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Arquivo de agosto, 2009

31/08/2009 - 20:20

Lourdes

A Lourdes queria ir. O Almeida não queria não. A Lourdes falou que ia estar animado, colorido, ia até ter grupo de pagode. O Almeida falou que ia estar cheio, sem lugar para estacionar, barulhento e bagunçado. A Lourdes disse que tudo bem. Ela iria sozinha. O Almeida berrou que sozinha ela não ia para droga de lugar nenhum. Quando a Lourdes começou a chorar, ele lembrou a ela, sem berrar, que de mais a mais o coração dele estava falhando e que o médico tinha dito que ele não podia se estressar, lembra? Era a chantagem suprema. A Lourdes disse que tudo bem, e eles ficaram em casa. No meio da tarde, os dois assistindo o Gugu, o Almeida teve um ataque. Coração. Chegou ao pronto socorro morto. O enterro foi no dia seguinte. A Lourdes não chorou uma lágrima.

 

 

PS: Leitoras queridas do Delas, você já viram isso e isso?? Corram lá!

 

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/08/2009 - 19:21

Um impulso incontrolável

Ela sabia que não devia, mas ainda assim, ligou para ele. Foi um impulso incontrolável, ela explicaria depois para a Adri e o Wash, seus amigos de almoços semanais. Eles iriam sacudir a cabeça e passar um pito nela. Mas naquela hora ela sentiu vontade e ligou. Afinal, não era o aniversário dele? E ela não era uma moça muito bem educada? Ia ligar sim, e o que é que tinha?
Ligou, falou com a telefonista, que transferiu a ligação. E então, ela falou com ele. Falou com ele bem baixinho, chamando-o de Bru, de olhinhos fechados. Falou com ele imóvel, com cuidado, se controlando, rezando para que ele não percebesse as lágrimas em sua voz. Desejou um feliz aniversário, muitas felicidades, muitos anos de vida. Mandou recomendações para os meninos, que, ela sabia, jamais seriam dadas, e contou que sim, o pai e o irmão estavam como sempre, malucos, mas felizes. Falava com ele se abandonando, uma tola, de volta por alguns instantes para a adolescência, não tinha mais de quinze anos. Abria os olhos de vez em quando para olhar a foto dele na sua mão. Ele a chamava de “Gringa”, os gaúchos chamam os italianos de gringos. Enquanto ele contava sobre os preparativos da festa que ele e a mulher iam dar naquela noite, eram os olhos dele que ela via. Depois, quando ele começou a falar do tempo, do clima no sul, ela ainda via seus olhos. Quando ele começou a dizer que ela era muito especial, ela fechou os olhos com força. Ser muito especial é pior ainda do que ser simpática. As simpáticas ainda têm salvação, as muito especiais, não. Só existe um estágio abaixo de ser muito especial. Você sabe que está nele quando entra numa festa e aquele certo homem chega perto de você, dá um tapa nas suas costas e diz “Graaaaaaaaaaaaande Fulana!!”. Daí acabou. Daí você já era. Desejando mais e mais felicidades, ela desligou o aparelho. E chorou baixinho naquela saleta fria. E enquanto chorava, pensou nele. No quanto ele estava distante dela. Distante dela geograficamente, distante dela emocionalmente, distante dela, até, historicamente. Distante, distante, distante. Deu-se uma sacudida mental e foi parando de chorar aos pouquinhos. Daquele seu jeito disperso pensou e tirou conclusões (se não brilhantes, pelo menos de forte efeito calmante), sobre dor, sobre perda, sobre inconstância, sobre amor. Ria agora, baixinho e sentido, porque mais uma vez, caíra numa armadilha de sua própria autoria. Mais uma vez se entregara à dor tão certa, tão óbvia, tão clara, tão definitiva. Essa dor conhecida, que cada vez que se apresentava, levava pedacinhos do seu coração. Olhou para o homem sério da fotografia. Sorriu para ele com algum ressentimento. E pode existir paixão sem ressentimento? Sabia que não iria mais falar com ele, ou tê-lo, ou que Deus a ajudasse, vê-lo de novo. E que essa perda, essa dor, fazia parte da história que ela havia, voluntariamente, escolhido como deles. Ela, mais uma vez, havia amado sozinha, sonhado sozinha, investido sozinha. Porque havia querido. Porque sua carência tinha raízes tão profundas e dolorosas que gostar de quem não gostava dela era mais fácil. Porque assim talvez se defendesse de coisas mais sérias, relacionamentos mais profundos. Talvez porque se sentisse confortável usando o véu dos mártires. Ou ainda, porque era uma maluca-sem-juízo, como lhe diria seu bom amigo Wash. Guardou a fotografia na gaveta, assoou o nariz e saiu para almoçar. Merecia cada instante da bronca do Wash e da Adri.

