iG

Publicidade

Publicidade

Arquivo de outubro, 2009

30/10/2009 - 12:14

Bonne Table – uma coisinha que faltou ao falarmos da França no século XVIII

Compartilhe: Twitter

A Revolução Francesa, além de gerar mudanças políticas e sociais, afetou nossas mesas, muito mais do que você possa imaginar.
Mesmo antes da Revolução Francesa, os restaurantes já existiam em Paris. Durante a Revolução Francesa, porém, os deputados das províncias, em sua maioria, não tinham casa em Paris. Não tinham onde fazer suas refeições, tinham que comer na rua, em lugares próximos ao Palais Royal, onde faziam suas reuniões. Formavam uma clientela assídua, porém heterogênea – esses deputados vinham de pontos muito diferentes da França, com hábitos alimentares variados. Isso obrigava a cidade, não só a aumentar o número de estabelecimentos que possuía, como também seu repertório culinário. Ao mesmo tempo, vários chefes, antes empregados por famílias aristocráticas, caídas em desgraça, migram para estabelecimentos comerciais, o que leva a comida servida à população a um nível de excelência nunca dantes navegado.
Restaurantes de monte e alta culinária – os franceses devem muito à Revolução. E nós também, beibe, nós também.

Uma das histórias nos diz que o termo restaurant foi criado em 1765, pelo proprietário de um estabelecimento que servia sopas quentes anunciadas como restaurantes, ou seja, restaurativas, que restauravam a saúde e o bem-estar.
O Alexandre conhecia outra história: a versão de que o termo viria do fato de se restaurar comida velha para ser reaproveitada. Enfim.
Os restaurantes eram diferentes das tavernas, albergues e cabarets. Eram mais limpos, mais tranquilos e tinham decoração aprimorada. Punham a comida bem feita ao alcance de quem pudesse pagar por ela.

Napoleão não era um gourmet, mas considerava a boa mesa um importante instrumento da diplomacia. Quando seu capelão, Dominique de Pradt, partiu para o exterior, para negociar a paz numa questão do Estado, Napoleão, como última recomendação, lhe disse “Surtout, Monsieur, tenez bonne table” (E, principalmente, meu caro, tenha uma boa mesa).

O grande chef da época, que só trabalhava em casas particulares e serviu, dentre outros o Czar Alexandre I, o Barão Rothschild, Jorge IV da Inglaterra e Luís XVIII, era Marc-Antoine Careme. Abandonado pelos seus pais, paupérrimos, esse francês, nascido em 1754, começou sua carreira com um famoso patissier da época e propôs, ao longo de sua carreira, simplificação, só. Substituiu os complicados coulis do século XVIII por molhos básicos, como maionese, hollandaise, bechamel, bearnaise. Muitos gourmets do fim do século XVIII haviam se arruinado com a Revolução. Não podendo mais manter boas mesas, fundam sociedades de estudo da gastronomia. Seus trabalhos escritos satisfazem a demanda criada pela nova classe alta, gerada pela Revolução. O século XIX abriga muitos escritores de gastronomia e muitas inovações no preparo e na apresentação das refeições.

Uia, deu fome em vocês? Em mim deu. Té segunda, môs fios.

Fontes:
De Caçador a Gourmet, de Ariovaldo Franco, Ed. SENAC
A Saga da Comida, receitas e história, de Gabriel Bolaffi, Ed. Record

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
28/10/2009 - 14:50

Baco não conjuga

Compartilhe: Twitter

Baco não conjuga.

Baco não sabe o que é granadilho.

Baco não briga pelo controle remoto.

Baco não foi eleito pela revista Time a ‘Personalidade do Ano’ em 1940. O eleito foi Winston Churchill e Baco acha que ele parece um buldogue. Baco odeia buldogues.

Baco não sabe que capturar os bois de Gerião era um dos trabalhos de Hércules. Se soubesse, ajudava, porque Baco odeia boi.

Baco não sabe quem foi Jaime I da Inglaterra.

Baco não sabe fazer miojo.

Baco não disse nada sobre o tenão novo de mamãe.

Baco vai pra cama às 7 da noite.

Baco não se preocupa em como vai ser o marcador do livro.

