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Arquivo de dezembro, 2009

28/12/2009 - 06:59

O museu

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Tenho trinta e oito anos e estou sozinho numa casa que já foi minha. Bom, talvez ela ainda seja minha, eu nem sei mais. Estou só e preciso falar com alguém. Com qualquer um, nem que seja com você, meu “Querido Diário”.
Querido Diário hoje eu acordei e sinto que estou perdendo a razão. A Esther e as crianças foram embora há três semanas e eu fiquei aqui sozinho, enlouquecendo lentamente.
É um bom começo para um diário. Minha filha mais velha tem um. Mas ela foi embora. Minhas duas filhas, meu filho e minha mulher. Voltaram todos para Israel. Para a casa da mãe da Esther. “Minha terra”, a Esther dizia. “Vou voltar para a minha terra”. Ela ameaçou tanto, durante tanto tempo. Eu nunca acreditei. Mas ela foi mesmo.
Quando nos conhecemos eu era um garoto. Fui para Israel fazer o serviço militar. Foi lá que eu a conheci, a filha do rabino. A menina mais bonita de Jerusalém, de Israel, do mundo.
Durante três anos frequentei aquela sinagoga com assiduidade. Minha mãe, quando recebeu uma carta da minha tia, falando do meu súbito interesse religioso, contou para o meu pai, que me ligou às gargalhadas para perguntar o que eu estava aprontando. Riu quando soube da minha paixão pela filha do rabino. Minha mãe não riu tanto. Ela pode não ser religiosa, mas é uma boa mãe judia, preocupada com o casamento dos rebentos. Durante meses fez preleções e profecias sobre o quanto éramos diferentes e o quanto ia dar errado. Claro que eu não quis ouvir. Disse-lhe que ela era uma mãe judia ciumenta e segui com a minha vida.
Até que um dia… um dia a Ester olhou para mim. Olhou só não, sorriu também. E veio falar comigo. E eu nunca mais vi ninguém na minha frente. Tudo para mim começava e terminava naquela mulher. Eu não tinha nenhum plano que não a incluísse, que não a envolvesse.
Olho à minha volta agora e vejoos objetos, grandes e pequenos, que compunham a nossa casa, o nosso lar. Todos comprados por nós dois, um a um, devagarinho. Ela não levou quase nada. Deixou suas coisas para trás. Eu fiquei para trás também.
É tortura ficar nesta casa, eu bem sei. E eu me angustio e me entristeço e me maltrato aqui. Mas eu vivi nesta casa doze anos, Querido Diário, aonde mais eu poderia ir agora? Meus filhos aprenderam a andar aqui. Para o primeiro dia de escola, cada um deles saiu daqui. Esse é o único lugar que sei chamar de casa. Todas as nossas coisas estão aqui. Não. Todas as minhas coisas estão aqui.
Querido Diário, eu ando pela casa e a ouço estalar. Vejo as camadas de pó em cima dos móveis, mas não tenho coragem de chamar ninguém para limpar. A primeira coisa que fiz, depois que eles foram embora, foi despedir a faxineira. Não tomo nenhuma providência para mudar as coisas por aqui. Tudo está exatamente como eles deixaram. Os brinquedos. As roupinhas espalhadas. A camisola com a qual minha mulher dormiu na última noite e que não levou por estar muito velha. As toalhas em cima das camas das crianças. Tudo igual. Minha mãe veio aqui no sábado. “Eles foram embora há semanas, você vai ficar vivendo nesse buraco para sempre?”. Expliquei que não era um buraco, que era a minha casa e que ela não tinha nada a ver com isso. Ela sacudiu a cabeça e foi embora. Mas eu sei que ela vai voltar. Munida de baldes, esfregões e boas intenções. Mas eu não vou deixá-la entrar, eu não posso, você me entende, Querido Diário? Nada pode mudar, nada pode sair do lugar em que está. Nenhuma lembrança pode mudar. Se algo assim acontecer, perco minhas crianças para sempre. Perco meu passado, perco minha história
Eu enlouqueço, Querido Diário, enlouqueço e falo com você. Saio para o trabalho cedo, como na rua, e volto no mesmo horário que voltava antes. E ouço suas vozes e suas risadas, seus gritinhos mesmo antes de abrir a porta. Como sempre foi. A TV e o rádio ligados ao mesmo tempo, minha menina mais velha andando para lá e para cá falando no telefone sem fio, os gritos, o “Paiê! Vem cá!” Eu ouço tudo isso, Querido Diário, e que Deus me ajude, estou prestes a responder.
Quase tenho medo de mim mesmo. E se não fossem os fantasmas, as sombras, as lembranças e as visitas esporádicas de minha preocupada mãe, eu estaria só. Estou quase só, portanto. Quase assustado. E certamente, quase maluco. Ouvindo vozes. Tendo edificantes relacionamentos com pratos sujos na pia e profundas conversas com folhas de papel.
Vago pela casa que foi nossa, onde vejo agora, toda minha história exposta, catalogada, explicada. Como num museu. Meu museu particular. O museu da minha vida.
Vago pelo meu museu, tropeço em cabelinhos de bonecos playmobil, quase perco a unha do dedão num velocípede velho. Ando pela casa e meus lamentos de dor, de saudades, de medo, ficam presos nas paredes. O museu fecha, todos vão embora e um único fantasma, patético e trapalhão, fica de zelador, guardando os ursos de pelúcia e as bonecas, os vídeo-games e as bicicletas, que serão todos substituídos por novos, num novo país, por um novo papai. Esse fantasma guarda o front, junta seus pedaços e sente pena de si mesmo. E, para o que mais me incomodava, Querido Diário, eu arrumei solução. Incomodava muito só poder abraçar meus filhos nos meus sonhos, sabe? Porque eu só durmo umas poucas horas de cada vez. Mas para isso arrumei solução. Comprei algumas dessas pílulas branquinhas. Elas me fazem dormir e sonhar com minha família. E em sonhos eu não só os ouço como os abraço também. Então esta noite vou me deitar com minhas pílulas e meus fantasmas. E vou dormir. Vou sonhar. Amanhã o museu vai estar fechado para visitação.
Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/12/2009 - 21:01

