
Na hora de ir embora, foi um Cláudio nervoso, estressado e suado, que viu se aproximar o golpe de misericórdia. Duas mocinhas vestidas de cow-girl, entregavam aos visitantes que iam embora, patinhos amarelos com ar exausto, à guisa de brinde do canil que patrocinava a feira. Os motivos pelos quais um canil entregava patos de presente, o Cláudio não quis nem investigar. Mas sólido, prático (o Cláudio é engenheiro), irredutível, rosnou um sonoro “Não!” quando viu a menor das suas pimpolhas com os braços estendidos diante das avezinhas.
A Camila fez beicinho, a cow-girl olhou torto e a Silvana, psicóloga da PUC, encostou no braço dele e disse:
- Deixa, Bem, deixa. Vai ser bom para as meninas, elas nunca sofreram nenhum tipo de perda, nunca tiveram que lidar com isso. O bichinho vai durar o que? Uma semana, no máximo! Então, deixa levar. Elas vão ver o que é ser responsável por alguma coisa e ainda por cima vão aprender que tudo tem começo meio e fim. Deixa que vai ser bom.
- Você ficou louca, mulher? – o Cláudio não estava num de seus melhores dias. – Vou deixar a menina ficar com o pato para chorar depois?
- Amor, você sabe como essas experiências são importantes! – a única coisa que o Cláudio sabia era que aquela coisinha amarela significava problemas.
- Sil… essa porra vai dar trabalho, ouve o que eu tou te dizendo. – mas cadê que a Silvana ouviu? Deu um beliscão no braço do Cláudio, disse que ele era um bitolado e com aquele olhar bom de mãe, autorizou a guria a tomar posse do seu novo bem terreno. O pato foi para o colo da Camila duro de medo, tremendo. Mas sentiu seu peito quentinho, suas mão seguras em volta dele e se aconchegou. A Camila, sabe-se lá porque, o batizou de Horácio no caminho de casa.
O Cláudio foi o caminho todo sacudindo a cabeça e suspirando. Mas chegando em casa, não se furtou ao seu papel de pai zeloso e cioso de seus deveres. Depois de um complicado estudo e de uma atenta pesquisa (afinal, cinco anos de FEI têm que servir para alguma coisa), conseguiu fazer uma instalação no banheiro das meninas e colocou ali uma lâmpada, para aquecer o palacete de papelão, antiga casa da Barbie, agora usada para fim mais nobre: abrigar o Horácio.
De pé, ao lado do apart-hotel do novo membro da família, o Cláudio ainda não se conformava. E sua irritação não melhorou quando a Silvana chegou perto dele e sussurrou:
- Tá vendo amor? Daqui há uma semana, você vai ver como eu tinha razão – mas o destino, que num filme que assisti, foi definido pela boca do Robin Willians como a única força cósmica com senso de humor, não tinha esse final em mente para o bom Horácio.
Uma semana se passou e o pato lá, firme.
Duas semanas e nada. O Cláudio incrédulo. A Silvana, serena.
Um mês e o diabo do pato só engordando. Trocaram a casa da Barbie por uma caixa de cerveja e a vida continuou. O Cláudio, puto. A Silvana, alarmada.
A única perda com a qual a família teve que lidar nos últimos oito meses, foi com a perda de paciência do Claudião. Sim, porque o Horácio está lá, vivo, lindo e gordo. Virou um desses patões cinzentos e é ciumento das meninas e possessivo também.
Não mora mais na caixa de cerveja. Seu habitat agora é o bidê. Sua dieta, sanduíches de presunto e Hellman’s, sucrilhos e baconzitos. Seus domínios, toda a casa. Ele aterroriza o cachorro, espantou o gato e está em vias de aleijar a cozinheira com suas bicadas.
A vida da família gira, agora, em torno da vida do pato. Nas últimas férias de julho, a viagem para Campos teve que ser adiada, porque para o cachorro a Silvana arrumou hotel, mas para o pato, não. E a cozinheira se recusou a ficar sozinha com ele em casa. Os vizinhos reclamam do barulho e do cheiro. O síndico está enlouquecido de ódio.
Mas as meninas… ah, as meninas chegam em casa gritando “Horááááciooooo… vem?” e carregam o pato para todo lado. Inclusive para os almoços de domingo na casa da vovó (falando nisso, vovó também está puta). As meninas promoveram o casamento do pato Horácio com a boneca preferida delas, a Samanta. Foi um acontecimento social, todo o condomínio compareceu. As meninas beijam o pato quando acordam e antes de dormir, e Horácio é o primeiro nome da lista para Papai do Céu proteger, em suas orações noturnas. As meninas não querem nem ouvir falar em enviar o Horácio para uma Estação de Águas por, quem sabe, 20 anos, como sugeriu o Cláudio. Elas amam o Horácio com devoção e nem galinha se come mais naquela casa.
Quando o Cláudio olha para a Silvana com os olhos apertados e os punhos cerrados, ela sabe exatamente o que ele está pensando.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/01/2010 - 18:31