Baco não vê filme iraniano.

Baco não come mandioquinha.

Baco não tem planos para o Natal.

Baco não conhece o Paradoxo de Epimênides.

Baco não ergue sua tocha junto à porta dourada e nem faz a menor idéia donde esta citação está.

Baco não sabe que, em lituano, eu te amo se diz “as tave myliu”. O lituano de Baco anda meio enferrujado.

Baco não sabe que no final da Copa do Mundo de 1990, a Alemanha ganhou da Argentina.

Baco não sabe que Joseph Pulitzer nasceu na Hungria. Baco não sabe onde fica a Hungria. Baco não liga.

**desenho da Ila

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/10/2009 - 17:29

Adriana

Compartilhe: Twitter

Blitz monstro. Daquelas de busca e apreensão sem direito a sursis. Até vovozinha em Fusca eles estavam revistando. No Sumaré, quando tem blitz, não fica pedra sobre pedra, o bicho pega mesmo. Mas a Adri só queria buscar pão. E talvez passar na locadora e pegar um filme bonitinho, porque ela e a Ana Maria iam passar o sábado em casa, então um filme era uma boa. Talvez uma lata de leite condensado! Não, leite condensado já era demais. Só pão e filme. Mas, com tudo isso, a Adri Nem estava pensando em blitz. Saiu de casa daquele jeito lá, sem bolsa, descalça. Quando viu a blitz, quase desmaiou. Os PM estavam abotoando geral. Viram o Uninho da Adri e adivinha? Mandaram encostar. A Adri, branca. Revirou o porta-luvas atrás de alguma coisa. Encontrou. Desceu do carro, foi direto no guarda mais velho.

- Oi, tio. Olha, eu só ia comprar pão. Estou sem carta, sem RG, sem os documentos do carro. Mas olha só, achei este cartão da AMIL no porta-luvas, serve? Tá vencido, mas ó, tá no meu nome!

O guarda olhou aquela aparição loura, de enormes olhos azuis, toda redondinha, toda branquinha, de boquinha vermelha e pés descalços, sem nenhum documento, sem CIC, sem CEP, sem o menor respeito chamando-o de “tio” e não acreditou. Abriu o maior sorriso e liberou a Adri no ato. Nem conferiu o cartão da AMIL. E depois ela ainda me diz que ser bonita não adianta nada.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/10/2009 - 12:59

La vie en rose VI

Compartilhe: Twitter

Enquanto a vida mudava tanto na França, o resto do mundo estava apavorado. Isso é, a nobreza do resto do mundo estava apavorada.

Encantados com o sucesso dos franceses, intelectuais burgueses e artesãos na Alemanha e na Bélgica começaram a fazer barulho também, começaram a reclamar da vida que levvam, dos impostos que pagavam. Na Inglaterra a coisa estava sendo levada tão a sério e amealhando tantos entusiastas que se você fosse pego com um exemplar de Os Direitos do Homem, ia pra cadeia na hora (Os Direitos do Homem era uma obra de Thomas Paine, que, influenciado pelos franceses, pregava o fim do Absolutismo e a derrubada dos privilégios da nobreza inglesa).

Os nobres europeus das mais diferentes casas reais estavam brancos de medo. A princípio, demonstraram solidariedade passiva aos franceses, aquela coisa de “Ah, tadinhos, que absurdo, que horror, mas enfim, não é comigo”. Porém com o avanço das adesões àquela maluquice francesa, cabeças coroadas de toda a Europa começaram a se assustar. É aí que a Prússia e a Áustria entram na jogada. Com medo de que seus próprios reinos sofressem o mesmo processo, os monarcas da Prússia e da Áustria emitiram a Declaração de Pillnits, em agosto de 1791. Os historiadores se dividem nesse pedaço, uns dizem que esses dois países estavam de combinação com Luís XVI, outros dizem que não. O que importa é que essa declaração afirma que a restauração da ordem e dos direitos do rei Luís XVI era uma questão de “interesse comum para todos os soberanos da Europa”.

Os líderes do governo francês eram os girondinos, e eles consideravam essa declaração uma ameaça nacional. A vinte de abril de 1792, a Assembléia declara guerra à Áustria e à Prússia. 

