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Arquivo de setembro, 2009

30/09/2009 - 22:01

Drops, drops

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Homens kamikase era o tema do nosso almoço naquela sexta. Homens que jogam o aviãozinho deles em cima do nosso barco. Homens que trazem um adesivo no peito, onde se lê, em letras miúdas: “Odeio minha vida e não tenho coragem de sair dela. Por favor, me tire daqui.” Homens que dão o telefone da casa deles, pedem para você ligar dizendo que é a moça da revista Veja, e ficam putos se você diz que não vai ligar. Homens que dão detalhes sobre a vida dos filhos pedindo opiniões, listam os defeitos da esposa, fazem reclamações sobre sua casa, elegem você a salvação de suas vidas, o único motivo de alegria deles. Nós três concordamos que a única saída possível é correr para longe deles, sem olhar para trás.

*

Ela ainda guarda o leque que ele lhe trouxe da Espanha, há mais de trinta anos. Ela só o usa em grandes ocasiões. Ela o chama de Neco, adora quando ele a chama de Neguinha, e mesmo com as nossas piadas e gozações, não consegue vê-lo como um homem de quase 60 anos. Ele é seu irmãozinho, seu menino, e durante a ceia de Natal, enquanto ele devora a farofa doce que ela faz para ele todos os anos, seus olhos brilham de orgulho e amor.

*

As duas na frente de uma das carruagens do museu:

- Esta aqui Carlota Joaquina trouxe para Portugal no meio do seu dote, quando veio se casar com Dom João VI.

- Bah, e as moças iam se casar munidas, não, Gringa?

- Gauchinha, as moças só se casavam porque tinham munição. As que não tinham, iam bordar em conventos, em meio à castidade e neuroses. As munidas, pelo menos, levavam suas neuroses para passear de carruagem.

*

Quando comento como é estranho esse relacionamento da nossa amiga, uma mulher maravilhosa e engraçada, com o marido, um pretensioso, medíocre, a Maria Inês sorri e murmura: “Pense nos ganhos secundários, queridinha, ganhos secundários”.

*

Ele me disse: “Não vá se apaixonar por mim”. Eu respondi que ele não corria esse risco. Falei do fundo do meu coração.

*

Ela disse a ele que nove anos de casamento ruim não era uma crise, era uma tradição. Ele sorriu com tristeza e concordou. Ela ficou com as crianças. Ele ainda chora, às vezes.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
25/09/2009 - 20:13

La vie en rose III – e eis que a chapa esquenta

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 “Os homens nascem e permanecem sempre livres e iguais no que tange a seus direitos.” – Declaração do Homem e do Cidadão, 1789. 

1789. Grande ano. A França era o centro do mundo europeu.

Em 1778, havia sido o primeiro país a reconhecer os Estados Unidos da América como país independente, e tinha acordos comerciais e militares bem bacaninhas com os americanos. Benjamim Franklin era recebido na corte francesa com carinho e veneração.

Em todo o continente, nobreza e burguesia rosnavam uma para a outra. Os absolutistas desejavam manter suas antigas liberdades, e suas imposições atravancavam a vida dos mercadores continentais. A burguesia começava a pensar e esse negócio de pensar é um perigo. Questionava-se de por que a nobreza tinha tantos privilégios, como o de ser isenta de pagamentos de impostos. Questionava-se sobre o fato de ser proibida de participar da vida política dos países europeus.

A França, no final do século XVIII, era governada por Luís XVI – marido de nossa heroína  –  e o governo do país estava extremamente confuso. A máquina burocrática estava emperrada. Em vez de sanear as contas e serviços, os conselheiros do rei criavam novos órgãos governamentais a três por quatro – e esses novos departamentos só faziam retardar ainda mais as providências a serem tomadas. Havia superposição de funções e uma porção de funcionários inúteis recebendo salário do governo. Parte dessa desorganização refletia-se no cumprimento das leis: cada província francesa seguia um código particular, baseado em costumes locais. O que era crime aqui não era crime acolá. Ninguém se entendia, processos demoravam décadas para ir a julgamento. Esse sistema judicial aumentava a confusão e a revolta popular. 

A coleta de impostos também era afetada. A arrecadação de rendas públicas não seguia regras certas. Em vez de nomear coletores oficiais, o rei seguia o sistema romano e arrendava a arrecadação. Sim, você entendeu direito, o rei “terceirizava” o recolhimento de impostos! Claro que o Estado era roubado. 

Toda essa organização deficiente resultava num problema grave para o reino: falta de grana. 

A Guerra dos Cem Anos, contra a Inglaterra, que ocupara a maior parte do século, deixara a França falida. A Guerra da Independência Americana, na qual a França tinha posto dinheiro também e ajudado muito os Estados Unidos, mandando tropas e grana (e que eles não se esqueçam disso), também trouxera problemas financeiros para o país.

O clero e a nobreza, protegidos por leis que eles mesmos haviam criado, estavam isentos do pagamento da grande maioria das taxas e impostos do país. O Estado não tinha mais de onde tirar dinheiro. Não tinha? Como não? Ora bolas, e para que foi que Deus inventou o povo? O ônus principal de fornecer fundos ao governo recaía sobre o povo. Mas os artesãos e funcionários não tinham como pagar taxas. Para quem sobrava a conta, então? Para os camponeses e os burgueses. 

Resumindo a ópera, os camponeses e burgueses estavam putos. E desesperados. E putos. E desesperados. Eu já falei que eles estavam putos?

Os camponeses eram taxados de formas inimagináveis. Mesmo os camponeses inteiramente livres tinham que pagar uma renda anual ao senhor que, no passado, havia sido o dono das terras! Além disso, os camponeses tinham que contribuir com banalités (banalidades), ou taxa de uso sobre várias coisas nas propriedades, como pontes, o moinho, o forno comum, etc. – as taxas continuavam a ser cobradas MESMO que o camponês tivesse seu próprio forno ou moinho. Havia também a corvée (a corvéia). Durante várias semanas por ano o camponês deveria abandonar seus campos e cuidar das estradas públicas.