Flora

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Às vezes, ela sonha com ele. Sonhou que ele colocava os braços em volta dela e ela sentia a pele dele e a respiração, o cheiro. Era um sonho de cinema, eles corriam pela praia, os cabelos perfeitos; e tomavam sorvete na mesma taça, e se embrulhavam na frente da lareira, e riam. E ela sabia, no sonho, que, de alguma forma, eles ficariam juntos. Sempre. Acordada, além de se lembrar do sonho, ela se espanta em constatar como é brega, mesmo dormindo, mas, e daí, foi um sonho lindo. E ela acordou tão pequena, tão infeliz, que besteira, mas foi assim, ela acordou infeliz porque a vida não foi exatamente o que ela queria que fosse. Três filhos, uma vida inteira, um trabalho e ela acordou de seu sonho tão real, tão quentinho, tão bom e entendeu que ama o mesmo homem há 30 anos, e que os terapeutas amadores vão todo para o diabo, se ela diz que ama, ela ama e fim de papo. Ele se levantou, fez café, mandou a tropa para a escola, ensaiou uma limpada rápida na geladeira, mas não deu tempo, e foi correndo para o escritório. Passou o dia todo infeliz e fungando, chorou um pouco no banheiro da firma, mandou e-mail para a melhor amiga, que entendeu, claro, e consolou, porque papel de amiga é este, entender e consolar: bronquinha é coisa de terapeuta, e tentar resolver é coisa de mãe. De amigo a gente só quer ombro. Ela o vê de vez em quando, na tevê; ao longo da vida ele se meteu com gabinetes e seus políticos, e ela o vê em fotos nas revistas, sorrisos, inaugurações, opiniões, debates e festas; e ela se lembra dele quando ele era um menininho. Um menininho gorducho e louro, com uma voz esquisita e bela, que cantava e dançava os jingles da tevê e a fazia rir tanto e a fazia acreditar num mundo melhor, numa vida melhor. Ela se lembra que era uma menina e já o amava, e que agora ela é uma senhora e o ama da mesma forma, e a lembrança desse amor é uma facada. Ela não quer fazer drama, não é uma sofredora profissional, ele não a quis, aliás, ela sorri com amargura, ele não a quis várias vezes e ela foi em frente,  se casou, construiu uma casa – duas, se contar o sítio –, teve filhos e uma carreira, e frequenta muitas reuniões de terninho e cabelo preso, e vai à degustações de vinho e teatrinhos na escola, e ela ainda o ama. Tanto, tanto. Ele nunca deu nada a ela, ela nunca teve cartas de amor, nem lembranças, nem filhos, nem fotos na neve, ele nunca sequer a beijou, ela nunca teve e nem terá nada dele, a não ser esses sonhos reais, com sabor, com textura, com sons, esses sonhos reais que a fazem acordar desesperada e lembrar que ela ama o mesmo, o mesmo homem há 30 anos. Às vezes, ela sonha com ele.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/12/2009 - 02:05

