Banho. Banho é fundamental. Banho, lógico. Ninguém aqui está dizendo que você não deveria tomar banho. Mas você devia ter escolhido a roupa antes do banho, e sua cabeça funciona numa hora dessas? Tinha que deixar para escolher depois? Para ficar aflita e suada? Escolhe antes da próxima vez. Agora não tem jeito, vamos lá. Mergulha no seu guarda-roupa, aquela passagem para a terceira dimensão e escolhe uma roupinha. Meu Deus, que zona. O dia que você resolver arrumar isso aqui, cai o Presidente da República, ninguém tem tanto poder político. O ACM podia realizar reuniões aqui, para não ser perturbado. Esse guarda-roupa é a vergonha nacional, nem fica abrindo muita gaveta que é para não ficar nervosa, procura por cima. Eu sei, você não arruma suas gavetas porque elas têm vida própria, tudo bem. Quanta roupa que você tem e não usa, que desperdício. Não tem uma filosofia que diz que a gente tem que usar tudo quanto é roupa do guarda-roupa para a energia circular? Minha filha, se você liberar a energia presa aqui, Itaipu funcionará por mais uns cem anos. Tudo bem, concentra-se, concentra-se que o bicho tá pegando. Como que você aceita um convite desses sem saber se tem roupa antes? Você é doida. Não, eu sou a doida aqui. Eu sou doida por deixar você responder sozinha. No segundo em que ele fez o convite para um café, eu devia ter me metido no meio, tomado as rédeas da situação e dito: “Desculpe, Antônio. Nós agradecemos muitíssimo, mas infelizmente, não vai dar. Essa é uma pobre mulher, abalada e medrosa, e ela não irá, de jeito nenhum, tomar café, nem nenhuma outra coisa com você, nem que você forneça uma venda para os olhos e um cigarro acesso, entendeu? Ela, simplesmente, não pode. Não pode. Ela tem medo de lugares públicos, medo de barulho e medo de você. Além disso, a pobre coitada não tem uma roupa decente e vai acabar derrubando café em você de tão nervosa. Por isso, eu não posso deixá-la ir de forma alguma. Fui clara? Como assim, quem sou eu? Eu sou o superego dela, eu estou no comando agora. Passar bem”. Mas não. Eu com meu liberalismo tonto, fui deixar você decidir sua própria vida, fazer suas próprias escolhas, olha aí no que você foi nos meter. Pensa, minha filha, pensa. Vê se me aparece lá com cara de gente. Meu Deus do céu, você ainda tem esse vestido branco? Impressionante, me sinto num túnel do tempo. Se eu achar um par de meias lurex, saio correndo. Se bem que voltou a moda, né? Parece que sim. Ah, não! Um tomara-que-caia turquesa? Bons tempos aqueles. Essa regata amarela que você comprou no Rio de Janeiro. Pagou uma fortuna me jurando que ia caber nela em um mês. É incrível como eu deixo você me enganar. Menina, e essa blusa branca de babados? De onde será que saiu? E essa calça cor de abóbora? Que Deus lhe perdoe. Olha o que garimpei aqui, que tal o conjunto azul? Isso, o conjunto azul fica legal, ele é bem bonito. Bem bonito e deixa você com uns quadris quilométricos, é isso que você quer? Ele vai pensar que você tem um tabuleiro de acarajé em baixo da roupa, pensa em outra coisa. Dá uma procurada aí, tem que tem algo usável. Ah! O vestido vermelho. Vermelho? Vermelho não é meio…? É, tem razão, nada de vermelho. Deixa o pobre coitado pensando nesse primeiro encontro que você é uma virgem vestal. Usa um tom pastel, banca a santa, e na próxima você escancara. Próxima? Que próxima, minha filha? E se não tiver próxima? Hum? Se não tiver próxima você perdeu sua grande chance. Se eu fosse você, segurava na mão de Deus e ia de vermelho. Tá, vermelho. Tudo bem. Seja o que Deus quiser. Sapato? Vermelho. Bolsa? Vermelha. Batom? Vermelho. Ai, não, eu vou ficar parecendo uma devota da Pomba-Gira. Não dá. Não vou de colegial, mas de vermelho não vai rolar. E o vestido preto? É bonito, é comprido, é chique e sexy ao mesmo tempo e não fica assim tão… tão. Enfim, não fica tão. O preto? O preto é legal. Tá, sapato preto, bolsa preta. Chique, sóbria, vai ficar muito bom. Isso. Bom, roupa resolvida. Ainda bem que você está calma, ansiedade nessas horas é um perigo. Arrumou a bolsa? Batom, medalhinha de São Jorge Guerreiro para dar coragem, celular, bip, camisinha. Não! Não leva o celular e se seu pai liga? Isso, deixa o celular quietinho e desligado aí. Carteira. Carteira é só para constar, você não se atreva a dividir a despesa, ouviu? Agora tira essa máscara de ervas do rosto que você parece a estrela de um espetáculo do Marcel Marceau. E o creme de parafina parece ter deixado seu cabelo meio ensebado, reza para ser só uma impressão. Bom, se meu cabelo ficar esquisito, eu prendo. Cabelo preso? Você não pode, você engordou, se prender o cabelo vai ficar com cara de lua cheia. Credo, que máscara complicada de lavar, tomara que meu rosto não fique todo branco. Ai meu Deus, o que é isso aqui no espelho? É uma espinha? Você arrumou uma espinha no nariz vinte minutos antes de sair? Faz uma mentalização positiva, pelo amor de Deus. Concentre-se que ela vai embora. A espinha sumiu. A espinha sumiu. A espinha sumiu. Olha no espelho de novo. A espinha não sumiu. Espinha não entende nada de mentalização. Passa uma base clarinha em cima. Ah, que linda, parece o Arrelia. Você está uma graça, deixa para lá. Ser mulher é uma operação complicadíssima, deviam ter me avisado antes. Uma trabalheira, uma confusão, ainda bem que você é um ser humano calmo, controlado, razoável. Tá, vai pro secador. Ai, Deus, tá esquisita essa escova. Vira as pontas para baixo. Não, enrola para cima. Calma, nada de pânico. Prende assim, a parte de cima para trás, isso. Passável. Maquiagem. Pelo amor de Deus, cuidado com o olho, você sai de vez em quando parecendo a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Não carrega. Isso. Batonzinho básico. Rímel levinho, tá ótima. Atende o telefone sem bagunçar o cabelo, faz favor.
- Alô?… é ela… oi!… oi, tudo e você?… ah, não?… puxa… não, tudo bem, o que aconteceu?… é mesmo?… coitada… sei… que coisa… é assim mesmo, doença é fogo… coitada… foi repentino, não?… é sim, que coisa… eu? não, imagina… não, para mim tudo bem… mesmo… de verdade… claro que sim, e para falar a verdade, para mim é até melhor… é… fechei o ambulatório só agora, viu que tarde?… então… o Doutor Coelho ficou enrolando, fazendo relatório, um inferno… é… achei que ele não ia embora nunca… então… e eu estou morrendo de dor de cabeça… sei… é, foi um dia puxado para mim também… então… eu ia mesmo ligar para avisar você… ia pedir para a gente marcar num outro dia… juro… pois é, viu que coincidência?… eu estava aqui na cama sem coragem nem de tomar banho, acredita?… então… isso, a gente marca… tá?… tá querido, claro, outro para você, estimo melhoras a ela, viu? Outro. Tchau.