Em agosto do mesmo ano, os exércitos da Áustria e da Prússia atravessam as fronteiras francesas e quase ocupam Paris. A francesada fica desesperada. Os radicais (os líderes populares que não faziam parte do governo) e a burguesia média que, embora fizesse parte do governo, não tava concordando com o que era feito, vêem nesse pânico popular uma chance de tomar a dianteira no poder. Os extremistas vão pra vanguarda e controlam a Assembléia.

Os novos líderes chamam a si mesmos de jacobinos (nome derivado do clube parisiense que freqüentavam). As características principais da fase jacobina foram o republicanismo radical e o “Regime do Terror”.

Republicanismo? Acuma? É.

Eles queriam instituir uma república, líderes eleitos. Queriam pôr fim à monarquia.

Uma das principais medidas dos jacobinos foi pedir aos franceses elegerem delegados a uma convenção nacional que promulgasse uma nova constituição.

A convenção se reuniu em 1792 e era composta por republicanos. Só por republicanos. A convenção aboliu a monarquia em 21 de setembro e proclamou a república. Uia! E tem mais, em dezembro abriu processo judicial contra o ex-rei Luís XVI. O julgamento começou no dia 11 de dezembro de 1792.

Senhoras vestidas com suas mais atraentes roupas tomavam sorvetes, chupavam laranjas e bebiam licores. O julgamento de Luís XVI foi, antes de mais nada, um espetáculo. O presidente da sessão abre os trabalhos dizendo: “- Luís, a nação francesa vos acusa. A Assembléia Nacional decretou que deveis ser julgado por ela. Vai-se proceder à leitura da lista dos crimes que vos são imputados“.

Quanto às acusações, Luís XVI respondeu que

“- Àquele tempo não havia lei alguma que me proibisse de agir assim“. 

Ele pediu um advogado de defesa. E teve um. Mas ele já estava condenado. Baubau.
                       

A Convenção realiza mudanças significativas. Nos três anos seguintes, a escravidão seria abolida das colônias francesas, um sistema métrico para pesos e medidas seria adotado, e seria revogado o princípio da primogenitura, de tal forma que os direitos de herança não seriam restritos apenas ao filho mais velho.

As propriedades dos inimigos da revolução foram confiscadas, divididas e postas à venda para que os cidadãos mais pobres pudessem adquiri-las. Os preços foram fixados. Depois de muita discussão, a religião também foi declarada assunto privado. Separaram-se completamente Estado e Religião e todos os credos não hostis ao Estado deveriam ser tolerados. O exército também foi reorganizado. 

Robespierre, o chefe do governo pós-revolução, que ficara doido de raiva com a tentativa de fuga do rei, acelera o julgamento. O rei é condenado e decapitado em 21 de janeiro de 1793.

E, em outubro do mesmo ano, a rainha é condenada e morta também.  Ela tinha 38 anos, minha idade.

Ah, em 1795, a Áustria consegue resgatar a Madame Royale Maria Teresa, a filha mais velha de Maria Antonieta. Ela é criada pelo tio, o Conde de Artois, e como eu já contei pra vocês, casa com o primo.

Luís XVII morre, convenientemente, de uma “moléstia escrofulosa”, em 1793. Ou seja, ele morre na prisão, de fome e de maus-tratos. 

Depois disso, em fevereiro de 1793, Inglaterra, Espanha e Holanda entraram na guerra contra a França, formando a Primeira Coligação Antifrancesa. Esses países (especialmente a Inglaterra) temiam que a expansão francesa através dos Países Baixos fosse uma ameaça à crescente hegemonia mercantil deles no mundo.

Contra eles, o exército francês venceu batalha após batalha, e, entre 1793 e 1796, a França ocupou os Países Baixos, parte da Itália, partes da Espanha, Suíça, Savóia e Renânia.

 

Outras fases e sub-fases da Revolução Francesa viriam. Um general corso, chamado Napoleão, surgiria, assumiria o poder e até, ah, a vida, se auto-coroaria imperador lá, justo lá, na terra onde derrubaram o rei, provando que não temos nexo, juízo e que não fazemos sentido nenhum.