A Valéria

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A Valéria se irritava o tempo todo com aquilo. Ela não falava nada, mas bufava bastante. A mania do Jairo de tirar o sapato em todos os lugares que eles estivessem era mesmo de dar nos nervos. Na casa dos pais dela, na casa dos pais dele, nas festas, no teatro, para dirigir, lá estava o Jairo com os pezões de fora. Ele nem tentava se justificar. “Eu gosto e pronto”. Naquela noite no Belas Artes, quando o filme acabou e o Jairo disse “Péra aí que eu vou por os sapatos”, a Val não perou nada, nem olhou para trás. Foi logo saindo do cinema, ia esperar por ele lá em baixo. O lanterninha teve que descer dois lances de escada para encontrá-la e avisá-la que o rapaz que estava com ela tinha um problema. “Um problema?”. “É, ele não consegue achar o sapato”. A Val subiu, puta. Ela, o solícito lanterninha, o Jairo (que ela chama de “aquele bestalhão” quando conta a história) e o gerente deram uma busca e apreensão pelo cinema atrás do tal sapato. O esquerdo. Operação Pente Fino. E nada. O sapato tinha evaporado. “Alguém pode ter calçado por engano. Tem muita gente que tira os sapatos no cinema”, comentou o gerente. Ele quase que fala “malucos” ao invés de “gente”, mas se conteve a tempo. “Mas então, devia ter o sapato que o cara não calçou aqui!”, respondeu o Jairo. A lógica desse argumento era irrefutável. E o Jairo teve que sair do cinema com um sapato a menos. Aliás, um sapato a menos na mão, porque, quando a Val viu que o plano dele era sair com um pé calçado e um descalço, bloqueou na hora. Obrigou o Jairo a sair com o sapato sobrevivente na mão. Claro que no dia seguinte ela mandou um moto-boy até a firma dele, devolver a aliança de noivado. E não atende mais os telefonemas do Jairo, de jeito nenhum.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/12/2009 - 12:45

Moda fashion

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“ Se eu achei os desfiles legais? Ah, achei sim. Tinha muita… muita roupa, né? Nesse lance todo de moda rola sempre muita roupa, nesses lances assim. Achei bárbaro, né? Adoro quando tem esses mega-eventos de moda fashion, né?  Porque aí junta todas as coleções de todas as griffes num lugar só, né? E a gente assiste tudo junto. Dá um pouco de zoeira na cabeça toda essa informação de uma vez só, mas é legal. E só depois que a gente vai tentar entender que-que rolou, né? Sei lá, eu acho básico isso. Tipo assim… ficar 12 horas vendo um desfile atrás do outro. Se cansa? Não, cara, não cansa, é o mó legal. É uma super oportunidade, né? Para gente que vai se lançar é básico. E eu? Bom, eu tou assim, num lance muito meu, né? Acho que como estudante de moda, eu tenho que investir no… sei lá… no novo, né? Que tá aí, ó, rolando. Para marcar, né? Por isso essa parka de papel celofane, sacou? É a minha cara.”
Mirella Sampaio, 23, estudante de moda.