Hum, outra coisa: a caça. Não importava se você era o dono da terra ou não, você só podia caçar se fosse de família nobre. Nem pra matar a fome, tia? Nem, sobrinhos. Havia sido assim na Idade Média, era assim no século XVII. Além disso, a qualquer momento, os campos por você cultivados, que custaram tanto trabalho, podiam ser pisoteados por turmas de cavaleiros perseguindo algum coelhinho fofo ou raposinha inocente – e a você só restaria calar a boca (a respeito de caçadas, não sei de quem é a frase, mas adoro: “Caçadas são o inominável perseguindo o incomível”).

Durante o século XVII, outra ação dos nobres prejudicava muito os camponeses franceses: as terras públicas ou comuns estavam sendo fechadas. Nessas terras comuns, um camponês poderia levar seu gado para pastar ou apanhar lenha. Elas eram um recurso importantíssimo para o modo de vida daquelas pessoas. E agora, caras como Charles Calonne e Lomenie de Brienne, conselheiros econômicos do rei, vinham dizer que essas terras eram um obstáculo ao progresso da agricultura? E que iam passá-las nos cobres pra fazer mais um dinheirinho para o rei? Como assim? 

Do outro lado, a classe média também não estava nada feliz. Médicos, advogados, grandes atacadistas, pequenos empresários, banqueiros: separados por gradações baseadas na renda, todos esses caras estavam sendo comidos vivos pelas taxações absurdas do governo. E tem mais, por mais dinheiro que um profissional desses pudesse acumular, ele jamais teria os mesmos privilégios da nobreza, não poderia participar da vida política da França. Não poderia tomar nenhuma decisão. Os salários eram fixados por leis incoerentes, os impostos eram taxados por leis doidas e a classe média só pagava as contas. 

Trocando em miúdos? Tava todo mundo puto da cara com a nobreza, com o Estado e, claro, com o rei. 

E aí que tudo o que você leu até agora são as bases sociais para a Revolução Francesa.

Mas um movimento grande e importante como esse nunca ocorre sem algum tipo de base intelectual. Claro que apenas ideias não desencadeiam uma revolução, mas sem ideias revolução nenhuma é possível. “Foram as ideias que deram forma e substância ao descontentamento experimentado por tantas pessoas, em especial entre a classe média” – Professor E. Burns.

Dentre todas as teorias surgidas na época, duas delas tiveram papel de destaque para expressar os desejos revolucionários: a primeira delas foi a Teoria Liberal, de pensadores como Locke, Montesquieu e Voltaire.

No Segundo Tratado do Governo Civil, de 1690, Locke afirmava que, originalmente, todos os homens viviam num estado de liberdade e igualdade absolutas, onde não havia qualquer tipo de governo ou controle. Só se obedecia à lei da natureza. Os homens, porém, começaram a ver desvantagens nessa organização e acabaram por estabelecer uma sociedade e instituir um governo, dando a ele um único poder, o de e executar a lei natural. Assim, para Locke, o governo nada mais era que o poder conjunto de todos os membros da sociedade e sua autoridade jamais poderia ser maior que “aquela que essas pessoas possuíam no seu estado natural, antes de formarem um grupo social e cederem-na à comunidade”. O que Locke queria dizer é que todos os poderes que não fossem expressamente cedidos ao governo eram dos indivíduos e que se o governo abusasse do seu poder o povo poderia se rebelar contra ele, dissolvê-lo, derrubá-lo.

Quando não estava odiando os padres, Voltaire estava odiando os reis. Como Locke, considerava sagrados os direitos iguais à liberdade, à igualdade, à propriedade e à proteção das leis.

Montesquieu era um entusiasta das idéias de Locke, como Voltaire. Acreditava que governos eficientes eram os que se harmonizavam com o povo a que iriam servir. Para a França, acreditava que a melhor forma de governo era a Monarquia limitada. Era também defensor ferrenho da separação de poderes. Montesquieu não tinha muita fé no caráter do homem, e achava que ele sempre daria um jeito de fazer alguma patifaria, de abusar do poder e cair no despotismo, por isso achava que o governo devia ser separado em três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário. Assim, com cada ramo do governo agindo como freio dos demais, evitaríamos o abuso e a tirania.

A classe média francesa adorava Locke e suas teorias sobre direito natural, governo limitado, direito de resistência ao abuso e à tirania e defesa da propriedade privada. 

A segunda teoria que expressava os desejos revolucionários era a Teoria do Ideal da Democracia. O maior teórico da democracia foi Rousseau, que afirmava que o poder deveria vir só do povo, que todas as decisões deveriam vir do povo e que caberia também ao povo garantir que suas regras fossem cumpridas. O governo deveria ser apenas o agente executivo da vontade popular. O governo, para Rousseau, não deveria formular a vontade geral e, sim, cumpri-la. 

As duas teorias partiam do princípio de que o Estado, a despeito de todas as suas falhas, era uma necessidade e que qualquer forma de governo deveria ter bases contratuais. Ambas acreditavam que os direitos fundamentais de cada indivíduo deveriam ser preservados e ambas eram extremamente atraentes para todos aqueles que estavam insatisfeitos com a ordem das coisas. 

Essas teorias estavam ainda sendo apoiadas por uma série de teóricos que protestavam contra o controle público sobre a produção e o comércio.

Homens como o economista escocês Adam Smith (1723-1790) eram definitivos quanto à necessidade de que fossem reduzidos os poderes do governo a um mínimo que garantisse a segurança do indivíduo e só. Defendia que é o trabalho a verdadeira fonte de riqueza. Tais homens acreditavam que o papel do Estado era intervir para coibir injustiça, opressão e desmandos, para garantir a propriedade privada e para administrar as áreas que fugiam do ramo de atividades da iniciativa privada, como educação e saúde pública.  