Nunca mais houve uma rainha como nossa garota, nunca mais houve outro século XVIII, nunca mais fomos os mesmos. Para o bem e para o mal.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
14/10/2009 - 12:12

Menino e Menina

Compartilhe: Twitter

Fui até lá porque sou a Tia e, quando se é a Tia, supõe-se que você participe dessas ocasiões. A Mãe me recebeu nervosa. Fomos para o quarto da Menina, que nos esperava de calcinha e sutiã. Dei palpites, ajudei a escolher entre a meia-calça bege e a preta, prendi o cabelo da Menina, dei conselhos, enquanto a Mãe só olhava, quieta. Como é sabido por todos, Mãe não entende patavina, Mãe nunca teve encontros, Mãe já nasceu casada com o Pai e a maior emoção da vida dela é nos levar ao shopping para comprar sapatos. A Tia tem quantos gatos quiser, um marido engraçado e potes com bombons pela sala. A Tia tem uma vida emocionante e misteriosa, pois trabalha fora e cuida da casa, ao contrário da Mãe, que trabalha fora e cuida da casa. Duras as três, lado a lado no sofá, esperamos o Menino chegar. O Menino chegou, a Mãe do Menino também. Menina e Menino foram para a sala de televisão, de onde já haviam sido expulsos os Irmãos Menores e o Pai. Menina e Menino iriam assistir, sozinhos, ao Filme. O Filme custou dezenove idas e voltas da Mãe à locadora, pois o Filme não podia ser nem besta, nem bobo, nem de criancinha, nem com beijos demais, nem com beijos de menos, nem com palavrões, nem com nada que a Menina não julgasse inspirador. Aos 12 anos somos críticos de arte implacáveis. A Mãe da Menina contou para a Mãe do Menino sobre a difícil arte de escolher meias-calças. A Mãe do Menino descreveu, com alguma crueldade, o lento ritual da seleção da camisa perfeita. Quando o Pai perguntou se nos lembrávamos dessa sensação, suspiramos. Eu me lembrava. Ele era lindo, chamava-se Victor, tocava violão e veio à minha casa buscar uma fita de vídeo. Ficou parado na minha sala por três minutos enquanto eu pegava a tal fita. Depois disse adeus e foi embora. Eu morri por dentro. Eu doía de amor. Mas não contei essa história em voz alta. Ninguém, aliás, disse nada. Sacudimos nossas cabeças em silêncio. A Tia deu sua missão por cumprida e foi para casa, para sua vida glamurosa e seus chinelos de cachorrinho.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
09/10/2009 - 08:48

La vie en rose V – uma revolução de fases

Compartilhe: Twitter

Queridinhos, quase acabando, todos bons por aí? Animados com o feriado?

Então, coragem. Vale lembrar, que a  Revolução Francesa teve três fases. Então, como diria o cara do crime da mala, vamos por partes. 

Fase 1:

Período da Assembléia (junho de 1789- 1792)

Desde que os debates tornaram-se de conhecimento público, os preços tinham disparado. Estima-se que uma família pobre, que em agosto de 1788 gastava 50% de seu orçamento para comprar pão, entre fevereiro e julho de 1789 gastaria 80% de seu orçamento para comprar a mesma quantidade.

Aquela parte da sociedade que ficaria como sans-cullotes (o nome vem do fato desses caras não usarem os calções da aristocracia e quer dizer, literalmente “sem calções”), ou seja, os artesãos, pequenos funcionários e pequenos comerciantes, professores mais pobrinhos – a raia miúda, todos estão revoltados. Tão revoltados que resolveram invadir o Hôtel des Invalides, onde havia um depósito de armas. Invadem, armam-se e vão à Bastilha à procura de munição. A Bastilha era uma antiga fortaleza construída na Idade Média. Os populares marcharam até a fortificação. Exigiram que o comandante, o Marques de Launay, lhes desse armas. O comandante se negou e ordenou que se abrisse fogo contra a população. O populacho invadiu o troço na unha, matou o comandante e cortou fora a sua cabeça e pegou um montão de munição e pólvora. Uia, fome é um negócio seriíssimo. Gente com fome é capaz de tudo. Até de tomar a Bastilha, em 14 de julho de 1789. Luis de la Rochefoucauld, o Duque de Liancourt, vai comunicar ao rei o que está acontecendo, que a situação é seriíssima e que o bicho pegou. O que eles conversam? (e isso tá nos documentos oficiais, não saiu da minha cabeça)

- Calma, é só uma revolta, meu caro.