**foto de Nelson Biagio Jr.

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
26/08/2009 - 17:57

Todas as coisas do mundo

Hoje, em 55 a.C., Julio Cesar invadiu a Grã Bretanha, no que fez ele muito bem.

*

E o Inmetro vai ficar atento à metragem dos rolos de papel higiênico e à fabricação de panelas de pressão. Também faz bem, seu Inmetro, papel higiênico é coisa séria, e panela de pressão é coisa séria e apavorante. Tenho pavor de panelas de pressão.

*

A empresa de televisão a cabo Sky primeiro corta o sinal do assinante e, depois, quando o tonto, quero dizer, o assinante, liga desesperado, já imaginando mirabolantes problemas com o débito automático, informa que está realizando um “recadastramento” e que enquanto o marreco não enviar por fax RG e comprovante de endereço, não devolve o sinal. Isso é sequestro e outras coisas piores, que só o PROCON e o bem torneado corpo jurídico da criatura poderão resolver.

*

‘A intimidade gera desprezo’, plagiava meu pai.

*

Esponjas e pincéis de maquiagem são coisas importantíssimas, não sei onde eu andava com a cabeça, meu Deus. Mas ainda é tempo, estou estudando o assunto e comprando um monte.

*

Existe um céu especial para o cara que inventou o bombom com creme de menta.

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Esse trem todo receitafederal&senado&cartõesvermelhos&gente-que-sai-dum-pra-cair-noutro cansou só a mim ou vocês também estão com vontade de sair correndo e gritando?

*

Terminar um livro é uma satisfação enorme. Não se sabe se a editora vai querer, não se sabe quanto tempo ele demora para sair, não se sabe quase nada, sejamos francos. Mas é uma felicidade.

*

Desde sempre e, para sempre, meu blog favorito no mundo.

*

Cheiro de café. Mamãe ataca de novo, Deus abençoe. Vou lá.

 

 

 

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , , , , , , ,
19/08/2009 - 17:11