“Minha coleção? Bom, eu construí minhas roupas de verão assim, basicamente com tecidos transpirantes, entendeu? Porque é verão, entendeu? Quer dizer, não é verão, mas vai ser verão, entendeu? E verão, é calor, faz mais calor, lógico. A gente se mexe e transpira e Deus me livre, tem gente que até sua! É assim, aquela história de ação e reação, ainda mais no Brasil, entendeu? País tropical, aquele negócio. Ah, e as roupas? Então, é isso. Roupas de verão.”
Wanderley A. Bisneto, 43, estilista da griffe “Poder Atômico”.

“Quem não é do ramo pode até achar que isso aqui que eu tô usando é uma mistureba sem sentido e sem critério, mas o povinho da moda sabe muito bem do que eu tou falando. Isso aqui, benzinho, é atitude fashion, é tendência. Daqui uns 10 anos, quando tiver o povo todo da novela das oito usando boina lilás, kilt e sandália de dedos, a Glorinha Kalil vai dizer “Olha lá. E foi o João Henrique que começou!”
João Henrique Mattoso, 28, ator performático desempregado (“Mas com uns lances em vista, viu? O Antunes garantiu.” )

“Eu sou socialite, tá? Essa é minha base. Essa é minha definição. E eu tou ligada, tá? Antenada. Sei o que é up e o que não é. E eu quero estar o tempo todo bonita, chique, fashion mesmo, tá? Mas sem perder a minha identidade, né, minha identidade é tudo. Então, eu viajo nesses desfiles fashion, percebo as tendências mais importantes de cada coleção e adapto tudo ao meu jeito de ser, meu jeito de vida, sei lá, meu eu, né? É assim, uma espécie de Rosaninha Style. Então, o resultado se nota no meu look, nesse tênis de plataforma de lona vermelha, nessa pantalona de lamê, que lamê de dia agora tem tudo a ver, essa camisa cópia fiel do Versace e esse coletinho de crochê básico, que minha avó fez lá em Poços de Caldas e mandou para mim. Tá?”
Rosaninha Assumpção, não declara a idade, socialite. (“Não esquece do p mudo do Assumpção!”)

“Minha coleção de verão, esse ano, é uma tentativa de chegar ali, no eu absoluto de cada um. Coisa assim de moda-integração mesmo. Eu acho isso super-importante. Eu pego a moda da tribo, traduzo, decifro e devolvo para a própria tribo, tipo assim… mostrando para a tal tribo o que realmente ela quer, mesmo que ela não saiba. Às vezes as pessoas não sabem o que querem realmente. Então, eu ensino para elas o que elas gostariam de ter, de ser , e porque não, de vestir. É isso que eu faço. Reciclo o inconsciente coletivo, boto na passarela e chamo a atenção. Vender ? Não imagina, e quem é que ia usar uma coisa dessas? Eu ganho dinheiro mesmo vendendo jeans.”
Paolo Estênio, 54, dono da estilista e dono da griffe “Chica-Chica-Bum”

“Não quero causar polêmica, não estou aqui para magoar ninguém, mas o desleixo do pessoal aqui do Brasil é constrangedor. Eu nunca vi tanta gente feia, bagunçada e largada junta em toda a minha vida. Uma jagunçada pavorosa. Isso aqui parece o baile à fantasia da Família Adams. Os modelitos das coleções já são pavorosos, mas os da platéia… faça-me o favor. Ninguém de terno, ninguém de gravata, isso aqui parece final Ferroviário X Bragantino. Francamente! Onde está o glamour, onde está o party-look, onde está o aplomb desse povo? O que é isso, minha gente? Graças a Deus, eu moro em Miami. Miami é primeiro mundo, as pessoas se vestem como devem se vestir. Achei tudo um pavor.”
Hugo Araújo, 48, decorador.

“Pois é, todo mundo aí, na trilha dessa garotada, com uma tendência “não-usável” que eu, pessoalmente, considero bárbara. Para a passarela não tem coisa melhor! É super básico, super simples, super despojado. Esse lance de não dar para usar essas roupetas é genial, porque deixa o estilista mais leve, mais livre, mais solto, para pirar, viajar, criar, com seus próprios sentimentos. E daí que ninguém compra? Ninguém está comprando nada mesmo, meu amor, a crise é mundial!”
Fernanda Magalhães, 35, consultora de moda.