Kiko

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Ele tinha mais ou menos umas 400 de bichinhos em miniaturas de cristal. Era uma coleção e tanto e o Kiko morria por causa da coleção dele. A coleção ocupava todas as estantes de um móvel enorme que ficava no meio da sala e coitado do amigo que, por curiosidade, tirasse uma do lugar para ver melhor. O Kiko fuzilava. Ele se correspondia com colecionadores do mundo inteiro, recebia revistas especializadas, era sócio de um clube no Estados Unidos que reunia colecionadores de miniaturas, coisas que a gente nem acredita que existam. Cada bichinho tinha um lugar certo e ele tinha uma pasta com foto de todas, país de origem data de fabricação, o diabo. Conferia cada um deles a cada quinze dias, domingo sim, domingo não, e se o domingo da conferência fosse dia dos pais, dia das mães ou aniversário de algum sobrinho, azeite. Ele não queria nem saber. O Kiko já tinha despedido três faxineiras que haviam mudado a ordem das miniaturas, ele deixava a Maíra maluca. Tão maluca que depois da última demissão, ela resolvera que se encarregaria sozinha da limpeza dos tais bichinhos, pois não tinha cabimento ela ter que se virar sozinha com o serviço da casa porque o Kiko era temperamental. É, era isso que ela dizia sobre ele na época. Que ele era temperamental. Bom, pelo menos até aquela quarta-feira. Até aquela quarta feira, a Maíra limpava a coleção toda semana, com precisão e cuidado. Nada saía do lugar, nada quebrava, nada dava errado. Mas naquela quarta feira o Kiko chegou do trabalho e encontrou a Maíra branca, esperando por ele na porta, com uma faixa em volta do mão direita. Sem deixá-lo entrar em casa, para alegrias dos vizinhos de andar, ela contou para ele o que havia acontecido, chorando e soluçando sem parar. Contou como ele a apavorava há quatro anos, desde o começo do casamento com aquela coleção maluca. Contou como vivia tensa, tendo pesadelos, palpitações cada vez que qualquer pessoa passava pela estante. Contou o quanto ficou magoada quando ele gastou o dinheiro da viagem de férias deles para o Havaí, com uma caixa com quatro ursinhos tocando instrumentos musicais, feitos na Alemanha no começo do século. Contou, enfim, que estava limpandoos bichinhos, um a um, com uma flanela macia quando um deles escorregou da sua mão, caiu e quebrou. O Kiko quieto, encostado no batente da porta, só ouvindo. Ainda tendo uma crise de choro, ela contou que teve uma tontura na hora e que foi catando os cacos de qualquer jeito, e que um caco grande de vidro havia entrado na mão dela e ela teve até que ir de táxi para um pronto-socorro tirar. Contou o quanto ficou desesperada, que deram até calmante para ela e que quando ela explicou o caso para uma enfermeira levou uma bronca nela e disse para ela deixar de ser criança e conversar com o marido direito. E era por isso que ela estava ali, conversando com ele, tentando salvar a relação, com a maior certeza de que ele não iria jogar quatro anos de casamento fora por cauda deum bicho de cristal. Ficou quieta, esperando que o Kiko explodisse, gritasse, sei lá. O Kiko olhou bem para ela, viu o quanto ela estava desesperada e confusa, mas a única coisa que foi capaz de perguntar “Amor, qual deles quebrou?”, só aumentou a crise de choro da Maíra, que saiu de casa aos prantos, voltou uma semana depois com a irmã para buscar suas roupas e mandou os papéis do divórcio pelo correio. O Kiko não entendeu nada. Mas agora ele nem tem muito tempo para pensar nela. Parece que morreu um velhinho em Santana que era colecionador e a família está vendendo a coleção dele. 200 bichinhos. Algumas raríssimos. A Maíra também não tem pensado muito nele ou “naquele idiota”, como ela costuma dizer. Arrumou um namorado novo. Esse coleciona carrinhos. De metal.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/01/2010 - 11:31