Foram essas pessoas, numa linha MUITO geral, que lançaram as bases teóricas da Revolução Francesa.

E o que a nossa heroína tem a ver com isso? Meus filhos, vem ela não perde por esperar. Coragem, tamos acabando.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
23/09/2009 - 16:11

O Baco teórico

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Baco não nasceu em Pribor, em 6 de maio de 1856.
Baco não simboliza.
Baco não é edípico.
Baco não faz transferência.
Baco não projeta.
Il Duce não foi fã do Baco.
Baco não nega.
Baco não racionaliza.
Baco não sabe que o ego alterna nossas necessidades primitivas e nossas crenças éticas e morais. Sorte dele.
Baco não sublima.
Baco nunca postulou também a existência de um pré-consciente, nem o descreveu como a camada entre o consciente e o inconsciente.
O médico Wilhelm Fliess nunca foi confidente de Baco.
Ninguém queimou os livros escritos por Baco em praça pública.
Baco concorda que, às vezes, um charuto é apenas um charuto.
Baco não tem recalques.
Quando mamãe diz que a psicanálise se divide em duas correntes, a contínua e a alternada, Baco não acha a menor graça.
Baco não tem angústia. Nem ansiedades. Nem monstros debaixo da cama. Só gatos.
Baco não tem traumas (embora deixe um monte de gente traumatizada).
Baco não fundou um objeto de amor.
Lacan não releu a obra de Baco.
Baco não tem obra.
Baco só deita no divã para dormir.
Baco não sabe que o inconsciente é um neologismo científico reducionista. E, se soubesse, saía correndo.
Baco não quer tratar distúrbios psíquicos a partir da investigação do inconsciente, de jeito nenhum.
Baco não perdeu quatro irmãs nas mãos dos nazistas.
Baco só tem Id. Baco não tem Ego. E o Superego de Baco sou eu.
Baco nunca se entusiasmou pelos estudos de Charcot.
A Princesa Marie Bonaparte não teve que tirar Baco de Viena às pressas por causa dos nazistas.
A escuta de Baco é dispersa.
Melanie Klein não faz parte do grupo de estudos de Baco.
Aliás, Melanie Klein não faz parte das correntes de pensamento pós-baquianas.
Baco não trocou cartas com Pfister.
Baco não brigou com Jung.
Baco não ganhou o Prêmio Goethe, em 1930, o que foi uma grande injustiça, porque Baco bem que merecia.
Não corre nenhuma fofoca sobre um caso de Baco com Lou Salomé.
Baco não foi fã de Schiller.
As neuroses de Baco são manifestas.
Baco não dá a menor importância ao sonho.
Baco não tem uma filha Anne que seguirá suas pegadas.
Baco não comete atos falhos.
Baco não leu Nietzsche e nem Schopenhauer.
Baco nunca observou que o processo da repressão é em si mesmo um ato não-consciente.
Baco não faz associações livres para tratar seus sintomas histéricos.
Baco não mudou nosso tempo, não mudou nosso olhar sobre o Homem, o mundo e as nossas relações.
Baco não foi um dos maiores pensadores de todos os tempos, pai, sob muitos aspectos, para o bem e para o mal, das escolhas que fazemos hoje.
Hoje não faz 70 anos que Baco morreu em Londres.
Baco não foi Sigmundo Freud.
(mas Baco é o filhinho preferido da mamãe, São Freud guarde e abençoe)