“Eu sinto isso tudo assim, tipo um barato cósmico, entendeu, linda? Porque o que a gente vê aqui é só o invólucro. Você vai para um novo plano, para uma viagem astral superior e nessa viagem você não vai precisar de roupa, não. Aliás, você não vai precisar nem de corpo. É isso que importa. Então aqui, a gente está só para curtir, para deixar rolar esse clima bárbaro de companheirismo, amizade e troca profunda a nível de ser humano. Nada que é material tem valor, porque tudo passa, caixão não tem gaveta, não é mesmo? Ah, falando nisso, eu te dei o cartão da minha confecção? Recebemos uns tecidos novos chiquérrimos!”
Marília Gomes, 49, dona de confecção.

“Estou adorando ver os desfiles. Todos lindos, poderosos, um luxo. Claro que o meu desfile se destacou, mas meu amor, você queria o quê? Eu tenho oito meses de Paris na bagagem cultural! Fiz a coleção assim, numa estética fashion baseada nesse lances de cores, partindo do princípio que, assim como o branco e o preto, o turquesa e o abóbora conversam legal, têm uma sintonia fina. Com essa base das cores, meu sportwear entra num momento dance, assim, tipo Ibiza.”
Cacá Louis, 36, estilista da griffe “Cacá Louis”.

“Olha, eu particularmente, senti os desfiles esse ano muito assim…deixa eu capturar uma palavra que você entenda… muito “respiração”, fui claro? Quer dizer, uma manobra assim, de dentro para fora e de fora para dentro, fui claro? Essa é a real interação moda-arte, minha filha. É aí que você realmente percebe o desenvolvimento da singularidade do indivíduo criador. Sim, porque na real, somos todos criadores, fui claro? Tem tudo a ver com essa ecologia básica de desejo, de verdade, de entrega, de encontro. O fashion-creator de hoje tem a obrigação de resgatar a escolha das conexões, de expandir a vitalidade contida, de restaurar a visão do eu abalado.”
Camilo Estevão, 33, hair-stylist. ( “Não vá dizer que eu sou cabeleleiro, heim?”)

“Olha, meu filho, eu não sei não. Eu sou paga por mês, pelos donos aqui da firma. Quando tem uma coisa assim feito essa, que eles chamam de evento, que dura muitos dias seguidinhos, eu nem volto para minha casa, porque eu moro em Ermelino Matarazzo. Ah, é bom, né, uns meninos animados, com os cabelos coloridos, eu acho bonito. Não, imagina, eu tiro minhas roupas no crediário da minha filha, isso aí eu nunca ia ter coragem de usar. Meu velho me mata, sabe como que é, né? Mas é, é legal, sim. Eu só prefiro quando é congresso de médico. Ah, não sei, são uns moços mais bonitos, tudo doutor, né? E eles sempre me dão umas amostras grátis de remédio.”
Lourdes Maria, 41, faxineira do evento.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/12/2009 - 20:24

Tereza

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Nesse exato momento, eu quero um chá gelado, unhas mais grossas e coragem, muita coragem. Amanhã, talvez, eu queira dinheiro para pagar a conta da conexão banda larga e guias para uns exames, mas agora eu quero mesmo é um vestido que mostre meus peitos e uma meia que não desfie. Quero dias mais longos e um namorado secreto, uma chapinha perpétua e um nariz novo. Cílios postiços? Não é má idéia. E, já que falamos nisso, uma pintinha bem aqui. Quero mais cultura geral, para poder discorrer sobre o pai de Luiz, o Grande, e sobre os afluentes do rio Amazonas. Quero uma aula instantânea de postura, saber andar com um livro equilibrado na cabeça. Quero andar com um revisor sempre de prontidão, como a Madonna andava com aquela maquiadora. Quero dormir mais cedo, acordar mais tarde, comer mais carboidratos e mais brigadeiro. Quero som, luz e fúria, e morar num prédio com manobrista. Quero ter mais ilusões, muitas, muitas, quero acreditar em tudo, cair em mim e luxar a alma