Ela não tinha ilusões

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Ela não tinha ilusões. Bom, não muitas. Algumas pequenas, daquelas bobas, mais esperanças leves que ilusões, você sabe, perder uns cinco quilos, conseguir trocar de carro no ano que vem, ter grana para matricular a pequena na natação, encontrar uma tinta de cabelo que não a deixasse com cara de avó de alguém, terminar a revisão do livro. Nada de grandes ilusões, nada disso. Ela não esperava um grande amor. Uma grande causa. Uma flechada no coração. Nada que lhe tirasse o sono, a fome, ou a sensação dos dedos dos pés. A vida era isso aí. Uns dias ruins, uns dias mais ou menos. Mas houve um dia. Ah, aquele dia pareceu vir para mudar todos os outros, para mudar as certezas, para alterar rumos. Foi um desses dias que começam com o requeijão espalhando melhor sobre a torrada, o leite sem nata, a menina doce, sem gritos estridentes, o marido calmo e saindo mais cedo, que ela acreditou que ia ser… melhor, talvez? Um pouco menos tolo, um pouquinho só? A falta de trânsito para o escritório, a secretária sorridente, o assistente gentil, o bolo no estômago que sumira, isso tudo não podia ser um sinal? Às 4 da tarde ela não ainda tinha tido saudades, nem arrependimentos, nem… que coisa, nem dor. Dor nenhuma. Um sinal cósmico de que tudo ia mudar, ao menos dentro dela, ao menos hoje, só hoje. E depois? Ah, depois ela podia virar uma abóbora de novo e quem é que ia notar a diferença? Claro que não eram sinais cósmicos, claro que não. Quando ela desligou o abajur naquela noite, às 11 horas, depois de um dia igualzinho aos outros, ainda teve tempo de pensar, antes de cair no seu sono de remédios, que era mesmo uma sorte ela não ter ilusões.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/01/2010 - 15:28