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/09/2009 - 16:24

Uma crônica de quase amor

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Ela, uma escritora. No limiar de fazer vinte e oito anos e viver exatamente como uma mulher de vinte e oito anos. Nunca as reportagens das revistas femininas sobre mulheres de quase trinta anos fizeram tanto sentido para ela. “Inteligente e resolvida”, como sempre gostara de afirmar, via-se agora, como uma mulher de quase trinta anos como todas as demais. Onipotente e autoritária, agora perdia-se diante da constatação de que, na verdade, sabia muito pouco. Engraçada e culta, agora a vida começava a fazer sentido, no momento em que perdia exatamente o sentido de tudo. Só tinha uma certeza, precisava enlouquecer.
Ele, um engenheiro. A começar pela profissão, parecia ser muito diferente dela, e também, como sua profissão, parecia previsível demais. No limiar de fazer cinquenta e sete anos, e viver angustiadamente como um homem de cinquenta e sete anos. Suspirava para recuperar suas histórias. Era cheio delas. Belo e sedutor, despojado e objetivo. Fugaz, jamais terapeutizado. Adorava desafios. Precisava de um.
Conheceram-se em um ambiente virtual, com todas as possibilidades de um lugar inexistente desses. Era o que precisavam. Ela, a escritora; ele, o engenheiro. Ele, deliciosamente divertido, lhe conta sobre o casamento de vinte e tantos anos, os dois filhos amados, a estabilidade. Explica como o casamento era uma forma de conter seus instintos boêmios. “Destrutivos”, ela deduziu. Uma história e tanto, uma delícia. Que mulher não gostaria de endireitar um homem desses? Conteve-se. Ela lhe confessou uma única tentativa de casamento que, absolutamente, acabara não se concretizando. Confessou-lhe sua estável solidão, mas não sua dor. Era sólida, segura demais para ser totalmente verdadeira. Falava da vida mundana com naturalidade, deixando claro que a sua não era dessa forma. Ele faz uma piada. Ela, muito bem humorada, conta outra. Não se intimidava, em matéria de conversa era quase um “melhor amigo”. Sedutora com as palavras, ágil e divertida, despede-se simplesmente com um “tchau, foi um prazer teclar com você, a gente se lê por aqui.” Era uma mulher intrigante e desafiadora. “Fechada”, ele conclui. Que homem não gostaria de fazê-la enlouquecer? Conteve-se também.
Falavam-se quase sempre, mas sem intimidades. Aproveitavam o ambiente coletivo para se misturar. Brincavam de se conhecer, brincavam de brincar. Ele, um Capitão Rodrigo, atirado, desafiador, abusado. Ela, uma Ana Terra, pelo menos no que diz respeito à desconfiança e ao “pé atrás”. Ela, escritora; ele, engenheiro. Duas faces de uma mesma moeda. Fizeram confissões, contaram um para o outro dores e medos, nem tão literários assim. Ela lhe falou sobre uma dor tão distante e tão presente, que a impedia de respirar fundo muitas e muitas vezes. Ele lhe falou sobre uma experiência feliz, mas também um pouco amarga. Pediram, mutuamente, silêncio um ao outro. Dividiram o primeiro segredo.
Iniciaram um flerte virtual, displicente, com meias palavras. Era uma alucinação deliciosa. Eles jogavam. Ora ela se entregava, ora fugia. Ele a buscava.
Tempos depois se conheceram. Sorriram e se abraçaram, venceram a inibição. Olharam-se nos olhos e gostaram um do outro. Ela, escritora. Ele, engenheiro. Estudaram-se, aprenderam-se, ouviram-se, souberam-se.
Ela nunca soube precisar o momento em que ele tomou sua vida, juntamente com todos os seus neurônios filosóficos. Ele, como não tinha neurônios dessa natureza, somente sabia que ela havia tomado uma forma matemática em sua existência. Ele era um conto mal estruturado, rascunhado para ser corrigido depois. Ela era o resultado incoerente de uma fórmula que ele se propôs a resolver. Para ele, ela podia mesmo somar alegrias em sua vida, subtrair suas forças de homem orgulhoso, dividir seus sofrimentos e multiplicar seu prazer. Para ela, ele era motivo de elaboração de um processo criativo, provavelmente um plágio mal feito de alguma crônica do Veríssimo, com tinturas sensíveis e doces, embora raras, de algum poema do Quintana. Mas ela, muito sã, queria mesmo era enlouquecer; e ele, em sua loucura numérica, precisava do seu bloco de notas.
Encontraram-se, trocaram beijos fervorosos, abraços intensos, murmúrios. Não se amaram, nunca. Pareciam querer prolongar a fantasia de um encontro que tinha que ser perfeito. E eles sabiam que não seria assim.
As histórias contadas rapidamente, ela não conseguia deixar de interpretar, analisar e encaixar em alguma frase do Nelson Rodrigues ou do inescapável Veríssimo. Ele não sabia o quanto ela temia em se perder no seu corpo. Ele fingia que não sabia, queria que ela se confessasse e pedisse. Ela pensava que ele era sedutor, inseguro e apenas mais um conquistador virtual, estava farta deles, com egos frágeis e narcisos demais. Ele a achava uma adolescente confusa e estúpida o suficiente para perdê-lo. A realidade minava a relação. Ela quis resgatá-la e ligou. Mas sentiu-se letargicamente aliviada com a desistência dele. Ele, o engenheiro, perdera a chance de refletir com ela sobre todas as frases não ditas. Ela, a escritora, perdera a chance de concluir o resultado de uma simples fórmula matemática. Ela se entregou, finalmente, não como sempre quis. Mas se entregou à sanidade e ao equilíbrio racional. E se odiava por isso.
Ele não sabia mais. Ora satisfazia-se com a busca incessante dela, ora a odiava, ora temia perder-se novamente. Estava cansado, ferido, era sério demais para ser escravo de uma paixão. Também se odiava por isso. Trocou as palavras de carinho, por outras mais ásperas; os elogios por insultos sutis; a docilidade masculina pela autoridade paternal. Ela agia da mesma forma. Medindo forças, as últimas que lhe restavam. Competiram e ninguém venceu essa luta estúpida, simplesmente porque não era corporal.
Silenciaram aguardando um sinal. Ela escreveu a história. Como quis. Nunca soube ao certo se ele a achou realmente estúpida, se a temeu, se ficou apaixonado por ela, se a desejou, se a usou. Mas não importava mais. Ela tinha que seguir seu caminho. Tinha que ir embora e ele também. Ela o adorava e preferiu pensar que ele merecia ser adorado. Escreveu sua crônica, deu a ela o desfecho que quis.
Sabia que ele gostava de suas confissões. Resolveu então fazer a última delas, como um brinde à história que certamente estava no fim. Por isso deu à sua última confissão o jeito de uma crônica e a mandou para ele. Ela sabia que ele iria rir e corar, como um menino tímido. Que risse, gargalhasse, adorasse. Ela era generosa. Dividiria com ele seu segredo. Mais um segredo.
Pensou que, de alguma forma havia sido, sim, interessante para ele. E concluiu que além de ele merecer sua história ainda merecia um último recado: “Teria sido maravilhoso, meu Capitão, se você tivesse deixado de ser tão engenheiro e eu de ser tão escritora”.
Ela seguiu adiante pensando nele com carinho. Como ele uma vez havia lhe pedido.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/09/2009 - 03:30

La vie en rose – II

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Maria Antonieta com os filhos. Encostada nela, Maria Teresa, A Madame Royale (título que equivale a “Senhora Real”, que quer dizer na prática “filha do Rei”, e que era dado à menina mais velha). No chão, seu primeiro menino, Luís Carlos, que morreria duma doença deformadora aos 8 anos. No colo, Luís XVII, que provavelmente teria sido rei, se não fosse a Revolução. A rainha estava grávida de Sofia.

Maria Antonieta com os filhos. Encostada nela, Maria Teresa, A Madame Royale (título que equivale a “Senhora Real”, que quer dizer na prática “filha do Rei”, e que era dado à menina mais velha). No chão, seu primeiro menino, Luís Carlos, que morreria duma doença deformadora aos 8 anos. No colo, Luís XVII, que provavelmente teria sido rei, se não fosse a Revolução. A rainha estava grávida de Sofia.

