Noutras palavras, sou muito romântico – III
Ainda sobre Romantismo, anotações soltas, para acabar.
- O romantismo domina a música do século XIX. Weber, Schubert, Hoffman, Meldesson, Schumann, Berlioz, Verdi, Wagner e Brahms (pelo menos nalgum ponto de suas alegres carreiras) são românticos. E, mesmo assim, eu pulei um monte.
- Mesmo com traços em comum, os românticos são todos diferentes entre si. O romantismo, ao permitir liberdade de expressão, incentiva os talentos individuais e, claro, as diferenças entre seus representantes. E mais, autores de países diferentes ainda são mais diferentes entre si, de tal forma que o estudioso Otto Maria Carpeax, não fala em Romantismo na música, mas sim em Romantismos: Romantismo alemão, Romantismo francês, Romantismo inglês etc..
- O Romântico está sempre recriando a realidade. No Neoclassicismo, essa recriação passava pela imitação da arte greco-romana.
Já no Romantismo, não se espera a obediência a esquemas pré-estabelecidos, nem modelos de criação gregos e latinos. O Romântico se expressa de forma única, individual.
- A busca do Romantismo será sempre analisar e se expressar por meio dos sentimentos, não mais da razão. O sentimento individual dá a dimensão exata do mundo, que busca, ao expressar-se, o absoluto, o infinito, a perfeição – que são inalcançáveis. A impossibilidade de alcançar a perfeição, o ideal, gera insatisfação, amargura, sofrimento e dor, que, de muitas formas, são as molas propulsoras para a criação Romântica. Conheci poucas coisas que representem melhor esse espírito Romântico, essa característica Romântica em especial, do que um trecho de uma linda carta de amor que Camile Claudel escreve para Rodin. Sim, eu sei, eles tão lá pra frente, invadindo o século XX, mas o espírito é o mesmo. À certa altura, ela diz “Há algo de ausente que me atormenta”.
- É isso. O artista Romântico é empurrado adiante por essa coisa ausente, essa completude que nunca chega, esse tormento de saber-se, para sempre, incompleto. O tormento e o desespero são tantos e tão profundos, que muitas vezes o artista Romântico não vê outra alternativa, a não ser a morte.
- O Romântico se sente um desajustado. “Tal desajustamento conduz ao mal do século, definido como a aflição e a dor decorrentes da falta de sintonia com o mundo.” – Faraco e Moura, no Língua e Literatura.
O mal do século é esse estado de espírito que acaba por levar o Romântico a procurar a solidão, a viver sua dor e seu sofrimento de maneira profunda e contínua.
Também como saída para o desequilíbrio que via à sua volta, o Romântico desenvolve formas de fuga ou de evasão da realidade.
- Uma das formas de evasão do Romântico, é o tempo. Ele recua em busca do passado histórico ou individual, em busca de completude, em busca da felicidade que existiu um dia. O Romântico é o rei do “eu era feliz e não sabia”.
- Acho encantador verificar quão românticos ainda somos. Somos tão, tão tocados por esse movimento de séculos atrás, somos tão influenciados por ele, dependentes dele até. Temos todo um sistema de crenças e vários kits de sobrevivência emocional calcados nesse período. Somos maniqueístas e nacionalistas e saudosistas e tudo o mais que o Romantismo exaltou. Somos sim, todo o tempo, queiramos ou não, para o bem e para o mal. Hum. Inté.

entre o romantismo e a depressão vai um passo, portanto
Bjo