Com que roupa

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Banho. Banho é fundamental. Banho, lógico. Ninguém aqui está dizendo que você não deveria tomar banho. Mas você devia ter escolhido a roupa antes do banho, e sua cabeça funciona numa hora dessas? Tinha que deixar para escolher depois? Para ficar aflita e suada? Escolhe antes da próxima vez. Agora não tem jeito, vamos lá. Mergulha no seu guarda-roupa, aquela passagem para a terceira dimensão e escolhe uma roupinha. Meu Deus, que zona. O dia que você resolver arrumar isso aqui, cai o Presidente da República, ninguém tem tanto poder político. O ACM podia realizar reuniões aqui, para não ser perturbado. Esse guarda-roupa é a vergonha nacional, nem fica abrindo muita gaveta que é para não ficar nervosa, procura por cima. Eu sei, você não arruma suas gavetas porque elas têm vida própria, tudo bem. Quanta roupa que você tem e não usa, que desperdício. Não tem uma filosofia que diz que a gente tem que usar tudo quanto é roupa do guarda-roupa para a energia circular? Minha filha, se você liberar a energia presa aqui, Itaipu funcionará por mais uns cem anos. Tudo bem, concentra-se, concentra-se que o bicho tá pegando. Como que você aceita um convite desses sem saber se tem roupa antes? Você é doida. Não, eu sou a doida aqui. Eu sou doida por deixar você responder sozinha. No segundo em que ele fez o convite para um café, eu devia ter me metido no meio, tomado as rédeas da situação e dito: “Desculpe, Antônio. Nós agradecemos muitíssimo, mas infelizmente, não vai dar. Essa é uma pobre mulher, abalada e medrosa, e ela não irá, de jeito nenhum, tomar café, nem nenhuma outra coisa com você, nem que você forneça uma venda para os olhos e um cigarro acesso, entendeu? Ela, simplesmente, não pode. Não pode. Ela tem medo de lugares públicos, medo de barulho e medo de você. Além disso, a pobre coitada não tem uma roupa decente e vai acabar derrubando café em você de tão nervosa. Por isso, eu não posso deixá-la ir de forma alguma. Fui clara? Como assim, quem sou eu? Eu sou o superego dela, eu estou no comando agora. Passar bem”. Mas não. Eu com meu liberalismo tonto, fui deixar você decidir sua própria vida, fazer suas próprias escolhas, olha aí no que você foi nos meter. Pensa, minha filha, pensa. Vê se me aparece lá com cara de gente. Meu Deus do céu, você ainda tem esse vestido branco? Impressionante, me sinto num túnel do tempo. Se eu achar um par de meias lurex, saio correndo. Se bem que voltou a moda, né? Parece que sim. Ah, não! Um tomara-que-caia turquesa? Bons tempos aqueles. Essa regata amarela que você comprou no Rio de Janeiro. Pagou uma fortuna me jurando que ia caber nela em um mês. É incrível como eu deixo você me enganar. Menina, e essa blusa branca de babados? De onde será que saiu? E essa calça cor de abóbora? Que Deus lhe perdoe. Olha o que garimpei aqui, que tal o conjunto azul? Isso, o conjunto azul fica legal, ele é bem bonito. Bem bonito e deixa você com uns quadris quilométricos, é isso que você quer? Ele vai pensar que você tem um tabuleiro de acarajé em baixo da roupa, pensa em outra coisa. Dá uma procurada aí, tem que tem algo usável. Ah! O vestido vermelho. Vermelho? Vermelho não é meio…? É, tem razão, nada de vermelho. Deixa o pobre coitado pensando nesse primeiro encontro que você é uma virgem vestal. Usa um tom pastel, banca a santa, e na próxima você escancara. Próxima? Que próxima, minha filha? E se não tiver próxima? Hum? Se não tiver próxima você perdeu sua grande chance. Se eu fosse você, segurava na mão de Deus e ia de vermelho. Tá, vermelho. Tudo bem. Seja o que Deus quiser. Sapato? Vermelho. Bolsa? Vermelha. Batom? Vermelho. Ai, não, eu vou ficar parecendo uma devota da Pomba-Gira. Não dá. Não vou de colegial, mas de vermelho não vai rolar. E o vestido preto? É bonito, é comprido, é chique e sexy ao mesmo tempo e não fica assim tão… tão. Enfim, não fica tão. O preto? O preto é legal. Tá, sapato preto, bolsa preta. Chique, sóbria, vai ficar muito bom. Isso. Bom, roupa resolvida. Ainda bem que você está calma, ansiedade nessas horas é um perigo. Arrumou a bolsa? Batom, medalhinha de São Jorge Guerreiro para dar coragem, celular, bip, camisinha. Não! Não leva o celular e se seu pai liga? Isso, deixa o celular quietinho e desligado aí. Carteira. Carteira é só para constar, você não se atreva a dividir a despesa, ouviu? Agora tira essa máscara de ervas do rosto que você parece a estrela de um espetáculo do Marcel Marceau. E o creme de parafina parece ter deixado seu cabelo meio ensebado, reza para ser só uma impressão. Bom, se meu cabelo ficar esquisito, eu prendo. Cabelo preso? Você não pode, você engordou, se prender o cabelo vai ficar com cara de lua cheia. Credo, que máscara complicada de lavar, tomara que meu rosto não fique todo branco. Ai meu Deus, o que é isso aqui no espelho? É uma espinha? Você arrumou uma espinha no nariz vinte minutos antes de sair? Faz uma mentalização positiva, pelo amor de Deus. Concentre-se que ela vai embora. A espinha sumiu. A espinha sumiu. A espinha sumiu. Olha no espelho de novo. A espinha não sumiu. Espinha não entende nada de mentalização. Passa uma base clarinha em cima. Ah, que linda, parece o Arrelia. Você está uma graça, deixa para lá. Ser mulher é uma operação complicadíssima, deviam ter me avisado antes. Uma trabalheira, uma confusão, ainda bem que você é um ser humano calmo, controlado, razoável. Tá, vai pro secador. Ai, Deus, tá esquisita essa escova. Vira as pontas para baixo. Não, enrola para cima. Calma, nada de pânico. Prende assim, a parte de cima para trás, isso. Passável. Maquiagem. Pelo amor de Deus, cuidado com o olho, você sai de vez em quando parecendo a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Não carrega. Isso. Batonzinho básico. Rímel levinho, tá ótima. Atende o telefone sem bagunçar o cabelo, faz favor.
- Alô?… é ela… oi!… oi, tudo e você?… ah, não?… puxa… não, tudo bem, o que aconteceu?… é mesmo?… coitada… sei… que coisa… é assim mesmo, doença é fogo… coitada… foi repentino, não?… é sim, que coisa… eu? não, imagina… não, para mim tudo bem… mesmo… de verdade… claro que sim, e para falar a verdade, para mim é até melhor… é… fechei o ambulatório só agora, viu que tarde?… então… o Doutor Coelho ficou enrolando, fazendo relatório, um inferno… é… achei que ele não ia embora nunca… então… e eu estou morrendo de dor de cabeça… sei… é, foi um dia puxado para mim também… então… eu ia mesmo ligar para avisar você… ia pedir para a gente marcar num outro dia… juro… pois é, viu que coincidência?… eu estava aqui na cama sem coragem nem de tomar banho, acredita?… então… isso, a gente marca… tá?… tá querido, claro, outro para você, estimo melhoras a ela, viu? Outro. Tchau.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/01/2010 - 18:54