Hoje

A doce Helena manda e-mail para o Pedrão (meu irmão) e para mim, dando conta que, em Boituva, a rua Rafael Vitiello foi, finalmente, asfaltada. E mais, ainda aprendi que a Rua Rafael Vitiello fica na Chácara Vitiello. Sendo Vitiello meu sobrenome de solteira, vem a Helê perguntar se o nobre Rafael é nosso parente. E como saber? Imigrante miserável, o velho Nuncciato Vitiello veio de navio lá da Calábria, na Itália, século XIX, “fazer a América” ou, pelo menos, tentar não morrer de fome. E mesmo assim, quase não vinha o pobre, parece que o fazendeiro em Campinas que lhe daria trabalho não aceitava rapazes solteiros e ele teve que arrumar uma noiva no último momento. Aqui, muitos filhos, todos  com pouco estudo, criados no cabo da enxada, só tiraram os documentos (ou “fizeram os papéis” como dizia meu avô, o Velho Affonso) já adultos, cada um num canto. Como saber qual Vitiello nos pertence, querida Helena? Gosto de pensar que somos todos primos, que temos todos um passado em comum, o mesmo nariz, o mesmo gosto para embutidos e som de oboé, mas quem é que sabe? De qualquer forma, um viva para o velho e bom primo Rafael, nome de rua e rua asfaltada, ainda por cima.
*
Dona Marina Silva anuncia sua saída do PT e ruma, livre, leve e solta, ao desconhecido. E como se a vida já não fosse o suficiente para me fazer erguer as sobrancelhas, Sr. Gilberto Gil anuncia que não dispensaria uma boquinha como vice numa chapa com Dona Marina. Fasten your seat belts.
*
Hoje teve reunião de emergência no Palácio do Planalto com a bancada do PT no Senado. A moçada discutiria o arquivamento das ações contra o Senador Sarney. Ah, então.
*
Engraçado como tem homem que grita com total falta de modos com mulher e quando vai falar com outro homem fala beeeem baixinho, né? Cambada de palhaço.
*
Opa, saiu, tudo arquivadíssimo. A família Sarney continuará reinando na paz de Nosso Senhor. Agora a outra mão vai lavar o Virgílio e estamos conversados. E, meu amigo eleitor, abaixe a cabeça e trabalhe, você tem que entregar 27% dos seus ganhos para esse pessoalzinho continuar se bancando. Sigamos.
*
A pedida, para quem está em São Paulo e precisa dum pouco de beleza nesse vida tão crua, é ir assistir ao Audi Coelum executando a belíssima Messe de Requiem de André Campra. Gui, membro da companhia, me escreveu para dizer que “A peça é incrivelmente bonita e se assemelha, em idéia — embora barroco e muito anterior — ao mais conhecido réquiem de Fauré, “cuja delicadeza”  faz pensar muito mais em descanso e salvação do que na na morte propriamente dita”.

Hoje,  19 de agosto, quarta-feira, 20h30, na Igreja do Calvário (Paróquia São Paulo da Cruz), Rua Cardeal Arcoverde 950 – São Paulo / SP.

E domingo, 23 de agosto, domingo, 19h30, Paróquia do Divino Espírito Santo, Rua Frei Caneca 1047 – São Paulo / SP.
Não perca.

** foto de Nelsinho Biagio Jr.

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , , , , , ,
17/08/2009 - 14:30

Carmem

 