- Não, Majestade, é uma revolução.

 

Que mais o povo fez?

Ansiosos por notícias do que acontecia na capital e na Assembléia, os camponeses começaram a temer que talvez a classe média não se interessasse por seus problemas. Também eles estavam desesperados. Invadem e incendeiam residências nobres, solares, mosteiros e residências de bispos entre julho e agosto de 1789, assassinando um monte de nobres em diversas partes da França.

A PARIS! A PARIS!

Em 5 de outubro de 1789, mulheres enlouquecidas com o preço do pão marcham sobre Versalhes, e exigem que o rei volte para Paris e resolva a situação. Invadem um pedaço do castelo, matam uns nobres. O rei, apavorado, cede. A guarda nacional, solidária com a multidão, volta para Paris com os populares e o cortejo tem, à sua frente, soldados que levavam pães e cabeças espetadas em suas baionetas. Dentro de sua carruagem, o rei e a rainha sabem que estão ferrados, embora o rei, mui digno, declarasse “Irei a Paris com minha mulher e meus filhos, confio o que tenho de mais precioso ao amor de meus bons e fiéis súditos”.  

Foi aí, fios, só aí, que a nobreza entendeu que o trem estava feio. Foram necessárias três revoltas populares extremamente violentas para a ficha cair. Famílias nobres saem do país desesperadas. O rei manda seus irmãos e suas famílias irem embora, mas ele decide que vai ficar, e seus filhos também. Que ele quisesse ficar, vá lá, ele queria tentar manter a coroa, mas porque não tirou os meninos do país, seu besta??? (fácil falar agora, né?). Ainda não era tarde demais. Ele podia ter salvado seus filhos, ele podia ter salvado Maria Antonieta.

Como resultado direto das manifestações populares, o rei e os nobres foram convencidos a tratar a Assembléia Nacional como o órgão legislativo da França, a corvéia foi abolida, assim como os dízimos eclesiásticos, a servidão, a maioria das isenções de impostos e os privilégios de caça. Claro que os nobres não abriram mão de todos os seus privilégios, mas que ficaram com medo, ficaram. 

Depois da derrubada dos privilégios, teve mais: a Assembléia preparou uma carta de liberdades, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, cujos pontos básicos diziam que a propriedade era um direito natural, assim como a liberdade, a segurança, e a resistência à opressão. A declaração considerou invioláveis a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a tolerância religiosa. Afirmava que os cidadãos teriam direito a tratamento igual nos tribunais e estabeleceu que a soberania residia no povo e que os funcionários do governo seriam depostos em caso de abuso de poder.

Em novembro de 1789 as terras da Igreja foram confiscadas e usadas como lastro para emissão de assignats ou … papel-moeda – para que se controlasse a inflação.

Em julho de 1790, promulgou-se a constituição civil do clero, que colocava os membros do clero sob autoridade do Estado e estabelecia que padres e bispos deveriam ser eleitos pelo povo, receber salário do governo e jurar defender a nova constituição. A Igreja separou-se parcialmente de Roma, pois o que se queria estabelecer era a Igreja Católica da França, uma instituição nacional, submissa à Roma apenas em tese.

Em 1791, a Assembléia terminou de redigir a nova constituição. O governo transformou-se numa monarquia limitada e o poder era, principalmente, da classe média, ora, por quê? Porque, embora todos os cidadãos tivessem os mesmos direitos, só poderiam votar aqueles que pagassem certa quantidade de impostos. Hum.

O rei foi privado do controle que outrora exercera sobre o exército e a administração geral. Ele arma uma fuga meio estapafúrdia (finalmente), mas são todos apanhados e presos. Antes, viviam confinados numa residência, agora, são separados, presos, ele não vê mais a mulher e os dois filhos.