 *

Em 17 de maio de 1770, usando as joias da falecida sogra, Maria Antonieta se casa com Luís XVI, e se transforma na futura rainha da França.

Ela tinha 14 anos.

Uia, eu tenho que falar da noite de núpcias, eu tenho.

A noite de núpcias foi assim:
A comitiva toda vai com o casalzinho até o quarto deles. Quando chegam lá, o rei dá uma camisola ao neto, que vai num quarto ao lado e veste. Uma das damas dá uma camisola à Maria Antonieta, que vai num quarto ao lado e a veste também. Os dois, vestidinhos pra nanar, voltam pro quarto.
Aí, fiotes, entra o Arcebispo da França, que benze a cama e os noivos. Aí, eles deitam na cama, na frente de todo mundo – pois todos têm que ser testemunhas de que eles foram juntos pra cama. Só aí esse povo todo se retira. Você broxou? Eu também. Imagina Luís XVI.

A vida dos reis era pública, mesmo dentro de casa.

Procês terem uma idéia: todas as manhãs, os cortesãos se levantavam e iam assistir ao lever (levantar-se). Ou seja, eles iam ao quarto do rei, vê-lo acordar e se vestir. E todas as noites assistiam o coucher, (deitar-se). Hum-hum, iam ver o rei botar as ceroulas e cair na cama. Me digam se isso era vida?

De modos que todo mundo sabia que Maria Antônia e Luis XVI ainda não haviam transado. E ficaram sem transar durante muito tempo.

O casamento só foi consumado (sim, você entendeu) em 1773. Sabemos até a data, 22 de julho. Não façam diário, crianças.

Luís XV morreu de varíola em 1774, o que transformou Luís XVI em rei. E Maria Antonieta em rainha, por supuesto.

O maluco do Luís XV se achava imortal. Ele nunca preparou o neto pro poder. Vai daí que o guri não sabia governar. Além disso, ele era um menino tímido, estudioso, assustado e carente. Ele era tudo o que a França não precisava naquele momento de crise. Em vez dum rei forte, que governasse com rigor e que fosse capaz de manter o clero e a nobreza sob controle, que fosse capaz de apaziguar os burgueses e dar um mínimo pro povo, a França descola um rei fraco, boboca, que tomava decisões vacilantes e erradas.

No campo pessoal, a treta era a seguinte: Maria Antonieta não engravidava. Mas como, se o casamento havia sido consumado? Isso era um problemão. Lá em casa, na Áustria, a mãe dela queria uma gravidez urgente. Não pela ternura dum neto, nada disso, mas porque um bebê seria mais um laço unindo França e Áustria. A coisa fica tão agoniante que Maria Tereza manda o filho, que nessa altura do campeonato já era Imperador da Áustria, até a França, pra ver o que tava acontecendo. Eu juro por Deus, juro. Agora, imagina seu irmão indo tomar satisfação com seu marido, porque ele não sabe fazer o trem direito. Imaginou? Apois.
Acredite se quiser, o Imperador José vai lá, tira a história a limpo e ainda manda um relatório pra mamãe!
“Em seu leito conjugal, ele tem ereções normais; introduz o membro, permanece dois minutos sem se mexer e em seguida se retira sem ejacular e, ainda ereto, dá boa noite. Isso é incompreensível, pois às vezes ele tem poluções noturnas, porém jamais quando está no processo do coito; está satisfeito, e diz com bastante franqueza que o tem feito puramente por um sentido de dever, e que não gosta do que faz. Oh, se eu pudesse estar presente apenas uma vez, eu teria cuidado dele, deveria ser chicoteado para que soltasse esperma como um jumento. Minha irmã, além disso, tem muito pouca emoção e juntos ambos são completamente incompetentes. Preguiça, falta de jeito e apatia são os únicos empecilhos.”
Falem sério, queridos leitores igueanos. Falem sério, sua mamã recebendo uma carta dessas, escrita pelo seu irmão.

Bão, acho que o Imperador José não ficou junto lá na hora como ele queria, mas ele explicou bem direitinho pro rei da França como é que fazia, movimentos, time, estilo, frequência e tale e cousa. E deve ter explicado bem, porque Maria Antonieta engravidou em abril de 1778.  

O parto foi assim: em público. Acuma? É, em público, meus bens.
Mais ou menos 300 pessoas assistiram à rainha dar à luz, dos nobres aos limpadores de chaminés: era fundamental que a criança fosse vista pelo maior número possível de testemunhas, ainda ligada ao corpo da mãe pelo cordão umbilical.
A menina se chamava Maria Teresa, e foi a única filha do rei a sobreviver à Revolução. Essa menina um dia iria se casar com o primo, o Duque de Angoulême, filho do irmão do rei, o Conde de Artois, e viveu até 1851.

Maria Antonieta ainda teve mais três filhos. Um menino, em 1781, outro menino em 1785, e, em 1786, mais uma menina, Sofia, que só viveu nove meses.

Eu não sou advogada de defesa de ninguém, mas vamos entender o seguinte: essa menina, cercada de carinho e de cuidados, cai de paraquedas na corte mais lasciva da Europa. Todo mundo comia todo mundo, todo mundo sabia de tudo, aquilo era um ninho de cobras. O marido, embora fosse um cara meio travado, adorava Maria Antônia. Mas ela era mimada, doidivanas, queria mais, queria nem sabia o que, vivia ela prum lado, o marido pro outro, enfim…                     

Ela não era um monstro, certo? Esse negócio de “que comam brioches”, que ela teria dito quando lhe informam que o povo não tem pão, é lenda. Aquele negócio de bacanal, perversão… palha. A Maria Antonieta que nós conhecemos e detestamos foi criada durante e após a revolução. Ela não era uma santa, claro que ela teve um amante ou outro (Inclusive a paternidade de seu terceiro filho, Luís XVI, até hoje é meio misteriosa, muitos a atribuem ao homem que ela mais amou, um militar sueco, Fersen, que lutou na Guerra da Independência Americana. Ele também a amava e lutou por sua vida até o último momento. Aliás, ele foi o único que lutou por sua vida, nem os irmãos ligaram muito pro que fosse acontecer com ela). Mas escutem aqui, tirando Luís XVI, que era um santo mesmo, todo mundo tinha amante, todo mundo. Era meio que uma regra não-escrita da corte. De qualquer forma, há sempre que se ter em mente: mulher como esta não é morta por ser boa ou ruim. É morta por ser um símbolo importante.