Carteira, óculos de sol, batom com tampa, chaves da casa da minha mãe, medalha de Santa Terezinha. Onde está o papel do estacionamento? Livro de crônicas do Veríssimo, maço de cigarros vazio, maço de cigarros cheio. Eu não vou chorar. Não vou chorar por você, Paulo, não no meio da calçada da Avenida Paulista, não agora, não nessa vida, não por você. Eu não posso me dar ao luxo de chorar por você. Adesivo que eu comprei no farol de um surdo mudo, batom sem tampa e o barulho das moedas no fundo da bolsa. Que droga, onde foi parar aquele papelzinho amarelo do estacionamento? E por que eu estou tão nervosa? Não foi para isso que eu vim? E eu não percebi direitinho o que estava acontecendo? A distância, a falta de tempo, as viagens com a família, as intermináveis reuniões (ainda ouço a voz odiosa da secretária: “Dr. Paulo não pode atendê-la. Sim, ele ainda está em reunião. É, eu sei que ele está em reunião há dez horas, mas ele é um homem importante, fazer o quê? Sim, eu anoto, vou colocar na pilha junto com seus outros recados). O Dr. Paulo teve tantas reuniões nas últimas semanas que deve ter resolvido todos os problemas do mundo. Burra, burra, burra. No que você pensou que estava se metendo? Achou que ia ser engraçado? Achou que todo esse tempo tendo casos com homens casados, você nunca iria se apaixonar por nenhum deles? E agora que você se apaixonou e está aí, debaixo desse sol inexplicável para um começo de agosto, fazendo esse papel patético, espera que alguém tenha pena de você? Ninguém, meu amor, ninguém tem pena da (na linguagem da sua avó) outra. Por que você sabe que o nome técnico mais levinho é esse, não é? Sua mãe deve ter outros, mais claros. A mulher dele, se soubesse de você, teria alguns im-pu-bli-cá-veis. E com razão, devo acrescentar, toda, toda razão. Folheto de propaganda política com o telefone de alguém anotado num canto a lápis de olho, bloquinho de post-it, chicletes, livro de contos do Nelson de Oliveira, celular, bateria do celular, recarregador de carro para celular e a conta do celular que venceu dia 25 e você se esqueceu de pagar. Eu tenho que ter posto o papel do estacionamento por aqui. Tenta lembrar de tudo o que você fez. Parei o carro na porta do estacionamento, peguei o maldito papelzinho amarelo e fui com ele na mão até o restaurante. Entrei, o Paulo já estava lá. Ele se levantou para me beijar, puxou a cadeira para mim. Sentei, tirei os óculos escuros, abri a bolsa e joguei aqui dentro, os óculos e o papel. Joguei as coisas dentro da bolsa e fiz o quê? Olhei para o Paulo que falava sem parar sobre as filhas, sobre um concurso cretino de jardinagem que a mulher dele havia vencido no final de semana, e dos planos deles para a reforma da casa de Caraguá. Os planos deles. Planos. Sejamos francas, sua tonta, você achava mesmo que ele iria se separar dela? Nunca. Nem em um milhão de anos. Nem que Cristo viesse à Terra. Nem que chovesse canivete. Você, o oráculo das moças que têm casos. Você, sua arrogante, com suas regras prontas. “Nunca telefone”, “Não ouça histórias sobre filhos”, “Não se envolva em problemas domésticos”, “Não deixe que ele fale mal da esposa”. Você que sabia tanto, que entendia tanto, tão sábia, tão segura, tão superior. Você, que dizia conhecer truques que nem haviam sido inventados ainda. Você não tem competência nem para encontrar uma porra de um comprovante de estacionamento, e fica aí, ditando regras, tendo certezas. E agora, hum? Vai fazer o que com seu sonhozinho de criar os filhos dele numa montanha, com a música do Waltons de fundo? Vai fazer o que agora que você finalmente acordou, ou melhor, foi acordada (um pouco de perspectiva histórica, por favor) para o fato de que ele não é o Richard Gere (embora tenha aqueles olhos tristes e… controle-se mulher!), que você não é a Julia Roberts (ok, disso você já sabia) e que vocês não estão em Los Angeles? Porque meu amor, claro que foi nisso que você pensou, claro que foi nisso que você quis acreditar, e eu não sei? E eu não te conheço? Outro maço de cigarros, você está fumando demais. O isqueiro que você ganhou dele. (Lembra? Da última viagem que ele fez com a família para Aruba), talão de cheques solto, carteira, bolsinha de moedas vazia, claro, estão todas no fundo da bolsa, pó compacto, chupeta. Chupeta? Você teve um filho sem eu saber? De quem será isso? Montes de canetas com tampa e sem tampa. Trata de encontrar esse papel cretino e resista à tentação de colocar a culpa no Paulo. Você só ia ficar mais patética se virasse uma daquelas mulheres frágeis, medrosas, cegas e iludidas, que terminam as histórias balbuciando um estúpido “mas ele disse…”. A culpa é sua, só sua. Você tem trinta anos, CPF e plano de saúde. É você que tem que responsabilizar por sua vida e suas escolhas. E o Paulo, você sabe, foi uma escolha sua. Todos os outros também o foram, mas com o Paulo você resolveu pagar para ver. E, Cristo, como viu. Sua agenda cheias de papeizinhos misteriosos! Deve estar aqui. Não, não, esse não é, não também. Não está na agenda. Não está na bolsinha de maquiagem? Meu Deus, que sol! Para que uma bolsinha de maquiagem se você tem tanta maquiagem solta na bolsa? Graças a Deus você não chorou na frente dele. Não chorou quando ele disse que ele e a mulher conversaram muito e estavam dispostos a se permitirem uma segunda chance. Não chorou quando ele disse que gostaria muito de continuar a vê-la, desde que você entendesse, sem qualquer compromisso (O grande sacana. Como se antes ele estivesse preocupado com algum tipo de compromisso). Mas o melhor de tudo foi que nem biquinho você fez quando ele disse que você havia sido muito importante na vida dele e que você era muito nova e muito simpática e com certeza encontraria um homem que a merecesse e valorizasse. Eles sabem o quanto dói e fazem de propósito, ou é sem querer que eles nos arrasam com uma frase dessas? Você sorriu, balançou a cabeça com gravidade e desejou boa sorte nessa tentativa, deixando claro que não, não ficariam mágoas, afinal, eram ambos adultos e sabiam que o final seria assim. E quando você abriu sua carteira e deixou dinheiro suficiente para pagar uns dez martínis? Essa foi digna do Oscar. Você se levantou com classe, se despediu com classe, caminhou até a porta de vidro com classe e por isso, essa cena assombrosa no guichê do estacionamento está quase perdoada. Ah! Claro, você colocou o papelzinho no bolso do casaco! Isso, entregue o papel para a moça. Tudo bem, pode, mas uma lágrima só, agora pode. Sem ruídos. Ok, duas lágrimas, tudo bem. Pronto, seu carro chegou. Vai embora para a sua casa, que você tem uma porção de coisas para resolver hoje. Boa garota. Engata a primeira, sem ela engatada não adianta apertar o acelerador. Isso. O manobrista deve ter adorado o isqueiro folheado a ouro com uma palmeira em alto relevo.