A constituição francesa era um reflexo do Iluminismo. Foi estabelecida a divisão de poderes sugerida por Montesquieu: o poder executivo seria exercido pelo rei, que indicaria seus ministros; o poder legislativo seria exercido por uma assembléia composta de 745 deputados eleitos; e o poder judiciário seria exercido por juizes eleitos. Bão, isso tudo queria dizer o quê? Que a burguesia estava bonita na fotografia. Eles votavam, tinham liberdade econômica e os obstáculos (as taxas) ao comércio haviam sido eliminados. 

Mas escuta, e o povo? Hum. Isso nos leva à  segunda fase da Revolução, conhecido como o Período da Convenção (que dura de 1792 a 1795) . Entendam uma coisa: o povo, os sans-cullottes, continuavam numa merda federal. As terras da Igreja confiscadas foram (divididas?) vendidas em terrenos tão grandes que eles não podiam comprar. A Assembléia, ainda por cima, manteve o fim das terras comuns para permitir que uma agricultura capitalista se instalasse. E o povo não votava, então, quem iria representá-lo no governo?

As classes baixas estavam loucas da vida com todo esse negócio. Novamente multidões saiam às ruas exigindo pão e trabalho. 

E enquanto o povo estava na rua batendo panela, o que acontecia no resto do mundo?

Ah, na próxima semana saberemos sobre o resto do mundo e, finalmente, o que acontece com a nossa garota.

 E segunda-feira, feirado, croniquinha aqui. Besos.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
07/10/2009 - 17:58

As conversas lá de casa

Compartilhe: Twitter

- Vem pra casa?

- Não posso, não são nem 3 horas!

- Vem pra casa.

- Eu não posso mesmo.

- Ah, vem e vamos embora!

- Embora?

- Embora!

- Como embora?

- Embora. Vem pra casa, a gente pega uns trecos e vai embora!

- Vai embora e só volta domingo?

- Não, vai embora e não volta nunca mais.

- E a bufunfa?

- Dane-se.

- E os gatos?

- Danem-se.

- E o trabalho?

- Dane-se.

- E a sua mãe?

- …

- E os alunos?

- …

- Nós não podemos.

- Sério. Eu vou ter um troço. Pode ser uma explosão brutal, um vendaval que atire tudo longe. Ou pode ser uma implosão silenciosa, interna, dessas que deixam a fachada intacta, mas arrebentam tudo por dentro. A diferença é que uma dá pra sacar só de bater o olho e a outra você vai precisar de tomografia computadorizada pra saber que aconteceu.

- Bom, e um filminho no vídeo?

- Já melhora um pouco.

- Tou indo.

*

- Mas, Amor, só para eu saber: rola de você dançar caso não aceite?

- Dançar propriamente não, mas pode rolar de eu ficar doido com tanto trabalho.

- Bom, mas isso você já é, beibe.

*

- O mais bonito nessa novela, minha linda, é que o elevador está sempre no térreo. Quem será o síndico?

*

- Amor, quer cancelar nossa TV a cabo até a gente melhorar de grana?

- Não: décadence avec élégance.

*

- Qual cantora?

- Aquela sapatão.

- Explica, amor.

*

- Passou a dor?

- Passou.

- Também, tinha que passar, minha linda, Tilex tem codeína.

- …

- Putz, que legal, agora que eu percebi, você tá tomando a mesma droga que o Charlie Parker!

*

- Amor, alguém já se suicidou na sua família?

- Assim, pá e bola, não. O pessoal vai aos pouquinhos.

*

- Vamos à padaria?

- Não posso. Estou no MSN com a Gi, que tá contando sobre o “ex-quase-atual” dela.

- Quem?

- O “ex-quase-atual” dela. É quase porque eles se gostam, mas é ex porque tá sem emprego. O cara paga pensão pra duas ex-mulheres, três filhos, não sobra grana nem pra um motelzinho básico.

- …

- Você vai trazer pão-de-queijo pra mim?

- Eu não sei nem se eu volto.

*

- Fanta Morango?

- É, eu quero.

- Fanta Morango?

- É, o menino que escreve o Catarro Verde disse que é bom.

- Quem?

- O Serjones, amor, que escreve um blog chamado Catarro Verde. Ele disse que é gostoso.

-          Blog é aquele treco da internet?

- É.