Mimada? Certamente. Porra louca? Oui. Um monstro? Não, de jeito nenhum.

Ela nunca quis o poder, nunca. O irmão e a mãe a pressionavam pra cacete pra ela se meter nos negócios de Estado, e ela só queria farrear, ouvir música (ela nunca financiou seu amiguinho de infância, Mozart, mas financiou e apoiou o compositor Gluck, que adorava. Rousseau dizia que a França devia a nova ópera a Maria Antonieta). Quando a mãe enchia o saco demais, ela falava uma coisinha ou outra com o marido, tipo “A Áustria quer a Holanda”, o marido mandava ela ir se meter com a vida dela e estamos conversados. Ela nunca ficou atrás do trono, dando conselhos e trocando ministro. Caras, ela não tava nem aí com a hora do Brasil.
 
Mas nós sabemos, né, a história não poupa ninguém, nunca. E na próxima sexta, vamos ver que com Maria Antonieta não foi diferente.

Beijo, carinho, bom final de semana, segunda tem crôniquinha.
Fal

PS: Tem alguém sobre quem eu possa escrever pra fazer você feliz? Escreva nos comentários, ou mande e-mail: fal.drops@gmail.com

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/09/2009 - 19:50

Drops, drops

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No meio de uma aula de oratória, a Cecília Quevedo deu um suspiro fundo e me disse: “Sabe quando você percebe que está ficando velha? Quando as pessoas que costumavam tratá-la como criança começam a morrer”. E sorriu para mim, com seus olhões azuis tristes.
*
“Eu me pergunto, Linda, o que foi que eu fiz? Eu passei todo esse tempo protegendo um homem fraco e indeciso de 44 anos? Foi isso, não foi? Foi exatamente isso que eu fiz. Esse homem que não resolve nada, que não assume essa situação? Ah, Linda, tá caindo um monte de fichas na minha cabeça…”.
Eu suspiro porque as fichas desabam na minha cabeça também.
*
Bem que eu avisei. O jogo seria duro e sua alma ainda era frágil para enfrentá-lo. Avisei que ela não sabia onde estava se enfiando, que o páreo seria coisa de profissional. Mas ela não me ouviu. Mesmo com esse monte de avisos, a teimosa deu de ombros e foi. Encarou um final de semana em Ilha Bela com o Jonas e as três filhas do primeiro casamento dele. Seguiu na mais perigosa das viagens. Voltou de lá no domingo à noite. Segunda à tarde, recomeçou com a terapia. Bem que eu avisei.
*
Teve gente que achou muito radical, mas eu achei que foi bem feito. A Marcela disse em voz alta, para a festa inteira ouvir, que na casa dela tinha uma colcha do mesmo tecido, com a mesma estampa que o vestido da Bia. A Bia fez bem de jogar o vinho na cara dela. Eu acho.
*
Alguém me emprestou um livro surpreendente. Um livro que ensina como qualquer moça comum pode conquistar o homem perfeito e casar com ele. Eu li de boca aberta e olhos arregalados. O homem perfeito, aparentemente, é fisgado através de regrinhas que devem ser seguidas à risca: não puxar conversa, não telefonar, não tomar iniciativa, não dar carona, não aceitar convites feitos com menos de quatro dias de antecedência, não rachar a conta, não ir para a cama antes do sétimo (!) encontro, não beber álcool na frente dele, não fazer muitas perguntas, não beijar no primeiro encontro. Acabei de dar um tapa na minha própria testa. Faço tudo errado há 27 anos.
*
A mãe descobriu que ela dava para o namorado. Descobriu porque na época que ela estava fazendo a Residência Médica, eles resolveram dar um tempo no Carnaval. Durante esse tempo, ela transou com um menino da Residência Médica. Quando acabou o Carnaval, eles voltaram, e a burra contou. O tal do namorado era um troglodita, deu um soco no nariz dela. A irmã dela ficou sabendo, contou para a mãe, foi um escândalo, até a Residência Médica ela teve que deixar. Agora pode parecer dramalhão mexicano, mas no começo da década de setenta ainda era fogo, por mais que ares liberais já estivessem soprando. No mesmo ano, a mãe dela acabou descobrindo que uma outra filha fez um aborto e que uma outra ainda ia morar com o noivo sem casar. Mas o que ela nunca perdoou, foi o soco no nariz.

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/09/2009 - 12:23

Clara e Nestor (e Giordana também)

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“Tua graça caminha pela casa. Moves-te blindada em abstrações.”
Vinícius de Moraes

A única joia que Clara usa é a aliança grossa, prateada. Mão esquerda. Ela sorri. Ela faz trocadilhos engraçados. Ela é quase bonita. E Nestor olha para ela. E não vê, realmente, mais nada. Ele ri da risada de Clara. Ele bebe o seu olhar. E quando ela chama, ele corre. Ele corre, literalmente. E ele toca em Clara. Ele não toca em ninguém, mas ele toca nela. Aperta seu braço. E a tira para dançar. Nestor observa cada movimento de Clara. Quando ela tomba a cabeça. E fala do passado. E bebe o espumante. Nada escapa a Nestor. E não, ele não é o dono da aliança grossa, prateada. Mas não faz mal. Há muito tempo, Nestor deixou de se importar. Muito tempo. Ele volta seus olhos castanhos na direção de Clara e eles se transformam em caramelo. Em calda. E mesmo havendo outra pessoa na sala, Nestor fala com Clara. Só com ela. O rosto iluminado. A voz mansa. Clara. Giordana desce a escada, barulho de caco de vidro em seu peito. No vaso improvisado, havia uma única flor. Cor-de-rosa.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
11/09/2009 - 18:14

La vie en rose – I

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Maria Antonieta em 1770, cadim depois de seu casamento, pintada por Wagenschon, que era um craque. Ponha reparo nestes babados, leitor. Precisamos falar sobre moda do século XVIII um dia.

