Ieda
Todas as velhas morreram.
Todas.
As velhas foram morrendo, foram acabando uma a uma.
Menos ela, claro.
Ela ainda está aqui.
Firme.
A Casa também permanece.
A Casa é eterna.
Ela esqueceu de morrer.
Aliás, ela nem pode morrer.
Se ela morrer, quem vai cuidar da Casa?
Quem é que vai mostrar para o jardineiro e para as meninas da limpeza e para o moço que limpa as calhas o que deve ser feito, se ela morrer?
Quem é que vai tirar o pó das fotos sobre o piano, quem vai manter o piano afinado?
Quem é que vai cuidar dos bichos, se ela morrer?
Ah, sim, porque cada velha tinha, pelo menos, um bicho.
Elas morreram, mas os bichos estão aí.
Há mais gatos que cães.
Mas os cães dão mais trabalho.
Alguns passarinhos.
Um peixinho dourado que desbotou, mas que é estranhamente resistente.
Uma tartaruga que desaparece de vez em quando.
Um papagaio comprado numa praia – ela viu na televisão que dá cadeia comprar papagaio, era só o que faltava.
Ela recebe visitas, às vezes.
Os parentes dela, e das velhas que já morreram aparecem no final do ano.
Suas crianças barulhentas assustam os bichos, estragam as coisas e tiram as coisas do lugar.
Os adultos emendam um papo furado com olhares compridos para cima das coisas expostas.
“Titia adoraria que eu ficasse com esse serviço de prata…”
Ela atura, estoicamente, as hordas de final de ano e depois tenta não pensar mais nelas.
Ela recebe outras visitas também.
Historiadores, arquitetos, reitores de universidades.
Não importa se ligados a órgãos públicos ou não, ela os rotula vagamente como “gente do governo”.
Eles querem a Casa. E tudo que há nela.
Os livros.
As tapeçarias.
O piano.
Os baús de pau brasil.
As fotos.
As armas do papai.
Cada um deles espera que, antes de morrer, ela doe a Casa e tudo o que ela contém, para a universidade ou ONG que representam.
Ela serve o café, sacode a cabeça lentamente e finge que sabe o que é uma ONG.
E depois que eles vão embora, ela também não pensa mais neles.
O que nenhum deles sabe, é que ela não vai morrer.
Aquela é a Casa dela, e ela vai ficar exatamente ali.
Se ela morrer, quem é que vai cuidar de tudo?
Quem vai alimentar os animais, quem vai deixar os quartos arejados, quem vai manter as cortinas sem traças, quem vai tirar as teias de aranha dos cantos e fazer a bandeja de prata brilhar?
Se ela morrer, a Casa morre também, condenada a ser uma clínica, escola de música ou algum tipo inútil de fundação.
Aquela é a Casa dela e ela não vai a lugar nenhum.
Ela vai ficar exatamente ali.
ps: ah, tá tão bonito nosso Delas, não está? Parabéns à Clarissa Passos.
Autor: fal - Categoria(s): força na subida Tags:
Salve, dona Ieda!
Essa doeu especiamente hoje, amor.
E eu amo Casa dessa cor.
*emudeci*
Dona Iracema, madrinha da minha progenitora, era exatamente assim. Chega vi a cara dela quando comecei a ler. E a casa virou um condomínio.
ai, fal! beijos
Querida!
Vc contou exatamente a história de minhas tres tias solteiras. A última, que não vai morrer, está com 89 anos. E fica tomando conta, indefinidamente, do lindo piano na sala. É minha madrinha.
Beijos amore.
Doeu muito .Como aquela outra crônica Retrato na Parede.
beijos.
esta é mais uma qualidade que tu tens, a de me deixar sem palavras. pra quem fala mais do que o homem da cobra, é praticamente um milagre.
Bjãoo querida
Eu também não vou morrer. Avise a Dona Ieda.
Ai, Fal, tão, tão… A gente ‘vê’ a horda de abutres sobre a casa, agourando a morte de quem mora ali e é a alma do lugar. Será que eles não percebem que toda a beleza da casa está no amor que alguém tem pelo local?
Fal, a-mei este texto das velhas.
Dona Ieda faz muito bem. Eu também não morreria, se fosse comigo…