- E você vai comprar um treco repugnante porque um cara que você nunca viu na vida mandou?

- É.

- Pelo amor de Deus, pega uma só e vamos pro caixa.

- Mas, Luiz, eu…

- Não, não fala comigo, vamos pro caixa.

*

- Você vai me amar pra sempre?

- Eu já te amo pra sempre, minha linda.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/10/2009 - 18:39

La vie en rose IV

Compartilhe: Twitter
Juramento do Jogo de Péla é retratado por Jacques Louis David nesse quadro. Robespierre tá aí, no primeiro plano, à direita, como estão muitos outros revolucionários, esse quadro tem muitos retratos. No alto, com uma mão erguida, está Bailly, tentando obter silêncio, para ler em voz alta a Declaração de Independência  e Lealdade.Todos os rostos, todas as mãos convergem para ele, ele é o símbolo do que eles mais querem, a república. Lá em cima, nas janelas, o povo espia a reunião. E note que coisa sutil e bem sacada: os ventos da mudança, os ventos da revolução sopram pela sala, fazendo dançarem as cortinas e invertendo guarda-chuvas, pois nada permanecerá o mesmo. Ah, garouto!

Juramento do Jogo de Péla é retratado por Jacques Louis David nesse quadro. Robespierre tá aí, no primeiro plano, à direita, como estão muitos outros revolucionários, esse quadro tem muitos retratos. No alto, com uma mão erguida, está Bailly, tentando obter silêncio, para ler em voz alta a Declaração de Independência e Lealdade.Todos os rostos, todas as mãos convergem para ele, ele é o símbolo do que eles mais querem, a república. Lá em cima, nas janelas, o povo espia a reunião. E note que coisa sutil e bem sacada: os ventos da mudança, os ventos da revolução sopram pela sala, fazendo dançarem as cortinas e invertendo guarda-chuvas, pois nada permanecerá o mesmo. Ah, garouto!

 

Oi leitor igueno, como vai a sua sexta-feira? Voltamos com uma um pedaço da nossa história. Não me entenda mal: a monarquia francesa não acabou guilhotinada porque a França não tinha dinheiro e, por isso, o povo sofria privações. A França tinha dinheiro para caramba. Só que mal administrado, mal empregado, mal controlado. Parece com algum lugar que você conhece? Pois eu, sempre que vejo a TV Senado ao lado virtual da minha amada amiga Alice, pergunto a mim mesma onde essa gente estava nas aulinhas de Revolução Francesa.

Mas vamos voltar para a França que é mais negócio: uai, eles não tinham quem controlassem esse Estado? Eles não tinham rei?

Uia, tinham.

Luís XVI, Luís Augusto de Bourbon, nasceu em Versalhes em 23 de agosto de 1754. Era casado com Maria Antonieta de Habsburgo e assumiu o trono da França em 1774 – já falei isso, né? Tou gagá. 

Antes dele e de seu avô, Luís XV, o rei Luís XIV havia sido o representante máximo do Absolutismo. Controlava o país completamente. Mantinha intendentes diretamente designados por ele nas províncias, o que lhe garantia centralização política. A justiça do Estado também dependia da administração real e qualquer um poderia ser preso simplesmente por uma ordem real (lettre de cachet). O rei também fazia as leis para cada estado da sociedade que eram (ponham reparo): Clero (1o. estado), Nobreza (2o. estado) e Burguesia (3o. estado). Notaram que o povo nem entrava na equação, né? Só os dois primeiros estados tinham privilégios e, como já falamos, a carga tributária recaía sobre o terceiro estado. 

Isso quer dizer, amiguinhos, que a confusão na qual o rei Luís XVI se encontrava vinha de muito longe. Já durante os reinados dos Luíses XIV e XV, o desenvolvimento comercial e industrial era limitado por conta da existência de taxações e alfândegas interprovinciais, ou seja, você pagava uma grana alta para transportar seus produtos de um lado para o outro dentro do país. Essa taxação bloqueava a circulação de mercadorias e deixava a burguesia fula da vida. Acumular capital com esse mundo de taxas também era difícil. Resultado? Os preços eram astronômicos, o que espantava os consumidores, o que não permitia que o comércio se desenvolvesse, o que não permitia a expansão industrial. Ufa. 