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/12/2009 - 20:56

Querida Tela

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Churro recheado comido de pé na praça, raspadinha de framboesa, polvo à vinagrete, bolo de fubá (finalmente eu me entendi com esse forno), risoto de caranguejo, suco de limão com casca (acho que nos restaurantes chama limonada suíça, mas meu pai – que odiava, chamava de limonada de presidiário), sobrecoxa de galinha assada com coca-cola, suflê de abobrinha, fritada de marisco, pastel de bacalhau, picolé de limão, couve refogadinha com alho, pudim de laranja (sim, esse forno me ama), salada com repolho roxo, bolinho de queijo frito, rosquinha de canela, ensopado de atum fresquinho, conserva de sardinha, muqueca que eu aprendi a fazer, ostras direto da concha, para o Alê, Tela, que eu odeio aquilo, biscoitos de polvilho na estrada, salada de rúcula com manga, água de côco pro Alexandre, garapa para mim (eu não presto, Tela, mas você já sabia), chuvisco, chá mate com limão, cebola crua com sal, sorvete de casquinha de chocolate, sushi feito por um libanês, batata frita de barraquinha de rua, macarrão alho e óleo, mousse de maracujá (aquela safada, creme de leite e geladeira), torta de maçã da massa falsa, calderada de marisco com couve, divinal, que eu inventei.
Amor,
Fal

Bertioga, verão de 2002

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
09/12/2009 - 23:09

Queridos Bernardo e Victor:

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Bife acebolado, suflê de chuchu, pufe de queijo, bolo de bolo, arroz de forno, picolé chicabom, ovo amarelo do boteco, pato recheado com ostra, brigadeirão da Tia Neuza, salada de grão de bico, lombo recheado, bolo de laranja com manteiga aviação, suco de uva Superbom, bolo de carne, rabanada, suflê de cenoura, bife de fígado, suco de maçã Superbom, suflê de arroz de ontem, salada de vagem, sonhos recheados da padoca, rocambole de goiabada, suflê de queijo, groselha vitaminada Milani, ovos no inferno do vô Nelson, sopa de cebola com cebola de verdade, biscoitos de canela, coelho à escabeche, frango assado com coca-cola e bacon, torradinha de espinafre com parmesão, queijos fedidos, azeitonas verdes no azeite, azeitonas pretas no vinho, tostex do Nelsão, fondue, maminha com cerveja preta, café com leite bem quentinho logo antes de dormir – ainda o melhor gosto do mundo.

Amor

Papai e Tia Biba

Rua Jesuíno Maciel, 1974/1978
Rua 9 de Julho, 1978/2002
-
São Paulo

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/12/2009 - 19:14

Acidentes, acidentes

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- Huuummmm, que cheiro delicioso.
- É mesmo, maravilhoso.
- Parece café.
- Deve ser café, alguma vizinha tá fazendo lanche.
- Talvez seja bolo de café.
- Ou café que é moído na hora.
- Ou pavê de café.
- Huuuuummmmmmm.
- Huuuuuuummmmmmm.
- Precisamos comprar uma dessas cafeteiras que moem o café. Huuuummm.
- Huuuuummmmm.

(15 minutos depois)

- Mas meu deus, não passa o cheiro. Que delícia, não? Huuuuummmmm…
- Huuuummmmmmm.
- Hummmmm!
- Deve ser um bolo ou um doce desses que…..
- Que foi?
- POURRA, NÃO É CAFÉ, VAMO NA COZINHAAAAAA!!!!!

Claro, de repente cai a ficha na doida. O que de longe parecia café torrado, de perto era uma panela de ervilha do tamanho do Himalaia, que a retardada tinha posto pra cozinhar. Fumaça, muita fumaça, panela caríssima de inox inutilizada,o cachorro apavorado na área de serviço também tomada pela fumaça, marido abanando toalha na cozinha pra fumaça sair e vizinhos bem intencionados tocando a campainha:
- Oi, tá queimando alguma coisa aí? O hall tá todo enfumaçado.

