A primeira vez que vi Lisboa – trecho de uma carta para a Vera

A primeira vez que vi Lisboa, Lisboa não me viu. Era uma noite de inverno, o céu estava cor de chumbo, sem estrela nenhuma e eu, que desci a escadinha do avião toda-toda (no meu tempo a gente saía do avião pela escadinha), esperando ver as sete maravilhas do mundo duma vez só — mais ou menos isso que meu pai havia prometido — não vi coisa alguma. Mas o velho jurou por Deus que era questão de horas.
Hotel, banho, sopa, cama.
Na manhã seguinte, acordamos às vinte para as seis da manhã (meu pai não acreditava em Deus, em alergias e nem em jet-lag e eu herdei suas crenças religiosas. Macho que é macho levanta da cama, toma banho e café, anda, anda, anda, anda e depois vai pro museu). Depois do café, botamos o pé na calçada.
A primeira vez de verdade que vi Lisboa foi como levar um choque, encontrar o primeiro amor, comprar a primeira dúzia de rosas amarelas para si mesma, dar o primeiro beijo, pintar as unhas de cor de uva pela primeira vez, tomar a primeira limonada feita de limão cravo, passar a primeira noite comendo polenta e fazendo fofoca com o amigo num bar gostosinho. A primeira vez que vi Lisboa, cheirei o ar. Nenhum ar do mundo tem o cheiro do ar de Lisboa. Foi uma dessas primeiras vezes, foi cheia de esperança do que estava por vir, do que ainda poderia acontecer, das muitas e muitas possibilidades que a vida encerra.
A primeira vez que qualquer um viu Lisboa faz tanto, tanto tempo, que ninguém sabe quando foi. Lisboa tem um rio, o Tejo e foi ele quem primeiro atraiu gente pra lá, nos remotos tempos que meu velho pai não era vivo e que, portanto, ainda não era o embaixador extraoficial da cidade. Não só o que viraria Lisboa, mas toda a península Ibérica, é habitada desde sempre, primeiro pelos neandertais, depois por nós – o que, na minha modesta opinião, não representou nenhum avanço. Mil anos antes de Cristo (pouco mais, pouco menos, porque historiador é bicho que não se entende… você vai ver o tanto de e-mail que eu vou receber, concordando com a data, discordando da data), meus favoritos, os fenícios, passam por ali em direção à Inglaterra para comprar estanho. Eles compravam e vendiam, fazendo negócio com os moradores locais. Os fenícios, estou cansada de encher seus ouvidos com isso, Vera Maria, foram os caras mais sensacionais que já existiram.
Bão, o Tejo ali por Lisboa formava um porto natural muito do bacana. A moçada local e os fenícios se encontravam ali pra vender uns lances, comprar outros, fofocas, fumar seja lá que a moçada fumava na época, beber uma bebidinha e tale e cousa. Ali mess, os fenicinhos fundaram Alis Ubbo, que no idioma fenício queria dizer “porto seguro”. E o ria ele chamaram de Taghi que quer dizer “boa pescaria”. E aquilo, Verinha, fervia. Nativos iberos, fenícios, judeus, celtas, e miles doutros negos chegando e partindo, adouro.
Os gregos também passaram por lá. Mas eis que gregos e cartagineses (os herdeiros fenícios, também donos de meu amor imorredouro) não iam um coa cara do outro. E por isso os gregos não ficaram ficando, só ficaram passando. O posto de comércio grego não vingou ali. Fosse vivo, meu velho além de te contar isso no ouvidinho sem dar a mínima pro fato do Tarcísio andar armado e ser mau, inda te diria (pois Camões adorava a história de ter sido Lisboa fundada pelo Ulisses, de Homero ):
Ulisses é o que faz a santa casa
A Deusa, que lhe dá língua facunda;
Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.
Hum, mesmo não ficando assim, pra valer, em Lisboa, os gregos tinham um nome prela: Olios hippon – que quer dizer ‘o lugar onde se encontram cavalos’ (os cavalos da Península Ibérica são espetaculares até hoje, Vera – mais uma coisa espetacular numa península espetacular). Os gregos tinham nome para tudo.
Eu queria pensar junto com você, qual seria o nome deles pro estado no qual me encontro, mas deixemos para lá, né mess?
Amo você,
Eu.
***a foto é de 1988, Nelsão no Castelo de São Jorge, Lisboa. Nossa última viagem para lá.
Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
Se Lisboa já é a cidade mais linda do mundo, vista através dos teus olhos vira uma coisa perto do impossível. bjs
eu querio passear mais por lisboa com voce e nelsão, escorregar nas pedras de basalto polidas pelos séculos, aaaaai… beijos
Ninguém no mundo fala de História tão maravilhosamente quanto vc (aliás, disso e de um monte de outras coisas).
Adoro!!
Linda carta, quem sabe um dia voce me escreve uma … Hein???
Beijocas, queridona
Se o aeroporto é pequeno a gente desce do avião pela escadinha sim! em Londrina era assim pelo menos.
Delícia.
Deu vontade de saber mais sobre os fenícios.
beijo
uma das coisas que eu mais gosto de fazer, Fal, é buscar a semelhança dos gestos que os pais passam pro filhos.
vejo marido-Mauro inumeras vezes ao dia, qdo olho pra rapha.
e agora olhando pro Nelsão com os braços em angulo e os dedos entrelaçados percebo que já tinha visto voce fazer igualzinho…!
beijo
Vou embora pra Lisboa e ponto final
bjks.
Fal, so li a carta agora…vi Lisboa através dos teus olhos, agora quero conhecê-la “pessoalmente”.
Um beijo