Isso tudo quer dizer que o cacheado Luís XVI tinha uma belíssima crise em suas mãos. Déficit financeiro bota o governo em xeque, tem jeito não. Fosse viva, minha avó Cida diria “casa em que falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Profundo isso. 

Os impostos (recolhidos feito o nariz, como já vimos) não sustentavam o Estado. O estilo de vida da nobreza também não ajudava. Era muito caro, pro Estado, manter a nobreza. Porque, vejam, a grande maioria dos nobres do país não vivia em suas terras, vivia em Versalhes!! Entre 3 e 4 mil pessoas moravam no Palácio do Rei. Era casa, comida e roupa lavada, literalmente, pra todo esse bando. Que, diga-se de passagem, não pagava impostos. E que, diga-se mais ainda de passagem, ainda contava com pensões e rendimentos estatais. Era muita coisa, pode acreditar. E tem mais. Essa gente dava e ganhava presentes, que inúmeras vezes não saíam do bolso delas e sim dos cofres reais. E quando eu digo presentes, eu não tou falando de cd, camiseta com fota de cachorro, perfume de catálogo, chaveiro e furadeira, essa tralha que você deu pro seu pai de dias dos pais, não. Tou falando de diamantes. Reformas em castelos. Castelos novinhos. Coroas de ouro maciço. O veio Luís XVI, quando queria fazer um agrado em Maria Antonieta, lascava um castelo novo na mão da mina. Ou mandava reformar um jardim daqueles que parece uma fazenda.  

Por intermédio de seu ministro de finanças, Brienne, o rei tentou solucionar a crise, o coitadinho. Para tanto, propôs uma série de medidas:

  • O estabelecimento de um imposto único
  • A liberação do comércio interno
  • Reforma fiscal que taxasse tanto o clero quanto a nobreza
  • Contenção de despesas do governo

 

Simples, né? Foi nada, o clero e a nobreza se opuseram a tudo, trincaram os dentes e não deixaram nenhuma mudança acontecer. Ainda pressionaram Luis XVI a convocar os Estados Gerais, uma assembléia composta por representantes do clero, da nobreza e da burguesia, que tinha o poder de apoiar ou derrubar as reformas sugeridas. Fazia mais de 150 anos que esse órgão não se reunia. A população aceitou a convocação, pois essa parece ser a única solução para os problemas da França – e exigiu que o número de representante do terceiro estado fosse igual ao das outras duas classes juntas e também que o voto fosse individual. O rei se pronunciou contra “a duplicação do terceiro estado”, despertando a fúria dos populares e perdendo o pouco apoio que tinha da classe média. No dia 20 de junho de 1789, ao chegarem para a votação, os representantes populares e os membros do clero partidários do terceiro estado encontraram trancadas as portas do salão de reuniões e não conseguiram entrar na assembléia. Retiraram-se para uma quadra de jogo de péla, que ficava próxima dali. Chefiados por Mirabeau e pelo abade Sieyes, todos fazem o que ficou conhecido como “juramento do jogo de péla”: comprometem-se a não se separar enquanto não houvesse uma constituição, por eles elaborada, para a França. Afirmaram ainda seu direito de agir como o poder supremo da nação. Luís XVI reconheceu esse direito em 27 de junho e obrigou os representantes dos outros dois estados a se reunirem com os representantes populares.

20 de junho de 1789 ficaria conhecido como o dia do início da Revolução Francesa.

Mesmo tendo sido obrigados a aceitar o terceiro estado na assembléia, clero e nobreza não deixaram que as reformas passassem. A aristocracia não se tocou naquele momento, mas foi exatamente aí que ela se fubecou. 

 

E com ela, a nossa menina. E o que era para ser uma série de textos sobre ela, ganhou vida própria e desaguou nos mares turbulentos da história da Revelução Francesa. E eu, que não sou historiadora, sou apenas uma cronista à procura de assunto, volto na próxima sexta, com mais um eletrizante capítulo.

 

Segunda-feira tem croniquinha e nós nos vemos por aqui. Né?

Beijos, bom final de semana

Fal

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado, Sem categoria Tags:
Voltar ao topo