Um impulso incontrolável

Ela sabia que não devia, mas ainda assim, ligou para ele. Foi um impulso incontrolável, ela explicaria depois para a Adri e o Wash, seus amigos de almoços semanais. Eles iriam sacudir a cabeça e passar um pito nela. Mas naquela hora ela sentiu vontade e ligou. Afinal, não era o aniversário dele? E ela não era uma moça muito bem educada? Ia ligar sim, e o que é que tinha?
Ligou, falou com a telefonista, que transferiu a ligação. E então, ela falou com ele. Falou com ele bem baixinho, chamando-o de Bru, de olhinhos fechados. Falou com ele imóvel, com cuidado, se controlando, rezando para que ele não percebesse as lágrimas em sua voz. Desejou um feliz aniversário, muitas felicidades, muitos anos de vida. Mandou recomendações para os meninos, que, ela sabia, jamais seriam dadas, e contou que sim, o pai e o irmão estavam como sempre, malucos, mas felizes. Falava com ele se abandonando, uma tola, de volta por alguns instantes para a adolescência, não tinha mais de quinze anos. Abria os olhos de vez em quando para olhar a foto dele na sua mão. Ele a chamava de “Gringa”, os gaúchos chamam os italianos de gringos. Enquanto ele contava sobre os preparativos da festa que ele e a mulher iam dar naquela noite, eram os olhos dele que ela via. Depois, quando ele começou a falar do tempo, do clima no sul, ela ainda via seus olhos. Quando ele começou a dizer que ela era muito especial, ela fechou os olhos com força. Ser muito especial é pior ainda do que ser simpática. As simpáticas ainda têm salvação, as muito especiais, não. Só existe um estágio abaixo de ser muito especial. Você sabe que está nele quando entra numa festa e aquele certo homem chega perto de você, dá um tapa nas suas costas e diz “Graaaaaaaaaaaaande Fulana!!”. Daí acabou. Daí você já era. Desejando mais e mais felicidades, ela desligou o aparelho. E chorou baixinho naquela saleta fria. E enquanto chorava, pensou nele. No quanto ele estava distante dela. Distante dela geograficamente, distante dela emocionalmente, distante dela, até, historicamente. Distante, distante, distante. Deu-se uma sacudida mental e foi parando de chorar aos pouquinhos. Daquele seu jeito disperso pensou e tirou conclusões (se não brilhantes, pelo menos de forte efeito calmante), sobre dor, sobre perda, sobre inconstância, sobre amor. Ria agora, baixinho e sentido, porque mais uma vez, caíra numa armadilha de sua própria autoria. Mais uma vez se entregara à dor tão certa, tão óbvia, tão clara, tão definitiva. Essa dor conhecida, que cada vez que se apresentava, levava pedacinhos do seu coração. Olhou para o homem sério da fotografia. Sorriu para ele com algum ressentimento. E pode existir paixão sem ressentimento? Sabia que não iria mais falar com ele, ou tê-lo, ou que Deus a ajudasse, vê-lo de novo. E que essa perda, essa dor, fazia parte da história que ela havia, voluntariamente, escolhido como deles. Ela, mais uma vez, havia amado sozinha, sonhado sozinha, investido sozinha. Porque havia querido. Porque sua carência tinha raízes tão profundas e dolorosas que gostar de quem não gostava dela era mais fácil. Porque assim talvez se defendesse de coisas mais sérias, relacionamentos mais profundos. Talvez porque se sentisse confortável usando o véu dos mártires. Ou ainda, porque era uma maluca-sem-juízo, como lhe diria seu bom amigo Wash. Guardou a fotografia na gaveta, assoou o nariz e saiu para almoçar. Merecia cada instante da bronca do Wash e da Adri.