*foto do Endrigo, sempre gentil

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
14/08/2009 - 18:56

Um bom cão

Um cão não preenche o vazio da perda, não resolve todos os problemas, não pode afastar a dor – nem mesmo um bom cão tem tanto poder (‘E qual cão não é bom?’, pergunta o meu cão, Baco, enquanto afago sua cabecinha branca deliciosa e ponho minh’alma, ou o que resta dela, no lugar).

Mas um cão, e Judith Summers prova a cada linha com sua prosa bem humorada e terna, pode sim nos ajudar a restabelecer as prioridades quando tudo, mas tudo mesmo, está perdido. Um cão, com o amor que só ele é capaz de devotar, pode ancorar nosso coração que parece estar indo embora. Um cão nos leva para passear, quando tudo o que queremos é fugir. Um cão pode ser a ponte que nos leva de volta às pessoas que amamos, quando a mágoa nos separou delas. Um cão lambe nosso rosto quando não conseguimos parar e chorar e raspa a patinha em nossa mão, quando não sabemos o que fazer.
George, o cão de Judith, é amor o tempo todo (‘Como todo cão’, Baco acaba de me cutucar) e é só isso que importa quando estamos em frangalhos e o dia está nublado.

E se George – como todo cão – tem lá seus dias de manha, de fazer xixi fora do lugar certo e de fúria e destruição contra o patrimônio da casa (Baco disfarça olhando para cima) isso é apenas uma pequena (‘Minúscula’, sopra Baco) parte do todo que faz um cão ser um cão, esse camarada que ama você acima de todas as coisas e que o recebe em sua casa como um rei, depois do mundo ter cuspido em sua cabeça o dia todo.

Após perder o marido e o pai, e não conseguir alcançar seu filho e socorrê-lo em sua própria dor, Judith descobre que George, com sua graça, sua capacidade infinita de amar e, claro, sua manha, chega a lugares que, ela sozinha, jamais conseguiria.

Essa é, sim, uma história de amor. As histórias com cães geralmente são.

Judith, apesar de tudo, é uma pessoa de muita sorte. Eu sou uma pessoa de muita sorte. Esperamos que você também seja.

**

Indicação de leitura:

Minha vida com George, de Judith Summers

Editora Rocco

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags:
12/08/2009 - 18:48

Hoje

Faltam 127 dias para acabar o ano. Nada não, só pra contar.
*
Na Inglaterra foi inaugurado cinema com… quatro lugares. Adorei, meu sonho.
*
Dona Marina e seu Fernando fazendo a dança do acasalamento para concorrer à presidência. Então.
*
E o presidente da Costa Rica com gripe suína. Vejam vocês.
*
A cousa que sufoca, que oprime, que não espera, que não compreende. A cousa, a cousa. A que vem por aí. A que espera na curva. A cousa que estrangula. Que faz o gato engasgar. Que chuta suas canelas. Que faz você perder por um triz. Que mancha suas camisas. A cousa que nos cerca. Que se dá ao respeito, pois a cousa tem lá seus pudores. Uma cousa que se diga. Que abate, que nega. A cousa estava lá quando você se olhou no espelho bem de perto. A cousa some com um pé das suas meias. A cousa nunca flui. Ela não se ajeita aos poucos, ela não se resolve sozinha. Não foi a cousa que  botou um caroço no seu peito esquerdo, mas ela foi com você buscar os resultados dos exames. No escuro, a cousa está lá. É dela a respiração que você ouve. A cousa tem fome e não dá moleza para vagabundo. Ela não tem pena dos órfãos. A cousa não se ilude. Qual é mesmo o nome da cousa?
*
Quando tudo, mas tudo mesmo, irrita, é você que tem problemas, não o mundo. E o que é pior: o mundo sabe disso.
*
Daqui a cinco milhões de anos, não vai mais existir nenhum ser que você conheça, ou reconheça, sobre a face da Terra. Tudo que você faz, pensa, é, não é, quer ser, seu CIC, seu passado, seus descendentes, seu problema de menisco, sua bisavó maluca, o Messias de Haendel, o PCC, o suco de uva em caixinha, as plásticas da sua atriz favorita, o sorriso do seu filho, o Calheiros, as obras de Van Gogh, esse seu livro sobre Rembrandt que dá tanto orgulho, o Supremo Tribunal Federal, a borrachinha do freezer, a liquidação na Oscar Freire, essas birras miúdas, as grandes questões, o livro novo do A. Bourdain… nada disso significará mais nada.  Vá brincar lá fora.

*foto do Nelsinho

Autor: fal - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/08/2009 - 19:34

Ana Terra ou: uma confissão – I

Acontece que eu não gostava da Ana Terra. Sim, Ana Terra, a matriarca da maravilhosa trilogia de Erico Verissimo, O tempo e o vento. Ganhei o primeiro volume de O tempo e o vento aos doze anos. Dado por uma mãe que não tinha nenhuma fé religiosa, cujas crenças políticas começavam a desbotar e que só acreditava, de coração, na salvação através da arte.

Essa era uma mãe que lia para os filhos O apanhador no campo de centeio e Mulherzinhas. Eu devia ter uns nove anos e meu irmãozinho Pedrão, uns sete. Pouco depois, nossa hora de dormir começava com Rumo à estação Finlândia. Yeah.
A filosofia da velha era simples e, passados trinta anos (trinta anos, mamãe) ainda acho certíssima: se eles não gostarem é porque não estão prontos. Então, ela lia. Ou nos dava para ler. Se a gente não gostava, ela não obrigava, ela dava outro livro, até acertar. Isso aliado ao seu colo macio – disponível quase que exclusivamente na hora da leitura – e aliado ao fato de livros serem encarados como privilégio a ser conquistado além casa, criou dois leitores dementes, ávidos, furiosos, arrombadores de cartão de crédito em livrarias e sebos vida afora, para todo o sempre, amém.

Mas, opa, tergiversei.

Enfim, ganhei O tempo e o vento e comecei a ler.

E detestei. Não entendi nada daquele começo, do Liroca na torre. Depois veio a parte dos padres, da Missão, aquilo me deu no saco. E depois veio a Ana Terra. Eu tinha era nojo da Ana Terra. Nojo. A Ana Terra virou o símbolo máximo de toda a opressão que eu, mártir da causa, sofria daquela mãe déspota e autoritária. Ai, adolescente é um saco, meu bom Deus.

Mas os anos passaram, fiquei mais velha e – cof cof cof – mais sábia.

E, num momento de ócio, peguei no O tempo e o vento. Pra nunca mais largar. Nunca mais.

E o que foi que eu mais amei?

Sim, a Ana Terra. E o Capitão Rodrigo e a velha Bibiana e mais ainda, o Toríbio.