Maria Antonieta em 1770, cadim depois de seu casamento, pintada por Wagenschon, que era um craque. Ponha reparo nestes babados, leitor. Precisamos falar sobre moda do século XVIII um dia.

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O destino de minha filha somente poderá ser completamente grandioso ou muito infeliz. Considero terminados seus dias de alegria” – Maria Teresa, imperatriz da Áustria, mãe de Maria Antonieta, quando a filha vira rainha da França. 

O Rei Carlos VI, da Áustria, da casa real dos Habsburgo, não teve filhos homens. Então, ele muda a lei, para que sua menina, Maria Teresa, possa assumir o trono.

Fez com que o povo de seu país e os governantes de outros países reconhecessem a menina como futura governante, como sua sucessora.

Mas vai daí que Carlos VI morre.

O povo não queria ser governado por uma mulher. E os reis dos outros países queriam pilá um pedaço daquele patezão que era o império herdado pela mocinha: Áustria, Hungria, o norte da Itália (Florença, Mântua e Milão) e a Bélgica. Nada mal.

Maria Teresa assume o trono como Rainha da Boêmia e da Hungria. Aos 19 anos, se casa com Francisco de Lorena, príncipe italiano, um lorde, um santo, calmo até a medula, ela mandava nele pra chuchu.

Quando ela assumiu o trono, explodiram rebeliões em tudo quanto foi canto de seu império. Ela foi lá e brigou. Fez alianças improváveis, mexeu pauzinhos inviáveis, ergueu um exército imbatível e, depois de oito anos de briga, seu comando deixou de ser contestado e ela virou imperatriz daquilo tudo. 

Mas sabendo que, mais cedo ou mais tarde, algum engraçadinho iria encher o saco de novo, Maria Teresa teve um lance genial: fez com que seu pacato marido fosse coroado imperador. Sacaram? Aí nego não ia mais poder dizer que o império era comandado por mulézinha e tale e cousa. Claaaaro que quem mandava era ela, claro. Ela só fingiu ceder o comando ao marido.  

Ao que tudo indica, a vida em família era feliz. A moça era uma coelha e desovou 19 criancinhas em 20 anos. Sim, minha amiga tomadora de pílula, você entendeu bem. Um-por-ano, ou quase.

Desses 19, três morreram na primeira infância.

A 15ª criança a sobreviver foi uma menina.

Maria Antônia Josefina Joana D’Asburgo Lorena nasceu em 2 de novembro de 1755. Quando foi decapitada, 37 anos depois, os franceses a chamavam de Rainha Marie Antoniette. Nós a conhecemos por Maria Antonieta (o caçula da Rainha seria o 16º a sobreviver, e seria o Arcebispo de Colônia). 

O pai de Maria Teresa havia sido um grande músico, e suas crianças também tocavam vários instrumentos. Aliás, em 1762, no Palácio de Hofburg, perante toda a família da Imperatriz Maria Teresa, o menino prodígio de Viena, Mozart, de sete anos, tocou piano ao lado de sua irmãzinha. À certa altura, ele tropeçou e caiu. Maria Antônia, que tinha a mesma idade que ele, ajudou-o a se levantar e ele a pediu em casamento. Quando a Rainha perguntou ao menino por que ele queria se casar com Maria Antonieta, ele respondeu: “Por gratidão”. Num é fofo? Hum-hum. Tá.

A Imperatriz Maria Teresa era autoritária, mandona, dirigia o país com mãos de ferro, mas parece ter sido uma boa mãe, próxima e calorosa, pelo menos até a morte do marido. E o “calorosa” é para os padrões da época, lembrem-se crianças, lembrem-se, século XVIII, o amor materno ainda não havia sido inventado em toda sua glória.

As crianças imperiais quase não comiam carne, viviam à base de fritas, verduras e queijos. Os mais velhos cuidavam dos mais moços e, num tempo em que os aristocratas viam os filhos meia dúzia de vezes por ano, Maria Teresa cuidava deles pessoalmente. 

Em 1765, o imperador Francisco morreu. A imperatriz incluiu seu filho, José, como coregente, e lentamente, foi se afastando dos filhos.

As crianças passam a ser peças políticas importantes, e ela foi casando um por um, fazendo alianças necessárias ao reino.

Foi isso que uniu Maria Antonieta ao rei da França (na época em que eles casaram, ele ainda não era rei), Luís XVI.

Luís XVI, neto de Luís XV, não tinha mais os pais. Eles haviam morrido de tuberculose. O avô trama, com a mãe dela, para ele se casar com Maria Antonieta.

Em 1770, ela chega, aclamada pelo povo, à França.

O povo estava encantado com ela.

O rei, Luís XV? Encantado, oras.

E o futuro rei? A-p-a-v-o-r-a-d-o.

Tolinho.

Na próxima semana, queridos, tem mais.

Cuidem-se, tenham um final de semana lindo, lindo.

Amor

Fal

PS: Indicação de leitura? Claro. Maria Antonieta, a última rainha da França, da  Antonia Fraser, editora Record.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado, Sem categoria Tags: , , ,
09/09/2009 - 03:14

Um dia

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De: mim

Para: Tito

Salve, Tito. Novidades no front? Como não?