(e você, no  meio da fumaça, só quer responder, “<em>tou sim, seu tonto, tou queimando a tua mãe”)

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/12/2009 - 19:58

Padre Mário

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Padre Mário foi o padre favorito de minha vó.
Vovó adorava o Padre Mário, Padre Mário adorava vovó.
Padre Mário foi um dos muitos padres da vida devotíssima de Dona Cida, vinda de muitas missas, muitas promessas, muita esperança.
Vovó não pedia nada a santo nenhum, vovó dava ordens bem sisudas preles e os santos que não eram nada bestas, obedeciam, Deus os livrasse, mulher mandona, mal humorada, era melhor obedecer. Vai daí que Padre Mário era o companheiro ideal para a vovó, assertivo – para usar uma palavra da moda. Dona Cida e Padre Mário, dupla feita nos céus. Nenhum dos dois era muito chegado a uma democraciazinha, os dois acreditando no Insofismável, no Indizível, No Que Tudo Pode.
Padre Mário, bom de copo, bom de prato, ótimo de papo. Padre Mário, o padre favorito da vó, padre querido, amigo de todas as horas, riso fácil, rosto redondo, olhos bons.
A receita de que melhor me lembro e da qual ele mais gostava, era um nhoque com massa de mandioca em vez de batata massa. Para cada quilo de mandioca descascada e cozida, a Dona Cida acrescentava uma xícara de leite, um ovo e duas xícaras de farinha (num é fácil decorar receita assim? Eu me só me lembro por causa desse um-um-um-dois…. que tonta que eu sou). Ela misturava tudo numa tigelona, ao contrário das outras massas de nhoque, que eram preparadas em cima do tampo da mesa, mesa verde de…. céus, não sei o nome do material, quando minha mãe chegar, pergunto prela. Acontece que essa massa específica tinha que ser feita na tigela porque fica… molenga. Daí, a massa ia sendo transferida pro saco de confeiteiro, minhoquinhas de poucos centímetro eram lançadas n’água fervendo através do bico do saco (gente de Deus, que conversa esquisita pruma crônica sobre padre), as minhoquinhas afundavam e, tharããã, cadim depois fiavam prontinhas, boiandinho. O truque, se me lembro, é ir fazendo de pouquinho, não pode lotar a agüinha quente de minhoquinha. Tá científica essa minha receita.
O molho era à base de lingüiça calabresa, eu nem preciso explicar, molho de lingüiça é uma safadeza, todo mundo sabe fazer. Padre Mário era bem tratado pacas. Mas ele merecia.
Ô Padre Mário, guia espiritual e amigo do Jabuca inteiro, queria poucas coisas mais do que quero cozinhar pro senhor, lembrar da vó, falar do que fomos, ver fotos antigas, levar bronca por não ir à missa, ovelhinha perdida e não muito arrependida. Amém. Por onde o senhor anda?

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/12/2009 - 22:12

Por dentro da caverna

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Ritualizar refeições foi algo que aprendemos a fazer desde sempre, muito antes de gregos, etruscos e romanos, antes ainda de sumérios e egípcios. Mal havíamos coberto nossos corpos de peles de animais quando começamos a lançar as bases rituais de nossas refeições e se uma equipe de arqueólogos descobrir que na pré-história, uma certa dona de caverna tinha uma cumbuca de pedra mais bonitinha, separada para as visitas, eu não vou me espantar.
O fato é que nós adoramos visitas. Mesmo as chatas. Mesmo as que passam os dedos nas nossas prateleiras de livros procurando por sujeira. Mesmo as que não vão embora nunca. Mesmo as que deixam seus filhos descontrolados e indomáveis aterrorizar nosso gatos.
É humano gostar de exibir a caverna para os membros da outra tribo.
Portanto, se você ainda não sabe, aprenda que receber tem a ver com coreografia, capacidade de criá-la, de segui-la e de improvisar.
Nós, os temerários, temos que ter em mente 10 passo simples, mas fundamentais, para que possamos exibir nossas cavernas para hominídeos doutras tribos sem perder a razão.

1) Olhe em volta
Antes de mais nada reconheça os limites físicos da sua casa. Seja franco: cabem trinta pessoas aí? Seus sofás estão em condições de uso? Você tem louça suficiente? Pelo amor de Deus, você tem cadeiras, ou um chão em consições de uso? Você gosta mesmo de receber? Está disposto? Sabe o trabalho que dá antes, durante e depois? Quer desistir de tudo e marcar na pizzaria da esquina?

