O museu
Querido Diário hoje eu acordei e sinto que estou perdendo a razão. A Esther e as crianças foram embora há três semanas e eu fiquei aqui sozinho, enlouquecendo lentamente.
É um bom começo para um diário. Minha filha mais velha tem um. Mas ela foi embora. Minhas duas filhas, meu filho e minha mulher. Voltaram todos para Israel. Para a casa da mãe da Esther. “Minha terra”, a Esther dizia. “Vou voltar para a minha terra”. Ela ameaçou tanto, durante tanto tempo. Eu nunca acreditei. Mas ela foi mesmo.
Quando nos conhecemos eu era um garoto. Fui para Israel fazer o serviço militar. Foi lá que eu a conheci, a filha do rabino. A menina mais bonita de Jerusalém, de Israel, do mundo.
Durante três anos frequentei aquela sinagoga com assiduidade. Minha mãe, quando recebeu uma carta da minha tia, falando do meu súbito interesse religioso, contou para o meu pai, que me ligou às gargalhadas para perguntar o que eu estava aprontando. Riu quando soube da minha paixão pela filha do rabino. Minha mãe não riu tanto. Ela pode não ser religiosa, mas é uma boa mãe judia, preocupada com o casamento dos rebentos. Durante meses fez preleções e profecias sobre o quanto éramos diferentes e o quanto ia dar errado. Claro que eu não quis ouvir. Disse-lhe que ela era uma mãe judia ciumenta e segui com a minha vida.
Até que um dia… um dia a Ester olhou para mim. Olhou só não, sorriu também. E veio falar comigo. E eu nunca mais vi ninguém na minha frente. Tudo para mim começava e terminava naquela mulher. Eu não tinha nenhum plano que não a incluísse, que não a envolvesse.
Olho à minha volta agora e vejoos objetos, grandes e pequenos, que compunham a nossa casa, o nosso lar. Todos comprados por nós dois, um a um, devagarinho. Ela não levou quase nada. Deixou suas coisas para trás. Eu fiquei para trás também.
É tortura ficar nesta casa, eu bem sei. E eu me angustio e me entristeço e me maltrato aqui. Mas eu vivi nesta casa doze anos, Querido Diário, aonde mais eu poderia ir agora? Meus filhos aprenderam a andar aqui. Para o primeiro dia de escola, cada um deles saiu daqui. Esse é o único lugar que sei chamar de casa. Todas as nossas coisas estão aqui. Não. Todas as minhas coisas estão aqui.
Querido Diário, eu ando pela casa e a ouço estalar. Vejo as camadas de pó em cima dos móveis, mas não tenho coragem de chamar ninguém para limpar. A primeira coisa que fiz, depois que eles foram embora, foi despedir a faxineira. Não tomo nenhuma providência para mudar as coisas por aqui. Tudo está exatamente como eles deixaram. Os brinquedos. As roupinhas espalhadas. A camisola com a qual minha mulher dormiu na última noite e que não levou por estar muito velha. As toalhas em cima das camas das crianças. Tudo igual. Minha mãe veio aqui no sábado. “Eles foram embora há semanas, você vai ficar vivendo nesse buraco para sempre?”. Expliquei que não era um buraco, que era a minha casa e que ela não tinha nada a ver com isso. Ela sacudiu a cabeça e foi embora. Mas eu sei que ela vai voltar. Munida de baldes, esfregões e boas intenções. Mas eu não vou deixá-la entrar, eu não posso, você me entende, Querido Diário? Nada pode mudar, nada pode sair do lugar em que está. Nenhuma lembrança pode mudar. Se algo assim acontecer, perco minhas crianças para sempre. Perco meu passado, perco minha história
Eu enlouqueço, Querido Diário, enlouqueço e falo com você. Saio para o trabalho cedo, como na rua, e volto no mesmo horário que voltava antes. E ouço suas vozes e suas risadas, seus gritinhos mesmo antes de abrir a porta. Como sempre foi. A TV e o rádio ligados ao mesmo tempo, minha menina mais velha andando para lá e para cá falando no telefone sem fio, os gritos, o “Paiê! Vem cá!” Eu ouço tudo isso, Querido Diário, e que Deus me ajude, estou prestes a responder.
Quase tenho medo de mim mesmo. E se não fossem os fantasmas, as sombras, as lembranças e as visitas esporádicas de minha preocupada mãe, eu estaria só. Estou quase só, portanto. Quase assustado. E certamente, quase maluco. Ouvindo vozes. Tendo edificantes relacionamentos com pratos sujos na pia e profundas conversas com folhas de papel.
Vago pela casa que foi nossa, onde vejo agora, toda minha história exposta, catalogada, explicada. Como num museu. Meu museu particular. O museu da minha vida.
Vago pelo meu museu, tropeço em cabelinhos de bonecos playmobil, quase perco a unha do dedão num velocípede velho. Ando pela casa e meus lamentos de dor, de saudades, de medo, ficam presos nas paredes. O museu fecha, todos vão embora e um único fantasma, patético e trapalhão, fica de zelador, guardando os ursos de pelúcia e as bonecas, os vídeo-games e as bicicletas, que serão todos substituídos por novos, num novo país, por um novo papai. Esse fantasma guarda o front, junta seus pedaços e sente pena de si mesmo. E, para o que mais me incomodava, Querido Diário, eu arrumei solução. Incomodava muito só poder abraçar meus filhos nos meus sonhos, sabe? Porque eu só durmo umas poucas horas de cada vez. Mas para isso arrumei solução. Comprei algumas dessas pílulas branquinhas. Elas me fazem dormir e sonhar com minha família. E em sonhos eu não só os ouço como os abraço também. Então esta noite vou me deitar com minhas pílulas e meus fantasmas. E vou dormir. Vou sonhar. Amanhã o museu vai estar fechado para visitação.