Lourdes

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A Lourdes queria ir. O Almeida não queria não. A Lourdes falou que ia estar animado, colorido, ia até ter grupo de pagode. O Almeida falou que ia estar cheio, sem lugar para estacionar, barulhento e bagunçado. A Lourdes disse que tudo bem. Ela iria sozinha. O Almeida berrou que sozinha ela não ia para droga de lugar nenhum. Quando a Lourdes começou a chorar, ele lembrou a ela, sem berrar, que de mais a mais o coração dele estava falhando e que o médico tinha dito que ele não podia se estressar, lembra? Era a chantagem suprema. A Lourdes disse que tudo bem, e eles ficaram em casa. No meio da tarde, os dois assistindo o Gugu, o Almeida teve um ataque. Coração. Chegou ao pronto socorro morto. O enterro foi no dia seguinte. A Lourdes não chorou uma lágrima.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/01/2010 - 11:49

27 anos

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Uma mulher de 27 anos se considera, tecnicamente, com 30. O que quer dizer que nem o desgosto da vovó, nem o que os vizinhos vão pensar, nem um remoto príncipe encantado (para quem a virtude é qualidade fundamental para uma moçoila casadoira), importam muito. Aos trinta, ou quase trinta, poucas coisas importam. O tal relógio biológico, real ou imaginário, começa a provocar seus nervos, sua prima três anos mais nova e dois bebês à sua frente começa a irritar você sem motivo aparente e você começa a preocupar amigos e circunstantes. Portanto, o que estava  matando a Laura Emília naquela possibilidade de gravidez, não era nenhum destes fantasmas. Nem mesmo seu preocupado pai recebendo a notícia a paralisava (pelo menos não muito). O que estava matando a Lau era o pai do possível neném. Não, não como ele reagiria. Mas, meu Deus do céu, quem era o pai dele. Uma cuidadosa consulta à sua confusa agenda, um emaranhado de frases soltas, gráficos exóticos, letras de músicas escritas com lápis de sobrancelha, desenhos e anotações estranhas (o que seria XX#8-B?), revelou que, ao contrário do que ela temia, os possíveis doadores de material genético eram dois e não três. Sim, porque até então, Laura Emília estava na dúvida entre três rapazes doces e maravilhosos. Dois deles aliás, doce e maravilhosamente casados. Enfim, a consulta garantiu que um deles estava fora do circuito. Um alívio pequeno, senhoras e senhores do júri, mas ainda assim um alívio, podem acreditar. Ela já tinha todo um discurso preparado no bolso do colete, que escrevera entre uma crise de choro e outra, enquanto se amaldiçoava por ser tão burra e irresponsável. Ia informar aos dois adoráveis possíveis pais que eles teriam, em poucos meses, um exame de DNA para fazer.
Mas vai daí que, com nove dias angustiantes de atraso, tudo se resolveu. Ironicamente, aquela manchinha vermelha não a deixou tão aliviada quanto era de se esperar. Ela chorou e não era só de alívio. Mas Laura Emília tinha quase trinta. Sabia porque estava chorando.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
01/01/2010 - 14:07