2) Olhe para o relógio
Outra coisa a ser considerada é o limite de horário para barulho do seu prédio. Não existe coisa mais broxante do que um interfone tocando às 22:01h e o porteiro anunciando que “o síndico mandou parar com o barulho”. Você não gosta do barulho alheio e os seus vizinhos odeiam o seu barulho também. Respeite ou mude de casa.

3) Quente aqui, né?
Preste atenção na temperatura da sua casa. No meu apartamento, por exemplo, só podíamos receber visitas de maio a setembro. Acontece que o sol se põe exatamente na janela da sala, os cômodos pegam todo o sol escaldante da tarde, o que transformava nosso lar de outubro a abril numa estufa, e nossas visitas em pãezinhos.

4) Antes de pensar nos convidados
Não se esqueça, ao fazer as contas, de incluir o pessoal da casa! Se moram seu marido, sua mãe e você, já são três convidados a menos.

5) Agora sim: Quem, como e porque
Quantas almas podem fazer uma refeição em sua casa, sentadas à mesa ou não, sem dramas existenciais do tipo prato num joelho copo no outro e a comida sendo ingerida telepaticamente? Por mais amigos queridos que você tenha, nunca ultrapasse o limite da lotação da sua casa. A queridância diminui muito quando seu amigo mancha a camisa que adora ao desequilibrar a taça de vinho, pois não há lugar para apoiá-la. Então, preencha os lugares com lugares com pessoas queridas, que vão visitar você por amor e não para comer de graça (e acredite, o mundo está cheio de gente assim), que sejam divertidas, prestativas e que não sejam apegadas a valores burgueses como comida quente e louça limpa. Assim, se tudo der errado, vocês darão boas risadas, você terá ajuda para recolher os cacos e companhia para a coca-cola quente e para a pizza fria. Portanto não tema limar a prima que resmunga, o amigo que carrega para a sua casa o filho chato e sem educação e a cunhada maledicente. É a sua casa, sua noite e seus únicos problemas devem ser o ponto da calda de açúcar e o humor do suflê.

6) Listeeeenha
Pense no que vai ser servido. Quanto vai custar. Quanto tempo de fogão será necessário. E se você tem tempo e grana. Beneficie-se com a minha neurose, pequeno gafanhoto, e aprenda: não deixe nada para a véspera. Mesmo seres temerários como a Zel, que de vez em quando se transmuta no cancão de fogo e tenta receitas novas aos 44 do segundo tempo, começam a esboçar o cardápio semanas antes. E não, você não é melhor que a Zel. Então, planeje a bagaça antes.

7) Peça ajuda aos convidados
É. Às vezes o fluxo de caixa tá bacana e você só pede que cada um leve seu próprio veneno. Às vezes a coisa não está tão linda assim e você pede que quem puder leve um pratinho. O que é que tem? Ninguém com um mínimo de juízo vai se ofender. Ninguém vai dizer ‘se ela não está com grana, ela que não convide’, acredite. Todos vão preferir sua deliciosa companhia, ainda que isso signifique fazer um patezinho ou passar na padoca e compar pão. E quem não se sentir assim nem merece ser convidado para nada, tire essa gente da sua vida.

8) Beauté
A Denise e o Max, grandes anfitriões, ensinam: “coordene tudo para estar pronta a tempo. É terrível o povo chegar e você ainda estar de avental e chinelos.” Rá.

9) Anthony Hopkins feelings
Se você é daquelas criaturas que recebem no esquemão cozinheira, copeira,arrumadeira e o Antônio pra coordenar as operações, parabéns. Eu não nunca tive nada disso. Eu recebia com a cara e a coragem, sempre. Claro que o valoroso Alexandre entrava na dança, assim como uma visita mais ‘de casa’, geralmente Carina, Maloca ou Lígia (meu Deus, que saudade da Lígia). Por isso, escale marido ou amiga querida para ajudar e avise à criatura que ela dançou e vai cortar um dobrado no dia do festejo. Mas atenção: esteja à disposição no dia em que ela resolver dar uma festa.

10) Sorria

Relaxe. Beba outra vodca. Diveirta-se. Se não era pra ficar mais feliz, por que você inventou esse negócio?

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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