Mas antes e além, como sempre fiz, amei o narrador, o cara que torna a história possível para mim.
Tudo nesta vida começa pelo narrador. O narrador traz todo o mundo psicológico da Ana pro leitor, assim, de bandeja. Seus gostos e seus medos, a secura e a doçura dos seus pensamentos, tudo que ela quer, tudo que ela teme. No último livro da trilogia a gente entende o porquê do carinho do narrador com todo mundo do livro, mas a esta altura a gente só comove com o gostar que ele tem. Esse narrador do Verissimo ama todas as personagens, mesmo as más, mesmo as que erram. E é tão lindo ver como o narrador ama a Ana e entende a Ana e o pai da Ana e a mãe dela. O narrador entende o lado de todo mundo e torce por todo mundo, sem ficar dividido ou ser dúbio em nenhum momento.

É um dos mais maravilhosos narradores da história da literatura, de todos os tempos, em todos os lugares. O narrador do O tempo e o vento pega a todos, autor, personagens e leitores pela mão, e pela mão ele nos leva pra lá e pra cá, como um amigo que na hora da aflição ou da dor te diz ‘Vamos fumar lá fora?’. O narrador do Verissimo vive me levando para fumar lá fora.

A descrição que ele faz do lugar, das coisas e das gentes é deliciosa.

Ele descreve o lugar e você que ir para lá. Já. ‘Por favor’, diz você para o narrador, ‘me leva daqui’.  A rudeza do lugar só se equipara à beleza do lugar, os verdes do Veríssimo me invadem desde sempre, as pedras, o riacho, a Ana lavando a roupa e cantando, a água limpinha, gelada, onde ela pode se olhar e se perguntar se é bonita, se é bonita. Você se encanta pelas pessoas, por sua rudeza, por sua força, pela coragem que cada um deles têm, por essa força que só um clã pode trazer. Os Terra permanecem juntos, trabalham juntos, vivem aquela vida dura e incerta juntos e juntos cuidam uns dos outros.

E isso é extremamente atraente para nós, que mesmo na década de 40, ou principalmente lá (afinal a Segunda Guerra tinha acabado e só deus poderia saber que espécie de horror nos esperava então… Ainda que não exatamente em nossas casas, a mudança estava no ar, como sempre está quando uma guerra acaba… As guerras, mesmo as psicológicas, mudam nosso mundo – vencedores ou vencidos – todas as vezes e para sempre), precisamos de segurança, dos velhos e bons valores familiares no volume máximo, pais autoritários, mamãe submissas, filhos já adultos e ainda obedientes, trabalho duro, remissão de pecados, todo mundo da cama (ou, no caso dos Terras, da esteira) para o trabalho e do trabalho para casa e aiaiai.

Não é a toa que depois da Segunda Grande Guerra vieram os anos 50, suas cinturinhas de vespa, móveis pé de palito, homens sabichões usando ternos com ombreiras enoooormes (e, se você se lembrar bem, quem usava ombreiras enormes nos anos 40 eram as mulheres, claro, os homens estavam na guerra, alguém tinha que tomar conta da casa, travestir-se tanto quanto fosse possível, com todos os símbolos da autoridade masculina… lembra, aqueles tailleurs de corte militar?) e mulheres, que ainda de cabelos curtos, tinham estrogênio em doses cavalares, exemplos de doce domesticidade. Escapismo no grau máximo, vamos pensar na vida e no mundo depois.
E já que eu estou aqui, mais uma coisa: nós já entramos na Segunda Guerra precisando desesperadamente dum escapismozim. A “guerra para acabar com todas as guerras”, a primeira Guerra Mundial, falhara miseravelmente em seu intento, estávamos em guerra, blé, outra vez… não dá pra estranhar que roliúde tenha vividos seus anos doirados durante a Segunda Guerra Mundial… há que ser muito bom em musicais para fazer todo um planeta esquecer das promessas que ele mesmo fez. Assim, entramos na Guerra ávidos por escapismo, e nos atiramos no cinema, saímos da guerra dementes por escapismo, e mergulhamos na década mais escapista, sensacional, adiadora-da-vida-lá-fora que o século XX conheceu. Que qualquer século conheceu.