Ano novo de novo

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Eu sei. Vai começar um ano-novo e você está aí, prenhe de boas intenções. Você vai isto, você vai aquilo. Ah, meu bem. Não vai, não. Lá no fundo, você sabe. Eu sei aqui, no raso. A gente não vai, coisa nenhuma. A gente faz essas listas longas que aplacam nossas consciências, mas que não adiantam para nada. Este ano vamos tentar algo diferente? Vamos fazer uma lista de nãos. As coisas que nós não vamos fazer.

1) Em 2010, nós não vamos: parar de comprar sapatos.
Nós adoramos sapatos, amamos sapatos, veneramos sapatos. Eles são lindos, eles são maravilhosos, eles são uma felicidade. Uma mulher nunca pode ter sapatos demais. E por falar nisso, continuaremos gastando uma fortuna em maquiagem e em CD’s, pelos mesmos motivos.

2) Em 2010, nós não vamos: parar de comer besteiras.
É, não vamos não. Seja palhacitos sabor camarão silvestre; leite condensado mamado na lata; macarrão instantâneo sabor picanha de mamute; chocolate em barra com recheio de chocolate, cobertura de chocolate e polvilhado com chocolate; arroz na madrugada, banhado na manteiga de garrafa e coroado com um ovo frito ou sorvete de mariola, a verdade é que nós amamos bobagens e vamos continuar a comê-las até o dia do Juízo Final. Que, do jeito que comemos tralha, pode chegar mais rápido do que esperamos.

3) Em 2010, nós não vamos: fazer academia. Eu sei, você sabe, rápido pro próximo tópico.

4) Em 2009, nós não vamos: parar de falar palavrão.
É, não vamos. Vamos continuar com essas bocas imundas, assustando nossas avós, as mães de nossos namorados e servindo de mau exemplo para os filhos chatos dos amigos mais chatos ainda.

5) Em 2010, nós não vamos: emagrecer.
Caras, não sejamos cínicos, ninguém emagrece comendo palhacitos sabor camarão silvestre.

6) Em 2010, nós não vamos: ser mais sociáveis.
Nem ferrando. Nós detestamos as pessoas, elas nos chateiam, incomodam, falam bobagem e não entendem nossas piadas. Nós não vamos conviver com elas, de jeito nenhum.

7) Em 2010, nós não vamos: parar de fumar.
É, cigarro faz mal, cigarro mata e nós não vamos parar, mesmo com um monte de gente boazinha e bem intencionada se metendo em nossas vidas, como se direito tivesse. Nós amamos a nicotina enchendo cada buraco do nosso cérebro de queijo suíço e fazendo nossos (poucos) neurônios (no meu caso são dois: Antão e Peixoto) suspirarem de prazer. Empresta seu isqueiro?

8 ) Em 2010, nós não vamos: poupar 30% do que ganhamos.
Você deve estar de brincadeira. E com o que nós vamos comprar sapatos?

9) Em 2010, nós não vamos: parar de ver tevê.
Claro que não. Queremos que a “máquina de fazer doido” (saudades de Stanislaw Ponte Preta) ocupe cada espacinho de nossas mentes que a nicotina não alcançou, e nos impeça de pensar para todo o sempre, amém.

10) Em 2010, nós não vamos: ser mais organizados.
Não nos enganemos. Nossas chaves continuarão a sumir, nossos guarda-roupas continuarão uma passagem para a quinta dimensão, nossas mesas de trabalho continuarão o caos. E a conta de luz? Será paga com atraso, como sempre.

E assim, com essa lista pregada em nossos quadros de avisos, quem sabe consigamos nos concentrar em uma, duas coisas realmente importantes e assim, talvez, mudá-las, ou cumpri-las, ou torná-las realidade em nossas vidas?

Ah, Deus. Quem é que estamos enganando?

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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