Sábado a prefeitura veio cortar uma árvore do outro lado da rua, em frente à nossa casa. Para arrancar a árvore do chão, eles usam britadeira pra quebrar a calçada. A britadeira detonou um ponto de distribuição de água. Ganha um doce quem acertar qual foi a única casa que ficou sem água desde sábado, com as duas moradoras imbecis tomando banho nos vizinhos e cheias de roupa e de louça acumulada pra lavar. Pois fomos. Eu ia levar minha mãe para um hotel hoje, mas eis que desponta no horizonte valoroso caminhão dos não menos valorosos garotos da SABESP! Sim, sim, sim. Eles quebraram tudo, a calçada do ladilá, a calçada do ladicá, o meio a rua, tudo. E furaram um cano. Outro. Tem, literalmente, uma coluna d’água no meio da rua. Que bacana. Minha câmera está baleada e eu não consigo passar imagens do celular pro computador, senão batia uma chapa procê, é coisa de se ver. O cachorro enlouqueceu, late sem parar, se debate na janela. Bonito isso. Agora, além de não termos água, não temos calçada, há um fosso em volta de nosso castelo. E não podemos ir para o tal hotel, porque há chances dos moços quebrarem a nossa garagem. Onde, aliás, há uma caveira de burro enterrada, tenho certeza (ano passado vivemos mais ou menos a mesma coisa, só que daquela vez ficamos sem luz). Seja bem vindo a 1221, que a Idade Média, e não o Havaí, seja aqui. Beijo grande, Eu.

PS: Como você já deve ter percebido, sou a pior digitadora do planeta. É pegar ou largar.

*

De: Tito

Para: mim

Eu pego. E esse seu e-mail é uma crônica pronta.

Corram para as montanhas (mas cubram as cabeças)

T.

*

De: mim

Para: Tito

Se você me autorizar a usar nossa correspondência para fins espúrios, farei isso. Eu roubo tudo para transformar em crônica, um hábito horroroso. Minha mãe me proibiu de usar os resultados de exames dela e disse que se eu fizer isso, vem pra cima de mim com devogados. A quebradeira continua. A terra que cobre a rua é dum vermelho quase roxo. Os gatos estão apavorados com o barulho, debaixo da minha cama (meu quarto dá pra rua). O Baco desistiu de latir para os ininmingos e foi dormir. Minha mãe declarou enxaqueca salvadora e foi pra cama. E se alguém algum dia me disse que seria fácil, mentiu. Alexandre faria 43 anos hoje, bela comemoração.

Afinal, no que tanto você trabalha em pleno feriado? Tradutor não tem feriado, final de semana, nada. Nós trabalhamos todos os dias, sempre, sempre. Mas altos executivos chiques e engravatados deveriam estar em suas belíssimas casas de praia, vendo suas esposas-troféu passarem óleo de bronzear nas amigas e planejando passeios de lancha para logo mais. Você me decepciona profundamente. Beijo. Eu.

*

De: Tito

Para: mim

Se você quiser de fato usar nossa correspondência, que o faça, mas por favor não se esqueça de adicionar detalhes sórdidos e/ou comprometedores. Sobre Alexandre, não tenho palavras, apenas um inútil cafuné. Sobre meu trabalho, ah, quando eu era nova, me prometeram tudo isso. Hoje, puta velha, percebo que me enganaram. Ou tudo talvez seja culpa minha mesmo, afinal nunca soube dar nó em gravatas direito. Mas pelo menos nunca tive um emprego de verdade.

Olha o que eu escrevi:

Vermelho quase roxo é a terra revirada, o ano é 1221 e a Inquisição caça bruxas à minha porta, corta a água e quebra a calçada em frente. Cercada em meu próprio fosso, fosso sem água, vendo aqueles altos executivos chiques e engravatados a caminho de suas belíssimas casas de campo, suas esposas-troféu ansiosas por passar óleo de bronzear nas amigas e planejar passeios de lancha para logo mais. Você me decepciona profundamente, é o que todos diriam se vissem eu aqui, ilhada, tudo ao redor barulho, poeira e enxaqueca. E se alguém algum dia me disse que seria fácil, mentiu. E eu, nova na vida, devo ter acreditado.

*

De: mim

Para: Tito

Tudo bem. Já vi isso no cinema. Estou preparada. Você é eu, é isso, né, você é eu e nós dois somos o Brad Pitt e nós três somos o Edward Norton? Estou preparada. Sabia que isso ia acontecer um dia. Beijo e obrigada, cafuné nunca é inútil.

                                                               

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , , ,
07/09/2009 - 01:09

Maurício

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Ela acha que Maurício tem uns vinte e três, vinte e cinco anos. Ela torce para que ele já tenha trinta, mas duvida. Os olhos dele, que moram atrás de óculos com armação escura e grossa, são abertos e puros, e sorriem. Maurício ainda não sofreu. Ele não pode mesmo ter mais de vinte e poucos anos. Ela tem quarenta e dois. E dá ré no carro velho e desobediente, muito irritada consigo mesma. Ela tem palpitações por causa de um menino de cabelos escuros (não há um fio de cabelo branco na cabeça dele), óculos, sardento, bonito. Maurício tem a voz rouca e fala baixo. E ela não sabe mais nada sobre ele. E ele deve ser uns quinze, talvez vinte anos mais novo que ela. Ele pode ser casado (tá cheio de gente casada que não usa aliança, não é?), ele pode estar no quarto casamento e ter três filhos com cada mulher (não há idade certa para começar a errar), ele pode ser noivo (idem), ele pode ser gay, ou adorador do Grande Abóbora. Ela não tem a menor ideia. Ela só sabe que ele é doce e bem humorado, atencioso e gentil. Ela só sabe que nos últimos meses tem arrumado toda e qualquer desculpa para ir até ele, sorridente e perfumada. E enquanto fala com ele, com os dentes à mostra, usando sapatos novos, ela sabe que está fazendo um papel ridículo. Ela sabe. Mas não pode deixar de olhar para ele. Maurício mudou a armação dos óculos.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
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