Autor: fal - Categoria(s): Há um tesouro na casa ao lado Tags: , , , ,
05/08/2009 - 21:07

I don´t think it´s a good idea for us to talk about this now

 

Pedro Bial assinando um perfil do diretor Boninho, para um especial sobre “gênios brasileiros” da revista “Galileu”? Abster-me-ei de comentários, caras.
*
Minha amiga Dalva me escreve para avisar que o pior é inesgotável.
*
Conselho de ética do Senado arquivou 5 das 11 representações contra Sarney. Ah, então. Bonito isso.
*
Luci me escreve para falar sobre pessoas que “o que dizem sentadas não se sustenta de pé”. Ameeeei a expressão. Ainda que a situação seja um abacaxi.
*
Durante o quebra pau no Senado, fiquei de olho em nobre Senador que, grandalhão e cabeludo, usava gravata vermelha de bolinhas brancas. E pensei “Aquilo é coisa de sobrinho”. Tenho certeza. Só tio é raça tão boba. Os meninos dão, a gente usa, sem o menor senso do ridículo. Para agradar Bernardo, 7 anos, sobrinho que só vê duas vezes por ano, a tia boba usou echarpe do Harry Potter durante todo o final de semana. Tio é raça sem noção do ridículo.
*
Dea, amiga que trabalha na FGV aqui em São Paulo, recebeu nota que relata ter sido encontrado o corpo do economista Gabriel Buchmann,  em Malawi, na África.
*
“Fal,  acho que nós duas ensinamos a mesma matéria: a incrível arte de trapacear a si mesma. E ensinamos bem para ensinarmos sempre. Amor.  Verô” .

*
Ando cortando relações com qualquer um que mande e-mails alarmistas sobre gripe disso e daquilo. Essa disseminação de pânico não educa, não informa, não resolve. E me irrita.
*
E porque amiga de verdade não deixa a outra sem pauta, a doce jornalista Helena Gozzano, de Sorocaba para o mundo, me conta que uma equipe de cientistas da universidade escocesa de Glasgow, anunciou ter descoberto que um antioxidante presente em grande quantidade no vinho tinto, o resveratrol, ajuda a prevenir infecções graves, que podem evoluir para septicemias. Eu sabia, Helena, eu sabia que estava fazendo alguma coisa certa. Obrigada, querida. 

 

 

 

Autor: fal - Categoria(s): No olho do furacão Tags: , , ,
03/08/2009 - 15:38

Inajara

Inajara, cunhada de Regina Paula, levantou às quatro da manhã para limpar o cocô do cachorrinho, naquela chuva.

Escorregou no quintal, lógico, abriu a cabeça.

O namorado dela, o Ricardo (irmão da Rê), levantou correndo, mesmo engessado, para correr com ela para um pronto-socorro.

O pai dela não achava a chave do portão, depois foi a chave do carro que sumiu, não se tinha a mais remota noção de onde estaria a carteirinha do plano de saúde, enfim, naquela chuva e naquele frio, àquela hora da madrugada, ninguém era de ninguém.

Chegando ao pronto-socorro, ainda queriam prender o Ri, porque aquela história estava mal contada, esse negócio de cachorro era absurdo (convenhamos, é esquisito mesmo) e aquele sangue esguichando da cabeça da moça tinha que ser resultado de espancamento.

No final, não prenderam ninguém, mas o médico raspou metade da cabeça da Iná para dar os 11 pontos, sem levar em consideração que ela gastou 140 reais fazendo decapagem e reflexo no cabelo, depois de pintá-lo de preto por 15 anos.

Enfim, quando eles voltaram para casa, o sol já estava alto.
A Iná estava cheia de hematomas e meio careca, e todo mundo estava com sono, cansado, com fome e mal-humorado.

Qual a conclusão da Cláudia Cristina, vendedora da Natura, piloto de provas da Elizabeth Arden, viciada terminal em cremes milagrosos, ácidos glicólicos, tintas variadas para cabelo e rímel incolor?

- Tá vendo, Lindíssima, a gente com tanta vaidade, e nada nesse mundo vale nada. Não cai uma folha da árvore se Deus não quiser.

 

Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
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